O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 7 de 65

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O Assalto

5. Veneza

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VENEZA

 

Gabriel foi trabalhando no Veronese até as janelas da nave se escurecerem com o crepúsculo. Ligou do telefonino para Francesco Tiepolo e deu-lhe a notícia de que tinha de tratar de um assunto muito privado para o general Cesare Ferrari dos Carabinieri. Não entrou em pormenores.

— Quanto tempo vais estar fora? — perguntou Tiepolo.

— Um ou dois dias — respondeu Gabriel. — Se calhar, um mês.

— E o que digo aos outros?

— Diz-lhes que eu morri. Isso vai animar o Antonio.

Gabriel arrumou a plataforma de trabalho com mais cuidado do que o costume e saiu para o final de tarde frio. Seguiu o percurso habitual em direção a norte, passando por San Paolo e Cannaregio, até chegar a uma ponte de ferro, a única ponte de ferro em toda a cidade de Veneza. Na Idade Média, havia um portão no centro da ponte e, à noite, um guarda cristão ficava de vigia para que quem estava preso do outro lado não pudesse fugir. Naquele momento, a única coisa que a ponte tinha era uma gaivota que lançou um olhar feroz e malévolo a Gabriel quando este passou por ela devagar.

Entrou num sottoportego às escuras. No final da passagem, uma ampla praça abriu-se diante dele, o Campo di Ghetto Nuovo, o coração do gueto antigo de Veneza. Atravessou a praça e parou à porta do número 2899. Uma pequena placa de bronze indicava COMUNITÀ EBRAICA DI VENEZIA : Comunidade Judaica de Veneza. Tocou à campainha e depois, por instinto, desviou a cara da câmara de segurança.

— Em que o posso ajudar? — perguntou em italiano uma voz feminina familiar.

— Sou eu.

— Eu, quem?

— Abre a porta, Chiara.

Ouviu-se o besouro da porta e um ferrolho a abrir-se com um estalido. Gabriel entrou num corredor exíguo e percorreu-o até chegar a outra porta, que se abriu automaticamente quando ele se aproximou. Dava para um pequeno gabinete, onde Chiara estava sentada recatadamente atrás de uma secretária arrumada. Trazia uma camisola branca como a neve, leggings castanho-claros e botas de cabedal. O cabelo castanho-arruivado revolto caía-lhe pelos ombros, em cima de um lenço de seda que Gabriel tinha comprado na ilha da Córsega. Resistiu ao impulso de lhe beijar a boca grande. Não achava que fosse apropriado exprimir afeto físico pela rececionista do rabi principal de Veneza, mesmo que a rececionista por acaso também fosse a filha dedicada do rabi.

Chiara estava prestes a interpelá-lo quando foi interrompida pelo toque do telefone. Gabriel sentou-se na borda da secretária e ficou a ouvi-la a lidar com uma pequena crise que afetava uma comunidade de crentes cada vez mais diminuta. Assombrosamente, parecia a mesma rapariga que conhecera, dez anos antes, quando tinha ido falar com o rabi Jacob Zolli para lhe pedir informações sobre o destino dos judeus italianos durante a Segunda Guerra Mundial. Na altura, Gabriel não sabia que Chiara era agente dos serviços secretos israelitas nem que recebera da Avenida Rei Saul a missão de o proteger durante o restauro do retábulo de San Zaccaria. Ficou a saber quem ela era na realidade pouco tempo depois, em Roma, a seguir a um incidente com tiros e a polícia italiana. Sozinho num apartamento seguro com Chiara, sem poder de lá sair, Gabriel quis desesperadamente tocar-lhe. Esperou até o caso ficar resolvido e terem regressado a Veneza. Foi lá que, numa casa no Canal de Cannaregio, fizeram amor pela primeira vez, numa cama preparada com lençóis lavados. Foi como fazer amor com uma figura pintada pela mão de Veronese.

No dia em que se conheceram, Chiara tinha-lhe oferecido café. Agora, ela já não bebia café, só água e sumos de fruta, que estava sempre a bebericar de uma garrafa de plástico. Era o único sinal visível de que, após uma longa luta com a infertilidade, estava finalmente grávida de gémeos. Tinha jurado não resistir ao inevitável aumento de peso com dietas e exercício, que considerava ser mais uma obsessão infligida ao mundo pelos americanos. Chiara era veneziana de alma e coração e os Venezianos não se punham a esbracejar em geringonças para o treino de cárdio nem a levantar objetos pesados para ganhar músculo. Comiam e bebiam bem, faziam amor e, quando precisavam de um bocadinho de exercício, passeavam pela areia do Lido ou iam até à Zaterre comer um gelado.

Desligou o telefone e fixou o olhar brincalhão nele. Os olhos dela eram cor de caramelo e salpicados de dourado, uma combinação que Gabriel nunca tinha sido capaz de reproduzir com exatidão num quadro. Naquele momento, brilhavam intensamente. Estava feliz, pensou ele, mais feliz do que já a tinha visto. De repente, não teve coragem de lhe dizer que o general Ferrari lhe aparecera inesperadamente e estragara tudo.

— Como te sentes? — perguntou.

Ela revirou os olhos e deu um gole na garrafa de água de plástico.

— Disse alguma coisa que não devia?

— Não tens de me estar sempre a perguntar como me sinto.

— Quero que saibas que estou preocupado contigo.

— Eu sei que estás preocupado, querido. Mas não tenho nenhuma doença terminal. Estou só grávida.

— E o que te devia perguntar?

— Devias perguntar-me o que quero para jantar.

— Estou esfomeado — disse ele.

— E eu estou sempre esfomeada.

— Queres ir comer fora?

— Por acaso, até me apetece cozinhar.

— E achas que consegues?

— Gabriel!

Ela começou a arrumar escusadamente os papéis que tinha em cima da secretária. Não era bom sinal. Chiara punha-se sempre a arrumar coisas quando se irritava.

— Como foi o trabalho? — perguntou.

— Um fartote de emoções.

— Não me digas que estás farto do Veronese?

— Andar a tirar verniz sujo não é a parte mais recompensadora de um restauro.

— Não houve surpresas?

— Com o restauro?

— Em geral — respondeu ela.

Era uma pergunta estranha.

— A Adrianna Zinetti veio trabalhar vestida como o Groucho Marx — retorquiu Gabriel —, mas de resto foi um dia normal na Igreja de San Sebastiano.

Chiara franziu o sobrolho. Abriu uma gaveta com a biqueira da bota e enfiou uns papéis distraidamente num dossiê de manilha. Não seria surpresa para Gabriel se esses papéis não tivessem nada que ver com os que já estavam no dossiê.

— Estás preocupada com alguma coisa? — perguntou.

— Não me vais perguntar outra vez como me sinto, pois não?

— Nunca me passaria pela cabeça.

Ela fechou a gaveta com mais força do que a necessária.

— Passei pela igreja à hora de almoço para te fazer uma surpresa — disse passado um momento —, mas não estavas lá. O Francesco disse que tinhas tido uma visita. Disse que não sabia quem era.

— E claro que percebeste que o Francesco estava a mentir.

— Não era preciso ser um agente dos serviços secretos experimentado para perceber isso.

— Continua — disse Gabriel.

— Liguei para o Centro de Operações para saber se andava por cá alguém da Avenida Rei Saul, mas no Centro de Operações disseram-me que não andava ninguém à tua procura.

— Sempre é uma novidade.

— Quem foi ter contigo hoje, Gabriel?

— Isto já começa a parecer um interrogatório.

— Quem foi? — perguntou ela de novo.

Gabriel levantou a mão direita e depois baixou dois dedos.

— O general Ferrari?

Gabriel assentiu com a cabeça. Chiara pôs-se a olhar fixamente para a secretária, como se estivesse à procura de qualquer coisa fora do lugar.

— Como te sentes? — perguntou Gabriel em voz baixa.

— Sinto-me ótima — respondeu ela, sem levantar os olhos. — Mas se me perguntares isso mais uma vez…

 

Era verdade que Gabriel e Chiara não viviam realmente no gueto antigo de Veneza. O apartamento que tinham arrendado ficava no primeiro andar de um velho palazzo deteriorado, numa esquina sossegada de Cannaregio onde os judeus nunca tinham sido proibidos de entrar. De um lado, havia uma praça tranquila; do outro, um canal onde a Avenida Rei Saul mantinha um pequeno e rápido barco, para o caso de Gabriel precisar de fugir de Veneza pela segunda vez na lendária carreira. Telavive tinha boas razões para não descurar a segurança dele; após muitos anos de resistência, Gabriel aceitara ser o próximo chefe do Departamento. Faltava um ano para iniciar o mandato. Daí em diante, todos os momentos da sua vida seriam dedicados à proteção do Estado de Israel daqueles que o queriam destruir. Acabar-se-iam os restauros ou as estadas prolongadas em Veneza com a linda e jovem mulher — pelo menos, sem um exército de guarda-costas a vigiá-los.

O apartamento tinha sido equipado com um sistema de segurança sofisticado, que chilreou de forma amena quando Gabriel abriu a porta. Depois de entrar, tirou a rolha de uma garrafa de Bardolino e sentou-se ao balcão da cozinha, a ouvir o noticiário da BBC, enquanto Chiara preparava uma travessa de bruschetta. Um painel da ONU previra um aquecimento global apocalíptico, uma bomba explodira num carro e matara quarenta pessoas num bairro xiita de Bagdade, e o presidente sírio, o carniceiro de Damasco, utilizara uma vez mais armas químicas contra o próprio povo. Chiara fez uma careta e desligou o rádio. A seguir, olhou desejosamente para a garrafa de vinho aberta. Gabriel tinha pena dela. Chiara sempre gostara de beber Bardolino na primavera.

— Não lhes vai fazer mal se deres só um gole — disse.

— A minha mãe nunca tocou em vinho quando estava grávida de mim.

— E vê lá como saíste.

— Perfeita em todos os aspetos.

Sorriu e pousou a bruschetta defronte de Gabriel. Este escolheu duas fatias — uma com azeitonas cortadas e a outra com feijão branco e alecrim — e serviu-se do Bardolino. Chiara descascou uma cebola e, com uns quantos golpes rápidos com a faca, transformou-a num monte de cubos brancos perfeitos.

— É melhor teres cuidado — disse Gabriel, observando-a — ou ainda ficas como o general.

— Não me dês ideias.

— O que querias que eu lhe dissesse, Chiara?

— Podias ter-lhe dito a verdade.

— Que versão da verdade?

— Falta-te um ano para fazeres o teu juramento, querido. Depois disso, vais estar a mando do primeiro-ministro e a segurança do Estado vai passar a ser tua responsabilidade. A tua vida vai ser uma reunião interminável, intervalada com uma ou outra crise.

— E é por isso que recusei o cargo várias vezes antes de acabar por aceitá-lo.

— Mas agora é teu. E isto é a tua última oportunidade de descansar como bem mereces antes de voltarmos para Israel.

— Tentei explicar isso ao general sem entrar nos pormenores sórdidos todos. Foi nessa altura que ele ameaçou deixar o Julian a apodrecer numa cela italiana.

— Ele não tinha nada para usar contra o Julian. Estava a fazer bluff.

— Talvez — reconheceu Gabriel. — Mas e se um jornalista britânico empreendedor qualquer resolvesse vasculhar um bocadinho o passado do Julian? E se esse mesmo jornalista empreendedor acabasse por descobrir que ele era um ativo do Departamento? Eu nunca me ia perdoar se tivesse deixado que ele fosse arrastado pela lama. Esteve sempre presente quando precisei dele.

— Lembras-te daquela vez em que lhe pediste para tomar conta do gato daquele desertor russo?

— Como me podia esquecer? Não fazia ideia que o Julian fosse alérgico aos gatos. Passou um mês a coçar-se.

Chiara sorriu. Pôs a cebola numa caçarola de metal pesada, com azeite e manteiga, cortou uma cenoura rapidamente e juntou-a também.

— O que estás a fazer?

— É um prato de carne aqui da zona chamado calandraca.

— E onde aprendeste a fazer isso?

Chiara levantou os olhos para o teto, como que a querer dizer que tal conhecimento se encontrava no ar e na água de Itália. Não estava longe da verdade.

— E o que posso fazer para ajudar? — perguntou Gabriel.

— Podes parar de estar sempre em cima de mim.

Gabriel levou a travessa de bruschetta e o vinho para a pequena sala de estar. Antes de se sentar no sofá, tirou a pistola do cós das calças e pousou-a com cuidado na mesinha de apoio, em cima de uma pilha de revistas lustrosas que falavam de gravidezes e partos. A pistola era uma Beretta de 9 milímetros e tinha o punho de madeira de nogueira manchado de tinta: um salpico de Ticiano, um bocadinho de Bellini, uma gota de Raphael e de Tintoretto. Não tardaria muito para deixar de andar armado; andariam outros com armas em nome dele. Interrogou-se qual seria a sensação de andar pelo mundo desarmado. Seria uma coisa parecida, achou, com sair de casa sem vestir umas calças. Havia homens que usavam gravata quando iam para o emprego. Gabriel Allon andava com uma pistola.

— Continuo sem perceber por que razão o general precisa que sejas tu a descobrir quem matou o Jack Bradshaw — gritou Chiara da cozinha.

— Pelos vistos, acha que eles andavam à procura de alguma coisa — respondeu Gabriel, folheando uma das revistas. — E gostava que eu a descobrisse primeiro.

— À procura de quê?

— Não entrou em pormenores, mas desconfio que saiba mais do que diz saber.

— Costuma ser o caso.

Chiara pôs cubos de vitela passados por farinha na caçarola e, em pouco tempo, o apartamento encheu-se com o odor da carne a tostar. A seguir, juntou um bocado de molho de tomate, vinho branco e especiarias, que mediu com a palma da mão. Gabriel ficou a ver as luzes de presença de um barco que se deslocava lentamente pelas águas negras do canal. A seguir, com cautela, disse a Chiara que estava a pensar partir para o lago Como logo de manhãzinha.

— E quando voltas? — perguntou ela.

— Depende.

— De quê?

— Do que encontrar na villa do Jack Bradshaw.

Chiara estava a cortar batatas numa tábua de madeira. Por causa disso, a afirmação de que pretendia acompanhar Gabriel mal se ouviu com o barulho da faca. Gabriel desviou os olhos da janela e fitou-a com uma expressão de reprovação.

— O que se passa? — perguntou ela passado um momento.

— Não vais a lado nenhum — respondeu ele sem levantar a voz.

— É o lago Como. O que pode acontecer?

— Queres que te dê alguns exemplos?

Chiara ficou calada. Gabriel voltou-se e pôs-se a ver outra vez o barco a subir o canal, mas tinha os pensamentos repletos de imagens de uma carreira longa e turbulenta. Era uma carreira que, estranhamente, se desenrolara em alguns dos locais mais glamorosos da Europa. Tinha matado em Cannes e Saint-Tropez e lutado pela vida nas ruas de Roma e nas montanhas da Suíça. E em tempos, muitos anos antes, perdera a mulher e o filho devido a uma bomba que fez explodir um carro numa rua pitoresca do elegante Primeiro Distrito de Viena. Não, pensou naquele momento, Chiara não o iria acompanhar até ao lago Como. Deixá-la-ia ali em Veneza, ao cuidado da família e sob a proteção da polícia italiana. E que Deus acudisse o general se este permitisse que lhe acontecesse alguma coisa.

Ela estava a cantar baixinho, uma daquelas tontas canções pop italianas que tanto adorava. Juntou as batatas cortadas à caçarola, baixou o lume e depois foi ter com Gabriel à sala de estar. O dossiê do general Ferrari sobre Jack Bradshaw estava em cima da mesinha de apoio, ao lado da Beretta. Esticou-se para pegar nele, mas Gabriel impediu-a; não queria que ela visse como os assassinos de Jack Bradshaw lhe tinham estropiado o corpo. Chiara pousou a cabeça no ombro dele. O cabelo dela cheirava a baunilha.

— Quanto tempo achas que a calandraca vai demorar? — perguntou Gabriel.

— Mais ou menos uma hora.

— Não consigo esperar tanto.

— Come outra bruschetta.

Foi o que fez. E Chiara também. A seguir, levou o copo de Bardolino ao nariz, mas não bebeu nada.

— Não lhes vai fazer mal se deres só um golezinho pequeno.

Chiara voltou a pousar o copo de vinho na mesa e pousou a mão sobre o ventre. Gabriel pôs a mão ao lado da dela e, por um instante, achou que conseguia detetar o leve palpitar, digno de um colibri, dos corações de dois fetos. São meus, pensou, abraçando-os com força. E que Deus acuda quem lhes tentar alguma vez fazer mal.