O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 55 de 65

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O Assalto

53. Genebra

53

GENEBRA

 

Às duas horas dessa tarde, a Conferência de Genebra sobre a Síria reuniu-se no quartel-general das Nações Unidas, na margem do lago. O soturno secretário de Estado americano exigiu uma transição pacífica do regime para a democracia, coisa que o ministro dos Negócios Estrangeiros da Síria disse que nunca iria acontecer. Sem surpresa, a posição deste ganhou o apoio do homólogo russo, que avisou que o Kremlin vetaria qualquer tentativa, militar ou diplomática, para obrigar o único aliado no mundo árabe a abandonar o poder. No final da conferência, o secretário-geral das Nações Unidas considerou timidamente que as negociações tinham sido «um começo prometedor». Os meios de comunicação do mundo inteiro discordaram. Caracterizaram todo o episódio como um monumental desperdício de tempo e dinheiro, principalmente deles, e foram à procura de uma história verdadeira que pudessem cobrir.

No resto da encantadora cidadezinha, a vida continuava a correr com toda a normalidade. Os banqueiros exerciam o seu ofício ao longo da Rue du Rhône, os cafés da Cidade Velha enchiam-se e esvaziavam-se, aviões a jato brancos erguiam-se nos céus límpidos por cima do Aeroporto Internacional de Genebra. Entre os aviões que descolaram nessa tarde, estava o voo 577 da Austrian Airlines. A única irregularidade era a ausência de um único passageiro, uma mulher de trinta e nove anos, nascida na Síria e criada numa rua de Hamburgo que iria ficar para sempre ligada ao terrorismo islâmico. Dado o passado invulgar da mulher e os acontecimentos que estavam a ocorrer em Genebra nesse dia, a companhia aérea enviou um relatório para as autoridades de aviação suíças, que, por sua vez, enviaram a informação para os serviços secretos e de segurança suíços. Por fim, foi parar à secretária de Christoph Bittel, que, por coincidência, tinha sido destacado para comandar os serviços de segurança durante as negociações de paz sírias. Fez um pedido de informação rotineiro aos seus irmãos em Berlim e Viena e estes responderam-lhe muito rapidamente que não tinham informações. Mesmo assim, mandou uma cópia do ficheiro e da foto dela para a polícia de Genebra, para os serviços de segurança diplomáticos americanos e russos e até para os sírios. E depois ocupou-se de outros assuntos mais prementes.

Que a mulher não tivesse entrado no voo destinado a Viena causou uma preocupação significativamente maior aos dois homens no apartamento seguro do Boulevard de Saint-Georges. No espaço de poucos minutos, o seu estado de espírito tinha passado de uma confiança silenciosa a um desespero silencioso. Tinham-na recrutado, tinham-lhe mentido e depois tinham-se-lhe revelado. E agora, num piscar de olhos, tinham-na perdido. Mas, logo para começar, por que razão os monstros a teriam trazido para Genebra? E porque a teriam deixado entrar num quarto de hotel onde Kemel al-Farouk, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Síria e conselheiro de confiança do presidente, estava presente?

— Obviamente — disse Eli Lavon —, era uma armadilha.

— Obviamente? — perguntou Gabriel.

Lavon olhou para o ecrã do computador.

— Estás a ver alguma luz vermelha? — perguntou a Gabriel. — Porque eu não estou.

— Isso não quer dizer que fosse uma armadilha.

— Então o que quer dizer?

— Porquê apanhá-la durante a conferência de paz? Porque não a apanharam em Linz?

— Porque sabiam que a estávamos a vigiar e achavam que não o conseguiriam fazer de forma segura.

— Por isso, criaram uma desculpa para a trazer para Genebra? Uma coisa a que não conseguíssemos resistir? É isso que estás a dizer, Eli?

— Parece-te familiar?

— Onde queres chegar?

— É tal e qual como nós o teríamos feito.

Gabriel não estava convencido.

— Por acaso deste conta de algum agente dos serviços secretos sírios quando estávamos em Linz?

— Isso não quer dizer que não estivessem lá.

— Deste, Eli?

— Não — respondeu Lavon, abanando a cabeça. — Não posso dizer que sim.

— Nem eu — respondeu Gabriel. — E isso é porque o Waleed al-Siddiqi e a Jihan Nawaz eram os únicos sírios na cidade. Ela estava segura até o avião aterrar em Genebra.

— E o que aconteceu?

— O que aconteceu foi isto.

Gabriel carregou no ícone de play do computador e, passados uns segundos, ouviu-se a voz de Waleed al-Siddiqi a murmurar em árabe.

— O telefonema de Damasco? — perguntou Lavon.

Gabriel assentiu com a cabeça.

— Se eu tivesse de arriscar um palpite — disse ele —, era alguém da Mukhabarat a dizer ao Waleed que contratara uma mulher de Hama para ser gestora de conta.

— Um grande erro.

— E é por isso que o Waleed telefonou ao Kemel al-Farouk para o Hotel Métropole para cancelar o encontro.

— Mas o Al-Farouk teve uma ideia melhor?

— Talvez a ideia tenha sido do Al-Farouk. Ou talvez do senhor Omari. O que interessa — acrescentou Gabriel — é que a única coisa que eles sabem é que ela mentiu em relação ao sítio onde nasceu.

— Algo me diz que não vão levar muito tempo a descobrir a verdade.

— Concordo.

— Então o que vais fazer?

— Um acordo, claro.

— Como?

— Assim.

Gabriel escreveu uma mensagem de três palavras para a Avenida Rei Saul e carregou no ENVIAR .

— Isso vai despertar-lhes a atenção — disse Lavon. — Agora só precisamos de alguém com quem negociar.

— Já temos uma pessoa, Eli.

— Quem?

Gabriel virou o computador para que Lavon pudesse ver o ecrã. Uma luz vermelha estava a piscar na Rue Saint-Honoré, no primeiro arrondissement de Paris. Waleed al-Siddiqi tinha ligado finalmente o telefone.

 

Uzi Navot tinha um corpo feito para usar a força e não para a velocidade. Mesmo assim, mais tarde, todos os que presenciaram a sua correria desvairada do Centro de Operações para a Sala 414C viriam a dizer mais tarde que nunca tinham visto um chefe a deslocar-se tão depressa. Bateu à porta com tanta força que parecia que a estava a tentar arrombar e, mal se viu lá dentro, correu direito ao terminal do computador que tinha sido reservado para o assalto.

— Ainda está tudo pronto para arrancar? — perguntou a ninguém em particular e, de algures na sala, veio a resposta de que estava tudo em ordem.

Navot inclinou-se e, com bastante mais força do que era preciso, carregou no botão. Eram 16h22 em Telavive, 15h22 em Genebra. E, no mundo inteiro, os alçapões desataram a abrir-se e o dinheiro começou a fluir.

 

Aproximadamente cinco minutos depois de terem atravessado a fronteira francesa, o senhor Omari arrastou uma Jihan aos gritos para dentro do porta-bagagens do carro. A tampa fechou-se sobre ela com um ruído forte e definitivo e o mundo tornou-se preto. Parecia Hama durante o cerco, pensou. Mas ali, na mala do carro, não havia explosões nem gritos que furassem a escuridão, apenas o zumbido enlouquecedor dos pneus no pavimento. Jihan imaginou que estava outra vez nos braços da mãe, agarrada com força ao hijab dela. Chegou mesmo a imaginar que conseguia sentir o perfume a rosas da mãe. Foi então que o fedor a gasolina se apoderou dela e a recordação do abraço da mãe se esvaiu, deixando apenas o medo. Sabia que destino a aguardava; já tinha visto aquilo tudo, durante os dias negros que se seguiram ao cerco. Ia ser interrogada. E, a seguir, ia ser morta. Não havia nada a fazer. Era a vontade de Deus.

A escuridão impossibilitava que Jihan visse o relógio e, por conseguinte, tivesse noção da passagem do tempo. Cantarolou por entre dentes para esconder o medo. Por breves instantes, pensou no agente secreto israelita cujo nome escrevera na superfície do Attersee. Nunca a iria abandonar; tinha a certeza disso. Mas tinha de se manter viva, fosse como fosse, durante o tempo necessário para ele a encontrar. Foi então que se lembrou de um homem que conhecera em Hamburgo quando era estudante universitária, um dissidente sírio que tinha sido torturado pela Mukhabarat. Sobrevivera, contara, porque tinha dito aos interrogadores coisas que achava que eles queriam ouvir. Jihan iria fazer a mesma coisa — não a verdade, claro, mas uma mentira tão irresistível que iriam querer ouvir todas as palavras. Não tinha qualquer dúvida de que era capaz de os enganar. Tinha passado toda a vida a enganar pessoas.

E por isso, enquanto estava ali deitada na escuridão, a estrada a correr velozmente por baixo dela, engendrou a história que esperava lhe fosse salvar a vida. Era a história de uma aliança improvável entre um homem poderoso e uma mulher jovem e solitária, uma história de ganância e logro. Reformulou o início, fez umas emendazinhas e reescreveu umas coisas aqui e ali, e, quando o carro parou finalmente, tinha terminado. Quando a tampa da bagageira se levantou, viu de relance a cara do senhor Omari antes de ele lhe enfiar um capuz na cabeça. Já estava à espera do capuz. O dissidente sírio tinha-lhe contado como a Mukhabarat gostava da privação sensorial.

Tiraram-na da mala do carro e fizeram-na atravessar uma zona de cascalho. A seguir, obrigaram-na a descer um lance de escadas tão íngremes que acabaram por desistir e a levar ao colo. Uns instantes mais tarde, atiraram-na para um chão de cimento como se fosse um morto da guerra. Depois ouviu uma porta a fechar-se ruidosamente, a que se seguiu o som de passos masculinos a afastarem-se. Deixou-se ficar deitada e imóvel durante vários segundos antes de, finalmente, arrancar o capuz da cabeça e descobrir que estava outra vez num local completamente escuro. Tentou não estremecer, mas não o conseguiu evitar. Tentou não chorar, mas as lágrimas não tardaram a manchar-lhe a cara. Depois pensou na história que inventara. A culpa era do senhor Al-Siddiqi, disse para consigo. Nada daquilo teria acontecido se o senhor Al-Siddiqi não lhe tivesse oferecido um emprego.