O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 53 de 65

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O Assalto

51. Attersee — Genebra

51

 

ATTERSEE — GENEBRA

 

Depois de tudo ter terminado, Gabriel não seria capaz de se lembrar de muita coisa das vinte e quatro horas seguintes, pois foram um redemoinho de planos, exaltadas discussões em família e conversas tensas efetuadas por canais seguros. Na Avenida Rei Saul, o seu pedido urgente de mais propriedades seguras e de transporte igualmente seguro deu origem a uma curta revolta que Uzi Navot conseguiu reprimir com um olhar duro e palavras severas. Só a Divisão de Finanças não se indignou com o pedido de mais fundos por parte de Gabriel. A operação já estava a dar um lucro considerável, com ganhos surpreendentes previstos para o quarto trimestre.

Jihan Nawaz não iria saber nada das lutas intestinas que grassavam no Departamento, só das exigências da última missão que tinha de realizar por conta desse mesmo Departamento. Voltou à casa segura do Attersee no domingo à tarde para receber as instruções finais antes da operação e para treinar fotografar documentos sob pressão simulada com a marca única de Gabriel. Depois, juntou-se à equipa para uma refeição leve no relvado com vista para o lago. A falsa bandeira que haviam desfraldado desde que a tinham recrutado fora arriada e guardada para sempre. Agora, eram israelitas, agentes dos serviços secretos que a maioria dos árabes encarava com uma mistura paradoxal de ódio e admiração. Estava presente Yossi, o falso burocrata dos Serviços Tributários e Aduaneiros Britânicos, com o seu aspeto de académico. Estava a figurinha desgrenhada que a tinha abordado inicialmente como Feliks Adler. Estavam também Mikhail, Yaakov e Oded, os três guardiões dela nas ruas de Linz. E estava Ingrid Roth, a vizinha, a confidente com quem partilhava segredos dolorosos, que tinha sofrido uma perda que Jihan compreendia muitíssimo bem.

E na ponta mais afastada da mesa, silencioso e atento, estava o homem de olhos verdes cujo nome ela tinha escrito na água. Não era o monstro que a imprensa árabe retratava; nenhum deles o era. Eram encantadores. Eram espirituosos. Inteligentes. Amavam o seu país e o seu povo. Lamentavam profundamente o que acontecera a Jihan e à sua família em Hama. Sim, reconheciam, Israel tinha cometido erros desde a sua fundação, erros terríveis. Mas queria apenas viver em paz e ser aceite pelos vizinhos. A Primavera Árabe oferecera, por um período muito breve, a esperança de uma mudança no Médio Oriente, mas, infelizmente, voltara a ser um combate mortal entre sunitas e xiitas, entre os jihadistas globais e a velha ordem dos tiranos árabes. Claro, concordavam, havia um terreno intermédio, um Médio Oriente moderno onde os laços religiosos e tribais eram menos importantes do que um governo decente e o progresso. Durante algumas horas dessa tarde, na margem do Attersee, pareceu que tudo era possível.

Ela deixou-os pela última vez ao início da noite e, acompanhada pela amiga Ingrid, voltou para o apartamento. Nessa noite, foi apenas Keller quem a vigiou, pois o resto da equipa tinha começado uma apressada mudança do campo de batalha a que, mais tarde, um espirituoso do Departamento se referiria como a grande migração para ocidente. Gabriel e Eli Lavon seguiram juntos de carro, com Gabriel a guiar e Lavon a afligir-se e a atormentar-se, exatamente como já tinham feito mil vezes. Mas essa noite era diferente. O alvo não era um terrorista com sangue israelita nas mãos; eram muitos milhões de dólares que, legitimamente, pertenciam ao povo da Síria. Lavon, o caçador de ativos, mal conseguia esconder a excitação. Se deitassem a mão ao dinheiro do carniceiro, disse, podiam fazer dele o que bem quisessem. Podiam ser donos dele.

Chegaram a Genebra naquela hora incerta entre a escuridão e a alvorada e seguiram para um velho apartamento seguro do Departamento no Boulevard de Saint-Georges. Mordecai estivera lá antes e construíra, na sala, um posto de comando que incluía computadores e um rádio seguro. Gabriel enviou uma curta mensagem de ativação para o Centro de Operações na Avenida Rei Saul. Depois, pouco antes das sete da manhã, ouviu Waleed al-Siddiqi, que parecia cansado, a entrar no voo 411 da Austrian Airlines, no Aeroporto de Schwechat em Viena. Quando o avião estava a passar por cima de Linz, um grande carro preto encostou ao passeio à frente de um prédio de apartamentos nos arredores da Innere Stadt. E, cinco minutos mais tarde, Jihan Nawaz, a filha de Hama, saiu para a rua.

 

Durante as três horas seguintes, o mundo de Gabriel encolheu até aos trinta e oito centímetros luminosos do ecrã do computador. Não havia guerra na Síria, não havia Israel, não havia Palestina. A mulher não estava à espera de gémeos. De facto, não tinha mulher. Só havia as luzes vermelhas a piscar e que indicavam as posições de Jihan Nawaz e de Waleed al-Siddiqi e as luzes azuis a piscar e que indicavam as posições da equipa. Estava tudo em ordem, limpo, um mundo sem perigo. Parecia que nada podia correr mal.

Às oito e quinze, a luz vermelha de Jihan chegou ao Aeroporto de Schwechat em Viena e, às nove, apagou-se quando ela obedeceu respeitosamente às instruções dos assistentes de bordo para desligar todos os aparelhos eletrónicos. Foi então que Gabriel focou toda a atenção em Waleed-al-Siddiqi, que nessa altura estava a entrar na sede de um importante banco francês onde tinha depositado secretamente várias centenas de milhões de dólares em ativos sírios. O banco ficava numa parte elegante da Rue Saint-Honoré, no primeiro arrondissement. O grande carro preto de Al-Siddiqi permaneceu estacionado na rua. Uma equipa de vigilância do Departamento oriunda da Base de Paris tinha identificado o motorista como um ativo dos serviços secretos sírios em França — segurança, principalmente, mas, ocasionalmente, também envolvido em assuntos violentos. Gabriel pediu uma fotografia e, cinco minutos depois, foi recompensado com um instantâneo de um homem com um pescoço grosso, a apertar com um ar sombrio um volante luxuoso.

Às nove e dez da manhã, hora de Paris, Al-Siddiqi entrou no gabinete de Monsieur Gérard Beringer, um dos vice-presidentes do banco. O sírio não ficou muito tempo lá porque, às 9h17, recebeu uma chamada no telemóvel que o levou até ao corredor, à procura de privacidade. A chamada era de um número de Damasco; a voz de barítono do outro lado da linha era masculina, uma pessoa com autoridade. No fim da conversa — que durou apenas vinte segundos e foi efetuada no dialeto alauita do árabe sírio —, Al-Siddiqi desligou o telefone e a luz vermelha dele desapareceu do ecrã do computador.

Gabriel ouviu cinco vezes a gravação da conversa e não foi capaz de compreender exatamente o que estava a ser dito. Depois pediu uma tradução à Avenida Rei Saul e informaram-no de que o homem da voz de barítono tinha ordenado a Al-Siddiqi que lhe ligasse de um aparelho diferente. A análise da voz não encontrou nenhuma correspondência para a identidade da pessoa que ligara. Os que estavam à escuta na Unidade 8200 estavam a tentar identificar com precisão a localização do número em Damasco.

— As pessoas estão sempre a desligar os telemóveis — disse Eli Lavon. — Especialmente pessoas como o Waleed al-Siddiqi.

— É verdade — retorquiu Gabriel. — Mas, geralmente, fazem-no quando receiam que esteja alguém à escuta.

— E está alguém à escuta. — Gabriel não disse nada. Estava a olhar para o ecrã do computador como se estivesse a tentar convencer a luz de Al-Siddiqi a voltar a acender-se. — Provavelmente, o telefonema teve qualquer coisa que ver com o homem sentado no Hotel Métropole — disse Lavon passados uns momentos.

— É isso que me preocupa.

— Não é demasiado tarde para trocar as fichas, Gabriel. Podes fazer desaparecer oito mil milhões de dólares. E também podes fazer a rapariga desaparecer.

— E se ainda houver outros oito mil milhões de dólares por aí, Eli? E se houver oitenta mil milhões de dólares?

Lavon não disse nada durante uns instantes. Finalmente, perguntou:

— O que vais fazer?

— Vou analisar todas as razões que podem ter levado o Waleed al-Siddiqi a desligar o telefone. E depois vou tomar uma decisão.

— Infelizmente, não há tempo para isso.

Gabriel voltou a olhar para o computador. A filha de Hama tinha acabado de chegar a Genebra.

 

O átrio das chegadas do Aeroporto de Genebra estava mais apinhado de gente do que o habitual: diplomatas, jornalistas, polícias e seguranças adicionais, um grupo de exilados sírios a cantarem a canção de protesto escrita por um homem cuja garganta tinha sido cortada pela polícia secreta. Por causa disso, Jihan levou uns instantes a descobrir o motorista. Andava pelos trinta e tal anos, tinha cabelo escuro e pele morena e um ar demasiado inteligente para estar a trabalhar como motorista. O olhar dele voltou-se para Jihan quando ela se aproximou — era óbvio que lhe tinham mostrado uma fotografia — e exibiu um sorriso radioso, mostrando uma fila de dentes brancos e regulares. Dirigiu-se-lhe em árabe, com sotaque sírio.

— Espero que tenha feito uma boa viagem, Miss Nawaz.

— Foi boa — respondeu ela friamente.

— O carro está lá fora. Queira seguir-me, se faz favor.

Levantou uma mão bem tratada na direção da porta apropriada. O caminho que seguiram fê-los passar pelos manifestantes, que ainda estavam a cantar a canção de provocação, e por um israelita pequeno e entroncado que parecia capaz de dobrar barras de aço. Jihan olhou para o homem como se ele fosse invisível e saiu para o exterior. Um Mercedes preto, Classe S, com janelas com vidros muito escuros e matrícula diplomática, estava estacionado junto ao passeio. Quando o motorista abriu a porta de trás, do lado do passageiro, Jihan hesitou antes de entrar. Esperou que a porta voltasse a ser fechada e só depois virou a cabeça e olhou para o homem sentado ao lado dela. Era vários anos mais velho do que o motorista, com cabelo preto, que começava a rarear, um bigode imponente e mãos de um assentador de tijolos.

— Quem é o senhor? — perguntou Jihan.

— Segurança — respondeu ele.

— E por que razão preciso de segurança?

— Porque está prestes a encontrar-se com um funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros sírio. E porque há muitos inimigos do governo sírio em Genebra neste momento, incluindo aquela turba ali dentro — acrescentou com um movimento de cabeça na direção do edifício do terminal. — É importante que chegue ao seu destino em segurança.

O motorista sentou-se ao volante e fechou a porta.

— Yallah — disse o que estava sentado no banco de trás e o carro arrancou velozmente.

 

Foi só depois de terem saído do aeroporto que ele se deu ao trabalho de se apresentar. Disse que se chamava Omari. Era, pelo menos foi o que lhe disse, um segurança que ocupava cargos importantes nas delegações diplomáticas sírias na Europa Ocidental — um trabalho difícil, acrescentou com um cansado movimento de cabeça, dadas as tensões políticas daqueles tempos. Era evidente pela pronúncia que era alauita. Também era evidente que o motorista, que parecia não ter nome nenhum, estava a seguir tudo menos um percurso direto para o centro de Genebra. Percorreu uma zona industrial de edifícios baixos durante vários minutos, olhando constantemente para o espelho retrovisor, antes de tomar finalmente o caminho para a Route de Meyrin. Atravessaram um frondoso bairro residencial e acabaram por chegar à margem do lago. Enquanto atravessavam velozmente a Pont du Mont-Blanc, Jihan reparou que estava a apertar a carteira com tanta força que tinha os nós dos dedos brancos. Obrigou-se a descontrair a mão e sorriu levemente ao olhar pela janela para a linda cidade iluminada pelo sol. A visão de polícias suíços ao longo dos parapeitos da ponte deu-lhe uns momentos de conforto; e quando chegaram à margem do outro lado, viu o israelita com a cara marcada pelas bexigas a espreitar pela janela de uma loja Armani no Quai du Général-Guisan. O carro passou por ele e parou à frente da fachada verde-acinzentada do Métropole. Omari esperou uns instantes antes de falar.

— Presumo que o senhor Al-Siddiqi lhe tenha dito o nome do homem que está à sua espera lá em cima.

— Senhor Al-Farouk.

Ele assentiu com a cabeça solenemente.

— Está no quarto 312. Por favor, siga diretamente para o quarto dele. Não fale com o porteiro nem com ninguém no hotel. Estamos entendidos, Miss Nawaz?

Ela assentiu com a cabeça.

— Mal tenha os documentos, deve sair do quarto e voltar diretamente para o carro. Não faça paragens pelo caminho. Não fale com ninguém. Entendido?

Outro aceno com a cabeça.

— Mais alguma coisa? — perguntou ela.

— Sim — respondeu-lhe ele, estendendo a mão. — Por favor, dê-me o seu telemóvel assim como qualquer outro dispositivo eletrónico que tenha na carteira.

 

Passados dez segundos, a luz vermelha do telemóvel de Jihan desapareceu do ecrã do computador de Gabriel. Este comunicou rapidamente por rádio com Yaakov, que a tinha seguido para o interior do hotel, e mandou-o abortar a operação. Mas nessa altura, já era demasiado tarde; Jihan estava a deslocar-se pelo meio da multidão em passo rápido, como se estivesse numa parada, com o queixo erguido em desafio e a mala pendurada ao ombro. Depois esgueirou-se por entre as portas de um elevador que se estavam a fechar e desapareceu da vista dele.

Yaakov meteu-se rapidamente no elevador seguinte e carregou para o segundo andar. A viagem pareceu levar uma eternidade; e quando, finalmente, as portas se abriram, viu um segurança sírio de pé no vestíbulo, com as mãos entrelaçadas e os pés afastados à largura dos ombros, como se estivesse a preparar-se para um ataque frontal. Os dois homens trocaram um olhar longo e frio. Foi então que as portas se fecharam com uma sacudidela e o elevador desceu devagarinho para o átrio do hotel.