O Assalto
3. Veneza
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VENEZA
O quartel regional dos Carabinieri, a polícia militar nacional italiana, ficava no sestiere de Castello, não muito longe do Campo San Zaccaria. O general Cesare Ferrari saiu do edifício à uma em ponto. Tinha abandonado o uniforme azul com as várias medalhas e insígnias e trazia antes um fato de executivo. Estava a agarrar com força uma pasta de aço inoxidável com uma mão. A outra, à qual faltavam dois dedos, tinha-a enfiada no bolso de um sobretudo de corte elegante. Tirou de lá a mão durante o tempo necessário para a estender a Gabriel. Fez um sorriso breve e formal. Como de costume, não teve influência no olho direito prostético. Até Gabriel tinha dificuldade em aguentar aquela mirada inerte e inflexível. Era como estar a ser examinado pelo olho que tudo vê de um Deus impiedoso.
— Está com bom aspeto — disse o general Ferrari. — Dá para ver que estar de volta a Veneza lhe faz bem.
— E como sabia o senhor que eu aqui estava?
O segundo sorriso do general durou pouco mais do que o primeiro.
— Há muito pouca coisa que se passa em Itália que eu não saiba, sobretudo no que diz respeito a si.
— E como é que o senhor sabia? — perguntou Gabriel outra vez.
— Quando pediu autorização aos nossos serviços secretos para regressar a Veneza, eles transmitiram essa informação para todos os ministérios e organismos policiais. E um desses sítios foi o palazzo.
O palazzo a que o general se estava a referir dava para a Piazza di Sant’Ignazio, no centro da Roma antiga. Acolhia a Divisão de Defesa do Património Cultural, mais conhecida como Brigada de Arte. O general Ferrari era o comandante. E tinha razão numa coisa, pensou Gabriel. Havia muito pouca coisa que se passasse em Itália de que o general não soubesse.
Filho de professores da região empobrecida da Campânia, Ferrari era considerado há muito um dos agentes policiais mais competentes e bem-sucedidos de Itália. Durante os anos setenta do século XX, uma época de mortíferos atentados terroristas em Itália, ajudou a neutralizar as Brigadas Vermelhas comunistas. A seguir, ao longo das guerras da Máfia nos anos oitenta, foi comandante da divisão de Nápoles, infestada pela Camorra. Era um cargo tão perigoso que a mulher e as três filhas de Ferrari foram forçadas a viver vinte e quatro horas sob proteção. O próprio Ferrari foi alvo de variadíssimos atentados, incluindo a bomba numa carta que lhe levou o olho e dois dedos.
A nomeação para a Brigada de Arte era supostamente uma recompensa por uma carreira longa e ilustre. Pensou-se que Ferrari se limitaria a seguir as pisadas do seu apagado antecessor, que iria andar a tratar de papelada, a fazer longos almoços em Roma e que, de vez em quando, encontraria um ou dois dos quadros dignos de museus que todos os anos eram roubados em Itália. Em vez disso, começou de imediato a modernizar uma unidade em tempos eficaz e que se tinha deixado atrofiar com a idade e a negligência. Poucos dias depois de chegar, despediu metade do pessoal e reabasteceu rapidamente as fileiras com agentes jovens e agressivos, que até sabiam alguma coisa de arte. As ordens que lhes deu foram simples. Não estava muito interessado nos mânfios de rua que roubavam de quando em vez arte; queria apanhar o peixe graúdo, os chefes que punham o material roubado no mercado. Não demorou muito até que a nova abordagem trouxesse dividendos. Mais de uma dúzia de ladrões importantes foi parar atrás das grades e, apesar de continuarem espantosamente elevadas, as estatísticas dos roubos de arte estavam a começar a melhorar.
— Então o que o traz a Veneza? — perguntou Gabriel enquanto ia levando o general pelo meio dos lagos temporários do Campo San Zaccaria.
— Tinha questões a tratar no Norte, mais propriamente no lago Como.
— Roubaram alguma coisa?
— Não — respondeu o general. — Assassinaram uma pessoa.
— E desde quando é que a Brigada de Arte se interessa por cadáveres?
— Desde que o falecido tem ligações ao mundo da arte.
Gabriel parou e virou-se para olhar de frente o general.
— Ainda não respondeu à minha pergunta — disse. — Porque veio a Veneza?
— Por causa de si, claro.
— E o que tem um cadáver em Como que ver comigo?
— A pessoa que o descobriu.
O general estava outra vez a sorrir, mas tinha o olho prostético a olhar fixa e inexpressivamente para o vazio. Era o olho de um homem que sabia tudo, pensou Gabriel. Um homem que não estava disposto a admitir recusas.
Entraram na igreja pela entrada principal à saída do campo e digiram-se para o famoso retábulo de San Zaccaria da autoria de Bellini. Um grupo de turistas estava parado diante dele enquanto um guia discursava empoladamente sobre o mais recente restauro do quadro, sem saber que o homem que o tinha realizado o estava a ouvir. Até o general Ferrari pareceu achar piada, embora passado um momento a sua mirada monocular começasse a vaguear. O Bellini era a obra mais importante de San Zaccaria, mas a igreja também possuía vários outros quadros de renome, incluindo obras de Tintoretto, Palma Vecchio e Van Dyke. Era apenas um exemplo do que levava os Carabinieri a ter uma unidade dedicada de detetives de arte. A Itália fora abençoada com duas coisas em abundância: arte e criminosos profissionais. Muita da arte, tal como a arte daquela igreja, estava mal protegida. E muitos dos criminosos estavam determinados em roubá-la toda.
Do outro lado da nave, ficava uma pequena capela, onde se encontrava a cripta do padroeiro e uma tela da autoria de um pintor veneziano de pouca monta que ninguém se dava ao trabalho de limpar há mais de um século. O general Ferrari sentou-se num dos bancos, abriu a pasta de metal e tirou de lá um dossiê. A seguir, tirou do dossiê uma fotografia de 20 centímetros por 25 centímetros, que passou a Gabriel. Mostrava um homem a entrar na terceira idade, suspenso de um candelabro pelos pulsos. Pela imagem, não se percebia ao certo qual tinha sido a causa da morte, mas era evidente que o homem fora selvaticamente torturado. A cara estava toda desfeita, inchada e ensanguentada, e tinham-lhe sido arrancados vários pedaços de pele e carne do tronco.
— Quem era ele? — perguntou Gabriel.
— Chamava-se James Bradshaw, mais conhecido como Jack. Era um súbdito britânico, mas passava a maior parte do tempo em Como, tal como vários milhares de compatriotas.
O general fez uma pausa, com ar pensativo.
— Parece que os britânicos já não gostam muito de viver no próprio país, não é?
— É.
— E porque será?
— Tem de lhes perguntar.
Gabriel olhou para a fotografia e estremeceu.
— Era casado?
— Não.
— Divorciado?
— Também não.
— Cara-metade?
— Parece que não.
Gabriel devolveu a fotografia ao general e perguntou-lhe o que fazia Jack Bradshaw na vida.
— Dizia que era consultor.
— De que tipo?
— Trabalhou durante muitos anos no Médio Oriente como diplomata. Depois reformou-se cedo e foi trabalhar por conta própria. Pelos vistos, aconselhava empresas britânicas que queriam entrar no mundo árabe. Devia ser bastante bom no que fazia — acrescentou o general — porque a villa dele era das mais caras naquela parte do lago. E também lá tinha uma coleção bastante impressionante de arte e antiguidades italianas.
— O que explica o interesse da Brigada de Arte na morte dele.
— Em parte — respondeu o general. — Afinal de contas, não é crime nenhum ter uma boa coleção.
— A não ser que essa coleção seja adquirida à revelia da lei italiana.
— Você está sempre um passo à frente de toda a gente, não é, Allon?
O general olhou para o quadro escurecido pendurado na parede da capela.
— Porque não o limparam no último restauro?
— Não havia dinheiro que chegasse.
— O verniz está praticamente opaco.
O general fez uma pausa e depois acrescentou:
— Tal e qual como o Jack Bradshaw.
— Que descanse em paz.
— Não é muito provável, depois de uma morte daquelas.
Ferrari olhou para Gabriel e perguntou:
— Já teve ocasião de estar perante o seu próprio fim?
— Infelizmente, já tive várias. Mas se não se importa, preferia falar dos hábitos de colecionador do Jack Bradshaw.
— O falecido senhor Bradshaw tinha a reputação de adquirir quadros que não estavam propriamente à venda.
— Quadros roubados?
— Essas palavras são suas, meu amigo. Não são minhas.
— Andavam a vigiá-lo?
— Digamos que a Brigada de Arte acompanhava as atividades dele o melhor que podia.
— Como?
— Das maneiras habituais — respondeu o general evasivamente.
— Imagino que os seus homens estejam a fazer um inventário completo e minucioso da coleção dele.
— Neste preciso momento.
— E?
— Até agora, não encontraram nada que estivesse na nossa base de dados de obras desaparecidas ou roubadas.
— Então imagino que o senhor vá ter de retirar todas as coisas desagradáveis que disse do Jack Bradshaw.
— Só porque não há provas, não quer dizer que não seja verdade.
— Falou como um verdadeiro polícia italiano.
Pela expressão do general Ferrari, era evidente que tinha interpretado o comentário de Gabriel como um elogio. Passado um momento, disse:
— Ouviam-se outras coisas sobre o falecido Jack Bradshaw.
— Que género de coisas?
— Que não era só um colecionador privado, que estava envolvido na exportação ilegal de quadros e outras obras de arte a partir de território italiano.
O general baixou a voz e acrescentou:
— O que explica por que razão o seu amigo Julian Isherwood está num sarilho bem grande.
— O Julian Isherwood não trabalha com arte contrabandeada.
O general não se deu ao trabalho de responder. Na opinião dele, os negociantes de arte eram todos culpados de alguma coisa.
— E onde é que ele está? — perguntou Gabriel.
— Detive-o.
— E acusaram-no de alguma coisa?
— Ainda não.
— De acordo com a lei italiana, não podem detê-lo por mais de quarenta e oito horas sem ser apresentado a um juiz.
— Encontraram-no ao pé de um cadáver. Hei de pensar em qualquer coisa.
— O senhor sabe que o Julian não teve nada que ver com a morte do Bradshaw.
— Não se preocupe — respondeu o general. — De momento, não faço tenções de recomendar que ele seja acusado. Mas se viesse a público que o seu amigo se ia encontrar com um contrabandista conhecido, a carreira dele acabava. Sabe, Allon, no mundo da arte, a perceção corresponde à realidade.
— E o que tenho eu de fazer para o nome do Julian não aparecer nos jornais?
O general não respondeu logo; estava a estudar a fotografia do cadáver de Jack Bradshaw.
— Porque acha que o torturaram antes de o matarem? — perguntou por fim.
— Se calhar, devia-lhes dinheiro.
— Se calhar — concordou o general. — Ou, se calhar, tinha qualquer coisa que os assassinos queriam, qualquer coisa mais valiosa.
— Ia dizer-me o que eu tenho de fazer para salvar o meu amigo.
— Descobrir quem matou o Jack Bradshaw. E descobrir do que andavam à procura.
— E se eu recusar?
— O mundo da arte londrino vai ser inundado de rumores desagradáveis.
— O senhor é um chantagista reles, general Ferrari.
— Chantagem é uma palavra feia.
— Pois é — respondeu Gabriel. — Mas, no mundo da arte, a perceção corresponde à realidade.