O Assalto
30. Rua Narkiss, Jerusalém
30
RUA NARKISS, JERUSALÉM
Chiara só tinha chegado a Jerusalém uma hora antes de Gabriel, e no entanto o apartamento deles na Rua Narkiss já parecia uma fotografia de uma daquelas revistas lustrosas de design de interiores que ela andava sempre a ler. Havia flores frescas nas jarras e taças com aperitivos nas mesinhas de apoio, e o copo de vinho fresco que lhe pôs na mão estava à temperatura perfeita. Tinha os lábios, quando ele os beijou, quentes do sol de Jerusalém.
— Esperava-te mais cedo — disse ela.
— Tive de ir tratar de umas coisas.
— E onde estiveste?
— No inferno — respondeu ele muito a sério.
Ela franziu o sobrolho.
— Vais ter de me contar isso mais tarde.
— Mais tarde porquê?
— Porque vamos ter companhia, querido.
— E é preciso perguntar quem é?
— Provavelmente, não.
— E como é que ele soube que tínhamos voltado?
— Disse qualquer coisa sobre um arbusto em chamas.
— E não podemos fazer isso noutra noite?
— Agora já não dá para cancelar. Ele e a Gilah já saíram de Tiberíades.
— Imagino que te esteja a fazer atualizações constantes do sítio onde está.
— Já ligou duas vezes. Está muito entusiasmado por te ver.
— Porque será?
Beijou outra vez Chiara e levou o copo de vinho para o quarto. As paredes estavam repletas de quadros. Havia quadros pintados por Gabriel, quadros pintados pela talentosa mãe dele e vários quadros pintados pelo avô, o célebre expressionista alemão Viktor Frankel, que tinha sido assassinado em Auschwitz, no mortífero inverno de 1942. E também havia um retrato a três quartos, sem assinatura, de um jovem macilento que parecia assombrado pela sombra da morte. Leah pintara-o uns dias depois de Gabriel ter regressado de Israel com o sangue de seis terroristas do Setembro Negro nas mãos. Foi a primeira e última vez que aceitou posar para ela.
Devíamos ter ficado em Veneza, meu amor. As coisas teriam sido diferentes…
Despiu a roupa sob o olhar impiedoso do retrato e deixou-se ficar debaixo do chuveiro até os vestígios do toque de Leah lhe desaparecerem da pele. Vestiu roupa lavada e voltou para a sala de estar, no preciso instante em que Gilah e Ari Shamron entravam no apartamento. Gilah trazia uma travessa com a famosa beringela dela, com especiarias marroquinas; o marido famoso trazia apenas uma bengala de madeira de oliveira. Como de costume, a indumentária consistia numas calças cor de caqui, numa camisa clássica branca e num casaco de cabedal com um rasgão no ombro esquerdo. Era evidente que não se encontrava bem, mas o sorriso era de contentamento. Shamron tinha passado vários anos a tentar convencer Gabriel a voltar para Israel e assumir o lugar que lhe cabia por direito próprio na suíte do diretor, na Avenida Rei Saul. E agora, por fim, a tarefa estava terminada. O sucessor dele estava a postos. A linhagem estava assegurada.
Encostou a bengala à parede do vestíbulo e, com Gabriel logo atrás, foi para a pequena varanda onde duas cadeiras de ferro forjado se encontravam por baixo da cobertura pendente fornecida por um eucalipto. Lá em baixo, a Rua Narkiss revelava-se tranquila e silenciosa, mas, ao longe, ouvia-se o barulho ténue do trânsito do início da noite no Rei Jorge. Periclitante, Shamron sentou-se numa das cadeiras e fez sinal a Gabriel para se sentar na outra. Depois puxou de um maço de cigarros turcos e, com enorme concentração, tirou um. Gabriel olhou para as mãos de Shamron, as mãos que tinham praticamente extraído a vida a Adolf Eichmann, na esquina de uma rua na parte norte de Buenos Aires. Fora uma das razões para terem dado essa missão a Shamron: o tamanho e a força invulgares das mãos dele. Agora, estavam cheias de manchas de fígado e de escoriações que nunca tinham cicatrizado. Gabriel desviou o olhar enquanto elas tentavam acender desajeitadamente o velho isqueiro Zippo.
— Não devias mesmo fazer isso, Ari.
— Que diferença faz agora?
O isqueiro acendeu-se e o acre fumo turco misturou-se com o intenso cheiro a eucalipto. Subitamente, as recordações acumularam-se aos pés de Gabriel como as águas de uma cheia. Tentou mantê-las à distância, mas não conseguiu; Leah destruíra o que restava das defesas dele. Estava a guiar por um mar de erva da Cornualha varrida pelo vento, com Shamron ao lado. Era o dealbar do novo milénio, os tempos dos atentados à bomba suicidas e de ilusões. Tinham acabado de arrancar Shamron da reforma para consertar o Departamento após uma série de operações desastrosas e queria que Gabriel o ajudasse nessa iniciativa. O isco que utilizou foi Tariq al-Hourani, o mestre terrorista palestiniano que tinha posto a bomba debaixo do carro de Gabriel em Veneza.
Se me ajudares a acabar com o Tariq, se calhar vais conseguir esquecer finalmente a Leah e andar para a frente com a tua vida…
Gabriel ouviu Chiara a rir-se na sala de estar e a recordação desvaneceu-se.
— O que se passa agora? — perguntou com delicadeza a Shamron.
— A lista dos meus mal-estares físicos é quase tão comprida como a lista dos desafios que o Estado de Israel enfrenta. Mas não te preocupes — acrescentou apressadamente —, não vou a lado nenhum tão depressa. Faço todas as tenções de continuar por aqui para poder assistir ao nascimento dos meus netos.
Gabriel resistiu ao impulso de relembrar a Shamron que não eram verdadeiramente pai e filho.
— Estamos a contar que lá estejas, Ari.
Shamron sorriu.
— Já decidiram onde vão viver depois de eles nascerem?
— Tem piada — respondeu Gabriel —, a Bella perguntou-me a mesma coisa.
— Ouvi dizer que tiveram uma conversa interessante.
— E como sabes que eu a fui ver?
— O Uzi contou-me.
— Julgava que ele não atendia os teus telefonemas.
— Parece que começou o grande degelo. É uma das poucas vantagens de uma saúde débil — acrescentou. — Todos os rancores mesquinhos e as promessas parecem ir-se esfumando à medida que a pessoa se aproxima do fim.
Os ramos do eucalipto começaram a agitar-se com a primeira brisa da noite. A cada minuto, o ar estava a ficar mais fresco. Gabriel sempre adorara que em Jerusalém ficasse frio à noite, mesmo no verão. Teve vontade de poder parar aquele momento e prolongá-lo por mais um bocadinho. Olhou para Shamron, que estava a bater com o cigarro pensativamente na borda de um cinzeiro.
— Foi preciso bastante coragem para ires falar com a Bella. E perspicácia. Só prova que tive sempre razão numa coisa.
— No quê, Ari?
— Na certeza de que tens tudo o que é preciso para ser um grande chefe.
— Às vezes, interrogo-me se não estarei prestes a cometer o meu primeiro erro.
— Ires arranjar uma maneira de o Uzi continuar?
Gabriel assentiu com a cabeça lentamente.
— É arriscado — concordou Shamron. — Mas se há alguém capaz de fazer isso, és tu.
— Não tens conselhos?
— Já não te dou mais conselhos, meu filho. Sou a pior coisa que um homem pode ser, velho e obsoleto. Sou um espectador. Estou no caminho dos outros.
Shamron olhou para Gabriel e franziu o sobrolho.
— Estás à vontade para me corrigires quando quiseres.
Gabriel sorriu, mas não disse nada.
— O Uzi contou-me que as coisas entre ti e a Bella ficaram um bocadinho acaloradas — disse Shamron.
— Lembrou-me o interrogatório que tive de aguentar naquela noite no Setor Vazio.
— A pior noite da minha vida.
Shamron ponderou um pouco no que tinha dito.
— Pensando melhor — disse —, foi a segunda pior.
Não precisava de dizer qual era a noite que ocupava o lugar de destaque. Estava a falar de Viena.
— Acho que a Bella está mais chateada com isto tudo do que o Uzi — continuou. — Receio bem que já esteja bastante acostumada aos adornos do poder.
— Mas o que te poderá ter dado essa impressão?
— A maneira como ela se está a agarrar a eles. Acha que eu tenho culpa de tudo, claro. Acha que eu planeei isto desde o início.
— E planeaste.
Shamron fez uma expressão que ficava algures entre uma careta e um sorriso.
— Não vais negar nada? — perguntou Gabriel.
— Não — respondeu Shamron. — Já tive a minha quota-parte de triunfos, mas, no fim de tudo, é a tua carreira que vai servir de bitola a todas as outras. É verdade que não escondi as minhas preferências, sobretudo a seguir a Viena. Mas a minha fé em ti foi recompensada com uma série de operações que foi muito além dos talentos de uma pessoa como o Uzi. Com certeza que até a Bella tem noção disso.
Gabriel não respondeu. Estava a olhar para um rapaz de dez ou onze anos a atravessar a rua sossegada de bicicleta.
— E agora — disse Shamron — parece que és capaz de ter descoberto maneira de aceder às finanças do carniceirozinho de Damasco. Com um bocadinho de sorte, ainda vai ficar como o primeiro grande triunfo da era Gabriel Allon.
— Pensava que não acreditavas na sorte.
— E não acredito. — Shamron acendeu outro cigarro; a seguir, rodando de súbito o pulso, fechou a tampa do isqueiro bruscamente. — O carniceirozinho é cruel como o pai, mas não tem a inteligência dele, o que o torna muito perigoso. Nesta altura, o dinheiro já é a única coisa que importa. É o que tem impedido o clã de se desfazer. E é por isso que os lealistas continuam leais ao governo. E que há crianças a morrer aos milhares. Mas se conseguisses realmente adquirir o comando do dinheiro… — Sorriu. — As possibilidades seriam ilimitadas.
— E não tens mesmo nenhum conselho para me dar?
— Deixa o carniceirozinho ficar no poder enquanto ele se mantiver minimamente aceitável. Caso contrário, os próximos anos vão ser muito interessantes para ti e para os teus amigos em Washington e Londres.
— Então é assim que a grande Primavera Árabe termina? — perguntou Gabriel. — Agarramo-nos a um assassino em massa por ele ser o único que pode salvar a Síria da Al-Qaeda?
— Longe de mim querer dizer-te que bem te avisei, mas previ que a Primavera Árabe ia terminar em desastre e foi o que aconteceu. Os árabes ainda não estão preparados para a verdadeira democracia, numa altura em que o islamismo radical está em ascensão. O melhor que podemos esperar é que haja regimes autoritários razoáveis em sítios como a Síria e o Egito.
Shamron fez uma pausa, antes de acrescentar:
— Quem sabe, Gabriel? Se calhar, até és capaz de arranjar maneira de convencer o presidente a educar o povo condignamente e a tratá-lo com a dignidade que merece. Se calhar, até podes conseguir obrigá-lo a deixar de matar crianças com gás.
— E há outra coisa que eu quero dele.
— O Caravaggio?
Gabriel assentiu com a cabeça.
— Primeiro, descobres o dinheiro — afirmou Shamron, calcando o cigarro para o apagar. — E depois descobres o quadro.
Gabriel não disse mais nada. Estava a olhar para o rapaz da bicicleta a entrar e a sair com elegância das longas sombras no fim da rua. Quando a criança desapareceu, inclinou a cara para o céu de Jerusalém. Olha para a neve, pensou. Não é linda?