O Assalto
6. Lago Como, Itália
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LAGO COMO, ITÁLIA
Na manhã seguinte, os habitantes do Reino Unido acordaram com a notícia de que um compatriota, o empresário expatriado James «Jack» Bradshaw tinha sido encontrado, brutalmente assassinado, na sua villa com vista para o lago Como. As autoridades italianas falaram em roubo como possível motivo, apesar de não haver provas de que alguma coisa tivesse sido sequer levada. O nome do general Ferrari não apareceu nas reportagens; e também ninguém referiu que Julian Isherwood, o famoso negociante de arte londrino, tinha descoberto o cadáver. Os jornais esforçaram-se todos ao máximo para encontrar alguém que tivesse qualquer coisa simpática para dizer de Bradshaw. O Times conseguiu desencantar um antigo colega do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que o descreveu como «um ótimo funcionário», mas, tirando isso, a vida de Bradshaw não parecia ser merecedora de elogios. A fotografia que apareceu na BBC dava ideia de ter no mínimo vinte anos. Mostrava um homem que não gostava que lhe tirassem fotos.
Havia outro facto crucial que não foi referido na cobertura noticiosa do homicídio de Jack Bradshaw: Gabriel Allon, o filho lendário mas desavindo dos serviços secretos israelitas, tinha sido contratado discretamente pela Brigada de Arte para investigar o assunto. E essa investigação teve início às sete e meia, altura em que introduziu uma pen de alta capacidade no notebook. A pen tinha-lhe sido dada pelo general Ferrari e continha o que se encontrava no computador pessoal de Jack Bradshaw. A maior parte dos documentos tinha que ver com a empresa dele, a Meridian Global Consulting Group — um nome curioso, pensou Gabriel, já que a Meridian não aparentava ter mais funcionários. A pen tinha mais de vinte mil documentos. Além disso, havia milhares de números de telefone e de endereços de correio eletrónico que precisavam de ser verificados e cruzados. Era demasiado material para Gabriel examinar sozinho. Precisava de um ajudante, um investigador talentoso que soubesse alguma coisa de questões criminais e, de preferência, de arte italiana.
— Eu? — perguntou Chiara, incrédula.
— Tens alguma ideia melhor?
— Queres mesmo que te responda a isso?
Gabriel não disse nada. Percebeu que havia qualquer coisa naquela ideia que agradava a Chiara. Era dada por natureza a resolver quebra-cabeças e problemas.
— Era mais fácil se eu pudesse pedir para verificarem os números de telefone e os e-mails nos computadores da Avenida Rei Saul — disse ela depois de pensar um momento.
— Evidentemente — retorquiu Gabriel. — Mas a última coisa que eu quero é dizer ao Departamento que estou a investigar um caso para os italianos.
— Vão acabar por descobrir. Descobrem sempre.
Gabriel copiou os ficheiros de Bradshaw para o disco rígido do notebook e ficou com a pen. A seguir, pôs numa maleta de fim de semana duas mudas de roupa e outras tantas identidades enquanto Chiara tomava um duche e se vestia para ir trabalhar. Acompanhou-a até ao gueto e, à porta do centro comunitário, pôs-lhe a mão no abdómen uma última vez. Quando se foi embora, não pôde deixar de reparar no jovem e belo italiano que estava a beber café no café kosher. Telefonou para o palazzo, em Roma, para falar com o general Ferrari. O general confirmou que o jovem italiano era um agente dos Carabinieri especialista em proteção pessoal.
— E não podia ter arranjado uma pessoa para tomar conta da minha mulher que não parecesse uma estrela de cinema?
— Não me diga que o grande Gabriel Allon está com ciúmes.
— Certifique-se só que não lhe acontece nada. Está a ouvir?
— Só tenho um olho — respondeu o general —, mas ainda tenho os dois ouvidos e funcionam bastante bem.
Tal como muitos venezianos, temporários ou não, Gabriel tinha um carro, um Volkswagen grande, guardado numa garagem perto da Piazzale Roma. Atravessou a passagem pelo meio da água até terra e dirigiu-se para a autostrada. Quando o trânsito começou a diminuir, carregou no acelerador e ficou a ver o ponteiro do velocímetro a aproximar-se dos cem. Durante várias semanas, tinha andado a passear-se e a viver a vida a passo de caracol. De repente, o roncar de um motor de combustão interna passou a ser um prazer secreto. Levou o carro até ao limite e viu as planícies do Veneto a passarem-lhe a correr pela janela, num borrão verde e castanho-claro que o satisfez.
Avançou para oeste a toda a velocidade, passando por Pádua, Verona e Bérgamo, e chegou aos arrabaldes de Milão trinta minutos mais cedo do que tinha previsto. De lá, seguiu para norte para Como; e depois percorreu a margem sinuosa do lago até atingir o portão da villa de Jack Bradshaw. Viu através das grades um carro dos Carabinieri sem matrícula estacionado no pátio de entrada. Ligou para Roma para falar com o general, disse-lhe onde estava e a seguir interrompeu rapidamente a ligação. Passados trinta segundos, o portão abriu-se.
Gabriel meteu a primeira e avançou lentamente pelo caminho de entrada íngreme, em direção à casa de um homem que tivera uma vida resumida numa única frase vazia. Um ótimo funcionário… Só tinha a certeza de uma coisa: Jack Bradshaw, diplomata reformado, consultor de empresas em atividade no Médio Oriente e colecionador de arte italiana, tinha feito da mentira a sua profissão. E sabia isso porque também ele era um mentiroso. Por isso, ao sair do carro, sentiu uma certa afinidade com o homem cuja vida estava prestes a pilhar. Não vinha como inimigo mas como amigo, o implemento perfeito para um trabalho desagradável. Depois da morte não há segredos, pensou, atravessando o pátio. E se houvesse algum segredo escondido naquela linda villa junto ao lago, iria descobri-lo.
Um carabiniere à paisana estava à espera à entrada. Disse que se chamava Lucca — sem apelido nem posto, apenas Lucca — e limitou-se a passar a Gabriel umas luvas de borracha e umas proteções de plástico para os sapatos. Gabriel pô-las de bom grado. Naquela altura da vida, a última coisa que queria era deixar o ADN em mais uma cena do crime em Itália.
— Tem uma hora — disse-lhe o carabiniere. — E eu vou consigo.
— Demoro o tempo que for preciso — retorquiu Gabriel. — E você vai ficar aí bem quietinho.
Vendo que o polícia não lhe ia responder, Gabriel calçou as luvas e enfiou as proteções para os sapatos antes de entrar na villa. A primeira coisa em que reparou foi no sangue. Era difícil não o fazer; todo o chão de pedra da entrada estava cheio dele e completamente preto. Interrogou-se por que razão o assassínio teria acontecido ali e não numa zona mais isolada da casa. Era possível que Bradshaw tivesse confrontado os assassinos depois de lhe terem arrombado a residência, mas não havia sinais de terem forçado a entrada, nem na porta nem no portão. A explicação mais lógica era que Bradshaw deixara entrar os agressores. Conhecia-os, pensou Gabriel. E, de forma imprudente, tinha confiado suficientemente neles para os receber em casa.
Da entrada, Gabriel passou para o salão. Estava mobilado de forma elegante, com sofás e cadeiras forrados a seda, e adornado com mesas e candeeiros caros e todo o género de pequenos objetos valiosos. Uma das paredes encontrava-se exclusivamente ocupada por janelas grandes com vista para o lago; nas outras, estavam expostos quadros da autoria de Velhos Mestres italianos. A maior parte correspondia a obras de devoção pouco importantes ou retratos produzidos em série por tarefeiros ou seguidores de pintores famosos de Veneza e Florença. No entanto, havia um capriccio arquitetónico romano que era claramente da autoria de Giovanni Paolo Panini. Gabriel lambeu a ponta do dedo enluvado e arrastou-a sobre a superfície. Tal como os outros quadros expostos no salão, o Panini estava a precisar urgentemente de um bom restauro.
Gabriel limpou a sujidade que cobria a superfície na perna das calças de ganga e dirigiu-se para uma escrivaninha antiga. Nela, estavam duas fotografias de Jack Bradshaw em tempos mais felizes. Na primeira, encontrava-se diante da Grande Pirâmide de Gizé, com uma pueril madeixa de cabelo a cair-lhe sobre a cara, repleta de esperança e futuro. A segunda tinha como pano de fundo a cidade antiga de Petra, na Jordânia. Tinha sido tirada, imaginou Gabriel, na altura em que Bradshaw trabalhava na embaixada britânica em Amã. Tinha um ar mais velho, mais duro, talvez mais sábio. O Médio Oriente era assim. Transformava a esperança em desespero e os idealistas em maquiavélicos.
Gabriel abriu a gaveta da escrivaninha e, não encontrando lá dentro nada que lhe interessasse, passou em revista o registo de chamadas não atendidas do telefone. Havia um número, 6215845, que aparecia várias vezes — cinco vezes antes de Bradshaw morrer e duas depois. Gabriel levantou o auscultador, carregou na tecla de marcação automática e, passados uns segundos, ouviu o toque longínquo de um telefone. Depois de vários toques, seguiu-se uma série de cliques e chocalhos a indicar que a pessoa do outro lado da linha tinha atendido a chamada e desligara rapidamente. Gabriel voltou a marcar o número e o resultado foi o mesmo. Mas quando experimentou ligar uma terceira vez, surgiu na linha uma voz masculina que disse em italiano:
— Está a falar com o padre Marco. Em que posso ajudá-lo?
Gabriel pousou o auscultador delicadamente sem dizer nada. Ao lado do telefone, estava um bloco de apontamentos. Arrancou a primeira página, anotou o número de telefone na página seguinte e enfiou as duas no bolso do casaco. Depois, subiu as escadas.
Havia quadros a revestir ambos os lados de um amplo corredor central e a cobrir as paredes de dois quartos, tirando isso, vazios. Bradshaw utilizava um terceiro quarto como arrecadação. Várias dezenas de quadros, alguns emoldurados e outros nos respetivos suportes, encontravam-se encostados às paredes como cadeiras desdobráveis no final de uma receção com catering. Os quadros eram quase todos de origem italiana, mas também havia várias obras de artistas alemães, flamengos e holandeses. Uma delas, um quadro de género com lavadeiras a trabalhar num pátio, provavelmente da autoria de um imitador de Willem Kalf, parecia ter sido restaurado não há muito tempo. Gabriel perguntou a si mesmo o que teria levado Bradshaw a resolver restaurar o quadro enquanto outros da coleção, alguns mais valiosos, definhavam sob camadas de verniz amarelecido — e por que razão, ao tê-lo feito, o deixara encostado a uma parede de uma arrecadação.
Do outro lado do átrio central, ficavam o quarto e o escritório de Bradshaw. Gabriel inspecionou-os rapidamente, com a meticulosidade de um homem que sabia esconder coisas. No quarto, oculto por baixo de uma pilha gatsbyesca de camisas coloridas, descobriu um envelope de manilha amarrotado e recheado com vários milhares de euros que, por uma razão ou outra, tinha escapado à atenção dos homens do general Ferrari. No escritório, encontrou dossiês a abarrotar de documentos comerciais, bem como uma impressionante coleção de monografias e catálogos. E também descobriu documentação que dava a entender que a Meridian Global Consulting tinha alugado uma caixa-forte no Freeport de Genebra. Interrogou-se se esses documentos também teriam escapado à atenção dos homens do general.
Gabriel enfiou a documentação relativa ao Freeport no bolso do casaco e atravessou o corredor para voltar a entrar no quarto que Bradshaw utilizava como arrecadação. As três lavadeiras holandesas continuavam a labutar no pátio de pedras arredondadas, sem consciência de que ele ali estava. Pôs-se de cócoras diante da tela e examinou as pinceladas com atenção. Era evidente que tinha sido um imitador a pintar o quadro, pois faltava-lhe qualquer vestígio de confiança ou espontaneidade. De facto, na opinião experiente de Gabriel, possuía uma qualidade mecânica, como se o artista não tivesse tirado os olhos do original enquanto ia trabalhando. E, se calhar, não tinha tirado mesmo.
Gabriel desceu as escadas e, perante o olhar vigilante do carabiniere, tirou uma lanterna ultravioleta da maleta de fim de semana. Se a apontassem para a tela de um Velho Mestre num quarto às escuras, a lanterna revelaria a amplitude do último restauro fazendo os retoques surgir como manchas pretas. Normalmente, um quadro de um Velho Mestre holandês daquele período teria sofrido danos menores ou moderados, o que queria dizer que os retoques — ou reconstrução, como eram conhecidos no ramo — surgiriam como salpicos pretos.
Gabriel regressou ao quarto no primeiro andar da villa, fechou a porta e correu as persianas por completo. Acendeu a lanterna ultravioleta e apontou-a para o quadro. As três lavadeiras holandesas deixaram de se ver. A tela inteira ficou preta como carvão.