O Assalto
35. Munique, Alemanha
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MUNIQUE, ALEMANHA
As muitas versões da cara de Gabriel eram conhecidas dos serviços de segurança austríacos, por isso a Divisão de Viagens achou melhor encaminhá-lo para Munique. Passou sem problemas pela fiscalização de passaportes, na pele de um americano sorridente e endinheirado, e a seguir foi num autocarro do aeroporto para o parque de estacionamento de longa duração, onde a Divisão de Transportes lhe tinha deixado um Audi A7 impossível de localizar. A chave estava escondida dentro de uma caixa magnética, no compartimento interior da roda esquerda traseira. Gabriel tirou-a de lá com um movimento rápido da mão e, pondo-se de cócoras, revistou a parte de baixo do carro, à procura de sinais de bomba. Ao não ver nada fora do normal, sentou-se ao volante e ligou o motor. O rádio tinha ficado ligado; uma mulher com uma voz baixa e entediada estava a ler um noticiário na Deutschlandfunk. Ao contrário de muitos compatriotas, Gabriel não se contraía quando ouvia alemão. Era a língua que tinha ouvido no ventre da mãe e, mesmo depois daquele tempo todo, continuava a ser a língua em que sonhava. Nos sonhos, quando Chiara falava com ele, fazia-o em alemão.
Encontrou o talão de estacionamento no sítio onde a Divisão de Transportes lhe tinha dito que estaria — na consola central, enfiado num folheto sobre os clubes noturnos mais picantes de Munique — e arrancou com a prudência de um estrangeiro, em direcção à saída. O tempo que o funcionário do parque demorou a examinar o talão chegou para Gabriel sentir na espinha a primeira descarga de eletricidade daquela operação. Depois, o braço da cancela ergueu-se e ele seguiu até à entrada da autobahn. Enquanto avançava sob a luz do sol da Baviera, ia sendo fustigado a cada segundo por recordações. À direita, pairando sobre a linha dos telhados de Munique, encontrava-se a futurista Torre Olímpica, por baixo da qual o Setembro Negro tinha levado a cabo o ataque que deu início à carreira de Gabriel. E, uma hora mais tarde, quando atravessou a fronteira para a Áustria, a primeira cidade em que entrou foi Braunau am Inn, a terra natal de Hitler. Tentou não pensar em Viena, mas a capacidade que tinha para a compartimentação não dava para tanto. Ouviu o motor de um carro a hesitar antes de começar a trabalhar e viu um clarão de fogo a erguer-se sobre uma rua elegante. E voltou a sentar-se à cabeceira da cama de hospital de Leah e contou-lhe que o filho tinha morrido. Devíamos ter ficado em Veneza, meu amor. As coisas teriam sido diferentes… Sim, pensou naquele momento. As coisas seriam diferentes. Teria um filho com vinte e cinco anos. E nunca se teria apaixonado por uma linda rapariga do gueto chamada Chiara Zolli.
A casa onde Hitler tinha nascido ficava no número 15 da Salzburger Vorstadt, não muito longe da principal praça comercial de Braunau. Gabriel estacionou à frente dela, do outro lado da rua, e deixou-se ficar ali durante um momento, com o motor em ponto-morto, perguntando a si mesmo se teria forças para fazer aquilo. Foi então que, repentinamente, abriu a porta do carro e obrigou-se a atravessar a rua decididamente, como se quisesse eliminar a opção de dar meia-volta. Vinte e cinco anos antes, o presidente da câmara de Braunau resolvera colocar uma pedra comemorativa à entrada da casa. Fora extraída da pedreira de Mauthausen e tinha gravada uma inscrição que não referia especificamente os judeus nem o Holocausto. Sozinho, Gabriel ficou parado diante dela, a pensar não no assassínio de seis milhões de pessoas mas na guerra que estava a decorrer a mais de três mil e duzentos quilómetros para sudeste, na Síria. Apesar de todos os livros, documentários, memoriais e declarações universais dos direitos humanos, um ditador estava outra vez a matar o próprio povo com gás tóxico e a transformá-lo em esqueletos humanos em campos de concentração e prisões. Era quase como se as lições do Holocausto tivessem sido esquecidas. Ou talvez, pensou Gabriel, nunca tivessem sequer sido aprendidas.
Um casal de jovens alemães — os sotaques característicos revelavam que eram da Baviera — juntou-se a ele defronte da pedra e falou de Hitler como se fosse um tirano de pouca monta de um império longínquo. Desanimado, Gabriel voltou para o carro e partiu para a Áustria Superior. Ainda havia neve nos picos mais altos das montanhas, mas, nos vales, onde se encontravam as aldeias, os prados refulgiam com flores silvestres. Entrou em Linz quando passavam poucos minutos das duas e estacionou perto da Catedral Nova. A seguir, esteve uma hora a inspecionar o que seria em breve o campo de batalha mais bucólico da guerra civil síria. Em Linz, era a época dos festivais. Tinha acabado de terminar um festival de cinema; e um festival de jazz iria começar dentro de pouco tempo. Austríacos pálidos bronzeavam-se nos relvados verdes do Parque do Danúbio. Lá no alto, uma única nuvem, que lembrava algodão, atravessou rápida e suavemente o céu azul, como um balão de barragem solto das amarras.
O último ponto da inspeção de Gabriel foi a rotunda dos elétricos ao lado do Bank Weber AG. Estacionado em frente à entrada singela do banco, com o motor a roncar em ponto-morto, estava uma limusina Mercedes Maybach preta. Tendo em conta a pouca distância entre o chassis e as rodas, estava fortemente blindada. Gabriel sentou-se num banco e deixou que passassem dois elétricos. Depois, quando um terceiro se estava a aproximar da paragem, viu um homem elegantemente vestido a sair do banco e a enfiar-se rapidamente na parte de trás da limusina. Tinha uma cara difícil de esquecer, devido às maçãs do rosto marcadas e à boca invulgarmente pequena e reta. Passados uns segundos, o carro arrancou a toda a velocidade, passando junto ao ombro de Gabriel, como um borrão preto. O homem tinha agora um telemóvel colado de forma tensa ao ouvido. O dinheiro nunca dorme, pensou Gabriel. Nem sequer o dinheiro manchado de sangue.
Quando um quarto elétrico deslizou para a rotunda, Gabriel subiu a bordo e atravessou nele para a outra margem do Danúbio. Revistou uma segunda vez a parte de baixo do carro para ter a certeza de que não tinham mexido nele enquanto estivera ausente. A seguir, dirigiu-se para o Attersee. A casa segura ficava na margem oeste do lago, perto da cidade de Litzlberg. Havia um portão de madeira e, depois deste, espraiava-se um caminho de entrada com pinheiros e trepadeiras em flor de ambos os lados. Estavam vários carros estacionados no pátio de entrada, incluindo um velho Renault com matrícula corsa. O dono encontrava-se à porta da villa, que estava aberta, e trazia roupa formal, umas calças cor de caqui largueironas e um pulôver de algodão amarelo.
— Peter Rutledge — disse, estendendo a mão a Gabriel, com um sorriso. — Bem-vindo a Shangri-La.
Deviam aparentar estar de férias, daí os romances de bolso abertos em cima das poltronas, os volantes de badmínton espalhados pelo relvado e o reluzente barco a motor de madeira, alugado pela principesca quantia de vinte e cinco mil euros por semana, a dormitar no final de uma doca comprida. No entanto, dentro da villa, reinava a seriedade. As paredes da sala de jantar estavam repletas de mapas e fotografias de vigilância e, em cima da mesa formal, havia vários notebooks abertos. O ecrã de um mostrava um plano fixo de uma mansão moderna de vidro e aço situada nas colinas acima de Linz. Outro mostrava a entrada do Bank Weber AG. Às cinco e dez, Herr Weber em pessoa apareceu à porta e entrou num BMW sóbrio. Passados dois minutos, surgiu uma rapariga tão pálida e bonita que quase nem parecia real. Depois da rapariga, veio Jihan Nawaz. Atravessou a praçazinha depressa e entrou num elétrico que se encontrava parado. E embora ela não o soubesse, o homem bexigoso sentado do outro lado da coxia era um agente dos serviços secretos israelitas chamado Yaakov Rossman. Foram no elétrico até à Mozartstrasse, cada qual a olhar para o seu espaço, e depois seguiram caminhos distintos — Yaakov foi para oeste e Jihan para leste. Quando chegou ao prédio de apartamentos onde vivia, viu Dina Sarid a sair de uma cintilante motorizada azul, do outro lado da rua. As duas mulheres trocaram um sorriso fugidio. Depois, Jihan entrou no prédio e subiu as escadas até ao apartamento. Dois minutos mais tarde, escreveu uma mensagem no Twitter, anunciando que estava a pensar ir mais à noite beber um copo ao Bar Vanilli. Não houve respostas.
Durante os três dias que se seguiram, as duas mulheres circularam pelas ruas sossegadas de Linz sem que os seus caminhos se cruzassem. Estiveram quase a encontrar-se na esplanada do Museu de Arte Moderna e protagonizaram uma rápida troca de olhares no meio das bancas do Alter Markt. Mas, tirando isso, o destino parecia estar a conspirar para as manter afastadas. Pareciam destinadas a continuar a ser vizinhas que não se falavam, desconhecidas que olhavam uma para a outra à distância de um abismo que não podia ser superado.
Mas, sem Jihan Nawaz o saber, já se encontrava predeterminado que acabariam por se conhecer. Aliás, isso estava a ser ativamente engendrado por um grupo de homens e mulheres a atuar numa linda villa junto à margem de um lago a trinta e dois quilómetros para sudoeste. Não era uma questão de saber se as duas mulheres se iriam conhecer, apenas quando. A equipa só precisava de mais uma prova.
E esta chegou na madrugada do quarto dia, quando ouviram Hamid Khaddam, o advogado que representava a LXR Investments desde Londres, a abrir duas contas num banco de reputação duvidosa das Ilhas Caimão. A seguir, ligou para casa de Waleed al-Siddiqi, em Linz, e informou-o de que as contas já podiam receber fundos. O dinheiro chegou passadas vinte e quatro horas, numa transação que foi acompanhada pelos piratas informáticos da Unidade 8200. A primeira conta recebeu uma verba no valor de 20 milhões de dólares, que passaram pelo Bank Weber AG. A segunda recebeu 25 milhões de dólares.
Assim, já só restava alinhavar a hora, o local e as circunstâncias em que as duas mulheres se iriam conhecer. A hora seria às cinco e meia da tarde seguinte; o local seria a Pfarrplatz. Dina estava sentada na esplanada do Café Meier, a ler uma edição a desfazer-se de Os Despojos do Dia, quando Jihan passou sozinha à frente da mesa dela, com um saco das compras pendurado na mão. Parou de repente, deu meia-volta e aproximou-se da mesa.
— Mas que coincidência — disse em alemão.
— O quê? — respondeu Dina na mesma língua.
— Está a ler o meu livro preferido.
— Bom, livre-se de me contar como é que acaba.
Dina pousou o romance em cima da mesa e estendeu a mão.
— Ingrid — disse. — Acho que vivo à sua frente.
— Também acho que sim. Jihan — respondeu, com um sorriso. — Jihan Nawaz.