O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 25 de 65

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O Assalto

23. Boulevard Saint-Germain, Paris

23

BOULEVARD SAINT-GERMAIN, PARIS

 

Às duas da tarde do dia seguinte, estava parado à frente da porta vermelha da igreja, com o chapéu e os óculos escuros no devido sítio e a nova pasta bem segura na mão direita. Gabriel esperou cinco minutos antes de lhe telefonar.

— Você outra vez — disse Sam num tom sorumbático.

— Infelizmente, sim.

— E agora?

— Damos mais outro passeio.

— E desta vez para onde?

— Siga a Rue Bonaparte até à Place Saint-Sulpice. As mesmas regras da outra vez. Não faça paragens nem olhe por cima do ombro. E nada de telefonemas.

— E até onde está a pensar fazer-me andar desta vez?

Gabriel desligou sem dizer mais nada. Do outro lado da movimentada praça, Sam começou a andar. Gabriel contou devagar até vinte e depois seguiu-o.

 

Deixou Sam chegar ao Jardim do Luxemburgo e só depois lhe voltou a ligar. Daí, seguiram para sudoeste, na Rue de Vaugirard, e depois para norte, no Boulevard Raspail, até à entrada do Hôtel Lutetia. Keller estava no bar, sentado a uma mesa, a ler o Telegraph. Sam sentou-se ao lado dele, conforme lhe tinham ordenado.

— Como se portou ele desta vez? — perguntou Keller.

— Tão minucioso como sempre.

— Não quer beber nada?

— Não bebo.

— Mas que pena.

Keller dobrou o jornal.

— É melhor tirar os óculos, Sam. Senão, a gerência ainda é capaz de ficar com uma ideia errada de si.

Sam fez o que Keller lhe sugeriu. Tinha olhos castanho-claros e grandes. Com a cara à mostra, tornava-se uma figura muito menos ameaçadora.

— E agora o chapéu — continuou Keller. — Um cavalheiro não anda de chapéu na cabeça no bar do Lutetia.

Sam tirou o chapéu de palha, deixando ver um cabelo farto, castanho mas não preto, já um bocadinho grisalho na zona das orelhas. Se era árabe, não era da Península nem do Golfo. Keller olhou para a pasta.

— Trouxe o dinheiro?

— Um milhão, exatamente como pediu.

— Deixe-me dar uma espreitadelazinha. Mas com cuidado — acrescentou Keller. — Tem uma câmara de vigilância por cima do ombro direito.

Sam pousou a pasta em cima da mesa, destrancou-a e abriu a tampa uns centímetros, apenas o suficiente para que Keller visse de relance as filas bem arrumadas de notas de cem euros.

— Feche-a — disse Keller em voz baixa.

Sam fechou e trancou a pasta.

— Satisfeito? — perguntou.

— Ainda não.

Keller pôs-se de pé.

— Para onde vamos agora?

— Para o meu quarto.

— E vai lá estar mais alguém?

— Só vamos lá estar nós os dois, Sam. Muito romântico.

Sam levantou-se e pegou na pasta.

— Acho que é importante esclarecer bem uma coisa antes de subirmos.

— O quê, Sam?

— Se me acontecer alguma coisa, ou ao dinheiro do meu cliente, o senhor e o seu amigo vão acabar em muito mau estado. — Pôs os óculos e sorriu. — Só para não haver mal-entendidos, meu caro.

 

No vestíbulo do quarto, longe dos olhos indiscretos das câmaras de vigilância do hotel, Keller revistou Sam, à procura de armas ou de aparelhos de escuta. Ao não encontrar nada a que pudesse objetar, pousou a pasta ao fundo da cama e destrancou-a. A seguir, tirou três maços de notas e, de cada maço, uma única nota. Examinou-as uma a uma com uma lupa de profissional; depois, na casa de banho às escuras, sujeitou-as ao crivo da lanterna ultravioleta de Gabriel. As fitas de segurança brilharam a uma luz verde-limão; as notas eram verdadeiras. Voltou a pôr as notas nos maços e os maços na pasta. Depois fechou-a e, com a cabeça, indicou que estavam prontos para dar o passo seguinte.

— Quando? — perguntou Sam.

— Amanhã à noite.

— Tenho uma ideia melhor — retorquiu ele. — Fazemos isso hoje à noite. Caso contrário, não há negócio.

 

Maurice Durand tinha-lhes dito para contarem com uma coisa desse género — um estratagemazinho tático, uma revolta de trazer por casa, que permitiria a Sam pensar que era ele, e não Keller, quem comandava as negociações. Keller protestou levemente, mas Sam manteve-se firme. Queria estar à frente do Van Gogh antes da meia-noite; se não estivesse, ele e os vinte e cinco milhões de euros desapareceriam. O que não deixou a Keller outra opção senão aceder à vontade do adversário. Fê-lo com um sorriso de quem concede algo, como se a mudança de planos pouco mais fosse do que um mero inconveniente. A seguir, estabeleceu rapidamente as regras para a inspeção a ocorrer naquela noite. Sam podia tocar no quadro, cheirá-lo ou fazer amor com ele. Mas não o podia fotografar em circunstância alguma.

— Onde e quando? — perguntou Sam.

— Ligamos-lhe às nove para lhe explicar como vamos proceder.

— Ótimo.

— E onde está hospedado?

— Sabe perfeitamente onde estou hospedado, senhor Bartholomew. Vou estar no átrio do Crillon às nove da noite, sem amigos nem pistolas. E diga ao seu amigo para desta vez não me deixar à espera.

 

Saiu do hotel passados dez minutos, já com o chapéu e os óculos escuros, e foi a pé até ao HSBC Private Bank, no Boulevard Haussmann, onde, presumivelmente, terá voltado a guardar o milhão de euros no cofre de segurança do cliente. A seguir, dirigiu-se, novamente a pé, para o Musée d’Orsay e passou lá duas horas a estudar os quadros de um tal Vincent van Gogh. Quando saiu do museu, já eram quase seis. Comeu uma refeição ligeira num bistro dos Campos Elíseos e depois voltou para o quarto no Crillon. Conforme prometera, às nove em ponto estava no átrio do hotel, com calças cinzentas, um pulôver preto e um casaco de cabedal. Gabriel sabia-o por estar a cerca de um metro de distância, no bar do átrio. Esperou até serem nove e dois e ligou para o número de Sam.

— Sabe andar no metro de Paris?

— Claro que sim.

— Vá até à estação de Concorde e apanhe o Número Doze para Marx Dormoy. O senhor Bartholomew vai estar lá à sua espera.

Sam saiu do átrio. Gabriel deixou-se ficar mais cinco minutos no bar. Depois pediu ao arrumador de carros do hotel para ir buscar o dele e seguiu para a quinta na Picardia.

 

A estação de Marx Dormoy ficava no oitavo arrondissement, na Rue de la Chapelle. Keller estava estacionado em frente, a fumar um cigarro, quando Sam surgiu ao cimo das escadas. Aproximou-se do carro e entrou discretamente para o lugar do passageiro sem dizer uma palavra.

— Onde está o seu telemóvel? — perguntou Keller.

Sam sacou-o do bolso do casaco e mostrou-o a Keller.

— Desligue-o e tire-lhe o cartão SIM.

Sam fez o que lhe disseram. Keller meteu a primeira e avançou devagar para o meio do trânsito noturno.

 

Deixou que Sam continuasse sentado no lugar do passageiro até saírem dos subúrbios a norte. Foi então que, no meio de um arvoredo perto da cidadezinha de Ézanville, lhe ordenou que entrasse para a bagageira. Fez a longa viagem para norte, até à Picardia, acrescentando-lhe pelo menos uma hora. Por isso mesmo, já era quase meia-noite quando virou para o caminho de entrada da quinta. Quando Sam saiu da bagageira, reparou na silhueta de um homem parado, ao luar, no extremo da propriedade.

— Presumo que aquele seja o seu sócio.

Keller não respondeu. Preferiu levá-lo para dentro da quinta, pela porta das traseiras, para depois descerem as escadas para a adega. Encostado a uma parede, iluminado por uma simples lâmpada pendurada num fio, estavam os Girassóis, óleo sobre tela, 95 centímetros por 73 centímetros, da autoria de Vincent van Gogh. Sam ficou diante do quadro durante longos instantes sem dizer nada. Keller pôs-se ao lado dele.

— E então? — acabou por perguntar.

— Só um momento, senhor Bartholomew. Só um momento.

Por fim, avançou e pegou no quadro pelas barras verticais do suporte, virando-o para examinar as marcas do museu na parte de trás da tela. A seguir, olhou para as margens do quadro e fez uma careta.

— Há algum problema? — perguntou Keller.

— O Vincent era conhecido pela forma descuidada como tratava os quadros. Veja só — acrescentou, voltando as margens do suporte para Keller. — Deixou as impressões digitais por todo o lado.

Sam sorriu, aproximou o quadro da luz e passou vários minutos a examinar as pinceladas com atenção. Depois colocou-o outra vez na posição original e recuou para o escrutinar a uma distância maior. Desta vez, Keller não lhe interrompeu o silêncio.

— Espetacular — disse passado um momento.

— E autêntico — acrescentou Keller.

— É possível. Ou então é possível que seja obra de um falsificador extremamente talentoso.

— Mas não é.

— Vou precisar de efetuar um teste simples para ter a certeza, uma análise às lascas da tinta. Se a tinta for autêntica, temos negócio. Se não for, nunca mais vai ter notícias minhas e fica à vontade para impingir o quadro a um comprador menos sofisticado.

— E quanto tempo é que isso vai demorar?

— Setenta e duas horas.

— Tem quarenta e oito.

— Não admito que me apressem, senhor Bartholomew. Nem o meu cliente o fará.

Keller hesitou antes de assentir com a cabeça uma vez. Servindo-se de um bisturi para cirurgias, Sam tirou habilidosamente duas lascas minúsculas de tinta do quadro — uma do canto inferior direito e a outro do canto inferior esquerdo — e depositou-as num frasquinho de vidro. Enfiou o frasquinho no bolso do casaco e, com Keller logo atrás, subiu as escadas. Lá fora, a figura em silhueta continuava parada no extremo da propriedade.

— Vou chegar a conhecer o seu sócio? — perguntou Sam.

— Não o aconselharia — respondeu Keller.

— Porquê?

— Porque seria a última cara que veria na vida.

Sam franziu o sobrolho e entrou para a bagageira do Mercedes. Keller fechou a porta com força e levou-o outra vez para Paris.

 

Eram todos agentes experimentados, cada um à sua maneira singular, mas mais tarde diriam que os três dias que se seguiram passaram à velocidade de um rio bloqueado pelo gelo. O habitual autodomínio de Gabriel abandonou-o. Tinha engendrado o roubo de um dos quadros mais famosos do mundo como parte de um estratagema para encontrar outro; e, no entanto, nada disso serviria para alguma coisa se o homem chamado Sam desistisse do negócio. Apenas Maurice Durand, talvez o principal especialista do mundo inteiro no comércio ilícito de arte, se mantinha confiante. Segundo a experiência dele, os colecionadores sem escrúpulos como o Senhor Peixe Graúdo raramente renunciavam a uma oportunidade de adquirir um Van Gogh. Com certeza que, afirmou, o fascínio dos Girassóis seria demasiado poderoso para se poder resistir. Ao não ser que Gabriel se tivesse enganado e mostrasse a falsificação a Sam, coisa que não tinha acontecido; a análise às lascas da tinta seria positiva e o negócio avançaria.

Na eventualidade de Sam desistir, tinham uma outra opção; podiam segui-lo e tentar determinar a identidade do cliente, o homem da grande fortuna, que estava preparado para pagar 25 milhões de euros por uma obra de arte roubada. Era apenas uma das razões que tinham levado Gabriel e Keller, dois dos agentes mais experimentados do mundo inteiro a seguir pessoas, a monitorizar cada passo de Sam durante os três dias em que estiveram à espera. Vigiaram-no de manhã, enquanto trilhava os caminhos para peões das Tulherias, à tarde, enquanto visitava as atrações turísticas a bem do disfarce, e à noite, enquanto jantava, sempre sozinho, na zona dos Campos Elíseos. A sensação que transmitia era de disciplina. A determinada altura da vida, concordaram Keller e Gabriel, Sam tinha feito parte da irmandade secreta dos espiões. Ou talvez, pensaram, ainda fizesse.

Na manhã do terceiro dia, deu-lhes a todos um pequeno susto quando não foi dar o passeio habitual. O sobressalto aumentou às quatro da tarde quando o viram sair do Crillon com duas malas grandes e entrar para o banco de trás de uma limusina. Mas essa preocupação desvaneceu-se depressa quando a limusina o levou até ao HSBC Private Bank, no Boulevard Haussmann. Passados trinta minutos, já tinha voltado para o quarto. Havia apenas duas possibilidades, explicou Keller. Sam executara o assalto mais discreto de sempre a um banco ou então tinha acabado de retirar uma grande quantia de dinheiro de um cofre de segurança. Keller desconfiava que fosse o segundo caso. E Gabriel também. Por isso mesmo, o suspense foi mínimo quando chegou finalmente a altura de telefonar a Sam para saber a resposta dele. Keller fez as honras. Terminada a chamada, olhou para Gabriel e sorriu.

— Podemos nunca vir a encontrar o Caravaggio — disse —, mas estamos prestes a receber vinte e cinco milhões de euros dos bolsos do Senhor Peixe Graúdo.