O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 19 de 65

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O Assalto

17. Rue de Miromesnil, Paris

17

RUE DE MIROMESNIL, PARIS

 

Reuniram-se no exíguo escritório dos fundos das Antiquités Scientifiques, às onze horas da manhã seguinte: o ladrão de arte, o assassino profissional e o antigo e futuro agente dos serviços secretos israelitas. O agente explicou rapidamente ao ladrão de arte como tencionava encontrar o retábulo de Caravaggio há muito desaparecido. Tal como já tinha acontecido com o assassino, o ladrão ficou, no mínimo, desconfiado.

— Eu roubo quadros — realçou, num tom de voz cansado. — Não os encontro por conta da polícia. Aliás, faço todos os possíveis para evitar a polícia por completo.

— Os italianos nunca vão saber que esteve envolvido nisto.

— Isso é o que você diz.

— É preciso recordar-lhe que o homem que adquiriu o Caravaggio matou o seu amigo e sócio?

— Não, Monsieur Allon, não é preciso.

O intercomunicador berrou. Maurice Durand ignorou-o.

— E o que ia precisar que eu fizesse?

— Precisava que me roubasse uma coisa a que nenhum colecionador sem escrúpulos possa resistir.

— E depois?

— Quando as profundezas do mundo da arte começarem a encher-se de rumores de que esse quadro está em Paris, preciso que indique o caminho certo aos abutres.

Durand olhou para Keller.

— Em direção a ele?

Gabriel assentiu com a cabeça.

— E porque vão os abutres achar que o quadro está em Paris?

— Porque eu lhes vou dizer que está.

— Pensa mesmo em tudo, não é, Monsieur Allon?

— A melhor maneira de ganhar num jogo de probabilidades é retirar as probabilidades da equação.

— Vou tentar não me esquecer disso.

Durand olhou outra vez para Keller e perguntou:

— O que sabe ele do negócio de arte roubada?

— Nada — admitiu Gabriel. — Mas aprende depressa.

— E como ganha a vida?

— Toma conta de viúvas e órfãos.

— Pois — respondeu Durand ceticamente. — E eu sou o presidente da França.

 

Passaram o resto do dia a definir os pormenores da operação. Quando a noite caiu sobre o oitavo arrondissement, Monsieur Durand mudou o letreiro de OUVERT para FERMÉ e saíram em fila indiana para a Rue de Miromesnil. O ladrão de arte dirigiu-se para a brasserie em frente, para o copo de vinho tinto que bebia todas as noites, o assassino apanhou um táxi para um hotel na Rue de Rivoli e o antigo e futuro agente dos serviços secretos israelitas foi a pé para um apartamento seguro do Departamento, com vista para a Pont Marie. Viu dois agentes dos serviços de segurança dentro de um carro estacionado à entrada do prédio; e quando entrou no apartamento, sentiu o aroma a comida e ouviu Chiara a cantar baixinho sozinha. Beijou-a nos lábios e levou-a para o quarto. Não lhe perguntou como se sentia. Não lhe perguntou absolutamente nada.

 

— Tens noção — disse ela mais tarde — que foi a primeira vez que fizemos amor desde que descobri que estava grávida?

— Foi?

— Quando uma pessoa com a tua inteligência se arma em parva, isso não é lá muito eficaz, Gabriel.

Ele enrolou-lhe uma madeixa do cabelo na ponta do dedo, mas não disse nada. Ela tinha o queixo apoiado no esterno dele. O brilho dos candeeiros de Paris conferia-lhe um tom dourado à pele.

— Porque só fizeste amor comigo agora? E não me digas que tens andado ocupado — acrescentou rapidamente —, porque isso nunca te impediu. — Ele soltou-lhe o cabelo, mas não respondeu. — Estavas com medo que pudesse acontecer qualquer coisa e a gravidez corresse outra vez mal? Foi por isso?

— Sim — respondeu ele —, imagino que tenha sido.

— E o que te fez mudar de ideias?

— Passei uns momentos com uma velha na ilha da Córsega.

— E o que te disse ela?

— Que não te ia acontecer nada a ti nem às crianças.

— E acreditaste?

— Ela primeiro pôs-se a aquecer dizendo-me várias coisas que não podia minimamente saber. E depois disse-me que já não estavas em Veneza.

— E contou-te que eu estava em Paris?

— Com todas as letras, não.

— Estava a contar surpreender-te.

— E como sabias onde eu estava?

— O que achas?

— Ligaste para a Avenida Rei Saul.

— Por acaso, ligaram-me da Avenida Rei Saul.

— Porquê?

— Porque o Uzi queria saber por que razão andavas metido com um tipo como o Maurice Durand. Obviamente, aproveitei logo a oportunidade.

— E como te escapaste ao guarda-costas do general?

— Ao Matteo? Não custou nada.

— Não fazia ideia de que vocês se tratavam pelo nome próprio.

— Ajudou-me muito enquanto estiveste longe. E não me perguntou uma única vez como é que eu me sentia.

— Não vou voltar a cometer esse erro.

Chiara beijou Gabriel nos lábios e perguntou-lhe por que razão tinha renovado a relação com o ladrão de arte mais bem-sucedido do mundo. Gabriel contou-lhe tudo.

— Agora percebo por que motivo o general Ferrari estava tão ansioso por te ter a investigar a morte do Bradshaw.

— Ele sempre soube que o Bradshaw era corrupto — retorquiu Gabriel. — E também já tinha ouvido rumores de que as impressões digitais do tipo estavam no Caravaggio.

— Se calhar, isso é capaz de explicar uma coisa estranha que descobri nos registos de faturação da Meridian Global Consulting Group.

— E o que foi?

— Nos últimos doze meses, a Meridian trabalhou imenso para uma coisa chamada LXR Investments of Luxembourg.

— E o que é isso?

— É difícil dizer. A LXR é, no mínimo, uma empresa bastante opaca.

Gabriel agarrou noutra madeixa do cabelo de Chiara e perguntou-lhe que mais tinha descoberto nos despojos eletrónicos de Jack Bradshaw.

— Nas últimas semanas antes de morrer, ele enviou vários e-mails para uma conta do Gmail com um nome de utilizador criado automaticamente.

— E de que falaram?

— De casamentos, de festas, do tempo… das coisas todas habituais de que as pessoas falam quando estão a falar na verdade de outra coisa.

— E tens ideia de onde é que esse amigo por correspondência escreve?

— De cibercafés em Bruxelas, Antuérpia e Amesterdão.

— Pois claro.

Chiara virou-se de barriga para cima. Gabriel pousou-lhe a mão no abdómen. A chuva tamborilava suavemente na janela.

— Em que estás a pensar? — perguntou ela passado um momento.

— Estava a pensar se era mesmo verdade ou se não passava da minha imaginação.

— O quê?

— Não tem importância.

Ela não insistiu.

— Suponho que vou ter de dizer qualquer coisa ao Uzi — avançou Chiara.

— Suponho que sim.

— E o que lhe digo?

— A verdade — respondeu Gabriel. — Diz-lhe que eu vou roubar um quadro que vale duzentos milhões de dólares e ver se o consigo vender ao Senhor Peixe Graúdo.

— Qual é o teu próximo passo?

— Tenho de ir a Londres espalhar um rumor desagradável.

— E a seguir?

— Vou para Marselha concretizar esse rumor desagradável.