O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 62 de 65

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O Assalto

60. Veneza

60

VENEZA

 

Durante os vários dias que se seguiram, Gabriel raramente se afastou de Chiara. Fazia-lhe o pequeno-almoço todas as manhãs. Passava as tardes com ela no gabinete da comunidade judaica. Sentava-se no balcão da cozinha à noite e vigiava-a enquanto ela cozinhava. Ao princípio, Chiara ficou encantada com a atenção, mas, gradualmente, o simples peso dos carinhos intermináveis dele começou a enervá-la. Era, como diria mais tarde, um bocadinho de mel a mais para o gosto dela. Ainda chegou a pensar em pedir a Francesco Tiepolo um quadro que precisasse de ser restaurado — uma coisa pequena e que não estivesse demasiado danificada —, mas resolveu que o que deviam fazer era uma viagem. Nada demasiado extravagante e nenhum sítio que exigisse andar de avião. Dois dias, três, no máximo. Gabriel teve uma ideia. Nessa noite, telefonou a Christoph Bittel e pediu autorização para entrar na Suíça; e Bittel, que sabia bem qual a razão por que o seu recente amigo e cúmplice queria regressar à Confederação, concordou prontamente.

— É capaz de ser melhor que eu me encontre contigo — disse ele.

— Estava à espera que dissesses isso.

— Conheces a zona?

— Não — respondeu Gabriel, mentindo.

— Há um hotel à saída da cidade chamado Alpenblick. Estou lá à tua espera.

E foi assim que, muito cedo na manhã seguinte, Gabriel e Chiara saíram da sua adorada cidade de água e quadros e seguiram para o pequeno país interior de riquezas e segredos que tinha desempenhado um papel tão preeminente na vida deles. A meio da manhã, atravessaram a fronteira em Lugano e seguiram para norte, para os Alpes. Tempestades de neve sopravam pelas gargantas altas, mas quando chegaram a Interlaken, o sol brilhava intensamente num céu sem nuvens. Gabriel voltou a encher o depósito de gasolina e subiram o vale até Grindelwald. O Hotel Alpenblick era um edifício rústico que se erguia sozinho na periferia da povoação. Gabriel deixou o carro no pequeno parque de estacionamento do hotel e, com Chiara ao lado, subiu as escadas até ao terraço. Bittel estava a beber café e a olhar para os picos ameaçadores do Monch e do Eiger. Levantando-se, apertou a mão a Gabriel. Olhou para Chiara e sorriu.

— De certeza que tem um nome lindo, mas não vou cometer o erro de perguntar qual é.

Olhou de relance para Gabriel e continuou:

— Nunca me disseste que estavas prestes a ser pai outra vez, Allon.

— Por acaso — disse Gabriel —, ela é só a minha provadora da comida.

— Tenho muita pena.

Bittel sentou-se e mandou embora com um gesto um empregado que se aproximava. Depois apontou para o outro lado de um prado, na direção do sopé das montanhas.

— O chalé é ali — disse a Gabriel. — É um sítio bonito, com belas vistas, muito limpo e confortável.

— Tens futuro como agente imobiliário, Bittel.

— Gosto mais de proteger o meu país.

— Presumo que tenhas um posto de vigilância estático algures?

— Arrendámos o chalé ao lado — respondeu Bittel. — Temos dois agentes a tempo inteiro aqui e outros entram e saem conforme é preciso. Ela nunca vai a lado nenhum sem escolta.

— Alguma visita suspeita?

— Da variedade síria?

Gabriel assentiu com a cabeça.

— Temos de todos os tipos aqui, em Grindelwald — respondeu Bittel —, por isso é um bocadinho difícil dizer. Mas, até agora, ninguém se aproximou dela.

— E qual é o estado de espírito dela?

— Parece sozinha — respondeu Bittel com um ar sério. — Os guardas passam o máximo de tempo possível com ela, mas…

— Mas o quê, Bittel?

O polícia suíço sorriu tristemente.

— Posso estar enganado — disse —, mas acho que ela precisa de um amigo.

Gabriel levantou-se.

— Agradeço-lhes imenso terem aceitado recebê-la, Bittel.

— Era o mínimo que podíamos fazer para te compensar por teres limpado a porcaria no Freeport de Genebra. Mas devias ter-nos pedido autorização antes de montares aquela operação no Hotel Métropole.

— E tê-la-iam dado?

— Claro que não — retorquiu Bittel. — O que quer dizer que ainda terias oito mil milhões de dólares em dinheiro sírio na tua conta bancária.

Oito vírgula dois, pensou Gabriel enquanto se dirigia para o carro.

Mas quem estava a contar?

 

Gabriel deixou Chiara e Bittel no hotel e seguiu sozinho de carro para o prado. A casa ficava ao fundo de uma rua estreita, uma estrutura pequena e bem arranjada de madeira escura, com um telhado inclinado e vasos de flores na varanda, onde Jihan Nawaz apareceu quando Gabriel entrou no caminho relvado e desligou o motor. Trazia calças de ganga azuis e uma camisola de lã grossa. O cabelo estava mais comprido e mais claro; um cirurgião plástico tinha-lhe alterado a forma do nariz, das maçãs do rosto e do queixo. Não estava propriamente bonita, mas também já não tinha um aspeto vulgar. Instantes depois, quando saiu a correr pela porta da frente, trouxe com ela o aroma suave a rosas. Lançou-lhe os braços ao pescoço, abraçou-o com força e deu-lhe um beijo em cada face.

— Estou autorizada a tratá-lo pelo seu nome verdadeiro? — sussurrou-lhe ao ouvido.

— Não — respondeu-lhe ele. — Aqui, não.

— E quanto tempo pode ficar?

— O tempo que a Jihan quiser.

— Venha — disse ela, agarrando-lhe na mão. — Arranjei qualquer coisa para comermos.

O interior do chalé estava quente e confortável, mas não continha um único vestígio de que a pessoa que ali vivia tivesse uma família ou um passado, fosse ele qual fosse. Gabriel sentiu uma pontada de arrependimento. Devia tê-la deixado em paz. Waleed al-Siddiqi ainda estaria a gerir o dinheiro do pior homem do mundo e Jihan estaria a viver calmamente em Linz. E, no entanto, ela sabia o nome do cliente especial de Al-Siddiqi, pensou. E tinha continuado no banco por uma razão.

— Já vi essa expressão na sua cara — disse ela, observando-o atentamente. — Foi em Annecy, quando eu estava a sair da parte de trás do carro. Vi-o sentado no café do outro lado da praça. Parecia…

Deixou o pensamento por acabar.

— O quê? — perguntou ele.

— Culpado — respondeu ela sem a menor hesitação.

— E sentia-me culpado.

— Porquê?

— Nunca a deveria ter deixado entrar naquele hotel.

— A minha mão sarou muito bem — retorquiu ela, levantando-a como se quisesse justificar o que estava a dizer. — E as minhas feridas também sararam. Além disso, não foi nada comparado com aquilo que a maioria dos sírios sofreu desde que a guerra começou. Só tenho pena de não ter conseguido fazer mais.

— A sua guerra acabou, Jihan.

— Foi você quem me incitou a juntar-me à rebelião síria.

— E a nossa rebelião falhou.

— Pagou demasiado para me recuperar.

— Não estava com disposição para uma negociação prolongada — respondeu Gabriel. — Foi uma oferta do tipo pegar ou largar.

— Só gostava que pudesse ter visto a cara do senhor Al-Siddiqi quando descobriu que você tinha levado o dinheiro.

— Devo confessar que me regozijei um bocadinho de mais com o sofrimento dele — retorquiu Gabriel —, mas, Jihan, a sua cara era a única que eu queria ver naquele momento.

A seguir, ela voltou-se e levou-o para o jardim. Havia uma mesinha posta com café e chocolates suíços. Jihan sentou-se de frente para o chalé; Gabriel, para o maciço gigantesco e cinzento. Quando já estavam instalados, Gabriel quis saber da estada de Jihan em Israel.

— Passei as duas primeiras semanas fechada num apartamento em Telavive — disse ela. — Foi horrível.

— Fazemos o nosso melhor para que os nossos visitantes se sintam bem-vindos.

Jihan sorriu.

— A Ingrid veio ver-me algumas vezes — disse —, mas você não. Não me quiseram dizer onde estava.

— Infelizmente, tinha de tratar de outros assuntos.

— Outra operação?

— De certa maneira, sim.

Jihan encheu as chávenas de café.

— Por fim — continuou —, lá deixaram que eu e a Ingrid fizéssemos uma viagem juntas. Ficámos num hotel nos montes Golã. À noite, conseguíamos ouvir os tiros de artilharia e os ataques aéreos no outro lado da fronteira. A única coisa em que conseguia pensar era quantas pessoas estavam a ser mortas cada vez que o céu se enchia de luz. — Gabriel não deu qualquer resposta àquilo. — Li esta manhã nos jornais que os americanos estão a reconsiderar ataques militares contra o regime.

— Li a mesma coisa.

— E acha que eles o vão fazer, desta vez?

— Atacar o regime? — Ela assentiu com a cabeça. Gabriel não teve coragem de lhe dizer a verdade, por isso, disse-lhe uma última mentira. — Sim — respondeu. — Acho que o vão fazer.

— E o regime cai se os americanos o atacarem?

— É possível.

— Se isso acontecesse — disse ela passados uns instantes —, voltaria para a Síria para ajudar a reconstruir o país.

— Agora, o seu país é aqui.

— Não — respondeu. — Isto é o sítio onde eu me escondo dos carniceiros. Mas Hama será sempre a minha casa.

Uma súbita rajada de vento soprou-lhe um caracol do cabelo recentemente aclarado para a cara. Afastou-o e olhou para o outro lado do prado, em direção ao maciço. O sopé estava envolto numa sombra densa, mas os picos cobertos de neve estavam tingidos de cor-de-rosa pelo Sol a pôr-se.

— Adoro a minha montanha — disse Jihan repentinamente. — Faz-me sentir segura. Faz-me sentir que nada me pode acontecer.

— É feliz aqui?

— Tenho um nome novo, uma cara nova, um país novo. É o meu quarto país. É isto que significa ser síria.

— E judeu — disse Gabriel.

— Mas agora os judeus têm um país. — Ergueu a mão na direção do prado. — E eu tenho isto.

— E consegue ser feliz aqui?

— Sim — respondeu ela passado um longo momento. — Acho que consigo. Mas gostei muito do tempo que passámos juntos no Attersee, principalmente dos passeios de barco.

— Também eu.

Ela sorriu e depois perguntou:

— E você? É feliz?

— Quem me dera que não a tivessem magoado.

— Mas vencemo-los, não vencemos? Pelo menos, durante algum tempo.

— Sim, Jihan, vencemo-los.

A última luz desapareceu dos picos das montanhas e a noite caiu sobre o vale como uma cortina.

— Há uma coisa que nunca me disse.

— O quê?

— Como me encontrou?

— Não ia acreditar.

— E é uma história boa?

— Sim — respondeu ele. — Acho que sim.

— E como acaba?

Gabriel deu-lhe um beijo na face e deixou-a sozinha com o seu passado.