O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 27 de 65

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O Assalto

25. Genebra

25

GENEBRA

 

Saíram de Estugarda pelo mesmo percurso que tinham feito antes e entraram novamente em França, em Estrasburgo. Keller seguiu para a Córsega; Gabriel, para Genebra. Chegou a meio da tarde e telefonou de imediato para Christoph Bittel, de uma cabina telefónica junto ao lago. O polícia secreto não pareceu muito satisfeito por voltar a ter notícias dele tão depressa. E ficou ainda menos satisfeito quando Gabriel lhe explicou por que razão tinha regressado a Genebra.

— Está fora de questão — disse.

— Então suponho que vou ter de contar ao mundo que encontrei aqueles quadros todos naquela caixa-forte.

— Lá se vai o novo Gabriel Allon.

— A que horas devo contar contigo, Bittel?

— Vou ver o que posso fazer.

 

Bittel demorou uma hora a arrumar a secretária, no quartel-general do NDB, e mais duas a fazer a viagem de carro de Berna até Genebra. Gabriel estava à espera dele, numa esquina movimentada da Rue du Rhône. Passavam poucos minutos das seis. Executivos suíços todos aperaltados saíam em catadupa de elegantes prédios de escritórios; raparigas bonitas e estrangeiros bem-postos afluíam para dentro dos cafés reluzentes. Era tudo muito ordeiro. Até os assassinos em massa se comportavam quando vinham a Genebra.

— Ias explicar-me por que razão eu te devia abrir aquele cofre — disse Bittel ao voltar a entrar no trânsito do final da tarde, com a habitual cautela excessiva.

— Porque a operação que estou a fazer encontrou um obstáculo e, neste momento, não tenho mais ninguém a quem recorrer.

— Que tipo de obstáculo?

— Um cadáver.

— Onde? — Gabriel hesitou. — Onde? — perguntou Bittel de novo.

— Em Estugarda — respondeu Gabriel.

— Imagino que tenha sido aquele árabe que apanhou um tiro na cabeça hoje de manhã, no centro da cidade, não foi?

— Quem disse que ele era árabe?

— O BfV.

O BfV era o serviço de segurança interna alemão. Mantinha relações estreitas com os seus irmãos alemânicos de Berna.

— O que sabem eles dele? — perguntou Gabriel.

— Praticamente nada, e foi por isso que nos contactaram. Parece que os assassinos lhe levaram a carteira depois de lhe terem espetado o tiro.

— E não foi só isso que levaram.

— Foste responsável pela morte dele?

— Não tenho a certeza.

— Deixa-me pôr-te as coisas desta maneira, Allon: encostaste-lhe uma pistola à cabeça e carregaste no gatilho?

— Não sejas ridículo.

— Não é uma pergunta tão descabida quanto isso. Afinal de contas, até já tens um historialzinho no que toca a cadáveres em território europeu.

Gabriel não disse nada.

— E sabes como se chamava o homem que estava dentro do carro?

— Disse que se chamava Sam, mas tenho um pressentimento de que o nome verdadeiro era Samir.

— E o apelido?

— Não cheguei a apanhá-lo.

— Passaporte?

— Falava francês muito bem. Se tivesse de arriscar um palpite, era do Levante.

— Do Líbano?

— Se calhar. Ou, talvez, da Síria.

— E porque o mataram?

— Não tenho a certeza.

— És capaz de fazer melhor do que isso, Allon.

— É possível que ele tivesse em mãos um quadro muito parecido com os Girassóis do Vincent van Gogh.

— O que foi roubado de Amesterdão?

— Pedido emprestado — respondeu Gabriel.

— E quem pintou a falsificação?

— Eu.

— E por que razão o Sam a tinha?

— Vendi-lha por vinte e cinco milhões de euros.

Bittel praguejou entre dentes.

— Tu é que perguntaste, Bittel.

— E onde está o quadro?

— Qual quadro?

— O Van Gogh verdadeiro — disparou Bittel.

— Em boas mãos.

— E o dinheiro?

— Em mãos ainda melhores.

— E porque roubaste um Van Gogh e vendeste uma cópia a um árabe chamado Sam?

— Porque ando à procura de um Caravaggio.

— Para quem?

— Para os italianos.

— E porque anda um agente dos serviços secretos israelitas à procura de um quadro para os italianos?

— Porque tem dificuldades em dizer que não às pessoas.

— E se eu conseguir que tenhas acesso àquele cofre? O que esperas encontrar lá?

— Para te ser sincero, Bittel, não faço a mínima ideia.

Bittel soltou um suspiro profundo e pegou no telemóvel.

 

Fez dois telefonemas rápidos, um a seguir ao outro. O primeiro foi para a amiga bem-feita do Freeport. O segundo, para um serralheiro que de vez em quando fazia favores ao NDB na zona de Genebra. A mulher estava à espera ao portão quando lá chegaram; o serralheiro apareceu passada uma hora. Chamava-se Zimmer. Tinha uma cara redonda e afável e o olhar vítreo de um animal empalhado. A mão era tão fria e delicada que Gabriel a largou de imediato, com medo de a magoar.

Trazia com ele um pesado estojo retangular de cabedal preto, que segurou com firmeza ao atravessar, atrás de Bittel e Gabriel, a porta exterior da caixa-forte de Jack Bradshaw. Se tinha noção de que os quadros ali estavam, não deu qualquer indicação disso; só tinha olhos para o pequeno cofre no chão, ao lado da secretária. Fora construído por um fabricante alemão de Colónia. Zimmer estava a fazer uma careta, como se estivesse a contar encontrar qualquer coisa que lhe fosse dar um pouco mais de luta.

Tal como o restaurador, o serralheiro não gostava de ter pessoas a observá-lo a trabalhar. Por isso mesmo, Gabriel e Bittel foram obrigados a não sair da sala interior da caixa-forte que Yves Morel tinha utilizado como estúdio clandestino. Ficaram sentados no chão, com as costas coladas à parede e as pernas esticadas. Pelos sons que irradiavam da porta aberta, era evidente que Zimmer estava a utilizar uma técnica conhecida como perfuração do ponto fraco. O ar cheirava a metal quente. Lembrava a Gabriel o cheiro de uma pistola acabada de disparar. Olhou para o relógio e franziu o sobrolho.

— Quanto tempo é que isto vai demorar? — perguntou.

— Há cofres que são mais fáceis do que outros.

— É por isso que eu sempre preferi uma carga de explosivos plásticos no sítio certo. O Semtex é um ótimo nivelador.

Bittel sacou do telefone e passou em revista os e-mails que tinha recebido; Gabriel foi depenicando distraidamente a tinta da paleta de Yves Morel; ocre, dourado e carmesim… Por fim, uma hora depois de Zimmer ter começado a trabalhar, ouviu-se um forte baque metálico vindo da sala ao lado. O serralheiro surgiu à entrada, segurando o estojo em cabedal preto com firmeza, e assentiu com a cabeça uma vez para Bittel.

— Acho que sei como se sai daqui — disse.

E desapareceu.

Gabriel e Bittel levantaram-se e entraram na sala ao lado. O cofre tinha a porta ligeiramente entreaberta, dois ou três centímetros, não mais do que isso. Gabriel tentou agarrá-la, mas Bittel impediu-o.

— Eu trato disso.

Fez sinal para Gabriel se afastar. Depois abriu a porta do cofre e espreitou lá para dentro. Estava vazio, tirando um envelope branco do tamanho de uma carta. Bittel pegou nele e leu o nome escrito à frente.

— O que é isso? — perguntou Gabriel.

— Parece ser uma carta.

— Para quem?

Bittel mostrou-a a Gabriel e respondeu:

— Para ti.

Era mais um memorando do que uma carta, um relatório de campo pós-ação escrito por um espião caído em desgraça e de consciência pesada por culpa da traição. Gabriel leu-o duas vezes, a primeira enquanto ainda estava dentro da caixa-forte de Jack Bradshaw e a segunda sentado no átrio das partidas do Aeroporto Internacional de Genebra. Chamaram os passageiros para o voo dele poucos minutos depois das nove horas, primeiro em francês, depois, em inglês e, finalmente, em hebraico. O som da língua-mãe acelerou-lhe a pulsação. Enfiou a carta discretamente na maleta de fim de semana, levantou-se e embarcou no avião.