O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 18 de 65

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O Assalto

16. Córsega

16

CÓRSEGA

 

Não era todos os dias que se tinha oportunidade de apertar a mão a um morto, mas foi precisamente isso que aconteceu, dois minutos mais tarde, quando Christopher Keller entrou pela porta da villa. De acordo com os registos militares britânicos, tinha morrido em janeiro de 1991, durante a primeira Guerra do Golfo, quando o esquadrão Sabre dos Serviços Aéreos Especiais a que pertencia foi vítima de um ataque aéreo das forças da Coligação, num caso trágico de fogo amigo. Os pais, dois médicos respeitados da Harley Street, choraram a morte do filho herói em público, ainda que em privado tivessem dito um ao outro que tal nunca teria ocorrido se ele tivesse continuado em Cambridge em vez de desaparecer de um dia para o outro para se alistar no exército. Até hoje, continuavam sem saber que o filho tinha sido o único sobrevivente do ataque sofrido pelo esquadrão. Tal como não sabiam que, após sair do Iraque disfarçado de árabe, atravessara a Europa até à Córsega, onde tinha sido recebido de braços abertos por Don Anton Orsati. Gabriel perdoara Keller por em tempos o ter tentado matar. Mas não conseguia admitir que o Inglês tivesse deixado que os pais envelhecessem a pensar que o seu único filho morrera.

Keller estava com bom aspeto para um morto. Os seus olhos eram azuis e límpidos, o cabelo cortado à escovinha estava descolorado, praticamente branco, do mar e do sol, e tinha uma pele lisa e muito bronzeada. Vestia uma camisa formal branca, com o colarinho aberto, e um fato de executivo já gasto de tanto viajar. Quando tirou o casaco, deixou à vista o físico mortífero. Em Keller, desde os ombros poderosos aos antebraços musculados, tudo parecia ter sido expressamente concebido com o propósito de matar. Atirou o casaco para as costas de uma cadeira e olhou de soslaio para a pistola Tanfoglio que se encontrava em cima da mesinha de apoio, ao lado do dossiê Caravaggio do general.

— Isso é meu — disse ele, referindo-se à pistola.

— Agora já não é.

Keller aproximou-se da garrafa aberta de Chablis e serviu-se de um copo.

— Que tal foi a tua viagem? — perguntou Gabriel.

— Um êxito.

— Estava com medo que fosses dizer isso.

— É melhor do que a alternativa.

— Que tipo de trabalho foi?

— Fui entregar comida e medicamentos a viúvas e órfãos.

— Onde?

— Varsóvia.

— A minha cidade preferida.

— Meu Deus, mas que espelunca! E o tempo nesta altura do ano é ótimo.

— O que foste lá fazer realmente, Christopher?

— Tratar de um problema para um banqueiro privado suíço.

— Que género de problema?

— Um problema russo.

— E esse russo tinha nome?

— Chamemos-lhe Igor.

— E o Igor era bom rapaz?

— Nem de perto, nem de longe.

— Da mafiya?

— Até à medula.

— Imagino que o Igor da mafiya tenha confiado dinheiro ao banqueiro privado suíço.

— Imenso dinheiro — confirmou Keller. — Mas não estava contente com os juros que andava a ganhar com os investimentos. Disse ao banqueiro suíço para melhorar o desempenho. Caso contrário, ia matar o banqueiro, a mulher, os filhos e o cão.

— E o banqueiro suíço foi pedir ajuda ao Don Orsati.

— Que outra opção é que ele tinha?

— E o que aconteceu ao russo?

— Sofreu um percalço a seguir a uma reunião com um potencial parceiro de negócios. Não te vou maçar com os pormenores.

— E o dinheiro dele?

— Uma parte foi transferida para uma conta nas mãos da Orsati Olive Oil Company. O resto continua na Suíça. Sabes como são aqueles banqueiros suíços — acrescentou Keller. — Não gostam de se separar do dinheiro.

O Inglês sentou-se no sofá, abriu o dossiê Caravaggio do general e tirou de lá a fotografia da moldura vazia do Oratorio di San Lorenzo.

— Que pena — soltou, abanando a cabeça. — Aqueles sacanas sicilianos não respeitam nada.

— E o Don Orsati já te disse que tinha sido ele a descobrir que o quadro fora roubado?

— É capaz de ter mencionado isso uma noite, depois de o manancial de provérbios corsos se esgotar. É uma pena que ele não tenha aparecido no oratorio uns minutos mais cedo — acrescentou Keller. — Talvez conseguisse impedir que os ladrões roubassem o quadro.

— Ou talvez os ladrões o tivessem matado antes de abandonarem a igreja.

— Estás a subestimar o don.

— Nunca.

Keller voltou a pôr a fotografia no dossiê.

— E o que tem isto que ver comigo?

— Os Carabinieri contrataram-me para recuperar o quadro. Preciso da tua ajuda.

— Que tipo de ajuda?

— Nada de especial — respondeu Gabriel. — Só preciso que roubes uma obra-prima de valor inestimável e a vendas a um homem que já matou duas pessoas em menos de uma semana.

— Mais nada? — Keller sorriu. — Estava com medo que me fosses pedir para fazer uma coisa difícil.

 

Gabriel contou-lhe a história inteira, começando pela visita infeliz de Julian Isherwood ao lago Como e terminando na proposta pouco ortodoxa do general Ferrari para recuperar o quadro desaparecido mais cobiçado do mundo. Keller não se mexeu uma única vez, com os antebraços apoiados nos joelhos e as mãos cruzadas, como um penitente relutante. A capacidade que tinha para ficar completamente imóvel durante longos períodos de tempo chegava a enervar até mesmo Gabriel. Quando estava ao serviço do SAS na Irlanda do Norte, Keller tinha-se especializado em observações minuciosas, uma técnica de vigilância perigosa que o obrigara a passar várias semanas em esconderijos apertados como sótãos e palheiros. E também se tinha infiltrado no Exército Republicano Irlandês, fazendo passar-se por um católico de Belfast Ocidental, e era por isso que Gabriel estava convencido de que Keller podia desempenhar o papel de um ladrão de arte com um quadro roubado de que se queria desfazer. No entanto, o Inglês não tinha assim tanta certeza.

— Não é isso que eu faço — disse depois de Gabriel terminar a explicação. — Observo pessoas, mato pessoas, rebento com coisas. Mas não roubo quadros. E não os vendo no mercado negro.

— Se és capaz de te fazer passar por um católico das urbanizações de Ballymurphy, então também és capaz de te fazer passar por um mânfio de East London. Se a memória não me falha — acrescentou Gabriel —, tens bastante jeito para os sotaques.

— É verdade — reconheceu Keller. — Mas sei muito pouco de arte.

— Como a maioria dos ladrões. E é por isso que são ladrões em vez de curadores ou historiadores de arte. Mas não te preocupes, Keller. Vais ter-me a segredar-te ao ouvido.

— Nem imaginas como estou ansioso por isso.

Gabriel não disse nada.

— Então e os italianos? — perguntou Keller.

— O que têm?

— Sou um assassino profissional que, é sabido, já exerceu o ofício em território italiano em determinadas ocasiões. Não vou poder lá voltar se o teu amigo dos Carabinieri vier a descobrir que andei a colaborar contigo.

— O general nunca vai saber que estiveste envolvido nisto.

— Como podes ter a certeza?

— Porque ele não quer saber.

Keller não pareceu convencido. Acendeu um cigarro e soprou pensativamente uma nuvem de fumo para o teto.

— Tem mesmo de ser? — perguntou Gabriel.

— Isto ajuda-me a pensar.

— E a mim faz-me ter dificuldade em respirar.

— Tens a certeza de que és mesmo israelita?

— Pelos vistos, o don acha que sou um corso encapotado.

— Impossível —— retorquiu Keller. — Um corso nunca ia aceitar encontrar um quadro que anda desaparecido há mais de quarenta anos, muito menos para o raio de um italiano.

Gabriel entrou na cozinha, tirou um pires do armário e pousou-o à frente de Keller. O Inglês deu uma última baforada no cigarro e depois apagou-o, calcando-o.

— E quanto a dinheiro? — Gabriel falou a Keller da pasta com um milhão de euros que o general lhe tinha dado. — Um milhão não te vai levar longe.

— E tens por aí alguns trocos?

— Sou capaz de ter um dinheirito para as despesas que me sobrou do assassínio de Varsóvia.

— Quanto?

— Uns quinhentos ou seiscentos.

— Isso é muito generoso da tua parte, Christopher.

— Esse dinheiro é meu.

— O que são quinhentos ou seiscentos euros entre amigos?

— Imenso dinheiro.

Keller soltou um longo suspiro.

— Continuo sem ter a certeza se vou ser capaz de me safar com isto.

— Safar com o quê?

— Fingir que sou ladrão de arte.

— Matas pessoas a troco de dinheiro — respondeu Gabriel. — Não me parece que vá ser muito difícil.

 

Vestir Christopher Keller de modo que desempenhasse o papel de um ladrão de arte internacional revelou-se a parte mais fácil da preparação dele, pois no guarda-fatos da villa havia uma vasta seleção de roupa perfeita para qualquer ocasião ou assassínio. Havia o Keller boémio errante, o Keller da elite do jet set e o Keller amante do ar livre e montanhista. E havia até o Keller padre católico apostólico romano, que incluía um breviário e um conjunto de viagem para celebrar missas. Gabriel acabou por escolher o género de roupa que Keller vestia habitualmente — camisas formais brancas, fatos escuros feitos por medida e mocassins elegantes. Para servir de acessório à imagem do Inglês, optou por vários fios e pulseiras de ouro, um vistoso relógio suíço, óculos com lentes azuis e uma cabeleira loira com uma abundante madeixa sobre a testa. Keller juntou o próprio passaporte britânico falso e os cartões de crédito em nome de Peter Rutledge. Gabriel achou que soava um bocadinho de mais à classe alta para um criminoso do East End, mas não importava. No mundo da arte, ninguém iria chegar a saber o nome do ladrão.