O Assalto
52. Hotel Métropole, Genebra
52
HOTEL MÉTROPOLE, GENEBRA
Ela bateu levemente — demasiado levemente, ao que parecia, porque durante vários longos segundos ninguém apareceu. Foi então que a porta recuou uns quantos centímetros e uns olhos escuros a observaram cautelosamente por cima da tranca de segurança. Os olhos pertenciam a mais outro segurança. Era mais parecido com o motorista de Jihan do que com o implacável senhor Omari, jovem, impecavelmente arranjado e vestido, um assassino num invólucro apresentável. Revistou-lhe minuciosamente a carteira para se certificar de que ela não tinha trazido uma pistola ou um colete de suicida. Depois convidou-a a segui-lo para a sala de estar da suíte luxuosa. Havia mais quatro seguranças exatamente como ele espalhados pelo perímetro; e, sentado no sofá, estava Kemel al-Farouk, vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, antigo agente da Mukhabarat, amigo e conselheiro de confiança do presidente. Estava a equilibrar uma chávena e o respetivo pires numa das mãos e a abanar a cabeça perante qualquer coisa que um repórter da Al Jazeera estava a dizer na televisão. No sofá, à volta dele, e em cima da mesinha de apoio estavam espalhados vários dossiês. Jihan não conseguiu deixar de se interrogar sobre o que teriam. Documentos sobre a posição a tomar relativamente às conversações de paz iminentes? Uma descrição das vitórias recentes nos campos de batalha? Uma lista de figuras da oposição falecidas nos últimos tempos? Por fim, girou a cabeça uns quantos graus e, fazendo sinal com ela, convidou-a a sentar-se. Nem se levantou, nem lhe estendeu a mão. Homens como Kemel al-Farouk eram demasiado poderosos para se preocuparem com boas maneiras.
— É a primeira vez que vem a Genebra? — perguntou.
— Não — respondeu ela.
— Já cá esteve ao serviço do senhor Al-Siddiqi?
— Na verdade, foi de férias.
— Quando veio cá de férias, Jihan? — Sorriu repentinamente e perguntou: — Importa-se que a trate por Jihan?
— Claro que não, senhor Al-Farouk.
O sorriso desvaneceu-se. Voltou a perguntar-lhe quais as circunstâncias em que passara férias em Genebra.
— Era pequena — respondeu ela. — Na verdade, não me lembro de muita coisa.
— O senhor Al-Siddiqi disse-me que foi criada em Hamburgo.
Ela assentiu com a cabeça.
— É uma das grandes tragédias do nosso país, a grande diáspora síria. Quantos de nós se espalharam pelos quatro cantos do mundo? Dez milhões, quinze milhões? Se ao menos voltassem outra vez para casa. A Síria seria verdadeiramente uma grande nação.
Ela queria explicar-lhe que a diáspora nunca regressaria enquanto homens como ele estivessem a governar o país. Em vez disso, assentiu pensativamente, como se ele tivesse proferido palavras de grande perspicácia. Estava sentado à maneira do pai do presidente, com os pés bem apoiados no chão e as palmas das mãos nos joelhos. O cabelo muito curto tinha uma tonalidade avermelhada, tal como a barba muito bem aparada. Com o fato feito por medida e a gravata sóbria, era quase possível imaginar que era realmente um diplomata e não um homem que costumava crucificar os opositores para se divertir.
— Café? — perguntou, como se, subitamente, tivesse dado conta da sua falta de educação.
— Não, obrigada.
— Qualquer coisa para comer, talvez?
— Disseram-me para receber os documentos e ir-me embora, senhor Al-Farouk.
— Ah, sim, os documentos.
Pousou a mão num envelope de manilha ao lado dele, em cima do sofá.
— Gostou de crescer em Hamburgo, Jihan?
— Sim, suponho que sim.
— Havia muitos outros sírios lá, não havia?
Ela assentiu com a cabeça.
— Inimigos do governo sírio?
— Não faço ideia.
O sorriso dele dizia-lhe que não acreditava totalmente nela.
— Vivia na Marienstrasse, não vivia?
— Como sabe isso?
— Vivemos tempos difíceis — disse ele após uns momentos, como se a Síria estivesse a passar por um período de tempo inclemente. — Os meus seguranças dizem-me que nasceu em Damasco.
— É verdade.
— Em 1976. — Jihan assentiu vagarosamente com a cabeça. — Também foram tempos difíceis — disse ele. — Nessa altura, salvámos a Síria e agora vamos voltar todos a salvar a Síria.
Olhou para ela durante uns instantes.
— Quer que o governo sírio triunfe nesta guerra, não quer, Jihan?
Jihan levantou um pouco o queixo e olhou-o nos olhos.
— Quero a paz para o nosso país — respondeu.
— Todos queremos a paz — retorquiu ele. — Mas é impossível fazer a paz com monstros.
— Não poderia estar mais de acordo, senhor Al-Farouk.
Ele sorriu e pousou o envelope de manilha na mesa à frente dela.
— Quanto tempo falta para o seu avião partir? — perguntou.
Jihan deitou uma olhadela ao relógio de pulso e respondeu:
— Noventa minutos.
— Tem a certeza de que não quer café?
— Não, obrigada, senhor Al-Farouk — respondeu ela delicadamente.
— E qualquer coisa para comer?
Jihan forçou um sorriso.
— Como qualquer coisa no avião.
Durante uns minutos, naquela gloriosa manhã de segunda-feira em Genebra, o majestoso e antigo Hotel Métropole pareceu ser o centro do mundo civilizado. Carros pretos chegavam e partiam da entrada; diplomatas e banqueiros cinzentos entravam e saíam das portas. Um repórter famoso da BBC usou-o como pano de fundo para um direto. Um bando de manifestantes insultou o hotel por ter permitido que assassinos dormissem pacificamente sob o seu teto.
Dentro do hotel, reinava uma agitação silenciosa. Depois da breve visita ao segundo andar, Yaakov tinha-se precipitado para a última mesa livre no Mirror Bar e estava a olhar fixamente para os elevadores por cima de um café crème morno. Às 11h40, umas portas abriram-se com um sacão e Jihan apareceu repentinamente. Quando entrara no hotel uns minutos antes, trazia a carteira pendurada no ombro direito. Agora, estava no esquerdo. Era um sinal combinado previamente. Ombro esquerdo queria dizer que tinha os documentos. Ombro esquerdo queria dizer que não corria perigo. Yaakov comunicou rapidamente com Gabriel para lhe pedir instruções. Gabriel disse a Yaakov para a deixar seguir.
A equipa tinha o hotel rodeado dos quatro lados, mas ninguém se tinha dado ao trabalho de fazer uma cobertura fotográfica. Não interessava; mal Jihan saiu pela porta da frente, entrou no enquadramento da câmara da BBC. A imagem, transmitida em direto pelo mundo inteiro e guardada até hoje nos arquivos digitais da estação, foi a última que ficou registada dela. O rosto parecia calmo e resoluto; o andar era rápido e determinado. Fez uma pausa, como se estivesse confusa em relação a qual dos Mercedes estacionados fora do hotel era o dela. Foi então que um homem de trinta e tal anos lhe fez sinal e ela desapareceu no banco de trás desse carro. O homem de trinta e tal anos olhou de relance para os andares mais altos do hotel antes de se sentar ao volante. O carro afastou-se bruscamente do passeio e a filha de Hama desapareceu.
Entre os muitos aspetos da partida de Jihan que não foram captados pela câmara da BBC, encontrava-se o Toyota grande e prateado que a seguiu. No entanto, Kemel al-Farouk reparou no carro porque naquele momento estava à janela do quarto do hotel no segundo andar. Antigo agente dos serviços secretos, não conseguiu deixar de admirar a forma como o motorista do Toyota entrou no trânsito sem qualquer pressa ou urgência. Era um profissional; Kemel al-Farouk tinha a certeza disso.
Tirou um telemóvel do bolso, marcou um número e murmurou umas quantas palavras em código que informaram o homem do outro lado da linha de que estava a ser seguido. A seguir, desligou e ficou a ver o Jet d’Eau lançar uma torrente de água a grande altura por cima do lago. No entanto, os seus pensamentos estavam concentrados nos acontecimentos que se iriam seguir. Primeiro, o senhor Omari ia obrigá-la a falar. Depois, o senhor Omari ia matá-la. Prometia ser uma tarde divertida. Kemel al-Farouk só gostava de poder arranjar tempo na agenda ocupadíssima para ser ele a fazer isso.
No apartamento seguro do Boulevard de Saint-Georges, Gabriel estava parado à frente do computador, com uma mão apoiada no queixo e a cabeça inclinada para um lado, petrificado. Atrás dele, Eli Lavon andava devagar de um lado para o outro, com uma caneca de chá na mão, um escritor à procura do verbo perfeito. O rádio seguro dizia-lhes tudo o que havia para saber; o computador fornecia apenas provas que o corroboravam. Jihan Nawaz estava novamente em segurança no carro e o carro seguia para o Aeroporto Internacional de Genebra. Mikhail Abramov ia duzentos metros atrás, na Route de Meyrin, com Yossi a servir de navegador e de segundo par de olhos de confiança. Oded e Rimona Stern estavam a vigiar o terminal. O resto da equipa ia a caminho. Estava tudo a correr conforme planeado, com uma pequena exceção.
— E qual é? — perguntou Eli Lavon.
— O telefone dela — respondeu Gabriel.
— O que se passa com ele?
— Estou apenas a pensar por que razão o senhor Omari não lho devolveu.
Passou-se mais um minuto e a luz vermelha a piscar de Jihan continuou a não aparecer no ecrã. Gabriel levou o rádio aos lábios e ordenou a Mikhail que diminuísse a distância.
Mais tarde, durante o inquérito secreto que se seguiu aos acontecimentos em Genebra, surgiriam dúvidas em relação à hora exata em que Mikhail e Yossi tinham recebido a ordem de Gabriel. Acabaram todos por concordar que tinha sido às 12h17. Mas não havia dúvidas quanto à localização deles na altura; estavam a passar pelo bar e restaurante Les Asters, no número 88 da Route de Meyrin. Uma mulher de cabelo escuro encontrava-se na varanda do apartamento diretamente por cima do café. Um elétrico estava a aproximar-se lentamente deles. Era o número 14. Disso, Mikhail e Yossi tinham a certeza absoluta.
Também tinham a certeza absoluta de que o Mercedes que levava Jihan Nawaz ia uns cem metros à frente, deslocando-se a uma velocidade considerável. Tão considerável, de facto, que Mikhail estava com dificuldades notórias em conseguir reduzir o intervalo que separava os dois carros. Passou um sinal vermelho na Avenue Wendt e quase atropelou um peão temerário, mas não serviu de nada. O condutor do Mercedes estava a avançar pelo boulevard a toda a velocidade, como se receasse que Jihan pudesse perder o avião.
Por fim, quando se aproximavam do centro compacto da cidade de Genebra, Mikhail conseguiu carregar a fundo no acelerador. E foi nessa altura que uma carrinha comercial branca, completamente nova, sem nada que a identificasse, apareceu a abrir de uma estreita rua lateral. Mikhail teve menos de um segundo para pensar numa ação evasiva e, nesse período de tempo, concluiu que não havia opções disponíveis. Havia uma paragem de elétrico no centro do boulevard e trânsito intenso na direção dele, nas faixas em sentido contrário. O que não deixava outra alternativa a não ser carregar a fundo no travão ao mesmo tempo que girava o volante para a esquerda, uma manobra que pôs o carro a derrapar de forma dominada.
O condutor da carrinha também travou, bloqueando assim as duas faixas do boulevard. E quando Mikhail lhe fez sinal para se afastar, o condutor saiu da carrinha e começou a arengar furiosamente numa língua que parecia uma mistura de francês e árabe. Mikhail também saiu do carro e, durante uns curtos instantes, pensou em puxar da arma que trazia escondida. Mas não foi preciso; depois de um último gesto ordinário, o condutor da carrinha retrocedeu, entrou para a cabina e, sorrindo, saiu vagarosamente do caminho. O Mercedes tinha desaparecido e Jihan Nawaz tinha-se sumido oficialmente dos ecrãs dos radares.
O telemóvel que pertencia ao senhor Omari, nome próprio desconhecido, tocou duas vezes depois de terem saído do Hotel Métropole, uma vez quando estavam a atravessar a Pont du Mont-Blanc e novamente quando estavam a aproximar-se do aeroporto. Durante a primeira chamada, não disse nada; durante a segunda, emitiu pouco mais do que um grunhido antes de desligar. O telemóvel de Jihan estava ao lado dele, na consola central. Até ao momento, não tinha dado nenhuma indicação de que estivesse a pensar devolver-lho, nem agora nem nunca.
— Deve estar curiosa em relação à natureza desses documentos — disse passados uns momentos.
— De modo nenhum — respondeu ela.
— A sério?
Voltou-se e olhou para ela.
— Tenho dificuldade em acreditar nisso.
— Porquê?
— Porque a maior parte das pessoas sente uma curiosidade natural quando se trata dos assuntos financeiros de pessoas poderosas.
— Lido permanentemente com pessoas poderosas.
— Mas não como o senhor Al-Farouk — disse ele com um sorriso desagradável.
Depois continuou:
— Vá. Dê uma olhadela.
— Disseram-me para não o fazer.
Jihan permaneceu imóvel. O sorriso dele desapareceu.
— Olhe para os documentos — repetiu.
— Não posso.
— O senhor Al-Farouk acabou de me dizer que queria que você abrisse o envelope antes de entrar no avião.
— A não ser que ele mo diga, não posso fazer isso.
— Olhe para eles, Jihan. É importante.
Jihan tirou o envelope de manilha da carteira e estendeu-lho. Ele ergueu as mãos defensivamente, como se ela lhe estivesse a oferecer uma cobra venenosa.
— Não estou autorizado a vê-los — disse. — Só você.
Ela soltou a presilha de metal, levantou a dobra e tirou o molho de documentos. Tinha uns treze centímetros de espessura e estava preso com uma mola metálica. A primeira página estava em branco.
— Pronto — disse ela. — Já olhei para eles. Agora já podemos ir para o aeroporto?
— Olhe para a página seguinte — disse ele, voltando a sorrir.
Foi o que ela fez. Também estava em branco. E a terceira também. E a quarta. Foi então que levantou os olhos para o senhor Omari e lhe viu a arma na mão, apontada ao peito dela.