O Assalto
36. Linz, Áustria
36
LINZ, ÁUSTRIA
Foram a pé para um sítio pequeno, não muito longe dos respetivos apartamentos, onde podiam beber um pouco de vinho. Dina pediu um Riesling austríaco, sabendo perfeitamente que, tal como Os Despojos do Dia, o Riesling era o preferido de Jihan. O empregado encheu-lhes os copos e foi-se embora. Jihan levantou o dela e brindou a uma nova amizade. Depois sorriu, embaraçada, como se temesse estar a adiantar as coisas. Parecia ansiosa, nervosa.
— Não chegaste há muito tempo a Linz — disse.
— Há dez dias — respondeu Dina.
— E vieste de onde?
— Vivia em Berlim.
— Berlim é muito diferente de Linz.
— Muito — concordou Dina.
— Então porque vieste para cá? — Jihan fez outro sorriso de embaraço. — Desculpa. Não devia ser metediça. É o meu pior defeito.
— Meteres-te na vida dos outros?
— Sou uma abelhuda do piorio — respondeu, assentindo com a cabeça. — Estás à vontade para me dizer para me meter na minha vida quando te apetecer.
— Isso nunca me passaria pela cabeça.
Dina olhou fixamente para o copo.
— Eu e o meu marido acabámos de nos divorciar. Resolvi que precisava de mudar de vida e vim para cá.
— E porquê Linz?
— Costumava passar os verões com a minha família num lago da Áustria Superior. Sempre adorei isto.
— E qual era o lago?
— O Attersee.
A longa sombra de um campanário de igreja estendia-se pela rua, em direção à mesa delas. Yossi Gavish e Rimona Stern atravessaram-na, rindo, como se estivessem entretidos com uma piada privada. Recentemente divorciada, Ingrid Roth pareceu ficar triste ao ver um casal feliz. Jihan pareceu irritada.
— Mas não foste criada na Alemanha, pois não, Ingrid?
— Porque perguntas?
— Não falas como uma alemã.
— O meu pai trabalhava em Nova Iorque — explicou Dina. — Cresci em Manhattan. Quando era nova, recusava-me a falar alemão em casa. Achava que não era nada fixe.
Se Jihan desconfiou da explicação, não deu mostras disso.
— E estás a trabalhar aqui em Linz? — perguntou.
— Imagino que isso dependa da tua definição de estar a trabalhar.
— Para mim, é ir todas as manhãs para um escritório.
— Então não há dúvida de que não estou a trabalhar.
— E então porque cá estás?
Estou cá por causa de ti, pensou Dina. E depois explicou que tinha vindo para Linz escrever um romance.
— És escritora?
— Ainda não.
— E do que trata o teu livro?
— É uma história de amor não correspondido.
— Como o Stevens e a Miss Kenton?
Jihan apontou com a cabeça para o romance que estava em cima da mesa, entre ambas.
— Um bocadinho.
— E a história passa-se aqui em Linz?
— Por acaso, é em Viena — respondeu Dina. — Durante a guerra.
— A Segunda Guerra Mundial?
Dina assentiu com a cabeça.
— E as tuas personagens são judias?
— Uma é.
— O rapaz ou a rapariga?
— O rapaz.
— E tu?
— E eu o quê?
— És judia, Ingrid?
— Não, Jihan — respondeu Dina. — Não sou judia. — O rosto de Jihan manteve-se imperturbável. — Então e tu? — perguntou mudando de assunto.
— Também não sou judia — respondeu Jihan, sorrindo.
— E também não és austríaca.
— Cresci em Hamburgo.
— E antes disso?
— Nasci no Médio Oriente.
Fez uma pausa, e depois acrescentou:
— Na Síria.
— Uma guerra mesmo horrível — disse Dina, num tom distante.
— Se não te importas, Ingrid, prefiro não falar da guerra. Deprime-me.
— Então vamos fazer de conta que a guerra não existe.
— Pelo menos, para já.
Jihan tirou um maço de tabaco da carteira; e quando acendeu um, Dina percebeu que ela tinha a mão a tremer ligeiramente. Ao começar a inalar o cigarro, pareceu ficar mais calma.
— Não me vais perguntar o que eu estou a fazer em Linz?
— O que estás a fazer em Linz, Jihan?
— Um homem do meu país comprou uma participação num pequeno banco privado daqui. Precisava de ter no corpo de funcionários uma pessoa que falasse árabe.
— E qual é o banco? — Jihan respondeu com sinceridade. — Imagino que o homem do teu país não se chame Weber — comentou Dina.
— Não.
Jihan hesitou e depois disse:
— Chama-se Waleed al-Siddiqi.
— E que género de trabalho fazes?
Jihan pareceu ficar agradecida pela mudança de assunto.
— Sou a gestora de conta.
— Parece importante.
— Posso garantir-te que não é. Principalmente, o que eu faço é abrir e fechar contas para os nossos clientes. E também supervisiono as transações com os outros bancos e instituições financeiras.
— E é assim tão sigiloso como toda a gente diz?
— O sistema bancário austríaco?
Dina assentiu com a cabeça.
Jihan fez uma expressão severa.
— O Bank Weber leva a privacidade dos clientes muito a sério.
— Isso parece o slogan de uma brochura.
Jihan sorriu.
— E é.
— Então e o senhor Al-Siddiqi? — perguntou Dina. — Também leva a privacidade dos clientes a sério?
O sorriso de Jihan desvaneceu-se. Deu uma baforada no cigarro e pôs-se a olhar nervosamente para um lado e para o outro da rua deserta.
— Preciso de te pedir um favor, Ingrid — disse por fim.
— O que quiseres.
— Não me faças perguntas sobre o senhor Al-Siddiqi, peço-te. Aliás, preferia que nunca mais voltasses a mencionar o nome dele.
Passados trinta minutos, na casa segura junto ao Attersee, Gabriel e Eli Lavon estavam sentados diante de um computador portátil, a ouvir as duas mulheres a despedirem-se na rua, em frente aos respetivos prédios. Quando Dina já se encontrava em segurança no apartamento, Gabriel puxou a barra do leitor de áudio até ao início e ouviu uma segunda vez todo aquele encontro. E depois ouviu-o de novo. E poderia tê-lo passado pela quarta vez se Eli Lavon não tivesse esticado o braço e carregado no botão de stop.
— Eu disse-te que era ela — atirou Lavon.
Gabriel fez uma careta. Avançou a barra até às 17h47 e carregou no play.
— E as tuas personagens são judias?
— Uma é.
— O rapaz ou a rapariga?
— O rapaz.
— E tu?
— E eu o quê?
— És judia, Ingrid?
— Não, Jihan. Não sou judia.
Gabriel carregou no stop e olhou para Lavon.
— Não se pode ter tudo, Gabriel. Além disso, a parte importante é esta.
Lavon fez a barra avançar e voltou a carregar no play.
— … o que eu faço é abrir e fechar contas para os nossos clientes. E também supervisiono as transações com os outros bancos e instituições financeiras.
stop.
— Estás a ver onde eu quero chegar? — perguntou Lavon.
— Não sei bem se chegaste a algum lado.
— Flirta com ela. Põe-na à vontade. E depois fá-la aterrar. Mas, faças o que fizeres — acrescentou Lavon —, não demores muito. Não queria que o senhor Al-Siddiqi descobrisse que a Jihan tem uma amiga nova que pode ou não ser judia.
— Achas que ele se ia importar?
— Era capaz.
— Então como devemos fazer?
Lavon avançou com a barra e carregou no play.
— Foi um prazer conhecer-te, Ingrid. Só tenho pena de não termos feito nada juntas mais cedo.
— Então não deixemos passar outros dez dias.
— Queres ir almoçar amanhã?
— Costumo trabalhar à hora do almoço.
Lavon carregou no stop.
— Acho que a Ingrid anda a trabalhar demasiado, não achas?
— É capaz de ser perigoso estar a quebrar o ritmo da rotina de escrita.
— Às vezes, uma mudança pode ajudar. E quem sabe? Se calhar, até fica inspirada para escrever um romance diferente.
— E qual seria a história?
— Sobre uma rapariga que decide trair o patrão quando descobre que ele anda a esconder dinheiro para o pior homem do mundo.
— E como acaba?
— Ganham os bons.
— E alguém faz mal à rapariga?
— Envia a mensagem, Gabriel.
Gabriel enviou rapidamente um e-mail encriptado a Dina dizendo-lhe para marcar um almoço com Jihan Nawaz para o dia seguinte. Depois puxou a barra do leitor de áudio para trás e carregou no play pela última vez.
— Então e o senhor Al-Siddiqi? Também leva a privacidade dos clientes a sério?
— Preciso de te pedir um favor, Ingrid.
— O que quiseres.
— Não me faças perguntas sobre o senhor Al-Siddiqi, peço-te. Aliás, preferia que nunca mais voltasses a mencionar o nome dele.
stop.
— Ela sabe — disse Lavon. — A única questão é se sabe muito ou pouco.
— Desconfio que chegue para que a matem.
— As Regras de Hama?
Gabriel assentiu com a cabeça lentamente.
— Então suponho que só nos reste uma opção.
— Qual, Eli?
— Também vamos ter de seguir as Regras de Hama.
No dia seguinte, as duas mulheres almoçaram no Ikaan e, na noite depois dessa, foram tomar um copo ao Bar Vanilli. Gabriel deixou que passassem dois dias sem haver mais contactos, em parte por precisar de transferir um determinado ativo de Israel para o Attersee, nomeadamente, Uzi Navot. Foi então que, na quinta-feira dessa semana, Jihan e Dina tiveram um encontro acidental no Alter Markt que não foi acidente nenhum. Jihan convidou Dina para ir tomar café, mas Dina pediu desculpa e disse que tinha de ir escrever.
— Mas já tens planos para sábado? — perguntou.
— Ainda não sei bem. Porquê?
— Uns amigos meus vão dar uma festa.
— Que género de festa?
— Comida, bebida, passeios de barco no lago. As coisas habituais que as pessoas fazem num sábado à tarde no verão.
— Não me queria estar a impor.
— E não vais estar. Aliás — acrescentou Dina —, tenho a certeza absoluta de que os meus amigos vão fazer de ti a convidada de honra.
Jihan sorriu.
— Vou precisar de um vestido novo.
— E de um fato de banho — disse Dina.
— Podes ir às compras comigo agora?
— Claro.
— Então e o teu livro?
— Há tempo para isso depois.