O Assalto
7. Lago Como, Itália
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LAGO COMO, ITÁLIA
Numa empresa de produtos químicos que ficava num bairro industrial de Como, Gabriel comprou acetona, álcool, água destilada, uns óculos, uma proveta e uma máscara protetora. Depois, parou numa loja de material de artes e ofícios, no centro da cidade, onde comprou cavilhas de madeira e um pacote de algodão hidrófilo. Ao voltar para a villa junto ao lago, deparou com o carabiniere à espera, à entrada, com luvas e proteções para os sapatos novas. Desta vez, o italiano não abriu o bico sobre nenhum limite de uma hora. Percebeu que Gabriel se iria demorar.
— Não vai contaminar nada, pois não?
— Só os pulmões — respondeu Gabriel.
Lá em cima, tirou a tela da moldura, pousou-a em cima de uma cadeira sem braços e iluminou-lhe a superfície com o máximo de luz possível. Depois misturou, na mesma medida, acetona, álcool e água destilada na proveta e preparou uma mecha com uma cavilha e um bocado de algodão. Trabalhando depressa, retirou o verniz e a reconstrução mais recentes de um pequeno retângulo — com cerca de cinco centímetros por dois centímetros e meio — no canto inferior esquerdo da tela. Os restauradores chamavam a essa técnica «abrir uma janela». Habitualmente, fazia-se isso para testar a força e a eficácia da mistura de um solvente. Mas, naquele caso, Gabriel estava a abrir uma janela para remover as camadas à superfície do quadro e poder ver o que se encontrava por baixo. O que descobriu foram as pregas opulentas de uma peça de roupa carmesim. Era óbvio que havia um quadro intacto por baixo das três lavadeiras holandesas no pátio — um quadro que, na opinião de Gabriel, tinha sido produzido por um verdadeiro Velho Mestre de considerável talento.
Abriu rapidamente mais três janelas, uma na parte inferior direita da tela e outras duas no topo. Na parte inferior direita, encontrou mais tecido, mais escuro e menos nítido; mas, no topo, no lado direito, a tela era praticamente preta. No lado esquerdo, encontrou um arco romano amarelo-torrado que parecia fazer parte de um fundo arquitetónico. As quatro janelas abertas permitiram-lhe ter uma noção geral do modo como as figuras se encontravam dispostas na tela. E, mais importante, diziam-lhe que, com toda a probabilidade, o quadro era da autoria de um italiano e não de um artista das escolas holandesa ou flamenga.
Gabriel abriu uma quinta janela uns quantos centímetros abaixo do arco romano e descobriu a cabeça de um homem a ficar careca. Expandindo-a, encontrou a cana do nariz e um olho que fitava diretamente quem o estava a observar. Abriu uma janela alguns centímetros mais à direita e descobriu a testa pálida e luminosa de uma jovem. Também expandiu essa janela e deu com dois olhos a olhar para baixo. Um nariz comprido surgiu depois, seguido de uns lábios vermelhos pequenos e de um queixo delicado. Foi então que, passado mais um minuto de trabalho, Gabriel viu a mão estendida de uma criança. Um homem, uma mulher, uma criança… Gabriel analisou a mão da criança — em específico, a maneira como o polegar e o indicador tocavam no queixo da mulher. A pose era-lhe familiar. E as pinceladas também.
Atravessou o vestíbulo, entrou no escritório de Jack Bradshaw, ligou o computador e foi consultar o sítio eletrónico do Registo de Perdas de Arte, a maior base de dados privada do mundo em matéria de obras de arte roubadas, desaparecidas e saqueadas. Após carregar em algumas teclas, surgiu no ecrã a fotografia de um quadro — o mesmo quadro que naquele preciso momento se encontrava em cima de uma cadeira, no quarto em frente. Por baixo da foto aparecia uma curta descrição:
A Sagrada Família, óleo sobre tela, Parmigianino (1503-1540), roubado de um
laboratório de restauro no histórico hospital romano Santo Spirito, em 31 de julho de
2004.
Há mais de uma década que a Brigada de Arte procurava esse quadro desaparecido. E agora Gabriel encontrara-o, na villa de um inglês morto, escondido por baixo de uma cópia de um quadro holandês de Willem Kalf. Começou a marcar o número do general Ferrari, mas deteve-se. Onde havia um, pensou, com certeza haveria outros. Levantou-se da secretária do morto e pôs-se à procura.
Descobriu na arrecadação mais dois quadros que, ao serem sujeitos à luz ultravioleta, se revelaram completamente pretos. Um era uma cena costeira da Escola Holandesa reminiscente da obra de Simon de Vlieger; o outro era um vaso de flores que aparentava ser uma cópia da autoria do artista vienense Johann Baptist Drechsler. Gabriel começou a abrir janelas.
Molhar, girar, deitar fora…
Uma árvore inchada com um céu pintalgado de nuvens em fundo, as pregas de uma saia a espraiar-se num prado, o flanco nu de uma mulher corpulenta…
Molhar, girar, deitar fora…
Um pedaço de verde-azulado a servir de pano de fundo, uma blusa com motivos florais, um olho grande e ensonado por cima de uma bochecha rosada…
Gabriel reconheceu os dois quadros. Sentou-se ao computador e regressou ao sítio eletrónico do Registo de Perdas de Arte. Após carregar em mais umas teclas, surgiu no ecrã a fotografia de um quadro:
Raparigas no Campo, óleo sobre tela, Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), 41,6
centímetros × 50,8 centímetros, desaparecido desde 13 de março de 1981, do Musée de
Bagnols-sur-Cèze, em Gard, França. Valor atual estimado: desconhecido.
Mais umas teclas premidas, outro quadro, outra história de um objeto perdido:
Retrato de Uma Mulher, óleo sobre tela, Gustav Klimt (1862-1918), 82,8 centímetrtos ×
54,8 centímetros, desaparecido desde 18 de fevereiro de 1997, da Galleria Ricci Oddi, em
Piacenza, Itália. Valor atual estimado: 4 milhões de dólares.
Gabriel pôs o Renoir e o Klimt ao lado do Parmigianino, fotografou-os com o telemóvel e enviou a imagem rapidamente para o palazzo. O general Ferrari telefonou-lhe passados trinta segundos. Vinha ajuda a caminho.
Gabriel levou os três quadros para o rés do chão e pousou-os em cima de um dos sofás do salão. Parmigianino, Renoir, Klimt… Três quadros desaparecidos de três preeminentes artistas, todos escondidos por baixo de cópias de obras menores. Mesmo assim, as cópias eram de uma qualidade extremamente elevada. Tinham sido feitas por um mestre falsificador, pensou Gabriel. Talvez até por um restaurador. Mas porquê dar-se ao trabalho de encomendar uma cópia para esconder uma obra roubada? Era evidente que Jack Bradshaw estava ligado a uma rede sofisticada que trabalhava com arte roubada e contrabandeada. Onde havia três, pensou Gabriel, olhando para os quadros, teria de haver mais. Muitos mais.
Pegou numa das fotografias do jovem Jack Bradshaw. O currículo dele parecia uma coisa saída de um tempo perdido. Formado em Eton e Oxford, fluente em árabe e persa, tinha sido posto no mundo para cumprir as ordens de um império outrora poderoso e que entrara num declínio terminal. Talvez tivesse sido um diplomata vulgar, um funcionário que emitia vistos, que carimbava passaportes, que escrevia cabogramas ponderados que ninguém se dava ao trabalho de ler. Ou talvez tivesse sido uma coisa completamente diferente. Gabriel conhecia um homem em Londres que era capaz de dar corpo ao currículo dubiamente escasso. Mas a verdade não chegaria sem preço. No ramo da espionagem, a verdade raramente o fazia.
Gabriel pousou a fotografia e serviu-se do telemóvel para reservar um lugar no voo da manhã seguinte para Heathrow. Depois pegou na folha onde tinha escrito o número tirado do registo de chamadas do telefone de Bradshaw.
6215845…
Está a falar com o Padre Marco. Em que posso ajudá-lo ?
Marcou o número novamente, mas desta vez tocou sem que ninguém atendesse. A seguir, com relutância, comunicou-o por via segura ao Centro de Operações da Avenida Rei Saul e pediu que fizessem uma verificação de rotina. A resposta chegou passados dez minutos: 6215845 era um número que não vinha na lista telefónica e que correspondia ao presbitério da Igreja de San Giovanni Evangelista, em Brienno, que ficava a poucos quilómetros de distância, continuando a subir pelo lago.
Gabriel pegou na primeira folha que tinha encontrado no bloco de apontamentos de Jack Bradshaw na noite em que este fora assassinado. Inclinando-a para o candeeiro, estudou as marcas que tinham sido deixadas pela caneta de tinta permanente de Bradshaw. Tirou um lápis da gaveta de cima da secretária e passou a ponta suavemente sobre a superfície até emergir um padrão de linhas. Era quase tudo uma salgalhada impenetrável: o número 4, o número 8, as letras C, V e O. Mas, no fundo da página, havia uma única palavra claramente visível.
Samir…