Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 54 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XXII.

 

Por morto, Marilia,

Aqui me reputo:

Mil vezes escuto

O som do arrastado,

E duro grilhão.

Mas, ah! que não treme,

Não treme de susto

O meu coração.

A chave lá sôa

Na porta segura:

Abre-se a escura,

Infame masmorra

Da minha prizão.

Mas, ah! que não treme;

Não treme de susto

O meu coração.

Eu vejo, Marilia,

A mil innocentes

Nas Cruzes pendentes, Por falsos delictos,

Que os homens lhes dão.

Mas, ah! que não treme,

Não treme de susto

O meu coração.

Se penso que posso

Perder o gozar-te

A gloria de dar-te

Abraços honestos,

E beijos na mão.

Marilia, já treme,

Já treme de susto

O meu coração.

Repára, Marilia,

O quanto he mais forte

Ainda que a morte,

N'um peito esforçado

De amor a paixão.

Marilia, já treme,

Já treme de susto

O meu coração.