O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 3 de 65

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O Assalto

Primeira Parte: Claro-Escuro

PRIMEIRA PARTE

 

CLARO-ESCURO

1

ST. JAMES’S, LONDRES

 

Tudo começou com um acidente, mas era invariavelmente isso que acontecia quando estava em causa Julian Isherwood. Com efeito, a sua reputação em matéria de loucuras e infortúnios estava tão incontestavelmente consagrada que o mundo da arte londrino, se tivesse tido conhecimento do caso, o que não sucedeu, não teria esperado outra coisa. Segundo as palavras de um espirituoso do departamento dos Velhos Mestres da Sotheby’s, Isherwood era o santo padroeiro das causas perdidas, um autêntico equilibrista com tendência para estratagemas cuidadosamente planeados que terminavam em ruínas, muitas vezes sem que tivesse qualquer culpa. Consequentemente, era ao mesmo tempo alvo de admiração e de pena, característica rara num homem da sua posição. Julian Isherwood tornava a vida um pouco menos entediante. E, por causa disso, a gente fina de Londres adorava-o.

A sua galeria ficava no canto mais distante do pátio quadrangular e de chão empedrado conhecido como Mason’s Yard, ocupando três andares de um armazém a dar de si e que pertencera em tempos à Fortnum & Mason. De um lado, ficavam os escritórios londrinos de uma transportadora grega de pouca monta; do outro, um pub que tinha como clientela estafetas bonitas que andavam de motorizada. Muitos anos atrás, antes de as vagas sucessivas de dinheiro árabe e russo terem inundado o mercado imobiliário londrino, a galeria estava localizada na chique New Bond Street, ou New Bondstrasse, como era conhecida no ramo. A seguir, vieram as marcas do género Hermès, Burberry, Chanel e Cartier, forçando Isherwood e outros como ele — negociantes independentes e especializados em quadros dos Velhos Mestres de categoria museológica — a procurar refúgio em St. James’s.

Não tinha sido a primeira vez que Isherwood fora obrigado a exilar-se. Nascido em Paris, nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, e o único filho do célebre negociante de arte Samuel Isakowitz, tinha sido levado para os Pirenéus a seguir à invasão germânica, entrando depois clandestinamente no Reino Unido. A infância parisiense e a linhagem judia eram apenas duas peças de um passado complexo que Isherwood mantinha em segredo do resto do mundo da arte londrino, famoso pela maledicência. Tanto quanto se sabia, era inglês até à medula — tão inglês como o lanche ajantarado e os dentes podres, como gostava de dizer. Era o incomparável Julian Isherwood, Julie para os amigos, Julian Sumarento para os parceiros nos ocasionais crimes de bebida e Sua Santidade para os historiadores de arte e os curadores que recorriam rotineiramente ao seu olho infalível. Era tão leal como o dia era comprido, confiava nas pessoas em demasia, era impecavelmente bem-educado e não tinha verdadeiros inimigos, um feito singular tendo em conta que passara duas vidas inteiras a navegar nas águas traiçoeiras do mundo da arte. Acima de tudo, Julian Isherwood era um homem decente — e nos tempos que corriam, não havia muita decência, em Londres ou em qualquer outro sítio.

A Isherwood Fine Arts estava organizada verticalmente: armazéns a abarrotar no rés do chão, escritórios no primeiro andar e uma sala de exposições formal no segundo. Considerada por muitos a mais gloriosa de toda a Londres, a sala de exposições era uma réplica exata da famosa galeria parisiense de Paul Rosenberg, onde Isherwood tinha passado muitas horas felizes durante a infância, várias vezes na companhia de Picasso em pessoa. A zona dos escritórios era um labirinto dickensiano atafulhado até ao cimo de catálogos e monografias amarelecidos. Para lá chegar, os visitantes tinham de passar por duas portas de vidro protegidas, a primeira à saída de Mason’s Yard e a segunda no topo de umas escadas estreitas com uma alcatifa castanha manchada. A seguir, encontrariam Maggie, uma loira de olhar sonolento que não sabia distinguir um Ticiano de papel higiénico. Em tempos, Isherwood fizera uma completa figura de parvo ao tentar seduzi-la e, não lhe restando outra alternativa, acabou por contratá-la como rececionista. Naquele momento, estava a lixar as unhas enquanto o telefone que tinha na secretária ia tocando sem que o atendessem.

— Importas-te de atender, Mags? — perguntou Isherwood com benevolência.

— Para quê? — respondeu ela, sem ponta de ironia na voz.

— Pode ser importante.

Revirou os olhos e depois levantou o auscultador com um ar ofendido para o encostar ao ouvido e ronronar:

— Isherwood Fine Arts.

Passados uns segundos, desligou sem dizer mais uma palavra e recomeçou a tratar das unhas.

— E então? — perguntou Isherwood.

— Não havia ninguém na linha.

— Faz-me um favor, querida, e vê de que número estavam a ligar.

— Vão ligar outra vez.

Franzindo o sobrolho, Isherwood retomou a avaliação silenciosa do quadro que se encontrava em cima do cavalete forrado a baeta, a meio da sala — uma representação de Cristo a surgir diante de Maria Madalena, provavelmente da autoria de um seguidor de Francesco Albani e que Isherwood, pouco tempo antes, tinha sacado por uma ninharia de uma herdade no Berkshire. O quadro, tal como o próprio Isherwood, estava a precisar urgentemente de restauro. Atingira a idade a que os gestores de bens chamam o outono da vida. Mas não era um outono dourado, pensou sorumbaticamente. Era um outono tardio, com o vento cortante como uma faca e as iluminações de Natal a brilharem ao longo da Oxford Street. Ainda assim, com o fato feito à mão em Savile Row e os fartos caracóis grisalhos, revelava-se uma figura elegante mesmo que precária, um visual que descrevia como depravação dignificada. Naquela fase da vida, não podia almejar a mais nada.

— Pensava que um russo qualquer horroroso ia passar cá às quatro para ver um quadro — disse Isherwood de repente, continuando a perscrutar a tela gasta.

— O russo horroroso cancelou.

— Quando?

— Hoje de manhã.

— Porquê?

— Não disse.

— E porque não me avisaste?

— Avisei.

— Que disparate.

— Deves ter-te esquecido, Julian. Anda a acontecer-te muita coisa ultimamente.

Isherwood lançou um olhar fulminante a Maggie, ao mesmo tempo que se interrogava como era possível ter-se sentido atraído por uma criatura tão repugnante. A seguir, sem mais nenhum compromisso agendado e claramente sem nada melhor para fazer, enfiou o sobretudo e marchou até ao Green’s Restaurant and Oyster Bar, dando assim início a uma sucessão de acontecimentos que o levaria a mais outra calamidade na qual não tinha responsabilidade. Eram quatro e vinte da tarde. Era um bocadinho cedo para a multidão habitual e o bar estava vazio, tirando Simon Mendenhall, o principal leiloeiro da Christie’s, permanentemente bronzeado. Mendenhall desempenhara em tempos um papel involuntário numa operação conjunta dos serviços secretos israelitas e americanos com o objetivo de penetrar numa rede terrorista jihadista que andava a bombardear a Europa Ocidental a torto e a direito. Isherwood estava ciente disso porque também tinha desempenhado um papel menos importante na operação. Isherwood não era espião. Era ajudante de espiões, e de um em especial.

— Julie! — exclamou Mendenhall. Depois, com a voz de cama que reservava para os licitadores relutantes, acrescentou: — Estás com um aspeto absolutamente maravilhoso. Perdeste peso? Foste a algum spa dos carotes? Há por aí rapariga nova? Qual é o teu segredo?

— Sancerre — respondeu Isherwood antes de se instalar na mesa habitual ao lado da janela com vista para a Duke Street.

E foi aí sentado que pediu uma garrafa desse vinho, brutalmente frio, já que um copo não iria chegar. Passado pouco tempo, Mendenhall foi-se embora com o habitual floreado e Isherwood ficou sozinho com os próprios pensamentos e a bebida, uma combinação perigosa para um homem de idade avançada e com a carreira em completa marcha-atrás.

Mas a porta lá acabou por se abrir e da rua molhada e a escurecer brotaram dois curadores da National Gallery. Depois veio uma pessoa importante da Tate, seguida de uma delegação da Bonhams encabeçada por Jeremy Crabbe, o diretor, adepto de roupa de tweed, do departamento dos Velhos Mestres da leiloeira. Logo atrás, chegou Roddy Hutchinson, amplamente considerado o negociante com menos escrúpulos de toda a Londres. A sua chegada era um mau presságio, pois para onde quer que Roddy fosse, o barrigudo Oliver Dimbleby também apareceria de certeza. Conforme se esperava, entrou no bar a bambolear-se passados uns minutos, com toda a discrição de um apito de comboio à meia-noite. Isherwood pegou no telemóvel e fingiu que estava a ter uma conversa urgente, mas Oliver não se deixou enganar. Avançou diretamente para a mesa — como um cão de caça a aproximar-se cada vez mais de uma raposa, recordaria Isherwood mais tarde — e instalou o volumoso traseiro na cadeira desocupada.

— Domaine Daniel Chotard — disse num tom de aprovação, tirando a garrafa de vinho do balde com gelo. — Não digo que não.

 

Usava um fato azul à anos oitenta, que se ajustava à sua constituição corpulenta como a pele de uma salsicha, e grandes botões de punho de ouro do tamanho de xelins. Tinha faces redondas e rosadas; os olhos azuis brilhavam com uma intensidade que davam a entender que dormia bem à noite. Oliver Dimbleby era um pecador do mais alto calibre, mas a consciência não o incomodava.

— Não leves isto a mal, Julie — disse ao servir-se de uma dose generosa do vinho de Isherwood —, mas pareces um monte de roupa suja.

— Não foi isso que o Simon Mendenhall disse.

— O Simon ganha a vida a convencer as outras pessoas a gastarem dinheiro. Eu, por outro lado, só digo a verdade nua e crua, mesmo quando ela dói.

Dimbleby fixou o olhar em Isherwood com uma expressão de preocupação sincera.

— Oh, não olhes para mim dessa maneira, Oliver.

— Qual maneira?

— Como se estivesses a tentar lembrar-te de qualquer coisa simpática para dizer antes de o médico desligar a máquina.

— Já te olhaste ao espelho ultimamente?

— Hoje em dia, ando a tentar evitar os espelhos.

— Já percebi porquê.

Dimbleby despejou mais um pouco de vinho no copo.

— Queres que te arranje mais alguma coisa, Oliver? Um bocadinho de caviar?

— Não retribuo sempre?

— Não, Oliver, não retribuis. Aliás, se andasse a contar, coisa que não ando, já me estavas a dever vários milhares de libras.

Dimbleby ignorou o comentário.

— O que se passa, Julian? O que te anda a apoquentar desta vez?

— Neste preciso momento, és tu, Oliver.

— É aquela rapariga, não é, Julie? É por isso que andas em baixo. Como é que ela se chamava mesmo?

— Cassandra — respondeu Isherwood para a janela.

— Partiu-te o coração, não foi?

— Partem-mo sempre.

Dimbleby sorriu.

— A tua capacidade para o amor é assombrosa. O que eu não dava para me apaixonar só uma vez que fosse.

— És o maior mulherengo que eu conheço, Oliver.

— Ser mulherengo tem muito pouco que ver com estar apaixonado. Adoro as mulheres, as mulheres todas. E é aí que reside o problema.

Isherwood pôs-se a olhar para a rua. Tinha começado a chover outra vez, mesmo a tempo da hora de ponta ao final da tarde.

— Vendeste algum quadro ultimamente? — perguntou Dimbleby.

— Vários, por acaso.

— Não ouvi falar de nada.

— Porque as vendas foram privadas.

— Tretas — respondeu Oliver, com um risinho trocista. — Há meses que já não vendes nada. Mas isso não te impediu de adquirir stock novo, pois não? Quantos quadros tens guardados naquele teu armazém? Davam para encher um museu e ainda sobravam uns milhares. E estão todos queimadíssimos, mortos e enterrados, como se costuma dizer.

A única reação de Isherwood foi coçar o cóccix. Tinha substituído uma tosse demoníaca e era agora o que mais o incomodava fisicamente. Pôs-se a pensar que sempre era melhor. Dores nas costas não causavam mossa aos vizinhos.

— A minha proposta continua de pé — estava a dizer Dimbleby.

— E qual proposta?

— Então, Julie. Não me obrigues a dizê-lo com todas as letras.

Isherwood rodou a cabeça ligeiramente e fitou a cara rechonchuda e infantil de Dimbleby.

— Não estás a falar outra vez em comprar a minha galeria, pois não?

— Estou preparado para ser mais do que generoso. Ofereço-te um preço justo pela pequena parte da tua coleção que é possível vender e sirvo-me do resto para aquecer o prédio.

— É muito caridoso da tua parte — respondeu Isherwood sardonicamente —, mas tenho outros planos para a galeria.

— Realistas?

Isherwood ficou calado.

— Muito bem — disse Dimbleby. — Se não me deixas ficar com esse verdadeiro destroço a que chamas galeria, pelo menos deixa-me fazer outra coisa para te ajudar a arrancar do teu atual Período Azul.

— Não quero nenhuma das tuas raparigas, Oliver.

— Não estou a falar de rapariga nenhuma. Estou a falar de uma viagem agradável para te ajudar a esquecer os problemas.

— Onde?

— Lago Como. Com as despesas todas pagas. Bilhete de avião em classe executiva. Duas noites numa suíte de luxo do Villa d’Este.

— E o que tenho eu de fazer em troca?

— Um pequeno favor.

— Pequeno, como?

Dimbleby serviu-se de mais outro copo de vinho e contou o resto a Isherwood.

Segundo parecia, Oliver Dimbleby tinha conhecido há pouco tempo um inglês expatriado que colecionava sofregamente, mas sem o auxílio de um conselheiro artístico experimentado que o orientasse. Além do mais, as finanças do inglês pelos vistos já não eram o que tinham sido em tempos, o que obrigava a que parte das suas posses fosse vendida rapidamente. Dimbleby aceitara dar uma vista de olhos discreta à coleção, mas agora que a viagem se avizinhava, não conseguia enfrentar a perspetiva de entrar noutro avião. Ou assim dizia. Isherwood suspeitava que os verdadeiros motivos de Dimbleby para recuar na decisão de viajar fossem outros, já que Oliver Dimbleby era a personificação dos motivos ulteriores.

Ainda assim, havia qualquer coisa na ideia de uma viagem inesperada que atraía Isherwood, pelo que, apesar de saber que provavelmente não o devia fazer, aceitou a proposta de imediato. Nessa noite, fez as malas com pouca roupa e, às nove da manhã seguinte, estava a instalar-se no lugar em classe executiva no voo 576 da British Airways, com ligação direta ao Aeroporto de Malpensa, em Milão. Bebeu apenas um único copo de vinho durante o voo — para bem do coração, disse a si próprio — e, ao meio-dia e meia, ao entrar para um Mercedes alugado, estava na plena posse das suas capacidades. Fez a viagem de carro para norte, em direção ao lago Como, sem auxílio de qualquer mapa ou instrumento de orientação. Sendo um historiador de arte altamente conceituado cuja especialização eram os pintores venezianos, Isherwood tinha viajado inúmeras vezes até Itália para percorrer igrejas e museus. Ainda assim, nunca deixava passar uma possibilidade de lá voltar, sobretudo quando era outra pessoa a pagar as despesas. Julian Isherwood era francês por nascimento e inglês por via da educação, mas dentro do peito escavado batia-lhe o coração romântico e indisciplinado de um italiano.

O inglês expatriado das finanças progressivamente diminutas estava à espera de Isherwood às duas. Vivia em grande estilo, de acordo com o e-mail redigido à pressa por Dimbleby, na ponta sudoeste do lago, perto da cidade de Laglio. Isherwood chegou uns minutos mais cedo e deu com o portão imponente aberto, pronto a recebê-lo. Do outro lado, estendia-se um caminho de entrada acabado de pavimentar, que o levou com graciosidade a um pátio de cascalho. Estacionou ao lado do cais privado da villa e dirigiu-se para a porta da rua, passando por estátuas cheias de bolor. Quando tocou à campainha, ninguém apareceu. Isherwood confirmou que horas eram antes de tocar à campainha uma segunda vez. O resultado foi o mesmo.

Nesse momento, o mais sensato que Isherwood poderia ter feito seria voltar para o carro alugado e sair de Como o mais depressa possível. Em vez disso, experimentou o trinco e, infelizmente, viu que a porta não estava trancada. Abriu-a uns centímetros, gritou um cumprimento para o interior às escuras e depois avançou de forma titubeante para o majestoso átrio de entrada. Reparou de imediato na poça de sangue no chão de mármore, nos dois pés descalços suspensos no ar e na cara inchada, de um azul muito escuro, a olhar para baixo. Isherwood sentiu os joelhos a ceder e viu o chão erguer-se para o receber. Ficou ali ajoelhado um instante até a vaga de náusea lhe passar. A seguir, levantou-se, cambaleante, e, com a mão a tapar a boca, saiu da villa aos tropeções, em direção ao carro. E ainda que na altura não tivesse dado conta, ia amaldiçoando o nome do atarracado Oliver Dimbleby a cada passo.