Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 26 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XXVII.

 

 

Alexandre, Marilia, qual o rio

Que engrossando no Inverno tudo arraza;

Na frente das cohortes

Cérca, vence, abraza

As Cidades mais fortes.

Foi na gloria das armas o primeiro,

Morrêo na flor dos annos, e já tinha

Vencido o mundo inteiro.

Mas este bom Soldado, cujo nome

Não ha poder algum, que não abata,

Foi, Marilia, sómente

Hum ditozo pirata,

Hum salteador valente.

Se não tem huma fama baixa, e escura;

Foi por se pôr ao lado da injustiça

A insolente ventura.

O grande Cesar, cujo nome vôa,

Á sua mesma Patria a fé quebranta;

Na mão a espada toma,

Opprime-lhe a garganta,

Dá Senhores a Roma.

Consegue ser heróe por hum delicto;

Se acaso não vencesse então seria

Hum vil traidor proscripto.

O ser heróe, Marilia, não consiste

Em queimar os Imperios: move a guerra,

Espalha o sangue humano,

E despovoa a terra

Tambem o máo tyranno.

Consiste o ser heróe em viver justo:

E tanto póde ser heróe o pobre,

Como o maior Augusto.

Eu he que sou heróe, Marilia bella,

Seguindo da virtude a honroza estrada.

Ganhei, ganhei hum throno.

Ah! não manchei a espada,

Não a roubei ao dono.

Ergui-o no teu peito, e nos teus braços:

E valem muito mais que o mundo inteiro

Huns tão ditosos laços.

Aos barbaros, injustos vencedores

Atormentão remorsos, e cuidados;

Nem descanção seguros

Nos Palacios cercados

De tropa, e de altos muros.

E a quantos nos não mostra a sabia historia A quem mudou o fado em negro opprobrio

A mal ganhada gloria?

Eu vivo, minha bella, sim, eu vivo

Nos braços do descanço, e mais do gosto:

Quando estou acordado,

Contemplo no teu rosto

De graças adornado;

Se durmo logo sonho, e alli te vejo.

Ah! nem desperto, nem dormindo sóbe

A mais o meu desejo.