O Assalto
44. Londres — Linz, Áustria
44
LONDRES — LINZ, ÁUSTRIA
Houve um debate animado sobre o que lhe chamar. Orlov exigiu que o nome dele ficasse associado ao empreendimento — o que não tinha nada de surpreendente pois estava a pagar a parte de leão das despesas. «O nome Orlov é símbolo de qualidade», explicou. «O nome Orlov é símbolo de êxito.» Era verdade, reconheceu Gabriel, mas também era símbolo de corrupção, desonestidade e rumores de violência, acusações que Orlov não se deu ao trabalho de negar. Por fim, decidiram-se por Iniciativa Empresarial Europeia: estoico, sólido e sem ponta de controvérsia. Orlov mostrou-se mesquinho na derrota. «Mais valia chamarmos-lhe doze horas de completo aborrecimento», resmungou baixinho. «Assim podemos ter a certeza de que ninguém se vai dar ao trabalho de aparecer.»
Anunciaram o empreendimento na segunda-feira seguinte, nas páginas do Financial Journal, o venerável diário de negócios londrino que Orlov tinha adquirido por uma bagatela poucos anos antes, quando estava à beira da insolvência. O objetivo apresentado para aquele encontro, disse ele, era juntar os cérebros mais brilhantes do mundo governamental, industrial e financeiro para produzir um conjunto de recomendações de planos de ação que iriam tirar a economia europeia da estagnação pós-recessão. A reação inicial foi, na melhor das hipóteses, tépida. Um comentador chamou-lhe a Loucura de Orlov. Outro, o Titanic de Orlov. «Com uma diferença importante», acrescentou. «Este navio vai ao fundo ainda antes de sair do porto.»
Houve ainda outros que minimizaram a conferência, considerando-a mais um dos truques publicitários na longa lista de Orlov, uma acusação que ele negou repetidamente durante um dia inteiro em que foi bombardeado com entrevistas nos canais de televisão de informação comercial. Depois, como que para provar que os críticos estavam enganados, embarcou numa discreta viagem às capitais europeias para angariar apoios para a iniciativa. A primeira paragem foi em Paris, onde, depois de uma sessão de negociação que mais pareceu uma maratona, o ministro das Finanças francês concordou em mandar uma delegação. A seguir, marchou para Berlim, onde conseguiu que os alemães se comprometessem a estar presentes. O resto do continente depressa os imitou. Os Países Baixos sucumbiram numa tarde, tal como a Escandinávia. Os espanhóis estavam tão desesperados para participar que Orlov nem sequer se deu ao trabalho de fazer a viagem até Madrid. E também não precisou de ir a Roma. De facto, o primeiro-ministro italiano disse que iria em pessoa — desde, claro, que ainda estivesse no governo nessa altura.
Tendo ganhado o compromisso dos governos europeus, Orlov foi atrás das estrelas do mundo empresarial e financeiro. Enrolou os titãs da indústria automóvel alemã e os gigantes da indústria fabril da Suécia e da Noruega. As grandes companhias de navegação queriam participar na brincadeira, tal como as grandes companhias de aço e de energia. Inicialmente, os bancos suíços mostraram-se relutantes, mas concordaram depois de Orlov lhes ter assegurado que não seriam crucificados pelos pecados anteriores. Até Martin Landesmann, o rei suíço dos fundos de investimento e responsável por boas ações no plano internacional, anunciou que iria arranjar tempo num calendário muito ocupado, embora implorasse a Orlov que dedicasse pelo menos uma parte do programa a questões que lhe eram caras, como as alterações climáticas, a dívida do Terceiro Mundo e a agricultura sustentável.
E foi assim que, passados poucos dias, a conferência que tinha sido inicialmente menosprezada como uma loucura era agora o assunto mais na berra no mundo empresarial. Orlov foi assediado com pedidos para convites. Eram os americanos, que perguntavam a si mesmos por que razão, logo para começar, não teriam sido convidados. Eram os modelos da moda, as estrelas rock e os atores que queriam conviver com os ricos e poderosos. Houve um antigo primeiro-ministro britânico, caído em desgraça por escândalos pessoais, que queria uma possibilidade de se redimir. Até houve um oligarca russo que mantinha laços desconfortavelmente apertados com os inimigos de Orlov no Kremlin. Deu a mesma resposta a todos. Os convites seriam emitidos por correio noturno no primeiro dia de julho. As respostas tinham de ser recebidas nas quarenta e oito horas seguintes. A imprensa seria autorizada a ter acesso aos comentários introdutórios de Orlov, mas todos os outros acontecimentos, incluindo o jantar de gala, estariam interditos aos meios de comunicação. «Queremos que os nossos participantes se sintam à vontade para exprimirem as suas opiniões», explicou Orlov. «E não o poderão fazer se a imprensa estiver suspensa de todas as palavras que disserem.»
Tudo isto parecia ter pouca importância na cidade austríaca encantada numa curva invulgarmente acentuada do rio Danúbio. Sim, o presidente da Voestalpine AG, o gigante do aço sediado em Linz, tinha sido sondado por Orlov em relação à participação na conferência de Londres, mas, fora isso, a vida continuou normalmente. Começaram e acabaram uns quantos festivais de verão, os cafés encheram-se e esvaziaram-se duas vezes por dia e, no pequeno banco privado perto da rotunda dos elétricos, uma filha de Hama continuou com a rotina diária como se não tivesse acontecido nada de invulgar. Devido ao seu telemóvel desprotegido, que funcionava agora a tempo inteiro como um transmissor, Gabriel e o resto da equipa puderam ouvir tudo o que fazia. Ouviram-na a abrir contas e a movimentar dinheiro. Ouviram as reuniões que tinha com Herr Weber e com o senhor Al-Siddiqi. E, a altas horas da noite, ouviram-na sonhar com Hama.
E também a ouviram a renovar a amizade com uma aspirante a romancista, recentemente divorciada e que vivia sozinha em Linz, chamada Ingrid Roth. Almoçavam juntas, iam às compras juntas, iam a museus juntas. E, em duas ocasiões, voltaram à bonita villa amarela na margem ocidental do Attersee, onde Jihan foi interrogada e preparada por um homem que fora levada a acreditar ser alemão. No final da primeira sessão, ele pediu-lhe uma descrição pormenorizada do gabinete do senhor Al-Siddiqi. E quando voltou para a segunda sessão, tinha sido criada uma réplica do gabinete numa das salas da villa. Era uma falsificação perfeita em todos os pormenores: a mesma secretária, o mesmo computador, o mesmo telefone e até a mesma câmara de vigilância no cimo da parede e o mesmo teclado numérico na porta.
— Para que é isto? — perguntou Jihan, surpreendida.
— Para treinar — respondeu-lhe Gabriel, com um sorriso.
E treinar foi o que fizeram durante três horas, sem uma única interrupção, até Jihan conseguir executar a missão sem mostrar qualquer traço de medo ou tensão. A seguir, fez tudo numa escuridão completa e com um alarme a tocar e Gabriel a gritar-lhe que os homens do senhor Al-Siddiqi estavam a chegar para a apanharem. Gabriel não disse a Jihan que o treino que estava a receber tinha sido criado pelos serviços secretos do Estado de Israel. Nem lhe referiu o facto de, em várias ocasiões, ele próprio ter suportado períodos de treino semelhantes. Na presença dela, nunca era Gabriel Allon. Era um aborrecido cobrador de impostos alemão sem nome que por acaso era muito bom no que fazia.
O logro infligido a Jihan parecia pesar cada vez mais na consciência de Gabriel à medida que o dia da operação se aproximava. Estava constantemente a recordar à equipa que os adversários iriam seguir as Regras de Hama — e, se calhar, também as Regras de Moscovo — e preocupava-se com os pormenores mais insignificantes. Conforme o estado de espírito dele piorava, Eli Lavon tomou a iniciativa de comprar um pequeno veleiro de madeira só para conseguir tirar Gabriel da casa segura durante umas horas à tarde. Velejava ao sabor do vento na direção das montanhas do Inferno e depois regressava seguindo destramente em ziguezague, tentando sempre melhorar o tempo do dia anterior. O cheiro do Rosenwind levava-o a pensar numa criança aterrorizada agarrada à mãe — e, às vezes, no aviso que a velha mística lhe sussurrara ao ouvido na ilha da Córsega.
Não deixes que lhe aconteça nada, senão perdes tudo…
Mas a sua obsessão principal durante aqueles últimos dias de junho era Waleed al-Siddiqi, o banqueiro de origem síria que ia para todo o lado com um caderno de notas encadernado em pele preta. Este viajou com frequência durante esse período e, como era hábito, com reservas feitas apenas com algumas horas de antecedência. Houve uma viagem de um dia a Bruxelas, um pequeno passeio de uma noite a Beirute e, por fim, uma visita rápida ao Dubai, onde passou muito tempo na sede do TransArabian Bank, uma instituição que o Departamento conhecia bem. Regressou a Viena à uma da tarde, no dia 1 de julho, e, às três, estava a entrar pela porta do Bank Weber AG, seguido, como de costume, pelos guarda-costas alauitas. Jihan recebeu-o cordialmente e entregou-lhe um maço de correio que chegara enquanto tinha estado fora. Incluía um envelope entregado pela DHL, dentro do qual estava um convite em papel acetinado para uma coisa qualquer chamada Iniciativa Empresarial Europeia. Levou-o sem o abrir para o gabinete e fechou a porta silenciosamente.
Era quarta-feira, o que queria dizer que tinha até às cinco da tarde de sexta-feira para entregar a resposta por correio eletrónico. Gabriel mentalizou-se para uma longa espera e, infelizmente, Waleed al-Siddiqi não o desiludiu. O resto da quarta-feira passou sem uma resposta, tal como a manhã e a tarde de quinta-feira. Eli Lavon encarava a demora como um sinal positivo. Queria dizer, explicou, que o banqueiro estava lisonjeado com o convite e estava a decidir se devia ou não estar presente. Mas Gabriel temia o contrário. Tinha investido fortemente em tempo e dinheiro para atrair o banqueiro sírio a Inglaterra. Melhorar a anémica economia da Europa era um empreendimento nobre, disse a Lavon, mas não era propriamente uma das suas prioridades cruciais.
Na sexta-feira de manhã, Gabriel estava a rebentar de preocupação. Telefonava para Viktor Orlov no início e no fim de cada hora. Passarinhava de um lado para o outro do salão. Resmungava para o teto na língua que no momento melhor se lhe adaptasse ao estado de espírito sempre instável. Por fim, às duas da tarde, abriu de rompante a porta da imitação do gabinete de Al-Siddiqi e gritou-lhe em árabe que se decidisse. Foi nessa altura que Eli Lavon interveio. Agarrou gentilmente no cotovelo de Gabriel e levou-o para o final da doca.
— Põe-te a andar — disse-lhe, apontando para a ponta mais distante do lago. — E não voltes nem um minuto antes das cinco.
Relutante, Gabriel entrou no veleiro e seguiu ao sabor do vento na direção das montanhas do Inferno, com as velas desfraldadas, seguido pelo cheiro intenso a rosas. Levou apenas uma hora a chegar à extremidade sul do lago; baixou as velas numa enseada abrigada e aqueceu-se ao sol, sempre a resistir ao impulso de pegar no telemóvel. Por fim, às três e meia, içou a vela grande e a vela de bujarrona e zarpou para norte. Chegou à cidade de Seeberg às dez para as cinco, guinou uma última vez para estibordo e ligou o motor para a travessia em linha reta até à casa segura no lado oposto do lago. Quando se aproximou, avistou a figura diminuta de Eli Lavon de pé na ponta da doca, com o braço erguido numa saudação silenciosa.
— E então? — perguntou Gabriel.
— Parece que o senhor Al-Siddiqi se sentiria honrado por assistir à Iniciativa Empresarial Europeia.
— Só isso?
— Não — respondeu Lavon, franzindo o sobrolho. — Também gostaria de ter uma conversa privada com Miss Nawaz.
— Sobre o quê?
— Vem para dentro — respondeu Lavon. — Já vamos ficar a saber daqui a nada.