O Assalto
8. Stockwell, Londres
8
STOCKWELL, LONDRES
A estrada chamava-se Paradise, mas era um paraíso perdido: blocos em ruínas de habitações sociais em tijoleira vermelha, um pedaço de relva pisada, um parque infantil sem crianças onde um carrossel girava lentamente ao sabor do vento. Gabriel deixou-se ficar ali apenas o tempo suficiente para ter a certeza de que ninguém o seguia. Tapou as orelhas com a gola do casaco e tremeu. A primavera ainda não tinha chegado a Londres. A seguir ao parque infantil, havia uma passagem que dava para a Clapham Road. Gabriel virou para a esquerda e avançou, sob as luzes intensas do trânsito, até à estação de metro de Stockwell. Depois de virar mais uma vez, chegou a uma rua sossegada, com uma fila de casas do pós-Segunda Guerra Mundial cobertas de fuligem. O número 8 tinha uma vedação preta e torta de ferro forjado e um jardinzinho em cimento apenas com um caixote azul real para lixo reciclável a servir de decoração. Gabriel levantou a tampa, viu que o caixote estava vazio e subiu os três degraus até à porta da rua. Um letreiro avisava para não incomodar, fosse por que motivo fosse. Ignorando-o, Gabriel encostou o polegar ao botão da campainha — dois toques rápidos e um terceiro mais prolongado, tal como lhe tinham dito.
— Senhor Baker — disse o homem que surgiu à porta. — Que bom ter podido aparecer. O meu nome é Davies. Estou ao seu dispor.
Gabriel entrou na casa e esperou que a porta se fechasse antes de se voltar para ficar de frente para o homem que lhe abrira a porta. Tinha cabelo claro e fino e o rosto inocente de um vigário rural. Não se chamava Davies. Chamava-se Nigel Whitcombe.
— Para que é este secretismo todo? — perguntou Gabriel. — Não vou desertar. Só preciso de dar uma palavrinha ao chefe.
— Os serviços secretos britânicos não veem com bons olhos que se usem os nomes verdadeiros nas casas seguras. Davies é o meu nome profissional.
— Fica no ouvido — disse Gabriel.
— Fui eu quem o escolheu. Sempre gostei dos Kinks.
— E quem é o Baker?
— O Baker és tu — respondeu Whitcombe sem ponta de ironia na voz.
Gabriel entrou na pequena sala de estar. Estava mobilada com todo o encanto de um átrio das partidas de um aeroporto.
— Não podiam ter arranjado uma casa segura em Mayfair ou Chelsea?
— Já não havia imóveis disponíveis no West End. Além disso, este fica mais perto de Vauxhall Cross.
Vauxhall Cross era o quartel-general dos serviços secretos britânicos, também conhecidos como MI6. Em tempos, os serviços tinham funcionado num edifício manhoso, na Broadway, e o diretor-geral dava apenas pelo nome C. Mas, atualmente, os espiões trabalhavam num dos marcos mais vistosos de Londres e o nome do chefe aparecia com regularidade na imprensa. Gabriel preferia os velhos costumes. Em questões de serviços secretos, tal como de arte, era por natureza tradicionalista.
— E será que hoje em dia os serviços secretos britânicos autorizam a que haja café nas casas seguras? — perguntou.
— Café a sério, não — respondeu Whitcombe, com um sorriso. — Mas é capaz de haver um frasco de Nescafé na despensa.
Gabriel encolheu os ombros, como que a querer dizer que se podia arranjar pior do que Nescafé, e seguiu Whitcombe até à exígua cozinha. Dava a ideia de pertencer a um homem que se tinha separado há pouco tempo e acalentava esperanças de uma reconciliação rápida. Havia de facto um recipiente com Nescafé e também uma lata de Twinings que parecia já lá estar desde a altura em que Edward Heath fora primeiro-ministro. Whitcombe encheu a chaleira elétrica de água enquanto Gabriel vasculhava os armários à procura de uma caneca. Havia duas, uma com o logótipo dos Jogos Olímpicos de Londres e a outra com a cara da rainha. Quando Gabriel escolheu a caneca com a rainha, Whitcombe sorriu.
— Não fazia ideia de que eras um admirador de Sua Majestade.
— Tem bom gosto em arte.
— Pode dar-se ao luxo disso.
Whitcombe lançou esse comentário não como uma crítica mas tão-somente como a observação de um facto. Era assim que ele era: cuidadoso, astuto, opaco como uma parede de betão. Iniciara a carreira no MI5, onde tinha feito o tirocínio quanto a operações colaborando com Gabriel contra um oligarca e traficante de armas russo chamado Ivan Kharkov. Pouco tempo depois, passara a ser o principal ajudante de campo e moço de recados confidenciais de Graham Seymour, o diretor-adjunto do MI5. Seymour tinha sido recentemente nomeado o novo chefe do MI6, uma decisão que surpreendeu toda a gente no ramo dos serviços secretos menos Gabriel. Atualmente, Whitcombe servia o seu amo com esse mesmo estatuto, o que explicava a presença dele na casa segura de Stockwell. Pôs umas colheradas de Nescafé na caneca e ficou a ver o vapor a subir pelo bico da chaleira.
— Como anda a vida no número 6? — perguntou Gabriel.
— Quando lá chegámos, houve imensa desconfiança por parte das tropas. Suponho que tivessem direito a sentir-se desconfortáveis. Afinal de contas, estávamos a vir do outro lado do rio, de um serviço rival.
— Mas o Graham não era propriamente um completo estranho. O pai foi uma lenda do MI6. Foi praticamente criado dentro do serviço.
— E isso foi uma das razões para as preocupações terem terminado todas cedo.
Whitcombe tirou um pequeno tablet do bolso do peito do fato e olhou para o ecrã.
— Ele está mesmo a chegar. Consegues tratar do café sozinho?
— Despejo a água e depois remexo, certo?
Whitcombe foi-se embora. Gabriel preparou o café e foi para a sala de estar. Quando lá entrou, viu uma figura alta com um fato de um cinzento muito escuro que lhe assentava perfeitamente e uma gravata azul às riscas. Tinha uma cara de ossos delicados e uniforme; o cabelo possuía um forte matiz prateado que o fazia parecer um modelo que poderia aparecer em anúncios a bugigangas dispendiosas mas inúteis. Estava a segurar com a mão esquerda um telemóvel, colado ao ouvido. Estendeu distraidamente a direita a Gabriel. Tinha um aperto de mão firme, confiante e de duração apropriada. Era uma arma desleal quando utilizada contra adversários inferiores. Mostrava que andara nas melhores escolas, que era membro dos melhores clubes e que era bom em jogos de cavalheiros como o ténis e o golfe, tudo coisas que por acaso eram verdade. Graham Seymour era uma relíquia do glorioso passado britânico, um filho das classes dirigentes que tinha sido criado, educado e programado para chefiar. Uns meses antes, cansado após vários anos a tentar proteger a pátria britânica das forças do extremismo islâmico, confidenciara a Gabriel que planeava deixar o mundo dos serviços secretos para se reformar e ir viver para a villa que tinha em Portugal. E agora, inesperadamente, tinham-lhe sido dadas as chaves do antigo serviço do pai. Gabriel sentiu-se subitamente culpado por ter vindo a Londres. Estava prestes a entregar a Seymour a primeira crise potencial dele no MI6.
Seymour murmurou umas palavras para o telemóvel, interrompeu a ligação e passou-o a Nigel Whitcombe. Virou-se para Gabriel e pôs-se a olhar para ele com curiosidade durante um momento.
— Tendo em conta o nosso longo passado juntos — disse Seymour por fim —, estou um bocadinho relutante em perguntar-te o que te traz por cá. Mas imagino que não tenha outra opção.
Gabriel respondeu contando a Seymour uma pequena parte da verdade — que tinha vindo a Londres por estar a investigar o homicídio de um inglês expatriado que vivia em Itália.
— E esse inglês expatriado tem nome? — perguntou Seymour.
— James Bradshaw — respondeu Gabriel. Parou por uns instantes, antes de acrescentar: — Mas os amigos tratavam-no por Jack.
A cara de Seymour permaneceu uma máscara inexpressiva.
— Acho que li qualquer coisa acerca disso nos jornais — disse. — Tinha sido do Ministério dos Negócios Estrangeiros, não tinha? Fez consultoria no Médio Oriente. Foi assassinado na villa dele em Como. Pelos vistos, foi uma coisa bastante desagradável.
— Pois foi — concordou Gabriel.
— E o que tem isso que ver comigo?
— O Jack Bradshaw não era diplomata nenhum, pois não, Graham? Era do MI6. Era um espião.
Seymour conseguiu manter a compostura por mais um instante. Depois semicerrou os olhos e perguntou:
— Que mais tens?
— Três quadros roubados, uma caixa-forte no Freeport de Genebra e um tipo chamado Samir.
— Só isso?
Seymour abanou a cabeça devagar e voltou-se para Whitcombe.
— Cancela os meus compromissos para o resto da tarde, Nigel. E arranja-nos qualquer coisa para beber. Vamos ficar aqui um bocado.