O Assalto
29. Jerusalém
29
JERUSALÉM
O minúsculo caminho de entrada circular do Hospital Psiquiátrico do Monte Herzl vibrou sob o peso da coluna de três carros de Gabriel. Saiu do banco de trás da limusina e, depois de dizer umas palavras secas ao chefe da equipa de segurança, entrou sozinho no hospital. No átrio, à espera dele, estava um médico barbudo, com ar de rabi, de cinquenta e muitos anos. Estava a fazer um sorriso simpático, apesar de, como de costume, ter sido avisado em cima da hora de que Gabriel vinha a caminho. Estendeu-lhe a mão e observou a agitação na entrada normalmente sossegada da instalação mais privada de Israel para pacientes mentais de longa data.
— Parece que a sua vida está prestes a mudar outra vez — disse o médico.
— De várias maneiras — respondeu Gabriel.
— Para melhor, espero.
Gabriel assentiu. Depois, contou ao médico acerca da gravidez. O médico sorriu, mas apenas por breves instantes. Tinha testemunhado o longo conflito de Gabriel sobre a decisão de voltar ou não a casar. Sabia que, para ele, a paternidade seria uma faca de dois gumes.
— E ainda por cima gémeos. Bom — acrescentou o médico, lembrando-se de sorrir outra vez —, não há dúvida de que você…
— Preciso de lhe contar — disse Gabriel, interrompendo-o. — Já adiei isso muito tempo.
— Não é necessário.
— É.
— Ela não vai perceber, tudo, não.
— Eu sei.
O médico sabia que não valia a pena insistir no assunto.
— Se calhar, é melhor eu ficar consigo — disse. — Para seu bem e para o dela.
— Obrigado — respondeu Gabriel —, mas tenho de fazer isto sozinho.
Sem mais uma palavra, o médico deu meia-volta e levou Gabriel por um corredor em calcário de Jerusalém, até uma sala de convívio onde alguns doentes olhavam inexpressivamente para uma televisão. Havia duas grandes janelas com vista para um jardim murado. Lá fora, estava uma mulher sentada sozinha, à sombra de um pinheiro-manso, imóvel como uma lápide.
— Como é que ela anda? — perguntou Gabriel.
— Tem saudades suas. Há muito tempo que já não a vem ver.
— É difícil.
— Compreendo.
Deixaram-se ficar à janela durante um momento, sem falarem nem se mexerem.
— Há uma coisa que devia saber — disse o médico por fim. — Ela nunca deixou de o amar, mesmo depois do divórcio.
— E isso é para me fazer sentir melhor?
— Não — respondeu o médico. — Mas você merece saber a verdade.
— E ela também.
Outro silêncio.
— Gémeos, hã?
— Gémeos.
— Meninos ou meninas?
— Um de cada.
— Talvez pudesse deixá-la passar um bocadinho de tempo com eles.
— Uma coisa de cada vez, doutor.
— Sim — respondeu o médico no momento em que Gabriel entrou sozinho no jardim. — Uma coisa de cada vez.
Ela estava sentada na cadeira de rodas, com os resquícios retorcidos das mãos pousados no colo. O cabelo, em tempos comprido e escuro como o de Chiara, estava agora cortado curto, segundo as regras do hospital, e pintalgado de brancas. Gabriel beijou-lhe a cicatriz robusta e fria que tinha na cara e depois sentou-se no banco que se encontrava ao lado. Ela estava a fitar cegamente o jardim, sem dar pela presença dele. Estava a envelhecer, pensou Gabriel. Estavam todos a envelhecer.
— Olha para a neve, Gabriel — disse ela de repente. — Não é linda?
Ele olhou para o sol que brilhava ardentemente no céu limpo.
— Sim, Leah — disse distraidamente —, é linda.
— A neve absolve Viena dos seus pecados — disse ela passado um momento. — A neve cai em Viena enquanto os mísseis chovem sobre Telavive.
Foram algumas das últimas palavras que Leah lhe tinha dito na noite do atentado em Viena. Sofria de uma combinação particularmente aguda de distúrbio de stresse pós-traumático e depressão psicótica. Por vezes, passava por momentos de lucidez, mas na maior parte do tempo permanecia prisioneira do passado. Viena desenrolava-se incessantemente na cabeça dela, como uma cassete em repetição que não conseguia fazer parar: a última refeição que tinham comido, o último beijo que tinham dado, o fogo que lhes matara o único filho que tinham e queimara a pele do corpo de Leah. A vida dela ficara reduzida a cinco minutos; e há já mais de vinte anos que os andava a reviver, uma e outra vez.
— Pensava que te tinhas esquecido de mim, Gabriel.
Virou a cabeça devagar e surgiu-lhe momentaneamente nos olhos um clarão de reconhecimento. Quando voltou a falar, a voz pareceu-se inacreditavelmente com a voz que ele tinha ouvido pela primeira vez muitos anos antes, a chamá-lo de um estúdio em Bezalel.
— Quando foi a última vez que cá estiveste?
— Vim ver-te no teu dia de anos.
— Não me lembro.
— Fizemos uma festa, Leah. Os outros doentes vieram todos. Foi lindo.
— Sinto-me sozinha aqui, Gabriel.
— Eu sei, Leah.
— Não tenho ninguém. Só te tenho a ti, meu amor.
Sentiu que tinha deixado de conseguir enfiar ar nos pulmões. Leah estendeu a mão e pousou-a na dele.
— Não tens tinta nos dedos — disse.
— Há já uns dias que não trabalho.
— Porquê?
— É uma história comprida.
— Tenho tempo — disse ela. — Não tenho mais nada a não ser tempo.
Desviou o olhar dele e fitou o jardim. A luz estava a desaparecer-lhe dos olhos.
— Não te vás já, Leah. Tenho de te dizer uma coisa.
Voltou para ele.
— Andas a restaurar algum quadro? — perguntou ela.
— Um Veronese — respondeu ele.
— Qual?
Disse-lhe.
— Então estás outra vez a viver em Veneza?
— Por mais alguns meses.
Ela sorriu.
— Lembras-te de quando vivíamos juntos em Veneza, Gabriel? Foi quando estavas a fazer a tua aprendizagem com o Umberto Conti.
— Sim, Leah, lembro-me.
— O nosso apartamento era tão pequeno.
— Isso é porque era só um quarto.
— Foram dias maravilhosos, não foram, Gabriel? Dias de arte e de vinho. Devíamos ter ficado em Veneza, meu amor. As coisas teriam sido diferentes se não tivesses voltado para o Departamento. — Gabriel não respondeu. Não conseguia falar. — A tua mulher é de Veneza, não é?
— É, Leah.
— E é bonita?
— Sim, Leah, é muito bonita.
— Gostava de a conhecer um dia.
— E já conheceste, Leah. Já cá veio comigo muitas vezes.
— Não me lembro dela. Se calhar, até é melhor. — Desviou o olhar dele. — Quero falar com a minha mãe — disse. — Quero ouvir a voz da minha mãe.
— Já lhe vamos telefonar, Leah.
— Vê se o cinto do Dani está bem preso. As ruas estão escorregadias.
— Ele está bem, Leah.
Virou-se e olhou outra vez para ele. A seguir, passado um momento, perguntou:
— Tens filhos?
Não sabia bem se ela estava no passado ou no presente.
— Não percebo — disse.
— Com a Chiara.
— Não — respondeu. — Nenhum filho.
— Talvez um dia.
— Sim — disse ele, mas mais nada.
— Promete-me uma coisa, Gabriel.
— O que quiseres, meu amor.
— Se tiveres outro filho, não podes esquecer o Dani.
— Penso nele todos os dias.
— E eu não penso em mais nada.
Sentiu que tinha os ossos da caixa torácica a estalarem com o peso da pedra que Deus lhe tinha posto sobre o coração.
— E quando te fores embora de Veneza? — perguntou Leah passado um momento. — O que acontece?
— Volto para casa.
— De vez?
— Sim, Leah.
— E o que vais fazer? Aqui em Israel não há quadros.
— Vou ser o chefe do Departamento.
— Julgava que o Ari é que era o chefe.
— Isso já foi há muito tempo.
— E onde vais viver?
— Aqui em Jerusalém, para poder estar perto de ti.
— Naquele apartamentozinho?
— Sempre gostei dele.
— Mas não dá para crianças.
— Nós arranjamos espaço.
— E vais continuar a visitar-me depois de teres filhos, Gabriel?
— Sempre que puder.
Ela inclinou a cara para o céu limpo.
— Olha para a neve, Gabriel.
— Sim — disse ele, a chorar baixinho. — Não é linda?
O médico estava à espera de Gabriel na sala de convívio. Não disse uma única palavra até regressarem ao átrio.
— Quer dizer-me alguma coisa? — perguntou.
— Correu tão bem como se podia esperar.
— Para ela ou para si?
Gabriel não disse nada.
— Não há mal nenhum nisso, sabe? — disse o médico passado um momento.
— No quê?
— Em estar feliz.
— Não sei bem se sei como.
— Experimente — retorquiu o médico. — E se precisar de falar com alguém, já sabe onde me encontrar.
— Tome bem conta dela.
— É o que tenho feito sempre.
Depois disso, Gabriel entregou-se aos cuidados da equipa de segurança e entrou para a parte de trás da limusina. Era estranho, pensou, mas já não tinha vontade de chorar. Imaginou que era isso que queria dizer ser o chefe.