O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 20 de 65

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O Assalto

18. Hyde Park, Londres

18

HYDE PARK, LONDRES

 

Na manhã seguinte, Gabriel telefonou para a Isherwood Fine Arts enquanto atravessava Leicester Square. Pediu para se encontrar com Isherwood fora da galeria e longe dos botecos habituais do mundo da arte em St. James’s. Isherwood propôs o Lido Café Bar, no Hyde Park. Ninguém do mundo da arte, explicou, poria os pés lá.

Chegou uns minutos depois da uma, com roupa para andar no campo: um casaco de tweed e sapatos impermeáveis. Parecia bem menos ressacado do que costumava ao início da tarde.

— Longe de mim estar a querer protestar — disse Gabriel ao apertar a mão a Isherwood —, mas a tua secretária deixou-me praticamente dez minutos pendurado e só depois me pôs a falar contigo.

— Então até tiveste sorte.

— Quando é que a despedes, Julian?

— Não posso.

— Porquê?

— É possível que ainda esteja apaixonado por ela.

— Ela maltrata-te.

— Eu sei — respondeu Isherwood, sorrindo. — Se ao menos andássemos a dormir um com o outro. Assim seria perfeito.

Sentaram-se a uma mesa com vista para a Serpentine Gallery. Isherwood fez uma careta quando olhou para a ementa.

— Não é bem o Wiltons, pois não?

— Não te vai matar, Julian.

Isherwood não pareceu convencido. Pediu uma sanduíche de gambas e um copo de vinho branco para a tensão. Gabriel pediu chá e um scone. Quando ficaram outra vez a sós, contou a Isherwood tudo o que se tinha passado desde que saíra de Veneza. E depois contou-lhe o que planeava fazer a seguir.

— Mas que maroto — disse Isherwood baixinho. — Mas que grande maroto.

— A ideia foi do general.

— O tipo é um sacana retorcido, não é?

— Por isso é que é tão bom a fazer o que faz.

— E tem mesmo de ser. Mas, como diretor do Comité para a Proteção da Arte — acrescentou Isherwood, num tom formal —, seria negligente da minha parte não objetar contra um aspeto da vossa operação bastante inteligente.

— Não há outra maneira, Julian.

— E se o quadro ficar danificado durante o roubo?

— Tenho a certeza de que sou capaz de arranjar quem o restaure.

— Não te armes em despreocupado. Não te fica bem.

Um silêncio pesado instalou-se entre ambos.

— Vai valer a pena se eu conseguir recuperar aquele Caravaggio — disse Gabriel por fim.

— Se — retorquiu Isherwood ceticamente.

Soltou um suspiro profundo.

— Desculpa ter-te metido no meio disto tudo. E só de pensar que nada disto tinha acontecido se não fosse o raio do Oliver Dimbleby.

— Por acaso, até engendrei uma maneira de o Oliver expiar os pecados.

— Não estás a pensar arranjar forma de te servir dele, pois não?

Gabriel assentiu lentamente com a cabeça.

— Mas, desta vez, o Oliver nem vai perceber.

— Bem jogado — respondeu Isherwood. — Porque o Oliver Dimbleby tem uma das maiores bocas de todo o mundo da arte.

— Exato.

— E em que estás a pensar?

Gabriel contou-lhe. Isherwood fez um sorriso malicioso.

— Mas que maroto — disse. — Mas que grande maroto.

 

Quando terminaram de almoçar, Gabriel já tinha conseguido convencer Isherwood da eficácia do plano. Ultimaram os pormenores que faltavam enquanto atravessavam o Hyde Park e depois cada um seguiu o seu caminho pelas ruas movimentadas de Piccadilly. Isherwood voltou para a galeria, em Mason’s Yard; Gabriel dirigiu-se para a estação de St. Pancras, onde apanhou um Eurostar que saía ao final da tarde para Paris. À noite, no apartamento seguro com vista para a Pont Marie, fez amor com Chiara pela segunda vez desde que tinha sabido que ela estava grávida dos filhos dele.

De manhã, tomaram o pequeno-almoço num café perto do Louvre. A seguir, depois de acompanhar Chiara até ao apartamento seguro, apanhou um táxi para a Gare de Lyon. Embarcou às nove num comboio com destino a Marselha e, às 12h45, estava a descer as escadas da Gare Saint-Charles. Foi parar ao início do Boulevard d’Athènes, que seguiu até La Canebière, a ampla rua comercial que ia do centro da cidade até ao Velho Porto. Os barcos de pesca tinham regressado dos trajetos matinais; havia criaturas marinhas de toda a espécie espalhadas sobre mesas de metal, ao longo do lado leste do porto. Atrás de uma delas, encontrava-se um homem de cabelo grisalho, com uma camisola de lã esfarrapada e um avental de borracha. Gabriel parou por breves instantes para inspecionar o que o homem tinha apanhado. Depois foi até à esquina da ponta sul do porto e entrou para o lugar do passageiro de um Renault amolgado. Sentado ao volante, com uma beata a arder-lhe entre as pontas dos dedos, estava Christopher Keller.

— Tem mesmo de ser? — perguntou Gabriel, com aborrecimento.

Keller apagou o cigarro, calcando-o, e acendeu outro de imediato.

 

— Mal posso crer que estamos outra vez aqui.

— Onde?

— Em Marselha — respondeu Keller. — Foi aqui que começámos a procurar a rapariga inglesa.

— E foi aqui que mataste uma pessoa escusadamente — acrescentou Gabriel num tom soturno.

— Não vamos entrar outra vez em litígio por causa desse assunto.

— Isso é uma palavra bastante cara para um ladrão de arte, Christopher.

— Não achas que é uma coincidência estarmos sentados no mesmo carro, do mesmo lado do Velho Porto?

— Não.

— Então porquê?

— Porque é em Marselha que os criminosos estão.

— Como ele.

Keller indicou com a cabeça o homem da camisola de lã esfarrapada que estava atrás da mesa com peixe, na ponta do porto.

— Conhece-lo?

— Toda a gente do ramo conhece o Pascal Rameau. Ele e o respetivo bando são os melhores ladrões da Côte d’Azur. Roubam tudo. Correu o rumor de que uma vez tentaram roubar a Torre Eiffel.

— E o que aconteceu?

— O comprador voltou atrás; pelo menos, é assim que o Pascal gosta de contar a história.

— Já lidaste alguma vez com ele?

— Ele não precisa de gente como eu.

— Ou seja?

— O Pascal tem tudo muito bem na mão.

Keller exalou uma nuvem de fumo de cigarro.

— Então o Maurice faz uma encomenda e o Pascal entrega a mercadoria, é assim que funciona?

— Tal e qual a Amazon.

— O que é a Amazon?

— Tens de sair um bocadinho mais do teu vale, Christopher. O mundo mudou desde que morreste.

Keller ficou calado. Gabriel desviou o olhar de Pascal Rameau para o bairro acidentado de Marselha próximo da basílica. Passaram-lhe repentinamente imagens do passado pela cabeça: a porta de um imponente prédio de apartamentos no Boulevard Saint-Rémy, um homem a atravessar depressa as sombras frescas da manhã, uma rapariga árabe de olhos castanhos e impiedosos parada no cimo de umas escadas de pedra. Peço desculpa, monsieur. Perdeu-se? Piscou os olhos para afastar essas recordações e enfiou a mão no bolso do casaco para tirar de lá o telemóvel, mas deteve-se. Estava uma equipa de segurança à entrada do apartamento seguro em Paris. Não lhe ia acontecer nada.

— Passa-se alguma coisa? — perguntou Keller.

— Não — respondeu Gabriel. — Está tudo bem.

— Tens a certeza?

Gabriel pôs-se a olhar novamente para Pascal Rameau. Keller sorriu.

— É um bocadinho estranho, não achas?

— O quê?

— Que um homem como tu possa estar associado a um ladrão de arte.

— Ou a um assassino profissional — acrescentou Gabriel.

— E o que quer isso dizer?

— Quer dizer que a vida é complicada, Christopher.

— A quem o dizes.

Keller calcou o cigarro e começou a acender outro.

— Por favor — disse Gabriel baixinho.

Keller voltou a enfiar o cigarro no maço com o dedo.

— Quanto tempo ainda vamos ter de esperar?

Gabriel olhou para o relógio.

— Vinte e oito minutos.

— Como podes ser assim tão exato?

— Porque o comboio dele chega a Saint-Charles à uma e trinta e quatro. E ele vai demorar doze minutos a andar da estação até ao porto.

— E se parar pelo caminho?

— Não para — respondeu Gabriel. — Monsieur Durand é muito certinho.

— Se é assim tão certinho, então porque estamos outra vez em Marselha?

— Porque ele anda com um milhão de euros que pertence aos Carabinieri e quero ter a certeza de que o dinheiro vai parar ao sítio certo.

— Ao bolso do Pascal Rameau. — Gabriel não disse nada. — É um bocadinho estranho, não achas?

— A vida é complicada, Christopher.

Keller acendeu um cigarro.

— A quem o dizes.

 

Eram 13h45 quando o viram a descer a encosta de La Canebière, o que queria dizer que estava adiantado um minuto em relação ao previsto. Trazia um fato de burel antracite e um elegante chapéu de veludo com uma fita e segurava na mão direita uma pasta com um milhão de euros em notas lá dentro. Aproximou-se dos pescadores e foi percorrendo as mesas devagar até se encontrar diante de Pascal Rameau. Houve uma troca de palavras, seguida de um exame diligente aos produtos para aquilatar da frescura destes, e, por fim, chegou-se a uma escolha. Durand entregou uma única nota, agarrou num saco de plástico cheio de lulas e seguiu para o lado sul do porto. Um instante depois, passou por Gabriel e Keller sem olhar sequer para eles.

— E para onde vai ele agora?

— Para um barco chamado Mistral.

— E de quem é o barco?

— Do René Monjean.

Keller arqueou a sobrancelha.

— E como conheces o Monjean?

— Isso é uma outra história para uma outra altura.

Naquele momento, Durand já estava a avançar por uma doca flutuante, no meio das várias filas de barcos de recreio brancos. Tal como Gabriel previra, subiu a bordo de um iate a motor chamado Mistral e enfiou-se no camarote. Esteve lá dentro dezassete minutos exatos e quando saiu já não trazia a pasta nem as lulas. Passou pelo Renault amolgado de Keller e começou a fazer o percurso para a estação de comboios.

— Parabéns, Christopher.

— Pelo quê?

— És neste momento o orgulhoso proprietário de uma obra-prima do Van Gogh que vale duzentos milhões de dólares.

— Ainda não.

— O Maurice Durand é muito certinho — respondeu Gabriel. — E o René Monjean também.