O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 16 de 65

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O Assalto

14. Córsega

14

CÓRSEGA

 

Já era perto da meia-noite quando o ferry atracou no porto de Calvi, não sendo propriamente horas para uma visita de carácter social na Córsega, e por isso Gabriel deu entrada num hotel próximo do terminal para ir dormir. De manhã, tomou o pequeno-almoço num pequeno café junto ao cais; depois entrou para o carro e seguiu pela costa ocidental escarpada. Durante algum tempo, a chuva teimou em cair, mas as nuvens foram desaparecendo gradualmente e o mar passou da cor do granito para turquesa. Gabriel parou na povoação de Porto para comprar duas garrafas de rosé corso gelado e depois dirigiu-se para o interior por uma estrada estreita revestida de ambos os lados por olivais e conjuntos de pinheiros-larícios. O ar cheirava à macchia — a densa vegetação rasteira composta por alecrim, esteva e alfazema que cobria grande parte da ilha — e foi vendo nas aldeias muitas mulheres vestidas da cabeça aos pés com o preto da viuvez, sinal de que a vendetta lhes tinha levado algum homem da família. Outrora, essas mulheres talvez tivessem apontado para ele da forma como os corsos fazem para afastar os efeitos do occhju, o mau-olhado, mas agora evitavam fitá-lo durante muito tempo. Sabiam que era amigo de Don Anton Orsati, e os amigos do don podiam viajar para todo o lado na Córsega sem medo de represálias.

Ao longo de mais de dois séculos que o clã Orsati estava associado a duas coisas na ilha da Córsega: azeite e morte. O azeite vinha dos olivais que cresciam com vigor nas suas vastas propriedades; a morte surgia às mãos dos assassinos a seu soldo. Os Orsati matavam em nome dos que não o conseguiam fazer por conta própria: os notáveis que eram demasiado melindrosos para sujar as mãos; as mulheres que não tinham nenhum homem na família para o fazer em nome delas. Ninguém sabia quantos corsos tinham morrido às mãos dos assassinos a soldo dos Orsati, muito menos os próprios Orsati, mas, segundo o que se dizia na região, o número já ia nos milhares. E até poderia ser bem mais elevado não fosse pelo rigoroso processo de escrutínio do clã. Os Orsati atuavam de acordo com um código severo. Recusavam-se a levar a cabo um assassínio sem estarem convencidos de que a pessoa que viera ter com eles tinha sido de facto lesada e que era necessária uma vingança com derramamento de sangue.

No entanto, isso mudou com Don Anton Orsati. Quando assumiu o comando da família, as autoridades francesas já tinham conseguido erradicar as rixas e a vendetta em praticamente toda a ilha, a não ser nas áreas mais isoladas, restando poucos corsos a precisar dos serviços dos taddunaghiu. Com a procura local em declínio acentuado, Orsati não tivera outra escolha senão procurar oportunidades noutro sítio — nomeadamente, do outro lado do mar, na Europa continental. Agora, aceitava quase todas as ofertas de trabalho que lhe passavam pela secretária, por mais desagradáveis que fossem, e os assassinos a seu soldo eram considerados os mais seguros e profissionais do continente. Na verdade, Gabriel era apenas uma de duas pessoas a já ter sobrevivido a um assassínio por contrato às mãos da família Orsati.

Don Anton Orsati vivia nas montanhas, no centro da ilha, rodeado por muralhas de macchia e grupos de guarda-costas. Havia dois de vigia junto ao portão. Quando viram Gabriel, afastaram-se e convidaram-no a entrar. Uma estrada de terra batida fê-lo atravessar um olival que poderia ter sido pintado por Van Gogh e conduziu-o ao pátio de entrada de gravilha da gigantesca villa do don. À porta, havia mais guarda-costas à espera. Revistaram à pressa o que Gabriel trazia e depois um deles, um assassino moreno e de cara afilada que parecia ter uns vinte anos, levou-o ao escritório do don, no andar de cima. Era uma divisão espaçosa, com mobília corsa rústica e uma varanda com vista para o vale privado do don. A madeira da macchia crepitava na lareira de pedra. Enchia o ar com um perfume de alecrim e salva.

No meio do escritório, encontrava-se a grande secretária de madeira de carvalho onde o don trabalhava. Em cima dela, estavam uma garrafa decorativa de azeite Orsati, um telefone que ele raramente utilizava e um livro-mestre encadernado a pele que continha os segredos da sua singular atividade. Os taddunaghiu eram todos funcionários da Orsati Olive Oil Company e os homicídios que levavam a cabo eram registados como encomendas de produtos, o que queria dizer que, no mundo de Orsati, o azeite e o sangue corriam juntos num único e homogéneo empreendimento. Os assassinos eram todos de ascendência corsa, menos um. Devido à sua extensa formação, encarregava-se apenas das missões mais difíceis. E também funcionava como diretor de vendas para o lucrativo mercado da Europa Central.

Tendo em conta os padrões corsos, o don era um homem grande, com quase dois metros de altura e espadaúdo. Usava calças largas, sandálias de cabedal empoeiradas e uma camisa branca engomada que a mulher lhe passava a ferro todas as manhãs e depois outra vez à tarde quando ele acordava da sesta. Tinha cabelo e olhos pretos. Quando Gabriel lhe apertou a mão, parecia ter sido esculpida em pedra.

— Seja bem-vindo de novo à Córsega — disse Orsati ao aceitar as duas garrafas de rosé que Gabriel lhe trouxera. — Eu sabia que não ia conseguir ficar muito tempo longe daqui. Não leve isto a mal, Gabriel, mas sempre achei que tinha um bocadinho de sangue corso nessas veias.

— Posso assegurar-lhe, Don Orsati, que não é esse o caso.

— Não importa. Já é praticamente um de nós. — Baixou a voz e acrescentou: — Os homens que matam em conjunto criam um laço que não pode ser desfeito.

— Isso é mais um dos seus provérbios corsos?

— Os nossos provérbios são sagrados e exatos, o que por si só também é um provérbio. — Sorriu. — Não devia estar em Veneza com a sua mulher?

— E estava — respondeu Gabriel.

— Então o que o traz à Córsega? Negócios ou lazer?

— Negócios, lamento dizê-lo.

— E o que se passa desta vez?

— Um favor.

— Outro? — Gabriel assentiu com a cabeça. — Aqui na Córsega — disse o don, franzindo o sobrolho em sinal de reprovação —, acreditamos que o destino de um homem fica escrito logo à nascença. E você, meu amigo, parece estar fadado a estar sempre a resolver problemas para os outros.

— Há destinos piores, Don Orsati.

— O céu ajuda quem se ajuda a si mesmo.

— Mas que caridoso — retorquiu Gabriel.

— A caridade é para os padres e para os tontos. — Olhou para a pasta que Gabriel trazia na mão. — O que traz aí?

— Um milhão de euros em notas usadas.

— E onde arranjou isso?

— Foi um amigo em Roma.

— Italiano? — Gabriel assentiu com a cabeça. — No final de muitos desastres — afirmou Don Orsati soturnamente —, está sempre um italiano.

— Por acaso, sou casado com uma italiana.

— E é por isso que acendo muitas velas por si. — Gabriel tentou mas não conseguiu suprimir um sorriso. — E como é que ela está? — perguntou o don.

— Pelos vistos, irrito-a até mais não. Tirando isso, está bastante bem.

— É da gravidez — retorquiu o don, assentindo com a cabeça pensativamente. — Assim que as crianças nascerem, vai ser tudo diferente.

— Em que sentido?

— Vai ser como se você não existisse. — O corso olhou outra vez para a pasta. — Porque anda por aí com um milhão de euros em notas usadas?

— Pediram-me para encontrar uma coisa valiosa e vai ser preciso bastante dinheiro para a recuperar.

— Outra rapariga desaparecida? — perguntou o don.

— Não — respondeu Gabriel. — Isto.

Gabriel entregou a Orsati uma fotografia de uma moldura vazia exposta sobre o altar do Oratorio di San Lorenzo. Uma expressão de reconhecimento passou como um relâmpago pelas feições pesadas do corso.

— A Natividade? — perguntou.

— Nunca tinha percebido que era um homem dado às artes, Don Orsati.

— E não sou — admitiu ele —, mas tenho seguido esse caso com atenção ao longo dos anos.

— Por alguma razão especial?

— Por acaso, estava em Palermo na noite em que o Caravaggio foi roubado. Aliás — acrescentou Don Orsati, com um sorriso —, até tenho quase a certeza de que fui eu quem descobriu que ele tinha desaparecido.

 

Na varanda com vista para o vale, Don Anton Orsati relatou que, no final do verão de 1969, tinha aparecido na Córsega um empresário siciliano chamado Renato Francona. O siciliano queria vingar a filha linda e nova, assassinada umas semanas antes por Sandro di Luca, um membro importante da Cosa Nostra. Don Carlu Orsati, na altura o chefe do clã Orsati, não quis tomar parte nisso. Mas o filho, um talentoso assassino chamado Anton, acabou por convencer o pai a deixá-lo levar a cabo o contrato. Na noite em questão, correu tudo conforme planeado, exceto o tempo, que fez com que fosse impossível sair de Palermo. Sem nada melhor para fazer, o jovem Anton pôs-se à procura de uma igreja para ir confessar os pecados. E a igreja em que entrou foi o Oratorio di San Lorenzo.

— E foi precisamente isto — disse Orsati, mostrando a fotografia da moldura vazia — que eu vi nessa noite. Como poderá calcular, não informei a polícia do roubo.

— E o que aconteceu ao Renato Francona?

— A Cosa Nostra matou-o umas semanas depois.

— Deram por adquirido que ele estava por trás do assassínio do Di Luca?

Orsati assentiu com a cabeça ponderosamente.

— Mas pelo menos morreu com honra.

— Porquê?

— Porque vingou o assassínio da filha.

— E depois ainda perguntam por que razão a Sicília não é a grande potência económica e intelectual do Mediterrâneo.

— Não é a cantar que se ganha dinheiro — retorquiu o don.

— E onde quer chegar com isso?

— Há já várias gerações que a vendetta tem aguentado o negócio desta família — respondeu o don. — E o assassínio do Sandro di Luca veio provar que éramos capazes de atuar fora da Córsega sem sermos detetados. O meu pai foi sempre contra isso até morrer. Mas quando ele nos deixou transformei o negócio da família numa coisa universal.

— Se não estivermos a crescer, estamos a morrer.

— Isso é algum provérbio judeu?

— É capaz — respondeu Gabriel.

A mesa estava posta, para um almoço corso tradicional de comida com condimentos da macchia. Gabriel serviu-se dos legumes e dos queijos, mas ignorou a salsicha.

— É kosher — disse o don, enfiando várias garfadas de carne no prato de Gabriel.

— Não sabia que havia rabis na Córsega.

— Imensos — assegurou-lhe o don.

Gabriel pôs a salsicha de parte e perguntou ao don se continuava a ir à igreja depois de acabar com uma vida.

— Se fizesse isso — respondeu o corso —, passava mais tempo de joelhos do que uma lavadeira. Além do mais, nesta altura já estou para lá da redenção. Deus pode fazer o que quiser comigo.

— Adorava ver a conversa entre si e Deus.

— Que a possamos ter com um almoço corso a acompanhar.

Orsati sorriu e encheu novamente o copo de Gabriel com rosé.

— Vou contar-lhe um segredo — disse, voltando a pousar a garrafa no meio da mesa. — A maioria das pessoas que matamos merece morrer. À sua pequena maneira, o clã Orsati tem feito do mundo um lugar muito melhor.

— E também ia achar isso se me tivessem matado?

— Não seja tonto — respondeu o don. — Deixá-lo ficar vivo foi a minha melhor decisão.

— Se bem me lembro, Don Orsati, o senhor não teve nada que ver com a decisão de não me matarem. Aliás — acrescentou Gabriel com contundência —, até se mostrou resolutamente contra.

— Até eu, o infalível Don Anton Orsati, me engano de vez em quando, embora nunca tenha feito nada tão idiota como aceitar encontrar um Caravaggio para os italianos.

— Não tive propriamente grande escolha na matéria.

— É uma ideia condenada à partida.

— A minha especialidade.

— Há mais de quarenta anos que os Carabinieri andam à procura desse quadro e nunca o conseguiram encontrar. Na minha opinião, o mais provável é que já tenha sido destruído há muito tempo.

— Não é isso que se diz por aí.

— E o que tem ouvido dizer?

Gabriel respondeu à pergunta revelando ao don as mesmas informações que revelara ao general Ferrari, em San Remo. A seguir, explicou-lhe o plano que tinha para recuperar o quadro. O don ficou claramente intrigado.

— E o que tem isso que ver com os Orsati? — perguntou.

— Preciso de lhe pedir que me empreste um dos seus homens.

— Alguém em específico?

— O diretor de vendas para a Europa Central.

— Mas que surpresa. — Gabriel ficou calado. — E se eu concordar?

— Uma mão lava a outra — respondeu Gabriel — e as duas lavam a cara.

O don sorriu.

— Afinal de contas, se calhar você é mesmo corso.

Gabriel contemplou o vale e sorriu também.

— Não tenho essa sorte, Don Orsati.