Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 6 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra VII.

 

Vou retratar a Marilia,

A Marilia meus amores;

Porém como, se eu não vejo

Quem me empreste as finas cores!

Dar-mas a terra não póde;

Não que a sua côr mimosa

Vence o lyrio, vence a rosa:

O jasmim, e as outras flores.

Ah soccorre, Amor, soccorre

Ao mais grato empenho meu!

Vôa sobre os Astros, vôa,

Traze-me as tintas do Ceo.

Mas não se esmoreça logo;

Busquemos hum pouco mais;

Nos mares talvez se encontrem

Cores que sejão iguaes.

Porém não, que em parallelo

Da minha Ninfa adorada

Perolas não valem nada,

Não valem nada os coraes.

Ah soccorre, Amor, soccorre

Ao mais grato empenho meu!

Vôa sobre os Astros, vôa,

Traze-me as tintas do Ceo.

Só no Ceo achar se podem

Taes bellezas, como aquellas,

Que Marilia tem nos olhos,

E que tem nas faces bellas.

Mas ás faces graciosas,

Aos negros olhos, que matão,

Não imitão, não retratão

Nem Auroras, nem Estrellas.

Ah soccorre, Amor, soccorre

Ao mais grato empenho meu!

Vôa sobre os Astros, vôa,

Traz-me as tintas do Ceo.

Entremos, Amor, entremos,

Entremos na mesma Esfera.

Venha Pallas, Venha Juno,

Venha a Deosa de Cithera.

Porém não, que se Marilia

No certame antigo entrasse,

Bem que a Paris não peitasse,

A todas as tres vencera.

Vai-te, Amor, em vão soccorres

Ao mais grato empenho meu:

Para formar-lhe o retrato

Não bastão tintas do Ceo.