O Assalto
Quarta Parte: O Golpe
QUARTA PARTE
O GOLPE
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LONDRES
Mas como se poderiam apossar do caderno de notas durante o tempo suficiente para roubar o que lá se encontrava? E como fazê-lo de maneira que Waleed al-Siddiqi nunca desse conta de que lhe faltava o caderno? Foram essas as perguntas com que a equipa se debateu nas horas que se seguiram à saída de Jihan da casa segura no Attersee. A solução óbvia era o equivalente, na realidade do Departamento, a um roubo-relâmpago, mas Gabriel rejeitou imediatamente a proposta. Insistiu que a operação fosse conduzida sem derramamento de sangue e de maneira que não alertasse o clã sírio dirigente para o facto de haver algum problema com o dinheiro deles. E também não aceitou a sugestão pouco entusiasta de Yaakov de uma armadilha de sedução sexual. Ao que tudo indicava, o senhor Al-Siddiqi era um homem sem vícios pessoais, além do facto de gerir a fortuna pilhada por um assassino em massa.
Havia uma máxima do Departamento, concebida por Shamron e gravada em pedra, de que um problema simples às vezes tinha uma solução simples. E a solução para o problema deles, disse Gabriel, só tinha duas componentes. Tinham de forçar Waleed al-Siddiqi a meter-se num avião e tinham de o forçar a atravessar uma fronteira para um país amigo. E o que é mais, acrescentou, a equipa tinha de ser informada com antecedência de ambas as ocorrências.
O que explicava a razão de, na manhã seguinte muito cedo, e tendo dormido mal, se é que chegara a dormir, Gabriel se ter arrastado para o Audi alugado, abandonando a Áustria pelo mesmo caminho que tinha feito ao entrar. A Alemanha nunca lhe parecera tão bonita. A terra de cultivo verde da Baviera era o seu éden; Munique, com o pináculo da Torre Olímpica por cima da névoa de verão como um minarete, a sua Jerusalém. Deixou o carro no parque de estacionamento de longa duração do Aeroporto de Munique e apressou-se para apanhar o voo das dez e meia da British Airways para Londres. O passageiro do lado era um alcoólico matinal de Birmingham; e Gabriel, apenas há poucas horas afastado da presença de Jihan, era outra vez Jonathan Albright, da Markham Capital Advisers. Tinha vindo a Munique, explicou, para explorar a possibilidade de adquirir uma empresa tecnológica alemã. E, sim, acrescentou acanhadamente, prometia ser muitíssimo lucrativo.
Estava a chover em Londres, uma tempestade de vento escura que tinha posto o Aeroporto de Heathrow num estado de noite permanente. Gabriel passou rapidamente pela fiscalização de passaportes e seguiu os sinais amarelos até ao átrio das chegadas, onde o esperava Nigel Whitcombe, com um impermeável encharcado, lembrando um governador colonial num canto distante do Império.
— Senhor Baker — disse ele enquanto apertava frouxamente a mão de Gabriel. — Tão bom vê-lo de novo. Seja bem-vindo de regresso a Inglaterra.
Whitcombe tinha um Vauxhall Astra, que conduzia muito depressa e com uma habilidade indolente. Dirigiu-se para Londres pela M4. Depois, a pedido de Gabriel, deu umas voltas de contravigilância por Earl’s Court e West Kensington antes de, finalmente, seguir para uma casa num pátio em Maida Vale. Tinha uma porta da frente da cor da casca do limão e um tapete de boas-vindas que dizia ABENÇOADOS SEJAM TODOS OS QUE ENTRAM NESTA CASA . Graham Seymour estava sentado na biblioteca, com um tomo de Trollope aberto sobre os joelhos. Quando Gabriel entrou sozinho, o chefe do MI6 fechou vagarosamente o livro e, levantando-se, voltou a pô-lo no devido lugar na prateleira.
— O que se passa agora? — perguntou.
— Dinheiro — respondeu Gabriel.
— De quem?
— Do povo sírio. Mas, por agora — acrescentou Gabriel —, está nas mãos da Evil Incorporated.
Seymour ergueu uma sobrancelha baronial.
— Como descobriste? — perguntou.
— O Jack Bradshaw pôs-me no caminho certo. E uma mulher chamada Jihan disse-me como deitar a mão ao mapa do tesouro.
— E tu, presumo, tencionas desenterrá-lo. — Gabriel não disse nada. — O que precisas dos Serviços Secretos de Sua Majestade?
— Autorização para fazer uma operação em território britânico.
— Vai haver cadáveres?
— Não creio.
— E onde vai ser?
— Na Tate Modern, se ainda estiver disponível.
— Em mais algum sítio?
— No Aeroporto de Heathrow.
Seymour franziu o sobrolho.
— Se calhar, era melhor começares do princípio, Gabriel. E desta vez — acrescentou — era capaz de ser boa ideia contares-me tudo.
Fora Jack Bradshaw, o espião inglês caído em desgraça e que se tornara contrabandista de arte, quem inicialmente juntara Gabriel e Graham Seymour, por isso foi por Bradshaw que Gabriel começou o relato. Foi meticuloso, mas, por necessidade, muitíssimo editado. Por exemplo, Gabriel não referiu o nome do ladrão de arte que lhe dissera que o Caravaggio há muito desaparecido tinha sido vendido recentemente. Nem identificou o mestre falsificador de arte que encontrara morto no estúdio em Paris, nem os ladrões que tinham arrancado os Girassóis do Rijksmuseum Vincent van Gogh, em Amesterdão, nem o nome do agente secreto da polícia suíça que lhe tinha dado acesso à galeria dos desaparecidos de Jack Bradshaw no Freeport de Genebra. Foi a carta encontrada no cofre de Bradshaw que levou Gabriel à LXR Investments e, finalmente, a um pequeno banco em Linz, embora Gabriel se esquecesse de referir que o rasto tinha passado por uma sociedade de advogados pan-árabe sediada na Great Suffolk Street.
— Quem foi o tipo que pôs a tua falsificação de Van Gogh no mercado, em Paris?
— Pertencia ao Departamento.
— A sério? — perguntou Seymour desconfiado. — Porque o que correu foi que era inglês.
— E quem achas que lançou o boato, Graham?
— Vocês pensam mesmo em tudo, não é verdade? — Seymour continuava parado à frente da estante. — E o verdadeiro Van Gogh? — questionou. — Tencionas devolvê-lo, não é verdade?
— Mal deite a mão ao caderno de notas do Waleed al-Siddiqi.
— Ah, o caderno de notas.
Tirou um tomo de Greene e abriu-o com o indicador.
— Vamos supor que consegues aceder a essa lista de contas. E depois?
— Usa a imaginação, Graham.
— Roubá-la? É o que estás a sugerir?
— Roubar é uma palavra feia.
— E os teus serviços têm essa capacidade?
Gabriel esboçou um sorriso forçado.
— Depois de tudo o que fizemos juntos — disse —, espanta-me que faças sequer essa pergunta.
Seymour voltou a pôr o tomo de Greene no lugar original.
— Não me oponho a dar uma olhadela aos livros de contabilidade dos bancos uma vez ou outra — disse passados uns instantes —, mas não alinho em roubos. Afinal de contas, somos britânicos. Acreditamos em jogo limpo.
— Nós não podemos dar-nos a esse luxo.
— Não te armes em vítima, Gabriel. Não te fica bem.
Seymour tirou outro livro da prateleira, mas desta vez não se deu ao trabalho de abrir a capa.
— Há alguma coisa a incomodar-te, Graham?
— O dinheiro.
— O que tem o dinheiro?
— Há uma grande probabilidade de parte dele ser de instituições financeiras britânicas. E se várias centenas de milhões de libras desaparecessem repentinamente dos balancetes…
A voz dele sumiu-se, deixando o pensamento inacabado.
— Para começar, elas não deviam ter aceitado o dinheiro, Graham.
— De certeza que as contas foram abertas por um intermediário — contrapôs Seymour. — O que significa que os bancos não fazem ideia de quem é de facto o dinheiro.
— Não vai demorar muito para ficarem a saber.
— Se quiseres a minha ajuda, não. — Instalou-se silêncio entre os dois. Foi finalmente quebrado por Graham Seymour: — Sabes o que vai acontecer se alguma vez vier a lume que eu ajudei a roubar um banco britânico? — perguntou. — Vou parar a Leicester Square com um copo de papel na mão.
— Por isso, vamos fazê-lo discretamente, Graham, como costumamos fazer sempre.
— Desculpa, Gabriel, mas os bancos britânicos estão interditos.
— E as sucursais dos bancos britânicos em território estrangeiro?
— Continuam a ser bancos britânicos.
— E os bancos nos territórios britânicos ultramarinos?
— Interditos — repetiu Seymour.
Gabriel fingiu ponderar o assunto.
— Nesse caso, suponho que vou ter de passar sem a tua ajuda. — Levantou-se. — Lamento ter-te forçado a sair do gabinete, Graham. Diz ao Nigel que sou capaz de voltar para Heathrow sozinho.
Gabriel começou a dirigir-se para a porta.
— Estás a esquecer-te de uma coisa — disse Seymour. Gabriel voltou-se. — Para te parar, só preciso de dizer ao Waleed al-Siddiqi para queimar o caderno de notas.
— Eu sei — replicou Gabriel. — Mas também sei que nunca farias isso. A tua consciência não to ia permitir. E bem lá no fundo, queres tanto o dinheiro como eu.
— Se estiver depositado num banco britânico, não.
Gabriel olhou para o teto e contou mentalmente até cinco.
— Se o dinheiro estiver nas Ilhas Caimão, nas Bermudas ou noutro território britânico qualquer, fico com ele. Se estiver aqui, em Londres, fica em Londres.
— Combinado — aceitou Seymour.
— Desde que — acrescentou Gabriel rapidamente — o governo de Sua Majestade congele muito bem esses ativos.
— Teria de ser o primeiro-ministro a tomar uma decisão dessas.
— Então tenho a certeza de que o primeiro-ministro verá as coisas como eu.
Desta vez, foi Graham Seymour quem olhou para o teto, exasperado.
— Ainda não me disseste como tencionas conseguir o caderno de notas.
— Na verdade — disse Gabriel —, tu é que mo vais conseguir.
— Fico contente por termos esclarecido isso. Mas como vamos conseguir que o Al-Siddiqi venha ao Reino Unido?
— Vou convidá-lo para uma festa. Com alguma sorte — acrescentou Gabriel —, será a última a que ele vai.
— Então é melhor que seja das boas.
— A ideia é essa.
— E quem a vai dar?
— Um amigo meu da Rússia que não gosta de ditadores que roubam dinheiro.
— Nesse caso — disse Seymour, sorrindo pela primeira vez —, essa noite promete ficar para a história.