O Assalto
62. Brienno, Itália
62
BRIENNO, ITÁLIA
A Igreja de San Giovanni Evangelista era pequena e branca e destacava-se claramente na rua. À direita, estendia-se uma vedação de ferro forjado, atrás da qual ficava o pequeno jardim do presbitério. O padre Marco estava à espera ao portão quando Gabriel e Chiara chegaram. Era novo, trinta e cinco anos no máximo, com uma farta cabeleira de cabelo escuro e bem penteado e uma cara que parecia ansiosa por perdoar todos os pecados.
— Bem-vindos — disse, apertando-lhes a mão à vez. — Façam o favor de me acompanharem.
Levou-os pelo caminho do jardim até à cozinha do presbitério. Era um espaço arrumado, com paredes caiadas de branco, uma mesa de madeira rústica e latas de comida dispostas em prateleiras abertas. O único luxo era uma máquina de café expresso que o padre Marco utilizou para preparar três chávenas de café.
— Lembro-me do dia em que me telefonou — disse ao pôr o café à frente de Gabriel. — Foi dois dias depois de o Signor Bradshaw ser morto, não foi?
— Foi — respondeu Gabriel. — E, por qualquer razão, desligou-me o telefone duas vezes antes de aceitar a minha chamada.
— Já alguma vez recebeu algum telefonema de um homem que tivesse acabado de ser brutalmente assassinado, Signor Allon?
O padre sentou-se à frente de Gabriel e pôs açúcar no café.
— Foi uma experiência perturbadora, no mínimo.
— Parece que tiveram bastante contacto por altura da morte dele.
— Sim.
— Antes e depois.
— A julgar pelo que li nos jornais — disse o padre —, provavelmente telefonei para a villa quando ele estava pendurado no candelabro. É uma ideia horrível.
— Era um paroquiano daqui?
— O Jack Bradshaw não era católico — respondeu o padre. — Foi educado na Igreja de Inglaterra, mas não tenho a certeza de que fosse realmente crente.
— Eram amigos?
— Acho que sim. Mas eu era sobretudo o confessor dele. Não no verdadeiro sentido da palavra — acrescentou o padre rapidamente. — Na verdade, não podia dar-lhe a absolvição pelos crimes dele.
— Estava perturbado na altura em que morreu?
— Profundamente.
— E disse-lhe porquê?
— Disse-me que tinha qualquer coisa que ver com os negócios dele. Era consultor de qualquer coisa. — Esboçou um sorriso em jeito de desculpa. — Lamento, Signor Allon, mas não sou muito conhecedor no que se refere a assuntos de negócios e finanças.
— Já somos dois.
O padre voltou a sorrir e mexeu o café.
— Ele costumava sentar-se no sítio onde está sentado agora. Trazia uma cesta de comida e vinho e conversávamos.
— Sobre quê?
— O passado dele.
— E o que lhe contou ele?
— O suficiente para eu ficar a saber que estava envolvido num trabalho secreto qualquer para o governo dele. Aconteceu-lhe qualquer coisa há muitos anos quando estava no Médio Oriente. Mataram uma mulher. Creio que era francesa.
— Chamava-se Nicole Devereaux.
O padre ergueu os olhos com perspicácia.
— Foi o Signor Bradshaw quem lhe disse isso?
Gabriel sentiu-se tentado a responder afirmativamente, mas não tinha vontade de mentir a um homem com colarinho e sotaina romanos.
— Não. Nunca o conheci.
— Acho que teria gostado dele. Era muito inteligente, mundano, divertido. Mas também carregava um pesado fardo de culpa por causa do que aconteceu à Nicole Devereaux.
— Falou-lhe do caso deles?
O padre hesitou e depois assentiu com a cabeça.
— Pelos vistos, amava-a muito e nunca se perdoou pela morte dela. Nunca casou, nunca teve filhos. De certo modo, vivia como um padre. — Olhou em redor da divisão e acrescentou: — Mas de uma forma mais magnificente, claro.
— Esteve na villa?
— Muitas vezes. Era muito bonita. Mas não dizia muito sobre como o Signor Bradshaw era realmente.
— E como era ele realmente?
— Extremamente generoso. Sozinho, mantinha esta igreja a funcionar. Também dava com liberalidade para as nossas escolas, os nossos hospitais e programas para alimentar e vestir os pobres.
O padre sorriu com tristeza.
— E depois houve o nosso retábulo.
Gabriel olhou para Chiara, que estava a depenicar distraidamente com os dedos na superfície do tampo da mesa como se não estivesse a prestar-lhes atenção. Depois voltou a olhar para o jovem padre e perguntou:
— O que se passou com o retábulo?
— Foi roubado há cerca de um ano. O Signor Bradshaw despendeu imenso tempo a tentar recuperá-lo. Mais tempo do que a polícia — acrescentou o padre. — Lamento dizê-lo, mas o nosso retábulo tinha pouco valor artístico ou monetário.
— E ele conseguiu encontrá-lo?
— Não — respondeu o padre. — Por isso, substituiu-o por um da coleção particular dele.
— E quando foi isso? — perguntou Gabriel.
— Infelizmente, poucos dias antes de ele morrer.
— E onde está o retábulo agora?
— Ali — respondeu o padre, inclinando a cabeça para a direita. — Na igreja.
Entraram por uma porta lateral e atravessaram rapidamente a nave até à capela-mor. Uma mesinha de velas votivas lançava uma luz vermelha tremeluzente sobre o nicho que continha uma imagem de São João, mas o retábulo estava invisível na obscuridade. Mesmo assim, Gabriel conseguiu ver que as dimensões eram aproximadamente certas. A seguir, ouviu o estalido de um interruptor e, na explosão repentina de luz, viu uma crucificação ao estilo de Guido Reni, executada com competência, mas pouca inspirada, que não valia bem o prémio do vendedor. Sentiu um baque no coração. Então, calmamente, olhou para o padre e perguntou:
— Tem um escadote?
Numa empresa de produtos químicos numa zona industrial de Como, Gabriel comprou acetona, álcool, água destilada, óculos, uma proveta e uma máscara protetora. Parou numa loja de material de artes e ofícios, no centro da cidade, onde comprou cavilhas de madeira e um pacote de algodão hidrófilo. Quando voltou para a igreja, o padre Marco tinha desencantado uma escada de mão com seis metros de altura e montara-a à frente do quadro. Gabriel misturou rapidamente uma solução básica de solvente e, agarrando numa cavilha e num maço de algodão, trepou a escada. Com Chiara e o padre a observarem lá em baixo, abriu uma janela no centro do quadro e viu a mão de um anjo, muito danificada, a agarrar uma fita de seda branca. A seguir, abriu uma segunda janela, aproximadamente uns trinta centímetros mais abaixo na tela e uns centímetros para a direita, e viu a cara de uma mulher exausta por causa do parto. A terceira janela revelou uma outra cara — a cara de um recém-nascido, um rapaz, iluminado por uma luz celestial. Gabriel pousou delicadamente as pontas dos dedos na tela e, para sua grande surpresa, começou a chorar desgovernadamente. Depois fechou os olhos com toda a força e soltou um grito de alegria que ecoou pela igreja vazia.
A mão de um anjo, uma mãe, uma criança…
Era o Caravaggio.