O Assalto
57. Annecy, França
57
ANNECY, FRANÇA
Era o mesmo Mercedes que o tinha levado para a reunião na Société Générale, conduzido pelo mesmo agente de Paris dos serviços secretos sírios. Mikhail enfiou-se no banco de trás e, com uma arma apontada à coluna do motorista, revistou Waleed al-Siddiqi minuciosa e invasivamente. Quando acabou, os dois homens saíram do Mercedes e ficaram parados no passeio enquanto o carro se afastava ao longo da rua. Depois, Mikhail escoltou Al-Siddiqi até ao outro lado da praça da igreja vazia e depositou-o na mesa do Savoie Bar onde Gabriel e Keller estavam sentados à espera. O sírio não tinha ar de quem se sentisse especialmente bem, mas isso não era surpresa. Os banqueiros que perdiam oito mil milhões de dólares numa única tarde raramente tinham.
— Waleed — disse Gabriel animadamente. — Foi simpático da tua parte teres vindo. Desculpa ter-te arrastado até aqui, mas é melhor fazer estas coisas cara a cara.
— Onde está o dinheiro?
— Onde está a minha rapariga?
— Não sei.
— Resposta errada.
— Estou a dizer a verdade.
— Dá-me o teu telefone.
O banqueiro sírio entregou-o. Gabriel abriu o registo de chamadas recentes e viu os números que Al-Siddiqi estivera a marcar freneticamente desde que descobrira que oito mil milhões de dólares que pertenciam ao presidente sírio tinham de repente desaparecido.
— Qual deles? — perguntou Gabriel.
— Esse — retorquiu o banqueiro, tocando no ecrã.
— E quem vai atender?
— Um cavalheiro chamado Omari.
— E como ganha esse cavalheiro a vida?
— Mukhabarat.
— E fez-lhe mal?
— Lamento dizê-lo, mas é isso que ele faz.
Gabriel marcou o número. Dois toques e depois uma voz.
— Senhor Omari, presumo?
— Quem fala?
— Chamo-me Gabriel Allon. Se calhar, já ouviu falar de mim.
Silêncio.
— Vou considerar que isso é um sim — disse Gabriel. — Agora, se tiver a amabilidade, queira passar o telefone à Jihan por uns instantes. Quero ter a certeza de que o senhor a tem realmente.
Houve um breve silêncio. A seguir, Gabriel ouviu o som da voz de Jihan.
— Sou eu — foi a única coisa que ela disse.
— Onde está?
— Não sei bem.
— Fizeram-lhe mal?
— Não foi assim tão mau.
— Aguente mais um bocadinho, Jihan. Já está quase em casa.
O telefone mudou de mãos. O senhor Omari voltou a surgir na linha.
— Para onde quer que vamos? — perguntou.
— Para a Rue Grenette, no centro de Annecy. Há um sítio ao pé da igreja chamado Chez Lise. Estacione à frente e espere pelo meu telefonema. E não se atreva sequer a tocar nela outra vez. Se o fizer, o objetivo da minha vida vai passar a ser encontrá-lo e matá-lo. Isto é só para ficarmos entendidos.
Gabriel interrompeu a ligação e devolveu o telefone a Al-Siddiqi.
— Bem me parecia que a tua cara não me era estranha — disse o sírio.
Olhou para Keller e acrescentou:
— E a dele também não. Aliás, até é muito parecido com um homem que estava a tentar vender um Van Gogh roubado em Paris há umas semanas.
— E tu foste suficientemente estúpido para o comprar. Mas não te preocupes — acrescentou Gabriel. — Não era o verdadeiro.
— E a Iniciativa Empresarial Europeia em Londres? Calculo que isso também tenha sido uma falsificação. — Gabriel não disse nada. — Os meus cumprimentos, Allon. Sempre ouvi dizer que tinhas uma mente criativa.
— Quantos tens, Waleed?
— Quadros?
Gabriel assentiu com a cabeça.
— Suficientes para encher um pequeno museu.
— Chegam para manter o estilo de vida a que a família do presidente está habituada — comentou Gabriel friamente —, só para o caso de alguém chegar a descobrir as contas bancárias.
— Sim — retorquiu o sírio. — Só para o caso.
— E onde estão os quadros agora?
— Aqui e ali — respondeu Al-Siddiqi. — Principalmente em caixas-fortes de bancos.
— E o Caravaggio?
— Não sei.
Gabriel inclinou-se ameaçadoramente sobre a mesa.
— Considero-me um tipo razoável, Waleed, mas o meu amigo, o senhor Bartholomew, é conhecido por ferver em pouca água. E também acontece que é uma das poucas pessoas no mundo que é mais perigosa do que eu, por isso, não é boa altura para te armares em parvo.
— Estou a dizer a verdade, Allon. Não sei onde está o Caravaggio.
— E quem foi a última pessoa que o teve?
— Isso é difícil de dizer. Mas se tivesse de arriscar um palpite, foi o Jack Bradshaw.
— E foi por isso que o mandaste matar.
— Eu? — Al-Siddiqi abanou a cabeça. — Não tive nada que ver com a morte do Bradshaw. Porque havia de o matar? Era a minha única ligação à parte desonesta do mundo da arte. Estava a planear usá-lo para vender os quadros se alguma vez viesse a precisar de arranjar dinheiro vivo rapidamente.
— Então quem o matou?
— Foi o senhor Omari.
— E por que razão um homem de nível intermédio na Mukhabarat ia matar uma pessoa como o Jack Bradshaw?
— Porque o mandaram.
— Quem?
— O presidente da Síria, claro.
Gabriel não queria que Jihan ficasse nas mãos dos assassinos nem mais um minuto do que o necessário, mas agora já não era possível recuar; tinha de saber. E por isso, enquanto a noite se adensava à volta deles e os sinos tocavam na torre da igreja, escutou atentamente enquanto o banqueiro explicava que nunca tencionaram usar o Caravaggio como fonte de dinheiro do submundo. A ideia era voltar a levá-lo às escondidas para a Síria, restaurá-lo e pendurá-lo num dos palácios do presidente. E quando o quadro desapareceu, o presidente teve um ataque de fúria violento. Depois ordenara ao senhor Omari, um respeitado agente da Mukhabarat e antigo guarda-costas de confiança do pai, que descobrisse para onde o quadro tinha ido. As buscas começaram na residência de Jack Bradshaw, no lago Como.
— Foi o Omari quem matou o Bradshaw? — perguntou Gabriel.
— E o falsificador dele também — respondeu Al-Siddiqi.
— Então e o Samir?
— Já não tinha qualquer utilidade.
E tu também não, pensou Gabriel. Depois perguntou:
— E agora onde está o Caravaggio?
— O Omari nunca conseguiu encontrá-lo. O Caravaggio desapareceu. Quem sabe? — acrescentou Al-Siddiqi com um encolher de ombros. — Talvez nunca tenha havido um Caravaggio.
Nesse preciso momento, um carro parou na Rue Grenette, um Mercedes preto com as janelas de vidros fumados. Gabriel agarrou no telemóvel de Al-Siddiqi e marcou o número. Omari atendeu imediatamente. Gabriel disse-lhe para passar o telefone a Jihan.
— Sou eu — disse ela outra vez.
— Onde estão? — perguntou Gabriel.
— Estacionados numa rua de Annecy.
— Estão perto de um restaurante?
— Sim.
— E como se chama?
— Chez Lise.
— Só mais uns minutos, Jihan. Depois já pode vir para casa.
A ligação foi interrompida. Gabriel entregou o telemóvel a Al-Siddiqi e explicou-lhe os termos do acordo.
Eram bastante simples: 8,2 mil milhões por uma mulher, menos 50 milhões para cobrir os custos da relocalização e segurança dela durante o resto da vida. Al-Siddiqi concordou sem negociações nem reservas. Para dizer a verdade, estava atónito com a generosidade da oferta.
— E para onde queres que mande o dinheiro? — perguntou Gabriel.
— Para o Gazprombank, em Moscovo.
— Número da conta?
Al-Siddiqi entregou a Gabriel um papel com o número lá escrito. Gabriel enviou-o para a Avenida Rei Saul e disse a Uzi Navot para carregar no botão uma segunda vez. Só foram precisos dez segundos. A seguir, o dinheiro desapareceu.
— Telefona ao teu homem no Gazprombank — disse Gabriel. — Ele vai dizer-te que os ativos do banco acabaram de aumentar muitíssimo.
Era meia-noite em Moscovo, mas o contacto de Al-Siddiqi estava sentado à secretária, à espera da chamada. Gabriel conseguiu ouvir-lhe a excitação na voz pelo telefone de Al-Siddiqi. Perguntou para consigo quanto do dinheiro iria ser tirado pelo presidente russo antes de o sírio conseguir transferi-lo para paragens mais seguras.
— Satisfeito? — perguntou Gabriel.
— Mas que impressionante — respondeu o banqueiro.
— Poupa-me os teus elogios, Waleed. Liga mas é para o senhor Omari e diz-lhe para abrir o raio da porta.
Trinta segundos depois, a porta abriu-se e um sapato confortável desceu na direção da rua. Depois, ela saiu numa mancha indistinta, com os óculos de sol à estrela de cinema a taparem-lhe as equimoses na cara e a mala pendurada ao ombro. Era o ombro esquerdo, reparou Gabriel, porque a mão direita estava demasiado envolta em ligaduras para servir para alguma coisa. Começou a atravessar a praça da igreja, com os saltos a ressoarem nas pedras da calçada, mas Mikhail levou-a rapidamente para um carro que estava à espera e ela desapareceu. Passado um momento, Al-Siddiqi ocupou o lugar dela no Mercedes e também desapareceu, deixando Gabriel e Keller sozinhos no café.
— Achas que fazem operações destas no MI6? — perguntou Keller.
— Só quando nós estamos envolvidos.
— Não estás arrependido?
— De quê, Christopher?
— Oito mil milhões de dólares por uma única vida.
— Não — respondeu Gabriel, sorrindo. — Foi o melhor acordo que já fiz.