O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 30 de 65

Páginas do PDF

O Assalto

28. Petah Tikva, Israel

28

 

PETAH TIKVA, ISRAEL

 

Os Navot viviam na ponta leste de Petah Tikva, numa rua sossegada onde as casas se encontravam escondidas atrás de muros de betão e buganvílias. Ao lado do portão metálico, havia um intercomunicador que fez barulho sem que ninguém atendesse quando Gabriel carregou no botão. Ficou a olhar diretamente para a objetiva da câmara de segurança e voltou a carregar no botão. Desta vez, ouviu-se a voz de uma mulher pelo intercomunicador.

— Quem é?

— Sou eu, Bella. Abre o portão.

Seguiu-se mais um silêncio, quinze segundos, talvez mais, e só depois o trinco se abriu com um baque. Quando o portão cedeu, surgiu a casa, uma estrutura cubista com janelas grandes com proteção antiestilhaços e uma antena de comunicações seguras a sair do telhado. Bella estava à sombra do pórtico, de braços cruzados, numa postura defensiva. Trazia calças de seda brancas e uma blusa amarela presa com um cinto à cintura esbelta. Parecia ter acabado de pintar e arranjar o cabelo escuro. Segundo os rumores que se ouviam no Departamento, tinha todas as manhãs uma marcação no salão mais exclusivo de Telavive.

— É preciso teres muita lata para aparecer nesta casa, Gabriel.

— Vá lá, Bella. Vamos tentar ser educados.

Ela deixou-se ficar no mesmo sítio mais um momento e depois afastou-se e convidou-o a entrar, fazendo um gesto de indiferença com a mão. Tinha decorado as divisões como tinha decorado o marido: cinzentas, vistosas, modernas. Gabriel seguiu-a, atravessando a cozinha de cromados muito brilhantes e granito preto envernizado e entrando no terraço das traseiras, onde um almoço israelita ligeiro o esperava. A mesa estava à sombra, mas o sol brilhava intensamente no jardim. Era só laguinhos e fontes gorgolejantes. Gabriel lembrou-se subitamente de que Bella sempre tinha adorado o Japão.

— Adoro a maneira como arranjaste este sítio, Bella.

— Senta-te — foi a única resposta dela.

Gabriel sentou-se numa cadeira de jardim almofadada. Serviu-lhe um copo alto de sumo de citrinos e pousou-o com decoro à frente dele.

— Já pensaste onde vais viver com a Chiara quando passares a ser o chefe? — perguntou.

Gabriel não conseguiu perceber se a pergunta era sincera ou maliciosa. Resolveu responder com franqueza.

— A Chiara acha que precisamos de viver perto da Avenida Rei Saul — disse —, mas eu preferia ficar em Jerusalém.

— Ainda é uma distância grande.

— Não sou eu quem vai guiar. — A cara dela retesou-se. — Desculpa, Bella. Isto não saiu como eu queria.

Ela não respondeu de forma direta.

— Na verdade, nunca gostei de estar em Jerusalém. Está um bocadinho perto demais de Deus para o meu gosto. Gosto de estar aqui, no meu suburbiozinho secular.

Instalou-se silêncio entre ambos. Sabiam bem por que razão Gabriel preferia Jerusalém a Telavive.

— Desculpa nunca te ter chegado a enviar a ti e à Chiara um cartão por causa da gravidez. — Conseguiu esboçar um sorriso. — Deus sabe como vocês os dois merecem um pouco de felicidade depois de tudo aquilo por que já passaram.

Gabriel assentiu com a cabeça e murmurou qualquer coisa apropriada. Bella nunca enviara nenhum cartão, pensou, por estar demasiado zangada para isso. Tinha uma veia rancorosa. Era uma das suas qualidades mais enternecedoras.

— Acho que devíamos falar, Bella.

— Pensava que era o que estávamos a fazer.

— Falar a sério — retorquiu ele.

— Se calhar, era melhor comportarmo-nos como as personagens de um daqueles mistérios de sala de estar que dão na BBC. Senão, ainda sou capaz de dizer alguma coisa de que depois me vou arrepender.

— Há uma razão para esses programas nunca se passarem em Israel. Nós não falamos dessa maneira.

— Se calhar, devíamos.

Pegou num prato e começou a enchê-lo de comida para Gabriel.

— Não tenho fome, Bella.

Largou o prato em cima da mesa.

— Estou zangada contigo, raios partam!

— Já tinha ficado com essa impressão.

— Porque estás a roubar o lugar ao Uzi?

— Não estou.

— Então o que chamas a isso?

— Não tive escolha na matéria.

— Podias ter-lhes dito que não.

— E tentei. Mas não funcionou.

— Devias ter tentado mais.

— Não tive culpa, Bella.

— Eu sei, Gabriel. Tu nunca tens culpa de nada. — Olhou para as fontezinhas do jardim. Pareceram acalmá-la momentaneamente. — Nunca me vou esquecer da primeira vez que te vi — disse por fim. — Estavas a atravessar sozinho um corredor dentro da Avenida Rei Saul, pouco depois de Tunes. Tinhas exatamente o mesmo aspeto que tens agora, esses olhos verdes, essas têmporas grisalhas. Eras como um anjo, o anjo da vingança de Israel. Toda a gente te adorava. O Uzi venerava-te.

— Não exageremos, Bella.

Foi como se não o tivesse ouvido.

— E depois aconteceu Viena — recomeçou passado um momento. — Foi um cataclismo, um desastre de proporções bíblicas.

— Já todos perdemos gente de quem gostávamos, Bella. Já todos sofremos.

— É verdade, Gabriel. Mas Viena foi diferente. Nunca mais foste o mesmo depois de Viena. Nenhum de nós foi.

Fez uma pausa, antes de acrescentar:

— Sobretudo o Shamron.

Gabriel acompanhou o olhar de Bella, em direção ao brilho ofuscante do jardim, mas, por um momento, viu-se a atravessar o pátio da Academia de Artes e Design de Bezalel, em Jerusalém. No mês de setembro de 1972, poucos dias depois do assassínio de onze atletas e treinadores israelitas nas Olimpíadas de Munique. De repente surgiu aparentemente do nada um homem que parecia uma pequena barra de ferro, com uns óculos pretos horrendos e dentes que lembravam uma armadilha de aço. O homem não disse como se chamava, já que tal não era necessário. Era aquele de quem se falava apenas em sussurros.

Era quem roubara os segredos que levaram à vitória-relâmpago de Israel na Guerra dos Seis Dias. Quem arrancara Adolf Eichmann, o diretor-geral do Holocausto, de uma esquina na Argentina.

Shamron…

— O Ari acha-se responsável pelo que te aconteceu em Viena — estava a dizer Bella. — E também nunca se perdoou realmente por isso. A seguir, tratou-te como um filho. Deixou-te sair e entrar consoante te apetecesse. Mas nunca perdeu as esperanças de que um dia regressasses a casa para assumir o comando do Departamento que ele tanto adora.

— E sabes quantas vezes eu recusei esse cargo?

— As suficientes para que o Shamron acabasse por oferecê-lo ao Uzi. Ficou com o cargo como prémio de consolação.

— Por acaso, até fui eu quem sugeriu que o Uzi passasse a ser o chefe.

— Como se o cargo fosse teu para o atribuíres. — Fez um sorriso amargo. — E o Uzi nunca te disse que eu o aconselhei a não aceitar o cargo?

— Não, Bella. Nunca me falou disso.

— Eu sempre soube que isto ia acabar assim. Devias ter saído de cena com graciosidade e ficado na Europa. Mas o que foste fazer? Introduziste um carregamento de centrifugadoras sabotadas na cadeia de fornecimento nuclear do Irão e destruíste quatro instalações secretas de enriquecimento de urânio.

— Essa operação foi feita durante o mandato do Uzi.

— Mas era a tua operação. Na Avenida Rei Saul, toda a gente sabe que a operação era tua, e o mesmo vale para a Rua Kaplan.

A Rua Kaplan era onde ficava o gabinete do primeiro-ministro. A julgar por todas as informações disponíveis, Bella visitava-o com imensa frequência. Gabriel sempre desconfiara que a influência dela na Avenida Rei Saul não se esgotava na mobília do gabinete do marido.

— O Uzi tem sido um bom chefe — disse ela. — O raio de um ótimo chefe. Só teve um defeito. Era não seres tu, Gabriel. E nunca o vai ser. E, por causa disso, estão a descartá-lo.

— Se eu tiver alguma coisa a dizer na matéria, não.

— Não fizeste já que chegue?

Ouviu-se um telefone tocar dentro de casa. Bella não manifestou interesse em ir atender.

— Porque vieste cá? — perguntou.

— Quero falar contigo do futuro do Uzi.

— Graças a ti, não tem nenhum.

— Bella…

Não se deixou suavizar, tão cedo, não.

— Se tens alguma coisa a dizer sobre o futuro do Uzi, se calhar o melhor é falares com ele.

— Achei que ia ser mais produtivo se passasse por cima dele.

— Não me tentes lisonjear, Gabriel.

— Nem em sonhos.

Bateu com a unha do indicador no tampo da mesa. Tinha uma camada nova de verniz.

— Ele falou-me da conversa que vocês tiveram em Londres quando andavam à procura daquela rapariga que tinha sido raptada. Escusado será dizer que não achei grande coisa da tua proposta.

— E porque não?

— Porque não há nenhum precedente para isso. Mal o mandato de um chefe termina, esse chefe desaparece noite dentro e nunca mais se volta a ouvir falar dele.

— Diz isso ao Shamron.

— O Shamron é diferente.

— E eu também.

— E o que estás a propor ao certo?

— Que comandemos o Departamento em conjunto. Eu passo a ser o chefe e o Uzi torna-se meu adjunto.

— Isso nunca vai funcionar.

— Porquê?

— Porque vai dar a impressão de que não estás à altura do cargo.

— Ninguém acha isso.

— As aparências importam.

— Deves estar a confundir-me com outra pessoa, Bella.

— Com quem?

— Com uma pessoa que se importa com as aparências.

— E se ele aceitar?

— Fica com um gabinete ao lado do meu. E vai estar envolvido em todas as decisões-chave, em todas as operações importantes.

— E em relação ao ordenado?

— Fica com o ordenado completo, já para não falar do carro nem da equipa de segurança.

— Porquê? — perguntou ela. — Porque estás a fazer isto?

— Porque preciso dele, Bella. — Fez uma pausa e depois acrescentou: — E de ti também.

— De mim?

— Quero que voltes para o Departamento.

— Quando?

— Amanhã de manhã, às dez. O Uzi e eu vamos executar uma operação contra os sírios. E precisamos da tua ajuda.

— Que género de operação?

Quando Gabriel lhe explicou, ela fez um sorriso triste.

— É uma pena que o Uzi nunca tenha pensado nisso — disse. — Se calhar, ainda podia ser o chefe.

 

Passaram a hora seguinte no jardim de Bella, a negociar os termos do regresso dela à Avenida Rei Saul. Depois, foi com ele lá fora e acompanhou-o até ao banco de trás do carro oficial dele.

— Fica-te bem — disse, com a porta do carro ainda aberta.

— O quê, Bella?

Ela sorriu e disse:

— Até amanhã de manhã, Gabriel.

Deu meia-volta e desapareceu. Um guarda-costas fechou a porta do carro; e outro entrou para o lugar do passageiro. Gabriel deu conta subitamente de que não estava armado. Ficou ali sentado um momento a pensar para onde devia ir a seguir. Depois espreitou para o retrovisor e deu ao motorista uma morada em Jerusalém Ocidental. Tinha de resolver mais um assunto desagradável antes de voltar para casa. Tinha de dizer a um fantasma que ia ser pai outra vez.