O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 42 de 65

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O Assalto

40. Attersee, Áustria

40

 

ATTERSEE, ÁUSTRIA

 

Instalou-se na sala um silêncio, pesado e agoirento, como o silêncio que cai com força depois de um atentado à bomba suicida num mercado apinhado de gente. Bella entrou sem se apresentar e sentou-se numa cadeira vaga, defronte de Jihan. Ficaram as duas a olhar uma para a outra, como se só elas soubessem um segredo terrível, enquanto Gabriel folheava o dossiê distraidamente. Quando voltou por fim a falar, adotou um tom de distanciamento clínico, como um médico a fazer um exame físico de rotina a uma pessoa aparentemente saudável.

— Tem trinta e oito anos, Jihan? — perguntou.

— Trinta e nove — corrigiu-o ela. — Mas nunca lhe disseram que é uma grande falta de educação perguntar a idade a uma mulher?

O comentário provocou sorrisos tépidos na sala, que se esmoreceram quando Gabriel lhe fez nova pergunta.

— O que quer dizer que nasceu em…

A voz sumiu-se-lhe, como se estivesse a tentar fazer a conta.

Jihan indicou-lhe a data sem mais incitamento.

— Nasci em 1976 — disse.

— Em Hama?

— Sim — respondeu. — Em Hama.

Bella olhou para o marido, que estava a olhar para outro lado. Gabriel estava outra vez a folhear o dossiê, com a dedicação de um cobrador de impostos à matéria escrita.

— E quando se mudou para Damasco, Jihan? — perguntou.

— Foi no outono de 1982.

Gabriel olhou subitamente para cima e franziu o sobrolho.

— E porquê, Jihan? — perguntou. — Porque se foi embora de Hama no outono de 1982?

Ela retribuiu-lhe o olhar sem dizer nada. A seguir, olhou para Bella, a recém-chegada, a mulher sem função nem propósito aparentes, e respondeu.

— Fomos embora de Hama — explicou — porque, no outono de 1982, já não havia Hama. A cidade desapareceu. Foi varrida da face da terra.

— Houve conflitos em Hama entre o regime e a Irmandade Muçulmana?

— Não foram conflitos — respondeu. — Foi um massacre.

— E, por isso, a Jihan e a família mudaram-se para Damasco, certo?

— Não — respondeu. — Fui para lá sozinha.

— Porquê, Jihan? — perguntou ele, fechando o dossiê. — Porque foi para Damasco sozinha?

— Porque já não tinha família. Nem família, nem cidade.

Olhou para Bella novamente.

— Estava sozinha.

 

Para compreender o que aconteceu em Hama, prosseguiu Jihan, era preciso saber o que tinha acontecido antes. Em tempos, a cidade fora considerada a mais bela da Síria, célebre pelas graciosas noras de água no rio Orontes. E também era conhecida pelo fervor singular do islamismo sunita. As mulheres de Hama já usavam o véu muito antes de ser moda no resto do mundo muçulmano, sobretudo no bairro antigo de Barudi, onde a família Nawaz vivia num apartamento exíguo. Jihan era uma de cinco crianças, a mais nova e a única rapariga. O pai não recebera educação formal e fazia biscates no velho souk do outro lado do rio. Acima de tudo, estudava o Alcorão e protestava contra o ditador sírio, que considerava ser um herege e camponês sem direito a governar os sunitas. O pai não era membro de pleno direito da Irmandade Muçulmana, mas apoiava o objetivo da Irmandade de transformar a Síria num Estado islâmico. Por duas vezes, foi preso e torturado pela Mukhabarat, e, por uma, obrigado a dançar na rua enquanto tecia loas ao presidente e à família.

— Foi o maior dos insultos — explicou Jihan. — Sendo um devoto muçulmano sunita, o meu pai não ouvia música. E nunca dançava.

As recordações que tinha das sublevações que haviam levado ao massacre eram, no mínimo, ténues. Lembrava-se de alguns dos maiores ataques terroristas à bomba da Irmandade — em particular, de um ataque em Damasco que matou sessenta e quatro inocentes — e recordava-se dos cadáveres cravejados de balas nas ruelas de Barudi, vítimas de execuções sumárias levadas a cabo por agentes da Mukhabarat. Mas, tal como grande parte da população de Hama, não previu a calamidade que estava prestes a desabar sobre a linda cidade nas margens do Orontes. Foi então que, numa noite húmida e fria, no início de fevereiro, se espalhou a notícia de que unidades das Companhias de Defesa tinham entrado na cidade discretamente. Tentaram realizar a primeira investida em Barudi, mas a Irmandade estava à espera. Muitos dos homens do regime foram abatidos numa saraivada de tiros. A seguir, por toda a cidade, a Irmandade e os apoiantes lançaram uma série de ataques assassinos contra membros do Partido Baath e da Mukhabarat. Dos minaretes veio a mesma e única exortação: «Revoltem-se e expulsem os infiéis de Hama!» Começara a batalha pela cidade.

Mas, afinal de contas, os êxitos iniciais da Irmandade desencadeariam a fúria do regime como nunca antes tinha acontecido. Durante as três semanas seguintes, o exército sírio utilizou tanques, helicópteros de ataque e artilharia para transformar Hama num monte de escombros. E quando terminou a fase militar da operação, os especialistas em demolição sírios dinamitaram todos os edifícios que ainda se encontrassem de pé e passaram por cima dos escombros com rolos compressores. Os que conseguiram sobreviver a esse ataque devastador foram reunidos e enfiados em centros de detenção. Qualquer pessoa suspeita de ter ligações à Irmandade era brutalmente torturada e morta. Os cadáveres foram enterrados em valas comuns, pavimentadas com asfalto.

— Hoje em dia, andar nas ruas de Hama — disse Jihan — é andar por cima dos ossos dos mortos.

— Mas a Jihan sobreviveu — retorquiu Gabriel em voz baixa.

— Sim — respondeu ela —, sobrevivi.

Uma lágrima escorreu-lhe pela face, deixando um rasto que se prolongava até ao queixo. Era a primeira. Limpou-a abruptamente, como se tivesse medo de mostrar as emoções diante de desconhecidos, e depois alisou a bainha do vestido de alças.

— E a sua família? — perguntou Gabriel, interrompendo-lhe o silêncio. — O que lhes aconteceu?

— O meu pai e os meus irmãos foram mortos nos conflitos.

— E a sua mãe?

— Foi morta passados uns dias. Tinha dado à luz quatro inimigos do regime. Não podiam deixá-la ficar viva.

Escapou-se-lhe do olho outra lágrima. Desta vez, ignorou-a.

— E à Jihan? O que lhe aconteceu?

— Mandaram-me para um campo, tal como às outras crianças de Hama. Ficava algures no deserto, não sei bem onde. Passados uns meses, a Mukhabarat deixou-me ir viver para Damasco com um primo afastado. Nunca gostou muito de mim, e por isso despachou-me para a Alemanha, para ir viver com o irmão.

— Em Hamburgo?

Ela assentiu com a cabeça lentamente.

— Vivíamos na Marienstrasse. No número cinquenta e sete. — Fez uma pausa e, a seguir, perguntou: — Já ouviu falar dessa rua? Marienstrasse?

Gabriel disse que não. Era mais uma mentira.

— Havia uns rapazes que viviam em frente, no número cinquenta e quatro. Rapazes muçulmanos. Árabes. Achava um dos rapazes bastante bonito. Era calado, intenso. Nunca me olhava nos olhos quando nos cruzávamos na rua por eu não usar o véu.

Foi olhando de uma cara para a outra.

— E sabem quem era afinal de contas esse rapaz? O Mohamed Atta.

Abanou a cabeça devagar.

— Era quase como se eu nunca tivesse saído de Barudi. Trocara um bairro da Irmandade Muçulmana por outro.

— Mas as questões políticas do Médio Oriente nunca lhe interessaram?

— Nunca — respondeu ela, abanando a cabeça resolutamente. — Tentei ao máximo ser uma boa rapariga alemã, mesmo que os alemães não gostassem muito de mim. Andei na escola, andei na universidade e depois arranjei emprego num banco alemão.

— E a seguir veio para Linz — disse Gabriel. — E começou a trabalhar para um homem da família das pessoas que mataram a sua.

Ela ficou calada.

— Porquê? — perguntou Gabriel. — Porque foi trabalhar para um homem como o Waleed al-Siddiqi?

— Não sei.

Olhou para as caras que a rodeavam. O cliente que não era cliente. A vizinha que não era vizinha. Os três funcionários do fisco que não eram funcionários do fisco.

— Mas ainda bem que o fiz.

Gabriel sorriu.

— Também acho.