O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 43 de 65

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O Assalto

41. Attersee, Áustria

41

ATTERSEE, ÁUSTRIA

 

Por essa altura, já a tarde estava no fim. Lá fora, o vento tinha parado e a superfície do lago parecia uma chapa de vidro fumado. De repente, Jihan ficou com um ar exausto; estava a olhar fixamente pelas portas duplas abertas, com os olhos vazios de um refugiado. Gabriel arrumou os dossiês sem fazer barulho e despiu o casaco do fato de burocrata. Atravessou o jardim com Jihan, na direção do barco a motor de madeira que se encontrava amarrado no final da doca comprida. Subiu a bordo primeiro e, pegando-lhe na mão, ajudou Jihan a subir para a zona dos bancos na popa. Ela enfiou os óculos de sol à estrela de cinema e sentou-se com todo o cuidado, como se lhe estivessem prestes a tirar uma fotografia. Gabriel ligou o motor, desamarrou as cordas e deixou-as à deriva. Afastou-se da doca lentamente, para não deixar esteira, e virou o barco para sul. O céu continuava limpo, mas os picos das montanhas no final do lago tinham prendido uns resquícios de uma nuvem que ia a passar. Os austríacos chamavam a essas montanhas Höllengebirge: as montanhas do Inferno.

— Dá muito boa conta de si num barco — disse Jihan para as costas dele.

— Costumava velejar de vez em vez quando era mais novo.

— Onde?

— No Báltico — respondeu. — Passava os meus verões lá quando era miúdo.

— Pois — retorquiu Jihan num tom distante. — E ouvi dizer que a Ingrid costumava passar os verões aqui no Attersee.

Estavam sozinhos no meio do lago. Gabriel desligou o motor e rodou a cadeira para ficar de frente para ela.

— Já sabe tudo sobre mim — disse ela —, mas eu não sei nada sobre si. Nem sequer o seu nome.

— É para sua proteção.

— Ou, se calhar, é para sua.

Levantou os óculos escuros para ele lhe poder ver os olhos. O sol do fim da tarde tornou-os mais claros.

— Sabe o que me vai acontecer se o senhor Al-Siddiqi descobrir que eu vos contei estas coisas?

— Mata-a — respondeu Gabriel secamente. — E é por isso que vamos garantir que nunca o saiba.

— Se calhar, já sabe.

Olhou para ele com ar sério durante um momento.

— Ou, se calhar, você trabalha para o senhor Al-Siddiqi. Se calhar, já estou morta.

— Tenho cara de quem trabalha para o senhor Al-Siddiqi?

— Não — admitiu ela. — Mas também não tem propriamente cara de cobrador de impostos alemão.

— As aparências enganam.

— E os cobradores de impostos alemães também.

Uma rajada de vento soprou pelo barco e provocou ondas na superfície do lago.

— Sente este cheiro? — perguntou Jihan. — O ar cheira a flores.

— Chamam-lhe Rosenwind.

— A sério?

Ele assentiu com a cabeça. Jihan fechou os olhos e inalou o aroma.

— A minha mãe punha sempre um bocadinho de óleo de rosas no pescoço e na bainha do hijab. Quando os sírios estavam a bombardear Hama, agarrava-me com força para eu não ter medo. Eu costumava encostar a cara ao pescoço dela para poder sentir o cheiro a rosas em vez do fumo dos fogos.

Abriu os olhos e fitou Gabriel.

— Quem é você? — perguntou.

— Sou o homem que a vai ajudar a acabar o que começou.

— E o que quer isso dizer?

— Continuou no Bank Weber por uma razão, Jihan. Queria saber o que o senhor Al-Siddiqi andava a fazer. E agora sabe que ele tem andado a esconder dinheiro para o regime. Milhares de milhões de dólares que deviam ter sido gastos a educar e a cuidar do povo sírio. Milhares de milhões de dólares que agora se encontram numa rede de contas bancárias espalhadas pelo mundo.

— E o que pretende fazer em relação a isso?

— Vou transformá-los outra vez em camponeses das montanhas de Djebel Ansari.

Fez uma pausa e depois acrescentou:

— E a Jihan vai ajudar-me.

— Não posso.

— Porquê?

— Porque não consigo aceder às informações que procura.

— Onde é que elas estão?

— Algumas estão no computador que está no gabinete do senhor Al-Siddiqi. É muito seguro.

— A segurança informática é um mito, Jihan.

— E é por isso que não é aí que ele guarda as informações verdadeiramente importantes. Sabe perfeitamente que não as pode confiar a aparelhos eletrónicos.

— Está a dizer-me que está tudo na cabeça dele?

— Não — respondeu ela. — Está aqui.

Pousou a mão em cima do coração.

— Anda com elas?

— Num caderninho de notas encadernado em pele — respondeu ela, assentindo com a cabeça. — Está no bolso do peito do casaco ou então na pasta, mas ele nunca se afasta dele.

— E o que tem o caderno?

— Uma lista com números de conta, instituições e balanços atualizados. Muito simples. Muito claro.

— Já o viu?

Ela assentiu com a cabeça.

— Um dia, tinha-o em cima da secretária quando me chamou ao gabinete. Está escrito à mão. As contas que foram extintas ou alteradas aparecem com um risco por cima.

— E há mais exemplares? — Jihan abanou a cabeça. — Tem a certeza?

— Absoluta — respondeu. — Só tem um exemplar, para ficar a saber se alguém lhe chegou.

— E se ele desconfiar que alguém o viu?

— Imagino que tenha maneira de encerrar as contas.

Uma brisa ligeira fez parecer que tinham pousado um ramo de rosas no meio dos dois. Ela voltou a pôr os óculos e passou a ponta do dedo pela superfície da água.

— E há outro problema — disse passado um momento. — Se desaparecerem ativos sírios no valor de vários milhares de milhões de dólares, o senhor Al-Siddiqi e os amigos de Damasco vão pôr-se à procura deles.

Fez uma pausa e a seguir acrescentou:

— O que quer dizer que também vai ter de me fazer desaparecer.

Tirou a mão da água e olhou para Gabriel.

— Consegue fazer isso?

— Num piscar de olhos.

— E vou estar a salvo?

— Sim, Jihan. Vai estar a salvo.

— E onde vou viver?

— Onde quer que queira, dentro dos limites da razoabilidade, claro.

— Gosto disto aqui — disse ela, olhando para as montanhas à volta. — Mas é capaz de ser demasiado perto de Linz.

— Então arranjamos-lhe um sítio parecido.

— Vou precisar de uma casa. E de algum dinheiro. Não muito — acrescentou rapidamente. — Só o suficiente para viver.

— Algo me diz que o dinheiro não vai ser um problema.

— Mas que não seja o dinheiro do presidente. — Voltou a mergulhar a ponta do dedo no lago. — Está cheio de sangue.

Parecia estar a escrever qualquer coisa na superfície da água. Gabriel sentiu-se tentado a perguntar-lhe o que era, mas deixou-a em paz. Um resquício de uma nuvem tinha-se soltado das montanhas do Inferno. Pairou sobre a cabeça deles e parecia estar tão perto que Gabriel teve de resistir ao impulso de se esticar para agarrar nela.

— Nunca me explicou como me encontraram — disse Jihan subitamente.

— Não ia acreditar se eu lhe contasse.

— E é uma história boa?

— Espero que sim.

— Talvez a Ingrid a escreva em vez da história em que anda a trabalhar agora. Nunca gostei de histórias sobre Viena durante a guerra. São demasiado parecidas com Hama.

Levantou os olhos da água e fixou-os em Gabriel.

— Alguma vez me vai dizer quem é?

— Quando tudo terminar.

— Está a dizer-me a verdade?

— Sim, Jihan. Estou a dizer-lhe a verdade.

— Diga-me como se chama — insistiu. — Diga-me agora e eu escrevo o nome no lago. E, quando desaparecer, esqueço-me dele.

— Lamento muito, mas a coisa não funciona assim.

— E deixa-me ao menos pilotar o barco até casa?

— Sabe fazer isso?

— Não.

— Venha cá — disse ele. — Eu mostro-lhe.

 

Ela ficou na villa junto ao Attersee até já bem depois de escurecer; a seguir, acompanhada por Dina, regressou a Linz no Volvo inconstante. Passou grande parte da viagem a tentar descobrir o nome e a organização a que pertencia o homem que ia roubar a fortuna adquirida ilegalmente pela família do presidente sírio, mas Dina não lhe deu saída. Falou apenas da festa a que não tinham ido, de um jovem e atraente arquiteto que parecia ter gostado especialmente de Jihan e do cheiro sedutor a rosas que chegara com o vento noturno. Quando atingiram os arredores da cidade, até Jihan parecia já ter expurgado temporariamente da cabeça os acontecimentos daquela tarde. Achas mesmo que ele me vai ligar?, perguntou a propósito do arquiteto imaginário de Dina. Sim, respondeu Dina, com a culpa a pesar-lhe uma vez mais sobre os ombros. Acho que vai.

Passavam poucos minutos da meia-noite quando viraram para a ruazinha sossegada onde viviam, perto da Innere Stadt. Despediram-se com beijos formais na cara e subiram para os respetivos apartamentos. Quando Dina entrou no dela, viu a silhueta de um homem de constituição forte sentado rigidamente à janela. Estava a espreitar por uma abertura nas persianas. No chão, aos pés dele, encontrava-se uma HK de 9 milímetros.

— Alguma coisa? — perguntou ela.

— Não — respondeu Christopher Keller. — Ninguém a seguiu.

— Queres que te faça café?

— Não é preciso.

— Queres comer alguma coisa?

— Trouxe comida.

— E quem te vai substituir?

— Para já, vou ser eu sozinho.

— Mas alguma vez vais ter de dormir.

— Sou do Regimento — respondeu Keller, fitando a escuridão. — Não preciso de dormir.