O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 29 de 65

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O Assalto

27. Avenida Rei Saul, Telavive

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AVENIDA REI SAUL, TELAVIVE

 

— E o que achas que o Bradshaw fez ao Caravaggio?

— Deve tê-lo levado para a villa dele no lago Como — respondeu Gabriel. — E depois pediu ao Oliver Dimbleby para ir ter com ele a Itália para dar uma vista de olhos à coleção. Era uma artimanha, uma operação inteligente concebida por um antigo espião britânico. O que ele queria realmente era que o Oliver transmitisse uma mensagem ao Julian Isherwood, que por seu turno a ia transmitir a mim. Mas não correu conforme planeado. O Oliver acabou por pedir ao Julian para ir a Como. E quando ele lá chegou, o Bradshaw já estava morto.

— E o Caravaggio tinha desaparecido?

Gabriel assentiu com a cabeça.

— E por que razão o Bradshaw te queria falar a ti da ligação com o presidente sírio?

— Imagino que achasse que eu ia tratar do assunto com discrição.

— Ou seja?

— Que não ia dizer à polícia britânica nem italiana que ele era contrabandista e recetador — respondeu Gabriel. — Tinha esperanças de se encontrar comigo cara a cara. Mas deu-se ao cuidado de pôr tudo o que sabia por escrito e de o guardar no Freeport.

— Com uma série de quadros roubados?

Gabriel assentiu mais uma vez.

— E porque mudou de ideias de repente? Porque não aceitou o dinheiro manchado de sangue do presidente e se contentou com isso?

— Nicole Devereaux.

Navot semicerrou os olhos pensativamente.

— Porque é que esse nome me diz qualquer coisa?

— Era a fotógrafa da AFP que foi raptada e morta em Beirute, nos anos oitenta — respondeu Gabriel. Contou o resto da história a Navot: o caso amoroso, o recrutamento pelo KGB, o meio milhão numa conta bancária suíça. — O Bradshaw nunca se perdoou pela morte da Nicole — acrescentou. — E não há dúvida de que nunca perdoou o regime sírio por a ter matado.

Navot ficou calado durante um momento.

— O teu amigo Jack Bradshaw fez muitas coisas parvas na vida — disse por fim. — Mas a coisa mais estúpida que fez foi aceitar cinco milhões de euros da família do presidente sírio por um quadro que não chegou a entregar. Só há uma coisa que a família detesta mais do que a deslealdade e que são as pessoas que lhe tentam ficar com o dinheiro. — Navot olhava as imagens que se iam desenrolando nos monitores de vídeo na parede. — Se queres saber a minha opinião — disse ele —, todo este exercício de depravação humana tem que ver precisamente com isso. Cento e cinquenta mil mortos e milhões de desalojados. E para quê? Por que razão a família do presidente se está a tentar aguentar com unhas e dentes? Porque andam a matar a uma escala industrial? Pela fé? Pelo ideal sírio? Não existe ideal sírio. Com toda a sinceridade, já não existe Síria. E, mesmo assim, a matança continua, por uma só razão apenas.

— Dinheiro — disse Gabriel. — Navot assentiu com a cabeça lentamente. — Pareces ter conhecimentos especiais sobre a situação na Síria, Uzi.

— Por acaso, sou casado com a principal especialista do país em assuntos relacionados com a Síria e o movimento Baath. — Fez uma pausa antes de acrescentar: — Mas a verdade é que já sabias isso.

Navot levantou-se, aproximou-se do aparador e serviu-se de uma chávena de café do termos de êmbolo. Gabriel reparou que não havia nata nem biscoitos de manteiga vienenses, duas coisas a que Navot era incapaz de resistir. Agora, bebia café simples, sem outro acompanhamento que não uma pastilha de adoçante branca, que disparou de um distribuidor automático de plástico para dentro da chávena.

— Desde quando pões cianeto no café, Uzi?

— A Bella anda a tentar desmamar-me do açúcar. E a seguir é a cafeína.

— Nem consigo imaginar tentarmos fazer este trabalho sem cafeína.

— Não tarda muito vais ver como é.

Navot sorriu contra vontade e voltou a sentar-se. Gabriel estava a olhar para os monitores de vídeo. O corpo de uma criança — rapaz ou rapariga, era impossível perceber — estava a ser retirado dos escombros. Uma mulher chorava. Um homem com barba gritava por vingança.

— E de quanto estamos a falar? — perguntou.

— Dinheiro?

Gabriel assentiu com a cabeça.

— Dez mil milhões é o valor que costuma ser atirado pelos jornais — respondeu Navot —, mas nós achamos que esse valor é na verdade muito mais alto. E está tudo nas mãos do Kemel al-Farouk. — Olhou para Gabriel de soslaio e perguntou: — Conheces o nome?

— A Síria não é o meu pelouro, Uzi.

— Não tarda muito vai ser. — Outro sorriso ténue antes de prosseguir: — O Kemel não faz verdadeiramente parte da família do presidente, mas passou a vida inteira a trabalhar para ela. Começou como guarda-costas do pai do presidente. No final dos anos setenta, o Kemel levou um tiro pelo velho e o pai do presidente nunca se esqueceu disso. Deu ao Kemel um cargo importante na Mukhabarat, onde ele ganhou a reputação de ser um interrogador feroz dos prisioneiros políticos. Costumava pregar os membros da Irmandade Muçulmana à parede só para se divertir.

— E onde está ele agora?

— O cargo oficial dele é ministro adjunto dos Negócios Estrangeiros mas, em muitos aspetos, é ele quem manda no país e na guerra. O presidente nunca decide nada sem falar primeiro com o Kemel. E, talvez mais importante ainda, é o Kemel quem toma conta do dinheiro. Empatou parte da fortuna em Moscovo e Teerão, mas nunca na vida ia confiar tudo aos russos e aos iranianos. Achamos que tem alguém a trabalhar para ele na Europa Ocidental, a esconder o máximo de ativos possível. O que não sabemos — ressalvou Navot — é quem essa pessoa é nem onde anda a esconder o dinheiro.

— Graças ao Jack Bradshaw, já sabemos que uma parte está na LXR Investments. E agora podemos utilizar a LXR como janela para o resto dos ativos da família.

— E a seguir? — Gabriel ficou calado. Navot ficou a ver mais um corpo a ser retirado dos escombros em Damasco. — Para os israelitas, é difícil ver cenas destas — disse passado um momento. — Sentimo-nos incomodados. Traz-nos más recordações. O nosso instinto natural é matar o monstro antes que o monstro possa fazer mais mal. Mas o Departamento e as Forças de Defesa de Israel concluíram que, para já, é melhor deixar o monstro onde está, já que a alternativa podia ser pior. E os americanos e os europeus chegaram à mesma conclusão, apesar de todas as conversas otimistas sobre a negociação de um acordo. Ninguém quer que a Síria caia nas mãos da Al-Qaeda, mas é isso que vai acontecer se a família do presidente desaparecer.

— Grande parte da Síria já é dominada pela Al-Qaeda.

— É verdade — concordou Navot. — E o contágio está a espalhar-se. Há umas semanas, uma delegação de chefes dos serviços secretos europeus foi a Damasco com uma lista dos cidadãos muçulmanos dos respetivos países que viajaram para a Síria para se juntarem à jihad. Podia ter-lhes dado mais uns nomes, mas não me convidaram para a festa.

— Que grande surpresa.

— Provavelmente, até foi melhor eu não ter ido. Da última vez que estive em Damasco, viajei com um nome diferente.

— De quem?

— Do Vincent Laffont.

— O escritor de viagens? — Navot assentiu com a cabeça. — Sempre foi um dos meus preferidos — disse Gabriel.

— E meu também. — Navot pousou a chávena de café na mesinha. — O Departamento nunca teve pruridos em cometer um crime ou outro para ajudar uma operação que era moral e justa. Mas se entrarmos a matar no sistema bancário internacional, as repercussões podem ser desastrosas.

— A família do presidente sírio não conseguiu esses ativos de forma honesta, Uzi. Há já duas gerações que andam a saquear a economia.

— Mas isso não quer dizer que os possamos simplesmente roubar.

— Pois não — respondeu Gabriel, fingindo contrição. — Isso seria errado.

— Então o que estás a sugerir?

— Congelamo-los.

— Como?

Gabriel sorriu e respondeu:

— À maneira do Departamento.

 

— Então e os nossos amigos em Langley? — perguntou Navot depois de Gabriel terminar a explicação.

— O que tem?

— Não podemos iniciar uma operação destas sem o apoio da CIA.

— Se dissermos à CIA, a CIA vai dizer à Casa Branca. E depois vai aparecer na primeira página do New York Times.

Navot sorriu.

— Agora só precisamos da aprovação do primeiro-ministro e do dinheiro para executar a operação.

— Já temos dinheiro, Uzi. Uma data dele.

— Os vinte e cinco milhões que fizeste com a venda do Van Gogh falso?

Gabriel assentiu com a cabeça.

— A beleza desta operação é essa — disse. — É autofinanciada.

— E onde está o dinheiro agora?

— É capaz de estar na bagageira do carro do Christopher Keller.

— Na Córsega.

— Receio bem que sim.

— Vou mandar um bodel ir buscá-lo.

— O grande Don Orsati não lida com correios, Uzi. Ia achar isso tremendamente insultuoso.

— Então o que sugeres?

— Vou eu buscar o dinheiro mal tenha a operação em andamento, embora seja possível que tenha de lá deixar ficar um pequeno tributo ao don.

— Pequeno, como?

— Dois milhões devem deixá-lo satisfeito.

— Isso é bastante dinheiro.

— Uma mão lava a outra e as duas lavam a cara.

— Isso é algum provérbio judeu?

— É capaz, Uzi.

 

Já só faltava por isso tratar da composição da equipa para a operação de Gabriel. Rimona Stern e Mikhail Abramov eram indispensáveis, afirmou. E o mesmo se aplicava a Dina Sarid, Yossi Gavish e Yaakov Rossman.

— Está fora de questão levares o Yaakov numa altura destas — opôs-se Navot.

— E porquê?

— Porque é o Yaakov quem anda a seguir os mísseis e as outras guloseimazinhas todas que andam a passar dos sírios para os amigos deles do Hezbollah.

— O Yaakov consegue fazer mais do que uma coisa ao mesmo tempo.

— E mais quem?

— Preciso do Eli Lavon.

— Ele ainda anda a escavar por baixo da Muralha Ocidental.

— Amanhã à tarde, já vai estar a escavar outra coisa.

— E é só?

— Não — respondeu Gabriel. — Preciso de mais outra pessoa para fazer uma operação destas.

— De quem?

— Da principal especialista do país em assuntos relacionados com a Síria e o movimento Baath.

Navot sorriu.

— Se calhar, é melhor levares um par de guarda-costas, só para jogar pelo seguro.