O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 39 de 65

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O Assalto

37. Attersee, Áustria

37

 

ATTERSEE, ÁUSTRIA

 

Tinham duas opções em matéria de transportes: a pequena motorizada de Dina ou o Volvo inconstante de Jihan. Escolheram o Volvo inconstante. Saiu da Innere Stadt a chocalhar quando passavam poucos minutos do meio-dia e, ao meio-dia e meia, tinham deixado para trás os últimos subúrbios de Linz e estavam a atravessar a Salzkammergut a toda a velocidade na A1. O tempo tinha conspirado para criar a ilusão de alegria. O sol brilhava no céu limpo e o ar que lhes entrava pelas janelas abertas era fresco e suave. Jihan trazia o vestido de alças branco que Dina lhe tinha escolhido e uns óculos de sol grandes à estrela de cinema que lhe ocultavam as feições vulgares. Tinha as unhas recém-pintadas; o seu perfume era quente e inebriante. Encheu Dina de culpa. Proporcionara uma falsa felicidade a uma mulher solitária e sem amigos. Era, pensou, a maior das traições femininas.

Guardara na carteira as indicações com o caminho, que tirou de lá quando saíram na A1 e entraram em Atterseestrasse. Gabriel insistira que as levasse e, naquele momento, com a consciência a revoltar-se, trazia-as bem agarradas enquanto orientava Jihan até ao destino final. Passaram por uma cidadezinha turística e depois por uma extensão de terra cultivada em forma de tabuleiro de damas. O lago encontrava-se à esquerda, azul-escuro e delimitado por montanhas verdes. Fazendo o papel de guia turística, Dina indicou a pequena ilhazinha, à qual se chegava por um pontão, onde Gustav Klimt tinha pintado as célebres paisagens do Attersee.

Depois da ilha, havia uma marina, com barcos à vela a reluzir atracados, e depois da marina ficava um conjunto de villas junto ao lago. Dina fingiu estar momentaneamente confundida em relação a qual pertencia ao anfitrião delas. De súbito, apontou para um portão aberto, como se tivesse ficado surpreendida por terem lá chegado tão depressa. Jihan virou o carro para a esquerda com destreza e avançou lentamente pelo caminho de entrada. Dina agradeceu o cheiro intenso dos pinheiros e das trepadeiras em flor, pois submergiu temporariamente o aroma acusatório do perfume de Jihan. Estavam vários carros estacionados de modo descuidado à sombra do pátio de entrada. Jihan arranjou um lugar e desligou o motor. Depois esticou-se para o banco de trás para tirar de lá as flores e o vinho que tinha trazido de presente. Quando saíram do carro, ouvia-se música, transbordante, de uma janela aberta: Trust in Me, de Etta James.

A porta principal da villa também estava aberta. Quando Dina e Jihan se aproximaram, surgiu um homem no fim da meia-idade, com cabelo ralo e esvoaçante. Vestia uma camisa formal azul-ultramarino, calças de linho claras e usava um grande relógio de ouro. Estava a sorrir com simpatia, mas os olhos castanhos mostravam-se atentos e vigilantes. Jihan deu uns passos na direção dele e ficou paralisada. Virou a cabeça para Dina, que parecia não ter reparado na apreensão dela.

— Gostava de te apresentar um velho amigo da minha família — disse esta. — Jihan Nawaz, Feliks Adler.

Jihan não se mexeu um milímetro, sem saber bem se devia avançar ou recuar, enquanto o homem que ela conhecia como Feliks Adler começou a descer os degraus lentamente. Ainda a sorrir, ficou-lhe com as flores e o vinho. E depois olhou para Dina.

— A verdade é que eu e Miss Nawaz já nos conhecemos. — Desviou o olhar de Dina para Jihan. — Mas ela não te pode dizer isso porque seria uma violação das práticas do sistema bancário privado austríaco.

Fez uma pausa suficientemente longa para estampar outro sorriso na cara.

— Não é verdade, Miss Nawaz?

Jihan continuou calada. Estava a olhar fixamente para as flores que Herr Adler tinha na mão.

— Não foi coincidência eu ter aberto uma conta no Bank Weber há duas semanas — disse passado um momento. — E também não é coincidência a menina estar aqui hoje. É que, sabe, Miss Nawaz, eu e a Ingrid somos mais do que velhos amigos. Também somos colegas.

Jihan fulminou Dina com um olhar tenebroso de fúria. A seguir, fitou novamente o homem que conhecia como Herr Adler. Quando falou por fim, a voz saiu-lhe cavernosa do medo.

— O que querem de mim? — perguntou.

— Temos um problema grave — respondeu ele. — E precisamos que nos ajude a resolvê-lo.

— Que tipo de problema?

— Entre, Jihan. Aqui ninguém lhe vai poder fazer mal.

Sorriu e agarrou-lhe delicadamente no cotovelo.

— Beba um copo de vinho. Junte-se à festa. Venha conhecer o resto dos nossos amigos.

 

Estava uma mesa posta com comida e bebidas no salão da villa. Ninguém tinha tocado em nada, por isso, a sensação era de uma comemoração cancelada ou, no mínimo, adiada. Um vento suave entrava pelas portas duplas abertas, trazendo consigo um ou outro roncar dos barcos a motor que iam passando. Na ponta mais distante do salão, havia uma lareira apagada, ao pé da qual Gabriel se encontrava sentado, a examinar um dossiê aberto. Trazia um fato escuro de executivo, sem gravata, e estava irreconhecível com uma peruca grisalha, lentes de contacto e óculos. Uzi Navot estava sentado ao lado dele, com uma indumentária semelhante, e ao lado de Navot estava Yossi Gavish. Trazia calças de sarja e um blazer amarrotado e fitava o teto, como se fosse um viajante a morrer de tédio.

A chegada de Jihan despertou apenas Gabriel. Fechou o dossiê, pousou-o em cima da mesinha de apoio à frente dele e levantou-se devagar.

— Jihan — disse, com um sorriso bondoso. — Ainda bem que veio.

Avançou para ela com cautela, como um adulto a aproximar-se de uma criança perdida.

— Peço-lhe desculpa pelo nosso convite pouco ortodoxo, mas foi tudo para a proteger.

Disse isso em alemão, no seu característico dialeto berlinense. O que não passou despercebido a Jihan, a síria de Hamburgo que agora vivia em Linz.

— Quem é você? — perguntou passado um momento.

— Preferia não começar esta conversa mentindo-lhe — respondeu ele, continuando a sorrir —, por isso não me vou dar ao trabalho de lhe dizer um nome. Trabalho para um ministério responsável pelos assuntos relacionados com a tributação e as finanças.

Apontou para Navot e Yossi.

— Estes senhores também trabalham para os respetivos governos. O sujeito grande e com um ar pouco satisfeito é austríaco e o tipo todo amarrotado sentado ao lado dele é britânico.

— E eles? — perguntou Jihan, apontando com a cabeça para Lavon e Dina.

— A Ingrid e Herr Adler pertencem-me.

— São muito bons.

Lançou uma mirada feroz a Dina, semicerrando os olhos.

— Sobretudo ela.

— Peço desculpa por a termos enganado, Jihan, mas não tínhamos escolha. Foi tudo para sua segurança.

— Segurança?

Avançou um passo para ela.

— Queríamos falar consigo de maneira que não causasse suspeitas ao seu patrão.

Fez uma pausa e depois acrescentou:

— O senhor Al-Siddiqi.

Ela pareceu retrair-se ao ouvir o nome. Gabriel fingiu não ter reparado.

— Imagino que tenha trazido o telemóvel, certo? — perguntou, como se tivesse acabado de se lembrar disso.

— Claro.

— É capaz de o passar à Ingrid, por favor? É importante que desliguemos todos os nossos dispositivos móveis antes de continuarmos esta conversa. Nunca se sabe quem pode estar a ouvir.

Jihan tirou o telemóvel da carteira e entregou-o a Dina, que o desligou e se afastou em silêncio para a sala do lado. Gabriel foi novamente até à mesinha de apoio para ir buscar o dossiê. Abriu-o de forma solene, como se incluísse material que preferiria não tornar público.

— Lamento informá-la, mas o banco onde trabalha encontra-se a ser investigado há algum tempo — disse passado um momento. — Trata-se de uma investigação internacional, como pode ver pela presença dos meus homólogos austríaco e britânico. E trouxe a lume provas consideráveis que indicam que o Bank Weber AG não passa de um empreendimento criminoso envolvido em lavagem de dinheiro, fraude e ocultação ilegal de ativos e rendimentos tributáveis. O que quer dizer que a Jihan está metida num grande sarilho.

— Sou só a gestora de conta.

— Exato.

Tirou uma folha do dossiê e mostrou-lha.

— Sempre que alguém abre uma conta no Bank Weber, a sua assinatura aparece em toda a documentação correspondente, Jihan. E também é a Jihan quem trata da maior parte das transferências do banco.

Tirou outra folha do dossiê, embora a tivesse consultado desta vez em privado.

— Por exemplo, transferiu recentemente uma quantia bastante avultada para o Trade Winds Bank das Ilhas Caimão.

— Como sabe dessa transferência?

— Na realidade, até foram duas: uma no valor de vinte e cinco milhões de dólares e a outra de uns míseros vinte milhões. As contas para onde o dinheiro foi enviado são geridas pela LXR Investments. Um advogado chamado Hamid Khaddam abriu-as por ordem do senhor Al-Siddiqi. O Hamid Khaddam é de Londres. Mas nasceu na Síria.

Gabriel desviou o olhar do dossiê.

— Como a Jihan.

O medo dela era palpável. Conseguiu levantar um bocadinho o queixo antes de responder:

— Nunca conheci o senhor Khaddam.

— Mas o nome dele diz-lhe alguma coisa, certo?

Ela assentiu com a cabeça lentamente.

— E não nega ter sido você quem transferiu o dinheiro para essas contas.

— Estava só a fazer o que me mandaram.

— Quem, o senhor Al-Siddiqi?

Ficou calada. Gabriel voltou a colocar os documentos no dossiê e o dossiê em cima da mesinha. Yossi estava outra vez a fitar o teto. Navot olhava pelas portas duplas para um barco que ia a passar, como se desejasse poder ir a bordo.

— Parece que estou a perder a atenção do público — disse Gabriel, apontando com a mão para as duas figuras imóveis. — Já percebi que eles gostariam que eu fosse ao que interessa para podermos passar para assuntos mais importantes.

— E o que é que interessa? — perguntou Jihan, com mais calma do que Gabriel julgaria possível.

— Os meus amigos de Viena e Londres não estão interessados em acusar uma funcionária bancária de pouca monta. E, com toda a franqueza, eu também não. Queremos o homem que puxa os cordelinhos no Bank Weber, o homem que trabalha atrás de uma porta fechada à chave, protegido por dois guarda-costas armados.

Fez uma pausa e a seguir acrescentou:

— Queremos o senhor Al-Siddiqi.

— Lamento muito, mas não posso ajudá-los.

— Claro que pode.

— E tenho escolha?

— Todos nós fazemos escolhas na vida — respondeu Gabriel. — Infelizmente, a Jihan decidiu ir trabalhar para o banco mais desonesto da Áustria.

— Não sabia que era desonesto.

— Prove-o.

— Como?

— Dizendo-nos tudo o que sabe do senhor Al-Siddiqi. E dando-nos uma lista completa de todos os clientes do Bank Weber, do dinheiro que lá foi depositado para que o gerissem e da localização dos vários instrumentos financeiros em que esse dinheiro está investido.

— Isso é impossível.

— Porquê?

— Porque seria uma violação das leis bancárias austríacas.

Gabriel pousou a mão no ombro de Navot.

— Este homem trabalha para o governo austríaco. E se ele diz que não é uma violação da lei austríaca, então não é.

Jihan hesitou.

— Há mais uma razão para eu não vos poder ajudar — disse por fim. — Não tenho acesso completo aos nomes de todos os titulares de contas.

— Não é a gestora de conta do banco?

— Claro que sim.

— E a função da gestora de conta não é gerir as contas?

— Evidentemente que é — respondeu ela, franzindo o sobrolho.

— Então qual é o problema?

— O senhor Al-Siddiqi.

— Então, se calhar, devíamos começar por aí, Jihan. — Gabriel pousou-lhe a mão no ombro delicadamente. — Pelo senhor Al-Siddiqi.