O Assalto
24. Chelles, França
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CHELLES, FRANÇA
Mas havia uma condição: Sam reservou-se o direito de escolher a hora e o sítio para a troca do dinheiro pela mercadoria. A hora, disse, seria às onze e meia da noite do dia seguinte. O sítio seria um armazém em Chelles, uma comuna sem graça a leste de Paris. Keller foi para lá de carro de manhã, ao mesmo tempo que o resto do norte de França se deslocava em catadupa para o centro da cidade. O armazém ficava onde Sam tinha dito, na Avenue François Mitterrand, mesmo em frente a um concessionário da Renault. Um letreiro já gasto dizia EUROTRANZ, embora não houvesse qualquer indicação do tipo de serviços que a empresa prestava de facto. Havia pombos a voar para dentro e fora do edifício, pelas janelas partidas; uma savana de ervas daninhas florescia atrás das grades da vedação de ferro. Keller saiu do carro e examinou o portão automático. Já há muito tempo que ninguém o abria.
Passou uma hora a fazer um reconhecimento de rotina das ruas à volta do armazém e depois seguiu para norte, para a quinta em Andeville. Quando lá chegou, deu com Gabriel e Chiara a descansarem no jardim banhado pelo sol. Os dois Van Gogh estavam encostados à parede da sala de estar.
— Continuo sem perceber como os consegues distinguir — disse Keller.
— É bastante evidente, não achas?
— Não, não acho.
Gabriel inclinou a cabeça para o quadro da direita.
— Tens a certeza?
— Aquilo são as minhas impressões digitais ali de lado, nas barras do suporte, e não as do Vincent. E depois há isto.
Gabriel ligou o BlackBerry que lhe tinha sido dado pelo Departamento e segurou-o junto ao canto superior direito da tela. O ecrã pôs-se a piscar com uma luz vermelha, dando conta da presença de um transmissor escondido.
— Tens a certeza do alcance? — perguntou Keller.
— Voltei a testá-lo hoje de manhã. É tão fiável como um relógio suíço num raio de dez quilómetros.
Keller olhou para o Van Gogh verdadeiro.
— É uma pena que ninguém se tenha lembrado de pôr nenhum transmissor naquele.
— Pois é — retorquiu Gabriel num tom distante.
— E quanto tempo tencionas ficar com ele?
— Nem mais um dia do que for necessário.
— E quem vai tomar conta dele enquanto andamos atrás da falsificação?
— Tinha esperanças de o deixar na embaixada de Paris — respondeu Gabriel —, mas o chefe de base não lhe quer nem tocar. Por isso, tive de tomar outras providências.
— Que género de providências?
Quando Gabriel lhe respondeu, Keller abanou a cabeça lentamente.
— É um bocadinho estranho, não achas?
— A vida é complicada, Christopher.
Keller sorriu.
— A quem o dizes.
Saíram pela última vez da pitoresca quinta às oito da noite. A cópia dos Girassóis ia na bagageira do Mercedes de Keller; o Van Gogh autêntico ia na de Gabriel. Entregou-o a Maurice Durand na loja deste, na Rue de Miromesnil. A seguir, deixou Chiara no apartamento seguro com vista para a Pont Marie e partiu para a comuna de Chelles.
Chegou lá uns minutos antes das onze e dirigiu-se para o armazém da Avenue François Mitterrand. Ficava numa parte da cidade onde havia pouca vida nas ruas quando caía à noite. Contornou a propriedade duas vezes, à procura de sinais de vigilância ou de qualquer coisa que indicasse que Keller estivesse prestes a cair numa armadilha. Ao não encontrar nada de anormal, foi à procura de um posto de observação adequado onde um homem sentado sozinho não fosse atrair a atenção da polícia. A única opção era um parque sem vegetação onde uma dezena de skaters durões da zona estavam a beber cerveja. Num dos lados do parque, havia uma fila de bancos iluminada por candeeiros amarelos. Gabriel estacionou o carro na rua e sentou-se no banco mais perto da entrada da Eurotranz. Os durões olharam-no com perplexidade durante um momento e depois recomeçaram a discutir os assuntos prementes daquele dia. Gabriel deu uma olhadela ao relógio. Eram onze e cinco. A seguir, consultou o BlackBerry. O sinal ainda não tinha entrado no raio de ação.
Quando olhou outra vez para cima, viu os faróis de um carro na avenida. Era um pequeno Citroën vermelho, que passou em grande velocidade à frente da entrada da Eurotranz e continuou a todo o gás pelo exterior do parque, deixando atrás de si o pulsar de um exemplo de hip-hop francês. A seguir vinha outro carro, um BMW preto, tão limpo que parecia acabadinho de lavar propositadamente para o efeito. Parou junto ao portão e o condutor saiu cá para fora. Era impossível ver-lhe a cara na escuridão, mas tanto quanto a constituição como quanto a movimentos era o sósia de Sam.
Carregou com o indicador nuns quantos botões do teclado automático, com a confiança de um homem que já sabia a combinação há muito tempo. Depois sentou-se de novo ao volante, ficou à espera que o portão se abrisse e entrou na propriedade. Parou para aguardar que o portão se fechasse e dirigiu-se para a entrada do armazém. Uma vez mais, saiu do carro e carregou nos botões do teclado de segurança com uma rapidez que indiciava um conhecimento profundo. Quando a porta se abriu, entrou com o carro lentamente e desapareceu de vista.
No parquezinho sem vegetação, a chegada de um automóvel de luxo ao armazém abandonado, na Avenue François Mitterrand, passou despercebida a toda a gente, com exceção do homem já perto da terceira idade que estava sentado sozinho. O homem olhou para o relógio e viu que eram 23h08. Depois olhou para o BlackBerry. A luzinha vermelha estava a piscar e a aproximar-se dele.
Keller chegou às onze e meia em ponto. Ligou para o telemóvel de Sam e o portão abriu-se. Um pedaço de asfalto esburacado estendia-se à frente dele, deserto e às escuras. Atravessou-o a pouca velocidade e, seguindo as instruções de Sam, entrou com o carro no armazém, lenta e cuidadosamente. Na outra ponta de um espaço do tamanho de um campo de futebol, brilhavam as luzes de presença de um BMW. Keller conseguiu distinguir a figura de um homem encostado ao capô, com um telefone colado ao ouvido e duas malas grandes aos pés. Não havia mais ninguém à vista.
— Pare aí — disse Sam.
Keller pisou o travão.
— Desligue o motor e apague os faróis.
Keller fez o que lhe mandaram.
— Saia do carro e deixe-se ficar onde eu o consiga ver.
Keller saiu do carro devagar e pôs-se à frente do capô. Sam esticou o braço para dentro do BMW e acendeu os faróis.
— Tire o casaco.
— Isto é mesmo necessário?
— Quer o dinheiro ou não?
Keller despiu o casaco e atirou-o para cima do capô do carro.
— Dê meia-volta para ficar virado para o carro.
Keller hesitou e depois ficou de costas para Sam.
— Muito bem.
Keller rodou lentamente até ficar outra vez virado para Sam.
— Onde está o quadro?
— Na bagageira.
— Tire-o de lá e ponha-o aí no chão, uns seis metros à frente do carro.
Keller abriu a bagageira utilizando o fecho interior e tirou de lá o quadro. Estava embalado numa capa protetora de papel vegetal e escondido dentro de um saco do lixo de tamanho industrial. Pousou-o no chão de betão do armazém, vinte passos à frente do Mercedes, e ficou à espera que Sam lhe desse a próxima instrução.
— Volte para o carro — disse a voz da outra ponta do armazém.
— Nem pensar — respondeu Keller para o brilho intenso dos faróis de Sam.
Seguiu-se um breve impasse. Foi então que Sam avançou, iluminado pela luz. Parou a cerca de um metro de Keller, olhou para baixo e fez uma careta.
— Preciso de o ver mais uma vez.
— Então sugiro que lhe tire o plástico. Mas tenha cuidado, Sam. Se acontecer alguma coisa a esse quadro, vou considerá-lo responsável.
Sam pôs-se de cócoras e tirou a tela do saco. A seguir, voltou o quadro para os faróis do carro e semicerrou os olhos para examinar melhor as pinceladas e a assinatura.
— E então? — perguntou Keller.
Sam olhou para as impressões digitais nas margens das barras do suporte e depois para as marcas do museu na parte de trás.
— Só um momento — disse em voz baixa. — Só um momento.
O carro de Keller saiu do armazém às 23h40. Quando chegou ao portão, este já estava aberto. Virou à direita e passou em grande velocidade à frente do banco onde Gabriel se encontrava sentado. Gabriel ignorou-o; estava a observar as luzes traseiras de um BMW a afastarem-se ao longo da Avenue François Mitterrand. Olhou para o BlackBerry e sorriu. Estavam em ação, pensou. Estavam sem dúvida em ação.
A luzinha vermelha do sinal ia piscando com a regularidade de uma pulsação. Foi deslizando pelo que faltava dos subúrbios parisienses e depois acelerou para leste, na A4, em direção a Reims. Gabriel seguiu-a à distância de um quilómetro e Keller fez o mesmo em relação a Gabriel. Falaram ao telefone uma única vez, uma conversa curta na qual Keller confirmou que o negócio se realizara sem problemas. Sam tinha o quadro; e Keller tinha o dinheiro de Sam. Estava escondido na bagageira do carro, dentro do saco do lixo que Gabriel utilizara para embrulhar a cópia dos Girassóis. Só lá não estava um maço de notas de cem euros, que se encontrava enfiado no bolso do casaco de Keller.
— E porque tens isso no bolso? — perguntou Gabriel.
— Dinheiro para a gasolina — respondeu Keller.
Cento e vinte quilómetros separavam os subúrbios a leste de Paris e Reims, uma distância que Sam percorreu em pouco mais de uma hora. Logo depois da cidade, a luzinha vermelha parou de repente na A4. Gabriel encurtou distâncias rapidamente e viu Sam a encher o depósito de gasolina numa estação de serviço da autoestrada. Ligou de imediato a Keller e disse-lhe para parar; depois, ficou à espera que Sam regressasse outra vez à A4. Passados uns momentos, os três carros já tinham retomado a formação original: Sam à frente, Gabriel a segui-lo à distância de um quilómetro e Keller a fazer o mesmo em relação a Gabriel.
Depois de Reims, continuaram mais para leste, passando por Verdun e Metz. A seguir, a A4 virou para sul e levou-os até Estrasburgo, a capital da região francesa da Alsácia e sede do Parlamento Europeu. Nos arredores da cidade, corriam as águas verde-acinzentadas do Reno. Uns minutos a seguir ao pôr do Sol, 25 milhões de euros em dinheiro vivo e uma cópia de uma obra-prima de Vincent van Gogh roubada entraram despercebidos na Alemanha.
A primeira cidade do lado alemão da fronteira era Kehl e depois de Kehl ficava a autoestrada A5. Sam seguiu-a até Karlsruhe; depois virou para a A8 e dirigiu-se para Estugarda. Quando chegou aos subúrbios a sudeste da cidade, apanhou o pior da hora de ponta matinal. Entrou na cidade a passo de caracol, pela Hauptstätterstrasse, e avançou a caminho de Stuttgart-Mitte, um bairro agradável de escritórios e lojas no coração da metrópole em expansão. Gabriel ficou com a sensação de que Sam se estava a aproximar do destino e, por isso, encurtou distâncias até ficarem separados por umas centenas de metros apenas. E foi então que aconteceu a coisa com que ele menos contava.
A luzinha vermelha a piscar sumiu-se do ecrã.
De acordo com o BlackBerry de Gabriel, o sinal transmitiu o último impulso eletrónico no número 8 da Böheimstrasse. A morada correspondia a um hotel de estuque cinzento que parecia ter sido importado de Berlim Oriental, nos tempos mais negros da Guerra Fria. Nas traseiras do hotel, acessível por uma ruela, ficava um parque de estacionamento público. O BMW encontrava-se no piso de baixo da garagem, num canto onde a luz do teto tinha sido partida. Sam estava esparramado sobre o volante, de olhos bem abertos, com o sangue e os miolos espalhados pelo para-brisas. E os Girassóis, óleo sobre tela, 95 centímetros por 73 centímetros, da autoria de Gabriel Allon, tinha desaparecido.