O Assalto
17. Rue de Miromesnil, Paris
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RUE DE MIROMESNIL, PARIS
Reuniram-se no exíguo escritório dos fundos das Antiquités Scientifiques, às onze horas da manhã seguinte: o ladrão de arte, o assassino profissional e o antigo e futuro agente dos serviços secretos israelitas. O agente explicou rapidamente ao ladrão de arte como tencionava encontrar o retábulo de Caravaggio há muito desaparecido. Tal como já tinha acontecido com o assassino, o ladrão ficou, no mínimo, desconfiado.
— Eu roubo quadros — realçou, num tom de voz cansado. — Não os encontro por conta da polícia. Aliás, faço todos os possíveis para evitar a polícia por completo.
— Os italianos nunca vão saber que esteve envolvido nisto.
— Isso é o que você diz.
— É preciso recordar-lhe que o homem que adquiriu o Caravaggio matou o seu amigo e sócio?
— Não, Monsieur Allon, não é preciso.
O intercomunicador berrou. Maurice Durand ignorou-o.
— E o que ia precisar que eu fizesse?
— Precisava que me roubasse uma coisa a que nenhum colecionador sem escrúpulos possa resistir.
— E depois?
— Quando as profundezas do mundo da arte começarem a encher-se de rumores de que esse quadro está em Paris, preciso que indique o caminho certo aos abutres.
Durand olhou para Keller.
— Em direção a ele?
Gabriel assentiu com a cabeça.
— E porque vão os abutres achar que o quadro está em Paris?
— Porque eu lhes vou dizer que está.
— Pensa mesmo em tudo, não é, Monsieur Allon?
— A melhor maneira de ganhar num jogo de probabilidades é retirar as probabilidades da equação.
— Vou tentar não me esquecer disso.
Durand olhou outra vez para Keller e perguntou:
— O que sabe ele do negócio de arte roubada?
— Nada — admitiu Gabriel. — Mas aprende depressa.
— E como ganha a vida?
— Toma conta de viúvas e órfãos.
— Pois — respondeu Durand ceticamente. — E eu sou o presidente da França.
Passaram o resto do dia a definir os pormenores da operação. Quando a noite caiu sobre o oitavo arrondissement, Monsieur Durand mudou o letreiro de OUVERT para FERMÉ e saíram em fila indiana para a Rue de Miromesnil. O ladrão de arte dirigiu-se para a brasserie em frente, para o copo de vinho tinto que bebia todas as noites, o assassino apanhou um táxi para um hotel na Rue de Rivoli e o antigo e futuro agente dos serviços secretos israelitas foi a pé para um apartamento seguro do Departamento, com vista para a Pont Marie. Viu dois agentes dos serviços de segurança dentro de um carro estacionado à entrada do prédio; e quando entrou no apartamento, sentiu o aroma a comida e ouviu Chiara a cantar baixinho sozinha. Beijou-a nos lábios e levou-a para o quarto. Não lhe perguntou como se sentia. Não lhe perguntou absolutamente nada.
— Tens noção — disse ela mais tarde — que foi a primeira vez que fizemos amor desde que descobri que estava grávida?
— Foi?
— Quando uma pessoa com a tua inteligência se arma em parva, isso não é lá muito eficaz, Gabriel.
Ele enrolou-lhe uma madeixa do cabelo na ponta do dedo, mas não disse nada. Ela tinha o queixo apoiado no esterno dele. O brilho dos candeeiros de Paris conferia-lhe um tom dourado à pele.
— Porque só fizeste amor comigo agora? E não me digas que tens andado ocupado — acrescentou rapidamente —, porque isso nunca te impediu. — Ele soltou-lhe o cabelo, mas não respondeu. — Estavas com medo que pudesse acontecer qualquer coisa e a gravidez corresse outra vez mal? Foi por isso?
— Sim — respondeu ele —, imagino que tenha sido.
— E o que te fez mudar de ideias?
— Passei uns momentos com uma velha na ilha da Córsega.
— E o que te disse ela?
— Que não te ia acontecer nada a ti nem às crianças.
— E acreditaste?
— Ela primeiro pôs-se a aquecer dizendo-me várias coisas que não podia minimamente saber. E depois disse-me que já não estavas em Veneza.
— E contou-te que eu estava em Paris?
— Com todas as letras, não.
— Estava a contar surpreender-te.
— E como sabias onde eu estava?
— O que achas?
— Ligaste para a Avenida Rei Saul.
— Por acaso, ligaram-me da Avenida Rei Saul.
— Porquê?
— Porque o Uzi queria saber por que razão andavas metido com um tipo como o Maurice Durand. Obviamente, aproveitei logo a oportunidade.
— E como te escapaste ao guarda-costas do general?
— Ao Matteo? Não custou nada.
— Não fazia ideia de que vocês se tratavam pelo nome próprio.
— Ajudou-me muito enquanto estiveste longe. E não me perguntou uma única vez como é que eu me sentia.
— Não vou voltar a cometer esse erro.
Chiara beijou Gabriel nos lábios e perguntou-lhe por que razão tinha renovado a relação com o ladrão de arte mais bem-sucedido do mundo. Gabriel contou-lhe tudo.
— Agora percebo por que motivo o general Ferrari estava tão ansioso por te ter a investigar a morte do Bradshaw.
— Ele sempre soube que o Bradshaw era corrupto — retorquiu Gabriel. — E também já tinha ouvido rumores de que as impressões digitais do tipo estavam no Caravaggio.
— Se calhar, isso é capaz de explicar uma coisa estranha que descobri nos registos de faturação da Meridian Global Consulting Group.
— E o que foi?
— Nos últimos doze meses, a Meridian trabalhou imenso para uma coisa chamada LXR Investments of Luxembourg.
— E o que é isso?
— É difícil dizer. A LXR é, no mínimo, uma empresa bastante opaca.
Gabriel agarrou noutra madeixa do cabelo de Chiara e perguntou-lhe que mais tinha descoberto nos despojos eletrónicos de Jack Bradshaw.
— Nas últimas semanas antes de morrer, ele enviou vários e-mails para uma conta do Gmail com um nome de utilizador criado automaticamente.
— E de que falaram?
— De casamentos, de festas, do tempo… das coisas todas habituais de que as pessoas falam quando estão a falar na verdade de outra coisa.
— E tens ideia de onde é que esse amigo por correspondência escreve?
— De cibercafés em Bruxelas, Antuérpia e Amesterdão.
— Pois claro.
Chiara virou-se de barriga para cima. Gabriel pousou-lhe a mão no abdómen. A chuva tamborilava suavemente na janela.
— Em que estás a pensar? — perguntou ela passado um momento.
— Estava a pensar se era mesmo verdade ou se não passava da minha imaginação.
— O quê?
— Não tem importância.
Ela não insistiu.
— Suponho que vou ter de dizer qualquer coisa ao Uzi — avançou Chiara.
— Suponho que sim.
— E o que lhe digo?
— A verdade — respondeu Gabriel. — Diz-lhe que eu vou roubar um quadro que vale duzentos milhões de dólares e ver se o consigo vender ao Senhor Peixe Graúdo.
— Qual é o teu próximo passo?
— Tenho de ir a Londres espalhar um rumor desagradável.
— E a seguir?
— Vou para Marselha concretizar esse rumor desagradável.