O Assalto
14. Córsega
14
CÓRSEGA
Já era perto da meia-noite quando o ferry atracou no porto de Calvi, não sendo propriamente horas para uma visita de carácter social na Córsega, e por isso Gabriel deu entrada num hotel próximo do terminal para ir dormir. De manhã, tomou o pequeno-almoço num pequeno café junto ao cais; depois entrou para o carro e seguiu pela costa ocidental escarpada. Durante algum tempo, a chuva teimou em cair, mas as nuvens foram desaparecendo gradualmente e o mar passou da cor do granito para turquesa. Gabriel parou na povoação de Porto para comprar duas garrafas de rosé corso gelado e depois dirigiu-se para o interior por uma estrada estreita revestida de ambos os lados por olivais e conjuntos de pinheiros-larícios. O ar cheirava à macchia — a densa vegetação rasteira composta por alecrim, esteva e alfazema que cobria grande parte da ilha — e foi vendo nas aldeias muitas mulheres vestidas da cabeça aos pés com o preto da viuvez, sinal de que a vendetta lhes tinha levado algum homem da família. Outrora, essas mulheres talvez tivessem apontado para ele da forma como os corsos fazem para afastar os efeitos do occhju, o mau-olhado, mas agora evitavam fitá-lo durante muito tempo. Sabiam que era amigo de Don Anton Orsati, e os amigos do don podiam viajar para todo o lado na Córsega sem medo de represálias.
Ao longo de mais de dois séculos que o clã Orsati estava associado a duas coisas na ilha da Córsega: azeite e morte. O azeite vinha dos olivais que cresciam com vigor nas suas vastas propriedades; a morte surgia às mãos dos assassinos a seu soldo. Os Orsati matavam em nome dos que não o conseguiam fazer por conta própria: os notáveis que eram demasiado melindrosos para sujar as mãos; as mulheres que não tinham nenhum homem na família para o fazer em nome delas. Ninguém sabia quantos corsos tinham morrido às mãos dos assassinos a soldo dos Orsati, muito menos os próprios Orsati, mas, segundo o que se dizia na região, o número já ia nos milhares. E até poderia ser bem mais elevado não fosse pelo rigoroso processo de escrutínio do clã. Os Orsati atuavam de acordo com um código severo. Recusavam-se a levar a cabo um assassínio sem estarem convencidos de que a pessoa que viera ter com eles tinha sido de facto lesada e que era necessária uma vingança com derramamento de sangue.
No entanto, isso mudou com Don Anton Orsati. Quando assumiu o comando da família, as autoridades francesas já tinham conseguido erradicar as rixas e a vendetta em praticamente toda a ilha, a não ser nas áreas mais isoladas, restando poucos corsos a precisar dos serviços dos taddunaghiu. Com a procura local em declínio acentuado, Orsati não tivera outra escolha senão procurar oportunidades noutro sítio — nomeadamente, do outro lado do mar, na Europa continental. Agora, aceitava quase todas as ofertas de trabalho que lhe passavam pela secretária, por mais desagradáveis que fossem, e os assassinos a seu soldo eram considerados os mais seguros e profissionais do continente. Na verdade, Gabriel era apenas uma de duas pessoas a já ter sobrevivido a um assassínio por contrato às mãos da família Orsati.
Don Anton Orsati vivia nas montanhas, no centro da ilha, rodeado por muralhas de macchia e grupos de guarda-costas. Havia dois de vigia junto ao portão. Quando viram Gabriel, afastaram-se e convidaram-no a entrar. Uma estrada de terra batida fê-lo atravessar um olival que poderia ter sido pintado por Van Gogh e conduziu-o ao pátio de entrada de gravilha da gigantesca villa do don. À porta, havia mais guarda-costas à espera. Revistaram à pressa o que Gabriel trazia e depois um deles, um assassino moreno e de cara afilada que parecia ter uns vinte anos, levou-o ao escritório do don, no andar de cima. Era uma divisão espaçosa, com mobília corsa rústica e uma varanda com vista para o vale privado do don. A madeira da macchia crepitava na lareira de pedra. Enchia o ar com um perfume de alecrim e salva.
No meio do escritório, encontrava-se a grande secretária de madeira de carvalho onde o don trabalhava. Em cima dela, estavam uma garrafa decorativa de azeite Orsati, um telefone que ele raramente utilizava e um livro-mestre encadernado a pele que continha os segredos da sua singular atividade. Os taddunaghiu eram todos funcionários da Orsati Olive Oil Company e os homicídios que levavam a cabo eram registados como encomendas de produtos, o que queria dizer que, no mundo de Orsati, o azeite e o sangue corriam juntos num único e homogéneo empreendimento. Os assassinos eram todos de ascendência corsa, menos um. Devido à sua extensa formação, encarregava-se apenas das missões mais difíceis. E também funcionava como diretor de vendas para o lucrativo mercado da Europa Central.
Tendo em conta os padrões corsos, o don era um homem grande, com quase dois metros de altura e espadaúdo. Usava calças largas, sandálias de cabedal empoeiradas e uma camisa branca engomada que a mulher lhe passava a ferro todas as manhãs e depois outra vez à tarde quando ele acordava da sesta. Tinha cabelo e olhos pretos. Quando Gabriel lhe apertou a mão, parecia ter sido esculpida em pedra.
— Seja bem-vindo de novo à Córsega — disse Orsati ao aceitar as duas garrafas de rosé que Gabriel lhe trouxera. — Eu sabia que não ia conseguir ficar muito tempo longe daqui. Não leve isto a mal, Gabriel, mas sempre achei que tinha um bocadinho de sangue corso nessas veias.
— Posso assegurar-lhe, Don Orsati, que não é esse o caso.
— Não importa. Já é praticamente um de nós. — Baixou a voz e acrescentou: — Os homens que matam em conjunto criam um laço que não pode ser desfeito.
— Isso é mais um dos seus provérbios corsos?
— Os nossos provérbios são sagrados e exatos, o que por si só também é um provérbio. — Sorriu. — Não devia estar em Veneza com a sua mulher?
— E estava — respondeu Gabriel.
— Então o que o traz à Córsega? Negócios ou lazer?
— Negócios, lamento dizê-lo.
— E o que se passa desta vez?
— Um favor.
— Outro? — Gabriel assentiu com a cabeça. — Aqui na Córsega — disse o don, franzindo o sobrolho em sinal de reprovação —, acreditamos que o destino de um homem fica escrito logo à nascença. E você, meu amigo, parece estar fadado a estar sempre a resolver problemas para os outros.
— Há destinos piores, Don Orsati.
— O céu ajuda quem se ajuda a si mesmo.
— Mas que caridoso — retorquiu Gabriel.
— A caridade é para os padres e para os tontos. — Olhou para a pasta que Gabriel trazia na mão. — O que traz aí?
— Um milhão de euros em notas usadas.
— E onde arranjou isso?
— Foi um amigo em Roma.
— Italiano? — Gabriel assentiu com a cabeça. — No final de muitos desastres — afirmou Don Orsati soturnamente —, está sempre um italiano.
— Por acaso, sou casado com uma italiana.
— E é por isso que acendo muitas velas por si. — Gabriel tentou mas não conseguiu suprimir um sorriso. — E como é que ela está? — perguntou o don.
— Pelos vistos, irrito-a até mais não. Tirando isso, está bastante bem.
— É da gravidez — retorquiu o don, assentindo com a cabeça pensativamente. — Assim que as crianças nascerem, vai ser tudo diferente.
— Em que sentido?
— Vai ser como se você não existisse. — O corso olhou outra vez para a pasta. — Porque anda por aí com um milhão de euros em notas usadas?
— Pediram-me para encontrar uma coisa valiosa e vai ser preciso bastante dinheiro para a recuperar.
— Outra rapariga desaparecida? — perguntou o don.
— Não — respondeu Gabriel. — Isto.
Gabriel entregou a Orsati uma fotografia de uma moldura vazia exposta sobre o altar do Oratorio di San Lorenzo. Uma expressão de reconhecimento passou como um relâmpago pelas feições pesadas do corso.
— A Natividade? — perguntou.
— Nunca tinha percebido que era um homem dado às artes, Don Orsati.
— E não sou — admitiu ele —, mas tenho seguido esse caso com atenção ao longo dos anos.
— Por alguma razão especial?
— Por acaso, estava em Palermo na noite em que o Caravaggio foi roubado. Aliás — acrescentou Don Orsati, com um sorriso —, até tenho quase a certeza de que fui eu quem descobriu que ele tinha desaparecido.
Na varanda com vista para o vale, Don Anton Orsati relatou que, no final do verão de 1969, tinha aparecido na Córsega um empresário siciliano chamado Renato Francona. O siciliano queria vingar a filha linda e nova, assassinada umas semanas antes por Sandro di Luca, um membro importante da Cosa Nostra. Don Carlu Orsati, na altura o chefe do clã Orsati, não quis tomar parte nisso. Mas o filho, um talentoso assassino chamado Anton, acabou por convencer o pai a deixá-lo levar a cabo o contrato. Na noite em questão, correu tudo conforme planeado, exceto o tempo, que fez com que fosse impossível sair de Palermo. Sem nada melhor para fazer, o jovem Anton pôs-se à procura de uma igreja para ir confessar os pecados. E a igreja em que entrou foi o Oratorio di San Lorenzo.
— E foi precisamente isto — disse Orsati, mostrando a fotografia da moldura vazia — que eu vi nessa noite. Como poderá calcular, não informei a polícia do roubo.
— E o que aconteceu ao Renato Francona?
— A Cosa Nostra matou-o umas semanas depois.
— Deram por adquirido que ele estava por trás do assassínio do Di Luca?
Orsati assentiu com a cabeça ponderosamente.
— Mas pelo menos morreu com honra.
— Porquê?
— Porque vingou o assassínio da filha.
— E depois ainda perguntam por que razão a Sicília não é a grande potência económica e intelectual do Mediterrâneo.
— Não é a cantar que se ganha dinheiro — retorquiu o don.
— E onde quer chegar com isso?
— Há já várias gerações que a vendetta tem aguentado o negócio desta família — respondeu o don. — E o assassínio do Sandro di Luca veio provar que éramos capazes de atuar fora da Córsega sem sermos detetados. O meu pai foi sempre contra isso até morrer. Mas quando ele nos deixou transformei o negócio da família numa coisa universal.
— Se não estivermos a crescer, estamos a morrer.
— Isso é algum provérbio judeu?
— É capaz — respondeu Gabriel.
A mesa estava posta, para um almoço corso tradicional de comida com condimentos da macchia. Gabriel serviu-se dos legumes e dos queijos, mas ignorou a salsicha.
— É kosher — disse o don, enfiando várias garfadas de carne no prato de Gabriel.
— Não sabia que havia rabis na Córsega.
— Imensos — assegurou-lhe o don.
Gabriel pôs a salsicha de parte e perguntou ao don se continuava a ir à igreja depois de acabar com uma vida.
— Se fizesse isso — respondeu o corso —, passava mais tempo de joelhos do que uma lavadeira. Além do mais, nesta altura já estou para lá da redenção. Deus pode fazer o que quiser comigo.
— Adorava ver a conversa entre si e Deus.
— Que a possamos ter com um almoço corso a acompanhar.
Orsati sorriu e encheu novamente o copo de Gabriel com rosé.
— Vou contar-lhe um segredo — disse, voltando a pousar a garrafa no meio da mesa. — A maioria das pessoas que matamos merece morrer. À sua pequena maneira, o clã Orsati tem feito do mundo um lugar muito melhor.
— E também ia achar isso se me tivessem matado?
— Não seja tonto — respondeu o don. — Deixá-lo ficar vivo foi a minha melhor decisão.
— Se bem me lembro, Don Orsati, o senhor não teve nada que ver com a decisão de não me matarem. Aliás — acrescentou Gabriel com contundência —, até se mostrou resolutamente contra.
— Até eu, o infalível Don Anton Orsati, me engano de vez em quando, embora nunca tenha feito nada tão idiota como aceitar encontrar um Caravaggio para os italianos.
— Não tive propriamente grande escolha na matéria.
— É uma ideia condenada à partida.
— A minha especialidade.
— Há mais de quarenta anos que os Carabinieri andam à procura desse quadro e nunca o conseguiram encontrar. Na minha opinião, o mais provável é que já tenha sido destruído há muito tempo.
— Não é isso que se diz por aí.
— E o que tem ouvido dizer?
Gabriel respondeu à pergunta revelando ao don as mesmas informações que revelara ao general Ferrari, em San Remo. A seguir, explicou-lhe o plano que tinha para recuperar o quadro. O don ficou claramente intrigado.
— E o que tem isso que ver com os Orsati? — perguntou.
— Preciso de lhe pedir que me empreste um dos seus homens.
— Alguém em específico?
— O diretor de vendas para a Europa Central.
— Mas que surpresa. — Gabriel ficou calado. — E se eu concordar?
— Uma mão lava a outra — respondeu Gabriel — e as duas lavam a cara.
O don sorriu.
— Afinal de contas, se calhar você é mesmo corso.
Gabriel contemplou o vale e sorriu também.
— Não tenho essa sorte, Don Orsati.