O Assalto
48. Avenida Rei Saul, Telavive
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AVENIDA REI SAUL, TELAVIVE
A unidade que trabalhava duramente na Sala 414C da Avenida Rei Saul não tinha um nome oficial, porque, oficialmente, não existia. Os que tinham sido informados do trabalho dela referiam-se-lhe como os minian, pois a unidade era constituída por dez membros exclusivamente do sexo masculino. Sabiam pouco de espionagem pura ou de operações de combate especiais, embora a terminologia que utilizavam fosse buscar muito às duas disciplinas. Penetravam nas redes enfiando-se por portas traseiras ou com ataques de força bruta; utilizavam cavalos de Troia, bombas-relógio e chapéus pretos. Carregando apenas numas quantas teclas, conseguiam pôr uma cidade às escuras, cegar a rede de vigilância do trânsito aéreo ou fazer com que as centrifugadoras de uma fábrica nuclear iraniana de enriquecimento de urânio começassem a girar loucamente, completamente desgovernadas. Em resumo, tinham a capacidade de virar as máquinas contra os donos. Em privado, Uzi Navot dizia que os minian eram dez boas razões para ninguém que fosse bom do juízo usar um computador ou um telemóvel.
Estavam à espera nos seus terminais, uma equipa heterogénea de calças de ganga azuis e camisola, quando Gabriel voltou para Avenida Rei Saul, trazendo o conteúdo do caderno de notas e do computador de Waleed al-Siddiqi. Primeiro, examinaram o Trade Winds Bank das Ilhas Caimão, uma instituição que já tinham visitado em várias ocasiões, e foi aí que fizeram a primeira descoberta importante. Os números das duas contas abertas recentemente em nome da LXR Investments não condiziam com os números que Al-Siddiqi inscrevera no caderno de notas; tinha-os introduzido num código rudimentar, uma inversão dos numerais, que eles rapidamente decifraram. Ao que parecia, gostava do Trade Winds, já que tinha lá aberto outras dez contas de holdings sob o nome de várias empresas-fachada e testas de ferro. Tudo somado, o pequeno banco das Ilhas Caimão tinha mais de 300 milhões de dólares em ativos da Evil Incorporated. Além disso, o caderno de notas e os ficheiros do computador revelavam que cinco outros bancos das Ilhas Caimão tinham contas em nome da LXR Investments ou de outras empresas-fachada. O total global, num único centro bancário offshore, era de 1,2 mil milhões de dólares. E isso era apenas o princípio.
Trabalharam geograficamente, metodicamente, e com Gabriel a espreitar por cima dos ombros deles a cada passo que davam. Das Ilhas Caimão, deslocaram-se para norte, para as Bermudas, onde mais três bancos detinham mais de 600 milhões de dólares. Depois fizeram uma visita rápida às Baamas antes de viajarem até ao Panamá, onde desenterraram outros 500 milhões de dólares guardados em catorze contas elencadas no caderno de notas de Al-Siddiqi. O passeio ao hemisfério ocidental acabou em Buenos Aires, a cidade dos biltres e dos criminosos de guerra, onde descobriram outros 400 milhões repartidos por uma dezena de contas. Em nenhuma das paragens ao longo da viagem tiraram um único cêntimo. Limitaram-se a instalar os alçapões e os circuitos de encaminhamento invisíveis que lhes permitiriam, na altura que quisessem, executar o maior roubo a um banco de que havia registo na História.
Mas o dinheiro não era a única preocupação de Gabriel. E, por isso, enquanto os piratas informáticos expandiam a busca ao centro bancário offshore de Hong Kong, percorreu o corredor até ao seu covil vazio para analisar a última leva de relatórios de vigilância de Linz. Era o final da manhã na Áustria Superior; Jihan estava sentada à secretária, Waleed al-Siddiqi estava a escrever rapidamente no computador de secretária. Gabriel sabia-o porque, no Aeroporto de Heathrow, tinha feito mais do que fotografar as páginas do caderno de notas secreto de Al-Siddiqi. Também pirateara o telemóvel do banqueiro. Tal como o de Jihan, o aparelho estava agora a funcionar como um transmissor áudio permanente. Além disso, a equipa tinha capacidade para ler à vontade os e-mails e as mensagens de texto e tirar fotografias e filmar vídeos com a câmara do telefone. Agora, Waleed al-Siddiqi, banqueiro privado da família do presidente da Síria, pertencia ao Departamento. Eram donos dele.
Quando Gabriel voltou para a oficina dos piratas informáticos, trazia com ele o velho quadro preto com moldura de madeira. Os ciberespiões acharam-no um objeto curioso; de facto, a maioria nunca tinha visto tal engenhoca. Gabriel escreveu nele um número: 2,9 mil milhões de dólares, o valor total das contas identificadas e isoladas até ao momento. E quando os piratas informáticos acabaram o trabalho em Hong Kong, mudou o número para 3,6 mil milhões de dólares. O Dubai subiu o valor para 4,7 mil milhões; Amã e Beirute, para 5,4 mil milhões. A França e o Liechenstein acrescentaram outros 800 milhões e, sem surpresa, os bancos da Suíça contribuíram com uns tremendos 2 mil milhões, elevando o total aos 8,2 mil milhões de dólares. Os bancos de Londres guardavam outros 600 milhões de libras. Seguindo as ordens de Gabriel, os piratas informáticos construíram os seus alçapões e circuitos invisíveis para o caso, improvável, de Graham Seymour não cumprir a promessa de congelar o dinheiro.
Nessa altura, já tinham passado outras trinta horas, trinta horas durante as quais Gabriel e os piratas informáticos não tinham dormido nem consumido nada a não ser café. Era o final da tarde na Áustria Superior; Jihan estava a preparar-se para se ir embora, Waleed al-Siddiqi estava novamente a martelar no teclado do computador de secretária. Com os olhos congestionados, Gabriel ordenou aos piratas informáticos que criassem um botão cerimonial que, ao ser premido, faria desaparecer mais de oito mil milhões de dólares em ativos num abrir e fechar de olhos. Depois subiu para a suíte do diretor. A luz por cima da porta estava verde. Uzi Navot estava a ler um dossiê, sentado à secretária.
— Quanto? — perguntou, olhando para cima.
Gabriel disse-lhe.
— Se fosse menos de oito mil milhões — disse Navot sardonicamente —, até estava disposto a dar a autorização sozinho. Mas, nestas circunstâncias, gostava de trocar umas palavrinhas, em privado, com o primeiro-ministro antes de seja quem for tocar nesse botão.
— Concordo.
— Então, se calhar, devias ser tu a falar com o primeiro-ministro. Afinal de contas — acrescentou Navot —, provavelmente já é altura de vocês os dois se conhecerem melhor.
— Vai haver imenso tempo para isso depois, Uzi.
Navot fechou o dossiê e olhou para o mar pelas tiras das persianas.
— E então como vai ser? — perguntou passados uns instantes. — Deitamos a mão ao dinheiro e a seguir deitamos a mão à rapariga?
— Por acaso — respondeu Gabriel —, tenciono fazê-los desaparecer no mesmo instante.
— E ela está preparada?
— Já está preparada há algum tempo.
— Um desaparecimento misterioso? É o que tencionas fazer?
Gabriel assentiu com a cabeça.
— Sem bagagem, sem marcações de viagens, nada que sugira que ela estava a planear uma viagem. Levamo-la de carro até à Alemanha e depois trazemo-la para Israel via Munique.
— E quem fica com a missão nada invejável de lhe dizer que tem andado a trabalhar para nós?
— Estava a contar ser eu.
— Mas?
— Parece-me que a boa amiga da Jihan, a Ingrid Roth, vá ter de o fazer por mim.
— Queres deitar a mão ao dinheiro hoje à noite?
Gabriel assentiu com a cabeça.
— Então, é melhor ir ter a tal conversinha com o primeiro-ministro.
— Acho que deves, sim.
Navot abanou a cabeça vagarosamente.
— Oito mil milhões de dólares — disse passados uns instantes. — É uma data de dinheiro.
— E tenho a certeza de que há mais algures por aí.
— Oito mil milhões chegam e sobram. E quem sabe — acrescentou Navot —, talvez até seja o suficiente para comprar aquele Caravaggio e recuperá-lo. — Gabriel não lhe deu resposta. — Então e quem vai carregar no botão?
— É uma tarefa para o chefe, Uzi.
— Não seria justo.
— Porquê?
— Porque foi sempre a tua operação, do princípio ao fim.
— E se for um candidato de compromisso? — perguntou Gabriel.
— Em quem estás a pensar?
— A principal especialista do país em assuntos relacionados com a Síria e o movimento Baath.
— Ela é capaz de gostar disso.
Navot estava outra vez a olhar pela janela.
— Gostava que pudesses ser tu a dizer à Jihan que ela tem andado a trabalhar para nós.
— Também eu, Uzi. Mas não há tempo.
— E se ela não entrar no avião?
— Vai entrar.
— Como podes ter essa certeza toda?
— Porque não tem outra escolha.
— Também gostava de meter o Waleed al-Siddiqi num avião — disse Navot. — De preferência, numa caixa de madeira.
— Algo me diz que a Evil Incorporated vai tratar do Waleed por nós quando descobrirem que desapareceram oito mil milhões de dólares que lhes pertenciam.
— E quanto tempo de vida achas que ele tem?
Gabriel olhou para o relógio.
Não demorou muito para que pela comunidade muito unida da segurança e defesa de Israel se espalhasse a notícia de que estava prestes a ocorrer um acontecimento de grande magnitude. Os não iniciados podiam apenas conjeturar sobre o que seria. Os iniciados podiam apenas abanar a cabeça de espanto. Era, declararam, uma proeza de proporções shamronianas, talvez a mais perfeita da carreira dele. Com toda a certeza, tinha chegado a altura de pôr fim ao sofrimento do pobre Uzi Navot e fazer a mudança na Avenida Rei Saul que toda a gente sabia que ia acontecer.
Se Navot sabia dessas conversas, não deu qualquer sinal disso durante o encontro com o primeiro-ministro. Foi vigoroso, autoritário e sóbrio sobre as implicações do que significaria fazer desaparecer oito mil milhões de dólares. Era uma jogada arrojada, disse, que com toda a certeza implicaria retaliações se alguma vez se viesse a saber quem estava por trás da operação. Aconselhou o primeiro-ministro a pôr em alerta máximo o Comando Norte das Forças de Defesa de Israel e a reforçar a segurança das embaixadas israelitas no mundo inteiro, principalmente as que ficavam nas cidades onde os serviços secretos da Síria e do Hezbollah eram mais ativos. O primeiro-ministro concordou com as duas coisas. E também ordenou que fosse reforçada a segurança de todas as redes informáticas e de comunicação essenciais de Israel. Depois, com pouco mais do que um aceno de cabeça, deu a aprovação final.
— Gostava de ser o senhor a carregar no botão? — perguntou Navot.
— É tentador — respondeu o primeiro-ministro, com um sorriso —, mas provavelmente imprudente.
Quando Navot voltou para a Avenida Rei Saul, Gabriel já tinha dado as instruções finais à equipa. Tencionava apoderar-se do dinheiro às nove da noite, hora de Linz, dez em Telavive. Mal o dinheiro tivesse chegado ao destino final, um processo que se esperava que levasse apenas cinco minutos, iria enviar uma mensagem flash para Dina e Christopher Keller, mandando-os apoderarem-se de Jihan. A Divisão de Logística e a Divisão de Transportes iriam limpar a porcaria discretamente.
Às nove da noite, hora de Telavive, não havia mais nada a fazer senão esperar. Gabriel passou essa última hora fechado na Sala 414C, a ouvir os piratas informáticos explicarem pela vigésima vez como os oito mil milhões se iriam deslocar de dezenas de contas espalhadas pelo mundo para uma única conta no Discount Bank, Ltd. de Israel, sem deixar nem uma réstia de fumo digital. E, pela vigésima vez, fingiu que compreendia o que lhe estavam a dizer, embora estivesse o tempo todo a perguntar aos seus botões como era realmente possível uma coisa daquelas. Não compreendia a língua que os piratas informáticos falavam, nem estava especialmente interessado em compreender. Estava apenas satisfeito por estarem do lado dele.
O trabalho desenvolvido na Sala 414C era tão confidencial que nem mesmo o diretor do Departamento sabia o código que abria a porta. Por isso, Uzi Navot teve de bater à porta para entrar. Acompanhado por Bella e Chiara, entrou na sala às 21h50, hora de Telavive, e deram-lhe as mesmas informações que Gabriel recebera uns minutos antes. Ao contrário de Gabriel, que se considerava um homem do século XVI, Navot sabia muito bem como funcionavam os computadores e a Internet. Fez várias perguntas pertinentes, pediu um último conjunto de garantias no que respeitava à possibilidade de poder desmentir tudo e depois deu formalmente a ordem para se apropriarem do dinheiro.
Bella sentou-se ao computador que lhe foi designado e esperou pela ordem de Gabriel para carregar no botão. Eram 21h55 em Telavive; 20h55 em Linz. Jihan Nawaz estava sozinha no apartamento, cantarolando baixinho para esconder o medo. Dois minutos mais tarde, às 20h57, hora local, recebeu um telefonema de Waleed al-Siddiqi. A conversa que se seguiu durou dez minutos. E ainda antes de ter acabado, Gabriel deu ordem para cancelar. Ninguém ia carregar em botão nenhum, disse. Nessa noite, não.