Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 21 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XXII.

 

Muito embora, Marilia, muito embora

Outra belleza, que não seja a tua,

Com a vermelha roda, a seis puxada,

Faça tremer a rua.

As paredes da salla aonde habita

Adorne a seda, e o tremó dourado;

Pendão largas cortinas, penda o lustre

Do této apainelado.

Tu não habitarás Palacios grandes,

Nem andarás nos coches voadores;

Porém terás hum Vate, que te preze,

Que cance os teus louvores.

O tempo não respeita a formosura;

E da palida morte a mão tyranna

Arraza os edificios dos Augustos,

E arraza a vil choupana.

Que bellezas, Marilia, florecerão

De quem nem se quer temos a memoria? Só podem conservar hum nome eterno

Os versos, ou a historia.

Se não houvesse Tasso, nem Petrarcha,

Por mais que qualquer dellas fosse linda, Já não sabia o mundo, se existirão

Nem Laura, nem Clorinda.

He melhor, minha bella, ser lembrada

Por quantos hão de vir sabios humanos,

Que ter urcos, ter coches, e thesouros,

Que morrem com os annos.