O Assalto
11. Jardim das Tulherias, Paris
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JARDIM DAS TULHERIAS, PARIS
Dois séculos depois de morrer, estava praticamente esquecido. Os seus quadros ganhavam pó nos armazéns de galerias e museus, muitos erroneamente atribuídos, com as figuras iluminadas de forma impressionante a caírem lentamente no vazio dos respetivos e característicos fundos negros. Por fim, em 1951, o célebre historiador de arte italiano Roberto Longhi reuniu as obras que se conheciam do autor e mostrou-as ao mundo no Palazzo Reale, em Milão. A maioria das pessoas que visitou essa extraordinária exposição nunca tinha ouvido falar de Caravaggio.
Os pormenores do início da sua vida são, na melhor das hipóteses, vagos, linhas ténues a carvão numa tela de resto vazia. Nasceu no dia 29 de setembro de 1571, provavelmente em Milão, onde o pai era um pedreiro e arquiteto de sucesso. No verão de 1576, a peste regressou à cidade. Quando finalmente se esbateu, um quinto da diocese milanesa tinha falecido, incluindo o pai, o avô e o tio de Caravaggio. Em 1584, com treze anos, entrou para o ateliê de Simone Peterzano, um monótono mas competente maneirista que dizia ter sido discípulo de Ticiano. O contrato que celebraram, e que sobreviveu até aos tempos atuais, obrigava Caravaggio a treinar dia e noite durante um período de quatro anos. Não se sabe se o cumpriu, nem se chegou sequer a terminar essa aprendizagem. Claramente, a obra frouxa e inerte de Peterzano pouca influência teve nele.
Como quase tudo relacionado com ele, as circunstâncias exatas à volta da saída de Caravaggio de Milão perderam-se no tempo e encontram-se envolvidas em mistério. Há registos que indicam que a mãe morreu em 1590 e que ele recebeu, do modesto património dela, uma herança no valor de cem scudi de ouro. Passado um ano, o dinheiro já desaparecera. E não há em lado nenhum qualquer indicação de que o jovem volátil que tivera formação como artista chegasse a tocar com algum pincel numa tela nos últimos tempos que passou em Milão. Segundo parece, estava demasiado ocupado com outros interesses. Giovanni Pietro Bellori, autor de uma das primeiras biografias dele, sugere que Caravaggio teve de fugir da cidade, talvez após um incidente relacionado com uma prostituta e uma navalha ou talvez após o assassínio de um amigo. Viajou para leste, para Veneza, escreveu Bellori, onde se deixou fascinar pela paleta de Giorgione. No outono de 1592, partiu para Roma.
É daí em diante que se começa a conhecer melhor a vida de Caravaggio. Como toda a gente que vinha do Norte, entrou na cidade pelos portões do Porto del Popolo e dirigiu-se para o bairro dos artistas, um labirinto de ruas imundas à volta do Campo Marzio. De acordo com o pintor Baglione, viveu com um artista siciliano, embora outro dos seus biógrafos iniciais, um médico que conheceu Caravaggio em Roma, deixasse registado que ele se instalou em casa de um padre que o obrigava a tratar da casa e só lhe dava verduras para comer. Caravaggio chamava ao padre Monsignor Insalata e saiu de casa dele passados poucos meses. Viveu pelo menos em dez lugares diferentes durante os primeiros anos em Roma, incluindo no ateliê de Giuseppe Cesari, onde dormia num colchão de palha. Calcorreava as ruas com umas meias pretas esfarrapadas e uma capa igualmente preta e puída. O cabelo preto apresentava-se completamente desgrenhado.
Cesari só deixava Caravaggio pintar flores e frutos, as tarefas de menor importância possível para um aprendiz num ateliê. Aborrecido e convencido de um talento superior, começou a produzir os seus próprios quadros. Vendeu alguns nas ruelas em redor da Piazza Navona. Mas houve um quadro, um retrato luminoso de um rapazinho romano abastado a ser enganado às cartas por um par de batoteiros profissionais, que foi vendido a um negociante que tinha uma loja em frente ao palazzo ocupado pelo cardeal Francesco del Monte. A transação iria alterar por completo o rumo da vida de Caravaggio, pois o cardeal, um conhecedor e patrono das artes, era grande admirador do quadro e comprou-o por uns quantos scudi. Passado pouco tempo, adquiriu um segundo quadro de Caravaggio, que representava uma vidente sorridente a roubar o anel a um rapazinho romano enquanto lhe lia a palma da mão. A determinada altura, os dois homens conheceram-se, apesar de não ser claro de quem terá partido a iniciativa. O cardeal ofereceu ao jovem artista comida, roupa, alojamento e um estúdio no palazzo. Tudo o que pedia a Caravaggio era que pintasse. Caravaggio, na altura com apenas vinte e quatro anos, aceitou a proposta do cardeal. Foi uma das poucas decisões sensatas que tomou na vida.
Depois de se instalar nos aposentos no palazzo, Caravaggio produziu várias obras para o cardeal e respetivo círculo de amigos ricos, incluindo O Flautista, Os Músicos, Baco, Marta e Maria Madalena e São Francisco de Assis em Êxtase. Foi então que, em 1599, recebeu a primeira encomenda de carácter público: duas telas que representassem cenas da vida de São Mateus para a Capela Contarelli, na Igreja de San Luigi dei Francesi. Ainda que controversos, esses quadros tornaram de imediato Caravaggio o artista mais procurado de Roma. Seguiram-se rapidamente outras encomendas, incluindo A Crucificação de São Pedro e A Conversão de São Paulo para a Capela Cerasi da Igreja de Santa Maria del Popolo, A Ceia em Emaús, São João Baptista, A Traição de Cristo, A Dúvida de São Tomé e O Sacrifício de Isaac. Mas nem todas as obras que assinou foram bem recebidas depois de entregues. A Virgem e o Menino com Santa Ana foi retirada da Basílica de São Pedro por, ao que parece, a hierarquia eclesiástica não aprovar o amplo decote de Maria. O retrato dela, de pernas à mostra na Morte da Virgem, foi considerado tão ofensivo que a igreja que lhe tinha feito a encomenda, a Santa Maria della Scala, em Trastevere, se recusou a aceitá-lo. Rubens considerou-o uma das melhores obras de Caravaggio e ajudou-o a encontrar comprador.
O êxito como pintor não trouxe calma à vida pessoal de Caravaggio — com efeito, continuou tão caótica e violenta como sempre. Foi preso por andar com uma espada, sem licença, no Campo Marzio. Enfiou um prato com alcachofras na cara de um empregado, na Osteria del Moro. Passou pela cadeia por atirar pedras aos sbirri, a polícia papal, na Via dei Greci. Esse incidente com as pedras aconteceu às nove e meia de uma noite de outubro de 1604. Por essa altura, Caravaggio vivia sozinho numa casa arrendada, tendo por única companhia Cecco, o seu aprendiz e modelo ocasional. O seu aspeto físico deteriorara-se; já era outra vez a figura desleixada e com roupa preta esfarrapada que costumava vender os quadros na rua. E apesar de ter muitas encomendas, ia trabalhando intermitentemente. Não se sabe bem como, mas conseguiu produzir um retábulo monumental chamado A Deposição de Cristo. Segundo a opinião geral, era o melhor quadro dele.
Houve mais altercações com as autoridades — só em 1605, o seu nome aparece nos registos da polícia de Roma cinco vezes —, mas nenhuma foi mais grave do que o incidente que ocorreu a 28 de maio de 1606. Era domingo e, como de costume, Caravaggio dirigiu-se para os campos da Via della Pallacorda para ir jogar ténis. Foi lá que deparou com Ranuccio Tomassoni, um lutador de rua e um rival na disputa dos afetos de uma jovem e linda cortesã que tinha posado para vários quadros de Caravaggio. Houve uma troca de palavras e ambos puxaram das espadas. Os pormenores da escaramuça não são claros, mas Tomassoni acabou estendido no chão, com uma ferida profunda na parte superior da coxa. Morreu pouco tempo depois e, à noite, Caravaggio já era alvo de uma caça ao homem por toda a cidade. Procurado por homicídio, crime que só tinha um castigo possível, fugiu para os montes Albanos. Nunca mais voltaria a ver Roma.
Partiu para sul, em direção a Nápoles, onde a reputação de grande pintor o precedia, não obstante o homicídio. Deixou lá As Sete Obras de Misericórdia antes de seguir de barco para Malta. Foi admitido nos Cavaleiros de Malta, uma honra dispendiosa pela qual pagou em quadros, e viveu como nobre durante um curto espaço de tempo. Foi então que uma luta com outro membro da ordem o levou a passar mais uma temporada na prisão. Conseguiu escapar e fugir para a Sicília, onde, de acordo com todas as informações, deu mostras de estar louco e transtornado, dormindo com um punhal ao lado. Ainda assim, foi capaz de continuar a pintar. Em Siracusa, deixou O Enterro de Santa Lúcia. Em Messina, produziu dois quadros monumentais: A Ressurreição de Lázaro e o lancinante A Adoração dos Pastores. E para o Oratorio di San Lorenzo, em Palermo, pintou a Natividade com São Francisco e São Lourenço. Trezentos e cinquenta e nove anos depois, na noite de 18 de outubro de 1969, dois homens entraram na capela por uma janela e arrancaram a tela da moldura. Uma cópia desse quadro estava pendurada por trás da secretária do general Cesare Ferrari, no palazzo de Roma. Era o alvo número um da Brigada de Arte.
— Desconfio que o general já saiba da ligação entre o Caravaggio e o Jack Bradshaw — disse Maurice Durand. — Isso explicaria por que razão insistiu tanto consigo para que aceitasse o caso.
— Conhece bem o general — respondeu Gabriel.
— Nem por isso — retorquiu o francês. — Mas é verdade que já estive com ele uma vez.
— Onde?
— Aqui em Paris, num simpósio sobre crimes relacionados com a arte. O general fazia parte de um dos painéis.
— E você?
— Estava a assistir.
— A que título?
— Como negociante de antiguidades valiosas, claro.
Durand sorriu.
— O general pareceu-me ser um tipo sério, muito capaz. Há já muito tempo que não roubo nenhum quadro em Itália.
Estavam a percorrer um trilho de gravilha na allée centrale. As nuvens cor de chumbo tinham sugado toda a cor dos jardins. Era mais parecido com Sisley do que com Monet.
— E será possível? — perguntou Gabriel.
— Que o Caravaggio esteja mesmo prestes a ser adquirido?
Gabriel assentiu com a cabeça. Durand pareceu estar a ponderar muito bem a questão antes de responder.
— Já ouvi as histórias todas — disse por fim. — Que o colecionador que encomendou o roubo se recusou a aceitar o quadro por estar tão danificado depois de o arrancarem da moldura. Que os chefes da Máfia siciliana costumavam exibi-lo nas reuniões como uma espécie de troféu. Que tinha sido destruído numa inundação. Que fora comido por ratazanas. Mas também já ouvi rumores — acrescentou — de que já esteve para ser adquirido.
— E quanto acha que ia valer no mercado negro?
— Os quadros que o Caravaggio assinou enquanto andava em fuga não possuem a profundidade das grandes obras que realizou em Roma. Ainda assim — acrescentou Durand —, um Caravaggio é um Caravaggio.
— Quanto, Maurice?
— A prática diz-nos que um quadro roubado conserva dez por cento do valor original no mercado negro. Se o Caravaggio valesse cinquenta milhões no mercado aberto, sujo ia render cinco milhões.
— Não existe mercado aberto para um Caravaggio.
— O que quer dizer que é verdadeiramente um objeto único. Neste mundo, há homens capazes de pagar quase o que for preciso por uma coisa dessas.
— E você conseguiria vendê-lo?
— Com um único telefonema.
Chegaram ao lago dos barcos, onde havia várias pequenas embarcações à vela a navegar as águas minúsculas e agitadas pela tempestade. Gabriel parou junto à margem e explicou como tinha descoberto três quadros roubados — um Parmigianino, um Renoir e um Klimt — escondidos por baixo de cópias de obras menores, na villa de Jack Bradshaw, no lago Como. Enquanto observava os barcos, Durand foi assentindo com a cabeça pensativamente.
— Parece-me que os estavam a preparar para serem transportados e vendidos.
— E porquê pintar por cima deles?
— Para poderem ser vendidos legalmente. — Durand fez uma pausa e depois acrescentou: — Vendidos legalmente como obras de menor valor, claro.
— E quando as vendas fossem finalizadas?
— Uma pessoa como você seria contratada para retirar as imagens que serviam de capa e preparar os quadros para poderem ser pendurados.
Um par de turistas, duas raparigas, estava a posar para uma fotografia, do outro lado do lago dos barcos. Gabriel agarrou no cotovelo de Durand e conduziu-o em direção à Pirâmide do Louvre.
— Quem pintou essas falsificações era bom — disse. — Suficientemente bom para ser capaz de me enganar numa primeira impressão.
— Não faltam por aí muitos artistas talentosos dispostos a vender os serviços a pessoas como eu, que labutam na parte suja do ramo.
O francês olhou para Gabriel e perguntou:
— Já teve ocasião de falsificar algum quadro?
— Sou capaz de já ter falsificado um Cassatt em tempos.
— Por uma causa meritória, não tenho dúvidas.
Continuaram a caminhar, com a gravilha a estalar-lhes por baixo dos pés.
— E o Maurice? Já precisou dos serviços de algum falsificador?
— Estamos a entrar em território sensível — avisou Durand.
— Nós os dois já passámos essa fronteira há muito tempo.
Chegaram à Place du Carrousel, viraram à direita e seguiram para o rio.
— Sempre que tal é possível — disse Durand —, prefiro criar a ilusão de que um quadro roubado não foi realmente roubado.
— Deixa ficar uma cópia.
— Chamamos-lhes trabalhos de substituição.
— E quantos estão expostos nos museus e casas por essa Europa fora?
— Prefiro não dizer.
— Continue, Maurice.
— Há um homem que me trata de tudo. E esse falsificador chama-se Yves Morel.
— E onde é que ele estudou?
— Na École Nationale des Beaux-Arts de Lyon.
— Mas que prestigiante — retorquiu Gabriel. — E porque não se tornou artista?
— Tentou. Mas as coisas não correram conforme planeado.
— E por isso resolveu vingar-se do mundo da arte passando a falsificador?
— Qualquer coisa desse género.
— Muito nobre.
— Quem tem telhados de vidro…
— E a vossa relação é exclusiva?
— Quem me dera que fosse, mas não lhe consigo dar trabalho que chegue. De vez em quando, aceita encomendas de outros clientes. E um desses clientes era o agora falecido recetador chamado Jack Bradshaw.
Gabriel parou e voltou-se para Durand.
— E é por isso que sabe tanta coisa sobre as atividades do Bradshaw — disse. — Andavam a utilizar os serviços do mesmo falsificador.
— Era tudo bastante caravaggesco — respondeu Durand, assentindo com a cabeça.
— E onde é que o Morel trabalhava para o Bradshaw?
— Numa divisão do Freeport de Genebra. O Bradshaw tinha uma galeria de arte bastante singular lá. O Yves chamava-lhe a galeria dos desaparecidos.
— E onde está ele agora?
— Aqui em Paris.
— Onde, Maurice?
Durand tirou a mão do bolso do sobretudo e indicou que o falsificador poderia ser encontrado algures perto da Basílica do Sacré-Coeur. Entraram no metro, o ladrão de arte e o agente dos serviços secretos, e seguiram para Montmartre.