O Assalto
45. Linz, Áustria
45
LINZ, ÁUSTRIA
Ela tinha pedido cinco minutos. Cinco minutos para fechar à chave o último dos dossiês das contas. Cinco minutos para arrumar a secretária já arrumada. Cinco minutos para fazer regressar o caótico bater do coração a qualquer coisa mais normal. O tempo que lhe fora concedido terminara. Levantou-se, um bocadinho mais abruptamente do que o habitual e alisou a parte da frente da saia. Ou estava a limpar a humidade das palmas das mãos? Examinou-a para se certificar de que não tinha deixado nenhum vestígio de humidade no tecido e depois olhou de relance para os guarda-costas parados à frente da porta do senhor Al-Siddiqi. Estavam a observá-la atentamente. Calculou que o senhor Al-Siddiqi também a estava a observar. Sorrindo, percorreu o corredor. Bateu à porta de forma falsamente decidida: três pancadas secas que lhe deixaram o nó do dedo a arder.
— Entre — foi tudo o que ele disse.
Olhou sempre em frente enquanto o guarda-costas à direita — o alto, que se chamava Yusuf — introduzia o código de acesso no teclado na parede. Os fechos de segurança abriram com um estalido e a porta cedeu silenciosamente ao toque dela. A sala onde entrou estava à meia-luz, iluminada apenas por um único candeeiro de halogéneo na secretária. Reparou que o candeeiro tinha sido ligeiramente deslocado, mas fora isso, a secretária estava arrumada da maneira habitual: o computador, à esquerda, o mata-borrão de cabedal, no centro, o telefone com multilinhas, à direita. Naquele momento, o auscultador estava encostado com força ao ouvido do senhor Al-Siddiqi. Trazia um fato cinzento-escuro, camisa branca e uma gravata escura que cintilava como granito polido. Os olhos pequenos estavam focados num ponto algures por cima da cabeça de Jihan; o dedo indicador estava contemplativamente encostado ao nariz. Tirou-o de lá o tempo suficiente para o apontar, tipo pistola, para uma cadeira vazia. Jihan sentou-se e ajeitou-se recatadamente. Deu conta de que ainda estava a sorrir. Olhando para baixo, pôs-se a ver os e-mails no telemóvel e esforçou-se para não se interrogar sobre quem estaria do outro lado da linha a falar com o senhor Al-Siddiqi.
Por fim, o sírio murmurou umas palavras em árabe e pousou o auscultador no descanso.
— Desculpe, Jihan — disse-lhe na mesma língua —, lamento, mas isto não podia esperar.
— Um problema?
— Nada além do habitual.
Juntou as mãos pensativamente debaixo do queixo e olhou para ela com uma expressão séria durante uns instantes.
— Queria falar-lhe de uma coisa — disse por fim. — É ao mesmo tempo pessoal e profissional. Espero que me permita que fale livremente.
— Há algum problema?
— Diga-me a Jihan.
Jihan sentiu a nuca a arder.
— Não percebo — respondeu calmamente.
— Posso fazer-lhe uma pergunta?
— Claro.
— É feliz aqui, em Linz?
Ela franziu as sobrancelhas.
— Porque me está a perguntar uma coisa dessas?
— Porque nem sempre me parece muito feliz. — A boca pequena e dura esboçou uma coisa parecida com um sorriso. — Parece-me uma pessoa muito séria, Jihan.
— E sou.
— E honesta? — perguntou ele. — Considera-se uma pessoa honesta?
— Muito.
— Nunca violaria a privacidade dos nossos clientes?
— Claro que não.
— E nunca discutiria os nossos negócios com alguém que não fosse do banco?
— Nunca.
— Nem com um familiar?
— Não.
— Nem com um amigo?
Ela abanou a cabeça.
— Tem a certeza, Jihan?
— Tenho, senhor Al-Siddiqi.
Ele olhou para a televisão. Como de costume, estava a transmitir a Al Jazeera. O som estava desligado.
— E quanto a lealdade? — perguntou passados uns instantes. — Considera-se uma pessoa leal?
— Muito.
— E a que é leal?
— Nunca pensei realmente nisso.
— Então pense agora, se faz favor.
Olhou para o ecrã do computador como se lhe quisesse dar uns instantes de privacidade.
— Suponho que sou leal a mim mesma — disse ela.
— Uma resposta interessante. — Os olhos escuros deslocaram-se do computador para a cara dela. — E de que maneira é leal a si mesma?
— Tento viver segundo um determinado código.
— Como por exemplo?
— Nunca tentaria magoar uma pessoa intencionalmente.
— Mesmo que ela a magoasse a si?
— Sim — respondeu. — Mesmo que ela me magoasse.
— E se a Jihan desconfiasse que uma pessoa tinha feito qualquer coisa errada? Tentaria magoá-la nesse caso?
Ela conseguiu sorrir contra vontade.
— Isto é a parte pessoal ou a parte profissional daquilo que me queria falar? — perguntou.
A pergunta pareceu desconcertá-lo. Desviou o olhar para a televisão.
— E em relação ao seu país? — perguntou. — É leal ao seu país?
— Gosto muito da Alemanha — respondeu ela.
— Tem passaporte alemão e fala a língua como uma alemã, Jihan, mas não é alemã. É síria.
Fez uma pausa e depois acrescentou:
— Como eu.
— Foi por isso que me contratou?
— Contratei-a — respondeu ele de modo incisivo — porque precisava de uma pessoa com a sua capacidade linguística para me ajudar a trabalhar aqui na Áustria. Tem-se mostrado muitíssimo valiosa para mim, Jihan, e é por isso que estou a pensar em criar um novo cargo para si.
— Que tipo de cargo?
— Ficaria a trabalhar diretamente comigo.
— E a fazer o quê?
— Seja o que for que eu precise.
— Não sou secretária, senhor Al-Siddiqi.
— Nem eu a trataria como tal. Iria ajudar-me a gerir as carteiras de investimentos dos meus clientes.
Olhou-a atentamente, como se quisesse ler-lhe os pensamentos.
— Isso interessar-lhe-ia?
— E quem iria ser a gestora de conta?
— Uma pessoa nova.
Ela baixou a cabeça e deu a resposta para as mãos:
— Sinto-me muito lisonjeada por pensar em mim para esse cargo, senhor Al-Siddiqi.
— Não parece tremendamente entusiasmada com a ideia. De facto, Jihan, parece muito pouco à vontade.
— De maneira nenhuma — respondeu ela. — Estou só a questionar-me por que razão o senhor iria querer uma pessoa como eu para um cargo tão importante.
— E porque não você? — contrapôs ele.
— Não tenho experiência de gestão de ativos.
— Tem uma coisa muitíssimo mais valiosa do que a experiência.
— O quê, senhor Al-Siddiqi?
— Lealdade e honestidade, as duas qualidades que mais valorizo num empregado. Preciso de uma pessoa em quem possa confiar.
Fez um V invertido juntando as pontas dos dedos delgados e apoiou-o na ponta do nariz.
— Posso confiar em si, não posso, Jihan?
— Claro que sim, senhor Al-Siddiqi.
— Isso quer dizer que está interessada?
— Muito — respondeu ela. — Mas gostava de ter um dia ou dois para pensar nisso.
— Lamento, mas não posso esperar esse tempo todo por uma resposta.
— Quanto tempo tenho?
— Diria que tem uns dez segundos.
Voltou a sorrir. Parecia que ensinara a expressão a si próprio praticando-a à frente de um espelho.
— E se eu disser que sim? — perguntou Jihan.
— Vou precisar de verificar os seus antecedentes antes de continuar.
Calou-se por uns instantes.
— Não teria problemas com isso, pois não?
— Parti do princípio de que tinha passado por uma verificação de antecedentes antes de o senhor me ter contratado.
— E passou.
— Então, porque tem de haver mais uma?
— Porque esta vai ser diferente.
Fez aquilo soar como se fosse uma ameaça. E, se calhar, até era.
Na sala de estar da casa segura no Attersee, Gabriel tinha adotado involuntariamente a mesma pose de Waleed al-Siddiqi: pontas dos dedos a premir a ponta do nariz, olhos fixos em frente. Estavam fixos não em Jihan Nawaz, mas no computador que emitia o som da voz dela. Eli Lavon estava sentado ao lado dele, a roer qualquer coisa do lado de dentro da bochecha. E, sentado ao lado de Lavon, estava Yaakov Rossman, a pessoa da equipa que melhor falava árabe. Como de costume, Yaakov parecia estar a pensar num ato de violência.
— Pode ser uma coincidência — disse Lavon sem convicção.
— Pode ser — repetiu Gabriel. — Ou é possível que o senhor Al-Siddiqi não goste da companhia com quem Jihan tem andado.
— Ter uma amiga não é contra as regras.
— A não ser que essa amiga trabalhe para os serviços secretos do Estado de Israel. Nesse caso, desconfio que ele ia ter problemas com isso.
— E porque havia ele de supor que a Dina é israelita?
— Ele é sírio, Eli. Supõe sempre automaticamente o pior.
Do computador veio o barulho de Jihan a sair do gabinete do senhor Al-Siddiqi e a voltar para a secretária. Gabriel posicionou a barra do leitor de áudio nos 5m09s e carregou no play.
— Considera-se uma pessoa honesta?
— Muito.
— Nunca violaria a privacidade dos nossos clientes?
— Claro que não.
— E nunca discutiria os nossos negócios com alguém que não fosse do banco?
— Nunca.
— Nem com um familiar?
— Não.
— Nem com um amigo?
Gabriel carregou no ícone do stop e olhou para Lavon.
— Vamos aceitar que isto não parece lá muito encorajador — disse Lavon.
— E isto?
Gabriel carregou no play.
— E de que maneira é leal a si mesma?
— Tento viver segundo um determinado código.
— Como por exemplo?
— Nunca tentaria magoar uma pessoa intencionalmente.
— Mesmo que ela a magoasse a si?
— Sim. Mesmo que ela me magoasse.
— E se a Jihan desconfiasse que uma pessoa tinha feito qualquer coisa errada? Tentaria magoá-la nesse caso?
stop.
— Se ele desconfia que ela é desleal — perguntou Lavon — porque lhe está a oferecer uma promoção? Porque não lhe indica a porta da rua?
— Mantém os teus amigos perto e os teus inimigos ainda mais perto.
— Foi o Shamron quem disse isso?
— É possível.
— E onde queres chegar com isso?
— O Al-Siddiqi não a pode despedir porque tem medo que ela saiba demasiado. Por isso, está a usar a promoção como uma desculpa para a voltar a investigar.
— Ele não precisa de desculpas. Só precisa de fazer uns quantos telefonemas para os amigos dele da Mukhabarat.
— Quanto tempo temos, Eli?
— É difícil dizer. Afinal de contas, eles estão muito ocupados neste momento.
— Quanto tempo? — insistiu Gabriel.
— Uns dias, talvez uma semana.
Gabriel aumentou o volume do som da ligação em direto do telefone de Jihan. Ela estava a arrumar a carteira e a dar as boas-noites a Herr Weber.
— Não há problema nenhum se a mandarmos voltar e dermos o assunto por terminado — disse Lavon serenamente.
— Também não haverá dinheiro.
Lavon estava outra vez a mordiscar o lado de dentro da bochecha.
— O que vamos fazer? — perguntou por fim.
— Vamos certificar-nos de que não lhe acontece nada de mal.
— Esperemos que os amigos do senhor Al-Siddiqi da Mukhabarat estejam demasiado ocupados para atenderem os telefonemas dele.
— Sim — concordou Gabriel. — Esperemos.
Passavam poucos minutos das cinco quando Jihan Nawaz saiu do edifício do Bank Weber AG. Um elétrico estava à espera na rotunda; seguiu nele para o outro lado do Danúbio, até à Mozartstrasse, e depois atravessou a pé as ruas silenciosas da Innere Stadt, cantarolando baixinho para esconder o medo. Era uma canção que tinha estado a passar na rádio durante o verão inteiro, daquelas que Jihan nunca tinha ouvido quando era miúda. No bairro de Barudi, em Hama, não houvera música, só o Alcorão.
Quando virou para a rua dela, reparou num homem alto e esbelto, com uma pele exangue e olhos cinzentos, que estava a andar no passeio do outro lado. Tinha-o visto várias vezes nos últimos dias; de facto, estivera sentado atrás dela no elétrico nessa manhã quando ia a caminho do emprego. Na manhã anterior, fora o outro com a cara marcada pelas bexigas que a seguira. E no dia anterior a esse, tinha sido um homem pequeno e atarracado que parecia ser capaz de dobrar um desmonta-pneus. No entanto, o seu preferido era o homem que tinha aparecido no banco como Herr Feliks Adler. Era diferente dos outros, pensou. Era um verdadeiro artista.
O medo libertou-a o tempo suficiente para ir buscar o correio à caixa. O chão do átrio estava coberto de folhetos; passou por cima deles, subiu as escadas até ao apartamento e entrou. A sala estava exatamente como a tinha deixado, tal como a cozinha e o quarto. Sentou-se ao computador e foi ao Facebook e ao Twitter e, durante uns minutos, conseguiu convencer-se de que a conversa com o senhor Al-Siddiqi tinha sido um diálogo de trabalho normal. Depois, o medo voltou e as mãos começaram a tremer-lhe.
E se a Jihan desconfiasse que uma pessoa tinha feito qualquer coisa errada? Tentaria magoá-la nesse caso?
Agarrou no telefone e ligou para a mulher que conhecia como Ingrid Roth.
— Não me apetece nada estar sozinha agora. Achas que dá para passar por aí?
— Era capaz de ser melhor não fazeres isso.
— Há algum problema?
— Estou apenas a tentar despachar um trabalho.
— Está tudo bem?
— Está tudo bem.
— Tens a certeza, Ingrid?
— Tenho, pois.
A chamada caiu. Jihan pousou o telefone ao lado do computador e aproximou-se da janela. E, por um breve instante, teve um vislumbre da cara de um homem a observá-la do outro lado da rua. Se calhar, você trabalha para o senhor Al-Siddiqi, pensou quando a cara do homem desapareceu. Se calhar, já estou morta.