O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 35 de 65

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O Assalto

33. Linz, Áustria

33

LINZ, ÁUSTRIA

 

A cento e sessenta quilómetros para oeste de Viena, o Danúbio vira abruptamente de noroeste para sudeste. Os antigos romanos instalaram aí uma guarnição; e quando os Romanos se foram, o povo que um dia viria a ser conhecido como austríaco construiu uma cidade a que chamou Linz. A cidade prosperou com o minério de ferro e com o sal que eram transportados ao longo do rio e, durante algum tempo, foi a mais importante do Império Austro-Húngaro — mais importante até do que Viena. Mozart compôs a Sinfonia n.º 36 quando vivia em Linz; Anton Bruckner foi organista na Velha Catedral. E no pequeno subúrbio de Leonding, no número 16 da Michaelsbergstrasse, encontra-se uma casa amarela onde Adolf Hitler viveu quando era criança. Hitler mudou-se para Viena em 1905, na esperança de entrar para a Academia de Belas-Artes, mas a adorada Linz nunca estaria longe dos seus pensamentos. Linz deveria ser o centro cultural do Reich de Mil Anos e era aí que Hitler planeava construir o monumental Führermuseum de arte saqueada. Com efeito, o próprio nome de código da operação de pilhagem era Sonderauftrag Linz, ou Operação Especial Linz. A Linz dos tempos modernos tinha-se esforçado bastante por esconder as ligações a Hitler, mas as recordações do passado estavam por todo o lado. A empresa mais preeminente da cidade, o gigante do aço chamado Voestalpine AG, tinha começado por ser conhecida como Hermann-Göring-Werke. E a vinte quilómetros para leste do centro da cidade, encontravam-se os destroços de Mauthausen, o campo de concentração nazi onde os prisioneiros eram submetidos ao «extermínio pelo trabalho». Um dos prisioneiros que conseguiu sobreviver até à libertação do campo foi Simon Wiesenthal, que se tornaria mais tarde o caçador de nazis mais famoso do mundo.

O homem que chegou a Linz na primeira terça-feira de junho sabia muito sobre o passado negro da cidade. Aliás, durante um período de uma vida multifacetada, tinha sido a sua principal obsessão. Quando saiu com leveza do comboio, na Hauptbahnhof, usava um fato escuro que deixava entender que tinha bastante dinheiro e um relógio de ouro que dava a impressão de não ter sido adquirido de forma completamente honesta, o que por acaso até era verdade. Viajara para Linz desde Viena e antes disso tinha passado por Munique, Budapeste e Praga. Por duas vezes ao longo desse trajeto, mudara de identidade. Naquele momento, era Feliks Adler, cidadão da Europa Central de nacionalidade incerta, amante de muitas mulheres e combatente de guerras esquecidas, um homem que se sentia mais confortável em Gstaad e Saint-Tropez do que na terra natal, onde quer que isso fosse. No entanto, o seu nome verdadeiro era Eli Lavon.

Saiu da estação e percorreu uma rua com prédios de apartamentos de cor creme de ambos os lados, até chegar à Catedral Nova, a maior igreja da Áustria. Tinha sido ordenado por decreto que o seu pináculo, que se erguia para o céu, fosse três metros mais pequeno do que o da sua equivalente, a grandiosa Stephansdom. Lavon entrou lá dentro para ver se alguém que estava na rua o seguiria. E ao passar sob a imponente nave, perguntou a si mesmo, sem ser pela primeira vez, como uma terra tão devotamente católica romana podia ter desempenhado um papel tão desmesurado no assassínio de seis milhões de pessoas. Estava-lhes nos ossos, pensou. Bebiam-no com o leite da mãe.

Mas isso eram as opiniões de Lavon, não de Feliks Adler, e quando voltou para a praça, já só sonhava com dinheiro. Dirigiu-se para a Hauptplatz, a praça mais famosa de Linz, e executou um último teste para verificar se estava a ser vigiado. A seguir, atravessou para o outro lado do Danúbio, em direção à rotunda dos elétricos, onde dois modelos modernos estavam a assar ao calor do sol, com aspeto de terem sido largados por engano na cidade errada, no século errado. Num dos lados da rotunda, ficava uma rua chamada Gerstnerstrasse, e perto do fim dessa rua havia uma porta majestosa, com uma placa de bronze que indicava bank weber ag: só por marcação.

Lavon esticou-se para tocar à campainha, mas houve qualquer coisa que o fez hesitar. Era o velho medo, o medo de que já tivesse batido a demasiadas portas e percorrido demasiadas ruas escuras a seguir homens que o teriam matado se soubessem que ele ali estava. Depois lembrou-se de um antigo campo de concentração a vinte quilómetros para leste e de uma cidade na Síria que praticamente desaparecera do mapa. E interrogou-se se haveria algures uma ligação, um arco de maldade, entre ambos. Foi acometido por uma súbita raiva, que atenuou endireitando a gravata e alisando o que lhe restava do cabelo. Foi então que carregou com força na campainha com o polegar e, numa voz que não era a dele, afirmou que se chamava Feliks Adler e que tinha negócios a tratar lá dentro. Passaram-se uns segundos, que pareceram uma eternidade a Lavon. Por fim, os trincos abriram-se e o som de um besouro elétrico assustou-o como se fosse o tiro de partida de uma corrida. Inspirou profundamente, encostou a mão ao puxador e entrou.

 

Do outro lado da porta, havia um vestíbulo, e depois do vestíbulo ficava uma sala de espera onde se encontrava uma rapariga da Áustria Superior, tão pálida e bonita que quase nem parecia real. Era evidente que a rapariga já estava habituada a receber a atenção indesejada de homens como Herr Adler, pois o cumprimento com que o presenteou foi ao mesmo tempo cordial e indiferente. Ofereceu-lhe uma cadeira da sala de espera, que ele aceitou, e café, que recusou com educação. Ficou sentado com os joelhos a tocarem um no outro e as mãos cruzadas no colo, como se estivesse à espera no cais de uma estação ferroviária da província. Na parede por cima da cabeça dele, uma televisão estava a transmitir, sem som, um canal americano de informação financeira. Em cima da mesa, e junto ao seu cotovelo, encontravam-se exemplares das publicações económicas mais importantes do mundo, ao lado de várias revistas que exaltavam as vantagens da vida nas montanhas da Áustria.

O telefone que estava na secretária da rapariga lá acabou por tocar e ela anunciou que Herr Weber — Herr Markus Weber, presidente e fundador do Bank Weber AG — o iria receber. Estava à espera do outro lado da porta seguinte, uma figura macilenta, alta, careca e de óculos, com um fato escuro à cangalheiro e um sorriso de superioridade. Apertou a mão a Lavon com solenidade, como se o estivesse a consolar pela morte de uma tia afastada, e fê-lo atravessar um corredor repleto de quadros a óleo de lagos em montanhas e prados floridos. No final do corredor, havia uma secretária, com outra mulher, mais velha do que a primeira e com cabelo e um tom de pele mais escuros, sentada a olhar para o ecrã de um computador. O gabinete de Herr Weber ficava à direita; à esquerda, ficava o gabinete do sócio, Waleed al-Siddiqi. A porta do gabinete do senhor Al-Siddiqi estava completamente fechada. Plantados à frente dela, estavam dois guarda-costas, imóveis como palmeiras em vasos. Os fatos de bom corte não chegavam para esconder que se encontravam ambos armados.

Lavon assentiu com a cabeça para os dois homens, não conseguindo sequer que pestanejassem, e depois olhou para a mulher. Tinha cabelo preto como a asa de um corvo, que lhe caía quase até aos ombros do casaco do fato escuro. Os olhos eram grandes e castanhos; o nariz, direito e proeminente. A impressão geral que a aparência dela comunicava era de seriedade, talvez com um traço de tristeza distante. Lavon olhou rapidamente para a mão esquerda dela e não viu nenhuma aliança de casamento nem anel de noivado no terceiro dedo. Estimou que tivesse talvez uns quarenta anos, a zona de perigo em matéria de solteironas. Não era feia, mas também não era propriamente bonita. A disposição subtil de ossos e carne que forma o rosto humano tinha conspirado para a tornar banal.

— Apresento-lhe Jihan Nawaz — anunciou Herr Weber. — Miss Nawaz é a nossa gestora de conta.

O cumprimento dela foi apenas ligeiramente mais simpático do que o que Lavon recebera da rececionista austríaca. Soltou-lhe a mão depressa e seguiu Herr Weber para dentro do gabinete. A mobília era moderna, mas confortável, e o chão estava coberto por uma alcatifa espessa que parecia absorver todo e qualquer som. Herr Weber indicou uma cadeira a Lavon e depois instalou-se à secretária.

— Em que o posso ajudar? — perguntou, subitamente muito sério.

— Estou interessado em deixar algum dinheiro ao vosso cuidado — respondeu Lavon.

— E posso perguntar como ouviu falar do nosso banco?

— Tenho um parceiro de negócios que é vosso cliente.

— E posso perguntar o nome dele?

— Preferia não dizer.

Herr Weber ergueu a palma da mão, como que a dizer que percebia perfeitamente.

— Mas tenho uma pergunta a fazer — disse Lavon. — É verdade que o banco passou por dificuldades há uns anos?

— É verdade, sim — admitiu Weber. — Como muitas instituições bancárias europeias, sofremos bastante com a queda do mercado imobiliário americano e a crise financeira daí resultante.

— E por isso o senhor foi obrigado a aceitar um sócio?

— Por acaso, fi-lo com prazer.

— O senhor Al-Siddiqi.

Weber assentiu com a cabeça, cautelosamente.

— Presumo que ele seja do Líbano, não?

— Por acaso, até é da Síria.

— É uma pena.

— O quê?

— A guerra — respondeu Lavon.

O rosto inexpressivo de Weber deixou bem claro que não estava interessado em falar da situação atual no país de origem do sócio.

— Fala alemão como se fosse de Viena — disse passado um momento.

— Vivi lá durante algum tempo.

— E agora?

— Tenho passaporte canadiano, mas prefiro considerar-me um cidadão do mundo.

— Hoje em dia, o dinheiro não conhece fronteiras.

— E é por isso que vim a Linz.

— E já cá tinha estado?

— Muitas vezes — respondeu Lavon com sinceridade.

O telefone de Weber tocou.

— Importa-se?

— Faça favor.

O austríaco levou o auscultador ao ouvido e ficou a fitar Lavon enquanto ouvia a voz do outro lado da linha. A alcatifa espessa engoliu-lhe a resposta murmurada. Desligou o telefone e perguntou:

— Onde é que nós íamos?

— Ia assegurar-me que o vosso banco é solvente e estável e que o meu dinheiro ficará bem entregue aqui.

— Ambas as afirmações são verdadeiras, Herr Adler.

— Mas a discrição também me interessa.

— Conforme decerto saberá — respondeu Weber —, a Áustria aceitou recentemente introduzir algumas modificações no seu sistema bancário para agradar aos vizinhos europeus. Ainda assim, as nossas leis de sigilo bancário continuam a ser das mais rigorosas do mundo.

— Segundo julgo saber, o vosso banco exige um limite mínimo de dez milhões de euros para os novos clientes.

— A nossa política é essa. — Fez uma pausa e depois perguntou: — Há algum problema, Herr Adler?

— De modo nenhum.

— Já calculava que fosse dizer isso. O senhor parece-me ser uma pessoa muito séria.

Herr Adler aceitou o elogio assentindo com a cabeça.

— E, dentro do banco, quem mais vai saber que eu tenho uma conta cá?

— Eu e Miss Nawaz.

— E o senhor Al-Siddiqi?

— O senhor Al-Siddiqi tem os clientes dele e eu tenho os meus.

Weber bateu ao de leve com a caneta de tinta permanente em ouro no mata-borrão de cabedal da secretária.

— Bom, Herr Adler, como deseja fazer?

— Pretendo deixar ao seu cargo dez milhões de euros. Queria que guardasse cinco milhões em dinheiro vivo. E queria que investisse o resto. Nada de muito complexo — acrescentou. — O meu objetivo é a preservação e não a criação de riqueza.

— Não vai ficar desiludido — respondeu Weber. — Mas gostaria de o avisar que cobramos pelos nossos serviços.

— Claro — retorquiu Lavon, sorrindo. — O sigilo tem o seu preço.

 

Armado com a caneta de tinta permanente em ouro, o banqueiro apontou alguns dos dados de Lavon, sendo que por acaso nenhum era verdadeiro. Como palavra-passe, escolheu «pedreira», uma referência ao fosso para trabalhos forçados em Mauthausen que não encontrou eco na cabeça reluzente de Herr Weber, que, veio a saber-se, nunca tivera tempo para ir visitar o memorial do Holocausto que ficava a poucos quilómetros da terra natal dele.

— A palavra-passe tem que ver com a natureza do meu trabalho — explicou Lavon, com um sorriso falso.

— Trabalha na indústria mineira, Herr Adler?

— Uma coisa do género.

Depois disso, o banqueiro levantou-se e deixou-o ao cuidado de Miss Nawaz, a gestora de conta. Era preciso preencher impressos, assinar declarações e estabelecer garantias de cumprimento, por ambas as partes, em matéria de sigilo e leis fiscais. O facto de terem sido acrescentados dez milhões de euros aos balancetes do Bank Weber pouco serviu para lhe suavizar o comportamento distante. Não era por natureza uma pessoa fria, analisou Lavon; havia outra coisa qualquer. Olhou para os dois guarda-costas que se encontravam à porta do gabinete de Waleed al-Siddiqi, o salvador sírio do Bank Weber AG. E depois olhou outra vez para Jihan Nawaz.

— Um cliente importante? — perguntou.

Ela fitou-o inexpressivamente.

— Como pretende prover a conta de dinheiro? — perguntou.

— Uma transferência bancária seria o mais conveniente.

Ela passou-lhe um papel onde estava escrito o routing number do banco.

— Tratamos já disso? — perguntou Lavon.

— Como queira.

Lavon sacou do telemóvel e ligou para um banco de confiança em Bruxelas que não sabia que tinha nas suas mãos grande parte dos fundos operacionais do Departamento para a Europa. Informou o banqueiro de que queria transferir dez milhões de euros para o Bank Weber AG de Linz, na Áustria, o mais rapidamente possível. Desligou e sorriu mais uma vez para Jihan Nawaz.

— O dinheiro chegar-vos-á o mais tardar amanhã ao meio-dia — anunciou.

— Quer que lhe telefone a confirmar?

— Por favor.

Herr Adler entregou-lhe um cartão de visita. Jihan Nawaz retribuiu entregando-lhe um dos dela.

— Se necessitar de mais alguma coisa, Herr Adler, por favor, não hesite em contactar-me. Ajudá-lo-ei no que puder.

Lavon enfiou o cartão no bolso do peito do casaco do fato, bem como o telemóvel. Levantando-se, apertou a mão a Jihan Nawaz uma última vez e dirigiu-se para a receção, onde a bonita rapariga austríaca o esperava. Ao avançar pelo corredor alcatifado, sentiu os olhos dos dois guarda-costas a queimarem-lhe a nuca, mas não se atreveu a espreitar por cima do ombro. Estava com medo, pensou. E Jihan Nawaz também.