O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 12 de 65

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O Assalto

10. Rue de Miromesnil, Paris

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RUE DE MIROMESNIL, PARIS

 

No mundo dos serviços secretos, tal como na vida, às vezes é necessário lidar com indivíduos que têm tudo menos as mãos limpas. A melhor maneira de apanhar um terrorista era utilizar outro como fonte de informações. E o mesmo se aplicava, concluiu Gabriel, quando se estava a tentar apanhar um ladrão. O que explicava por que razão, às 9h55, se encontrava sentado junto à janela, numa brasserie bastante boa da Rue de Miromesnil, com um exemplar do Le Monde aberto diante dele e um café crème a escaldar encostado ao cotovelo. Às 9h58, reparou numa figura de sobretudo e chapéu a avançar energicamente pelo passeio, como quem vem do Palácio do Eliseu. Essa figura entrou numa pequena loja chamada Antiquités Scientifiques às dez em ponto, acendeu as luzes e passou o letreiro na montra de FERMÉ para OUVERT. Se havia coisa que se podia dizer de Maurice Durand, pensou Gabriel, sorrindo, é que era uma pessoa de hábitos certos. Terminou o café e atravessou a rua deserta até à entrada da loja. Quando carregou nele, o intercomunicador berrou como uma criança inconsolável. Passaram vinte segundos sem que a porta se abrisse. Foi então que o ferrolho deu de si com um baque inóspito e Gabriel entrou discretamente.

 

A pequena sala de exposições, tal como o próprio Durand, era um modelo de ordem e precisão. Microscópios e barómetros antigos encontravam-se dispostos nas prateleiras, em filas meticulosas, com os acessórios em bronze a reluzirem como os botões da túnica de um soldado; máquinas fotográficas e telescópios espreitavam cegamente para o passado. No centro da sala, estava um globo terrestre, preço disponível mediante solicitação. Durand estava com a pequeníssima mão direita pousada em cima da Ásia Menor. Tinha um fato escuro, uma gravata de um dourado muito intenso e o sorriso mais falso que Gabriel já vira. A careca reluzia com a luz do teto. Os olhos pequenos fitavam o que tinham à frente com a atenção de um terrier.

— Como vai o negócio? — perguntou Gabriel cordialmente.

Durand aproximou-se dos aparelhos fotográficos e pegou numa máquina dos inícios do século XX, com uma lente em bronze fabricada pela Poulenc, em Paris.

— Vou enviar esta peça para um colecionador australiano — informou. — Seiscentos euros. É menos do que eu estava à espera, mas o tipo não se deixou levar.

— Não é esse negócio, Maurice.

Durand ficou calado.

— Você e os seus homens saíram-se com um belo golpe o mês passado em Munique — disse Gabriel. — Um retrato do El Greco desaparece da Alte Pinakothek e nunca mais ninguém o viu ou ouviu falar dele. Não houve pedido de resgate. Nem indicações da polícia alemã de que esteja perto de desvendar o caso. Só silêncio e um espaço vazio na parede de um museu onde dantes estava pendurada uma obra-prima.

— Não me pergunta sobre o meu negócio — retorquiu Durand — e eu não lhe pergunto sobre o seu. São as regras da nossa relação.

— Onde está o El Greco, Maurice?

— Está em Buenos Aires, nas mãos de um dos meus melhores clientes. Tem um fraco — acrescentou Durand —, um apetite insaciável que só eu posso satisfazer.

— E qual é?

— Gosta de ter o que não se pode ter.

Durand voltou a pousar a máquina fotográfica na prateleira da vitrina.

— Imagino que isto não seja uma visita de carácter social. — Gabriel abanou a cabeça. — E o que quer desta vez?

— Informações.

— Sobre o quê?

— Um inglês que morreu chamado Jack Bradshaw. — O rosto de Durand manteve-se inexpressivo. — Imagino que o conhecesse, certo? — perguntou Gabriel.

— Só a sua reputação.

— E faz ideia de quem o retalhou aos pedacinhos?

— Não — respondeu Durand, abanando a cabeça lentamente. — Mas sou capaz de lhe poder indicar a direção certa.

Gabriel foi até à montra e mudou o letreiro de OUVERT para FERMÉ. Durand soltou um suspiro profundo e vestiu o sobretudo.

Eram dos pares mais improváveis que se poderiam encontrar em Paris naquela manhã gelada de primavera, o ladrão de arte e o agente dos serviços secretos, a percorrerem lado a lado as ruas do oitavo arrondissement. Meticuloso em tudo o que fazia, Maurice Durand começou por um breve apanhado sobre a indústria da arte roubada. Todos os anos, milhares de quadros e outros objets d’art desapareciam de museus, galerias, instituições públicas e casas. As estimativas quanto a valores chegavam a atingir os seis mil milhões de dólares, fazendo dos crimes relacionados com a arte a quarta atividade ilícita mais lucrativa do mundo, só atrás do tráfico de droga, da lavagem de dinheiro e do tráfico de armas. E Maurice Durand era responsável por grande parte da mesma. Recorrendo a um conjunto de ladrões profissionais estabelecidos em Marselha, tinha executado alguns dos maiores roubos de arte da história. Já não se considerava um mero ladrão de arte. Era um empresário à escala global, uma espécie de mediador, que se especializava na aquisição discreta de quadros que não se encontravam propriamente à venda.

— Na minha modesta opinião — continuou, sem ponta de modéstia na voz —, há quatro tipos de ladrões de arte. O primeiro é o que anda à caça de emoções, o amante de arte que rouba para obter uma coisa que nunca poderia comprar. Lembro-me, por exemplo, do Stéphane Breitwieser. — Olhou de soslaio para Gabriel. — Conhece o nome?

— O Breitwieser era o empregado de mesa que roubou mais de mil milhões de dólares de arte para a coleção dele.

— Incluindo a Sibila de Cleves de Lucas Cranach, o Velho. Depois de o prenderem, a mãe cortou os quadros aos bocadinhos e deitou-os fora com o lixo. — O francês abanou a cabeça, em sinal de desaprovação. — Estou longe de ser perfeito, mas nunca destruí um quadro. — Olhou outra vez de soslaio para Gabriel. — Mesmo quando o devia ter feito.

— E a segunda categoria?

— O falhado incompetente. Rouba um quadro, não sabe o que lhe fazer e entra em pânico. Às vezes, ainda consegue receber qualquer coisa a título de resgate ou recompensa. Mas, na maioria dos casos, é apanhado. Com toda a franqueza — acrescentou Durand —, não posso com ele. Dá mau nome às pessoas como eu.

— Profissionais que executam roubos por encomenda?

Durand assentiu com a cabeça. Estavam a caminhar pela Avenue Matignon. Passaram os escritórios da Christie’s e viraram para os Campos Elíseos. As pernadas dos castanheiros estavam despidas, com o céu cinzento em pano de fundo.

— Nas forças policiais, há quem insista que eu não existo — prosseguiu Durand. — Acham que sou uma fantasia, uma ilusão que se quer que seja realidade. Não percebem que há gente extremamente rica no mundo que anseia por adquirir grandes obras de arte e não se importa que sejam ou não roubadas. Aliás, há pessoas que querem uma obra-prima por ser roubada.

— E qual é a quarta categoria?

— O crime organizado. São todos muito bons a roubar quadros, mas não são assim tão bons no que toca a pô-los no mercado. — Durand fez uma pausa e depois acrescentou: — E era aí que o Jack Bradshaw entrava. Funcionava como intermediário entre os ladrões e os compradores… um recetador de luxo, se assim se puder dizer. E era bom no que fazia.

— E que género de compradores?

— De vez em quando, vendia diretamente aos colecionadores — respondeu Durand. — Mas, na maioria dos casos, fazia os quadros passar por uma rede de negociantes europeus.

— Onde?

— Paris, Bruxelas e Amesterdão são sítios ótimos para descarregar arte roubada. Mas as leis de propriedade e de privacidade da Suíça continuam a fazer dela uma meca para se pôr bens roubados no mercado.

Atravessaram a Place de la Concorde e entraram no Jardim das Tulherias. À esquerda, ficava o Jeu de Paume, o pequeno museu que os nazis tinham utilizado como centro de triagem quando estavam a pilhar a arte existente em França. Durand parecia estar a fazer propositadamente um esforço para não olhar para lá.

— O seu amigo Jack Bradshaw andava metido numa atividade perigosa — disse. — Tinha de lidar com gente que recorre rapidamente à violência quando as coisas não correm de feição. Os gangues sérvios são particularmente ativos na Europa Ocidental. E os russos também. É possível que o Bradshaw fosse morto por causa de um negócio que deu para o torto. Ou…

A voz de Durand sumiu-se.

— Ou o quê?

Durand hesitou antes de responder.

— Ouviam-se rumores — disse por fim. — Mas nada de concreto, atenção. Eram só especulações com conhecimento de causa.

— Que género de especulações?

— Que o Bradshaw estava a tentar adquirir uma grande quantidade de quadros no mercado negro para uma só pessoa.

— E sabe o nome dessa pessoa?

— Não.

— Está a dizer-me a verdade, Maurice?

— Isto se calhar vai surpreendê-lo — respondeu Durand —, mas quando se está a adquirir uma coleção de quadros roubados, não se anuncia por norma o que se está a fazer.

— Continue.

— E também se ouviam rumores de outro tipo relacionados com o Bradshaw, rumores de que andava a servir de mediador num negócio relativo a uma obra-prima. — Durand olhou em redor de forma quase impercetível antes de prosseguir. Foi um comportamento digno de um espião profissional, pensou Gabriel. — Uma obra-prima que está desaparecida há várias décadas.

— E sabe qual era o quadro?

— Claro. E você também o conhece. — Durand parou e voltou-se para Gabriel. — Era uma cena da Natividade pintada por um artista barroco já no final da carreira. Chamava-se Michelangelo Merisi, mas a maioria das pessoas conhece-o pelo nome da aldeia da família, perto de Milão.

Gabriel lembrou-se das três letras que tinha descoberto no bloco de apontamentos de Bradshaw: C… V… O…

As letras não eram aleatórias.

Eram do nome Caravaggio.