O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 4 de 65

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O Assalto

2. Veneza

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VENEZA

 

Ao início da manhã seguinte, Veneza perdeu mais uma escaramuça na guerra antiga que travava com o mar. As águas das cheias levaram todo o tipo de criaturas marinhas para dentro do átrio do Hotel Cipriani e inundaram o Harry’s Bar. Turistas dinamarqueses foram tomar um banho matinal na Piazza San Marco; havia mesas e cadeiras do Caffè Florian a bater repetidamente nos degraus da basílica, como se fossem destroços de um transatlântico de luxo afundado. Por uma vez, não havia pombos em lado nenhum. A maioria tinha fugido sensatamente da cidade submersa, à procura de terra seca.

No entanto, havia partes de Veneza em que a acqua alta era mais um incómodo do que uma calamidade. Com efeito, o restaurador conseguiu dar com um arquipélago de terra razoavelmente seca que se prolongava da porta do seu apartamento no sestiere de Cannaregio até Dorsoduro, na extremidade sul da cidade. O restaurador não tinha nascido em Veneza, mas conhecia-lhe as ruelas e praças melhor do que a maioria dos nativos. Estudara o ofício em Veneza, amara e fizera luto em Veneza e, uma vez, quando era conhecido por outro nome que não o dele, fora obrigado pelos inimigos a fugir de Veneza. Agora, depois de uma longa ausência, regressara à sua adorada cidade de água e quadros, a única cidade onde tinha sequer sentido qualquer coisa minimamente parecida com contentamento. Mas paz, não; para o restaurador, a paz era apenas o período entre a última guerra e a seguinte. Era efémera, uma falsidade. Os poetas e as viúvas sonhavam com ela, mas homens como o restaurador nunca se permitiam ser seduzidos pela noção de que a paz até poderia ser possível.

Parou num quiosque para ver se estava a ser seguido e depois continuou no mesmo sentido. Tinha uma estatura abaixo da média — talvez um metro e setenta e dois, mas não mais do que isso — e o físico delgado de um ciclista. A cara era comprida, com um queixo estreito, maçãs do rosto largas e um nariz fino que parecia ter sido esculpido em madeira. Os olhos que espreitavam por baixo da aba da boina eram de um verde invulgar; o cabelo, da cor da cinza nas têmporas. Trazia um oleado e umas botas impermeáveis, mas não um chapéu para se proteger da chuva constante. Por hábito, em público, nunca se deixava ficar preso a qualquer objeto que pudesse dificultar o movimento rápido das mãos.

Entrou em Dorsoduro, o ponto mais elevado da cidade, e dirigiu-se para a Igreja de San Sebastiano. A entrada principal estava fechada a sete chaves e havia um aviso com aspeto oficial a explicar que o edifício ia ficar fechado ao público até ao outono seguinte. O restaurador aproximou-se de uma porta mais pequena no lado direito da igreja e abriu-a com uma chave-mestra pesada. Uma lufada de ar fresco vinda do interior acariciou-lhe a face. Fumo de velas, incenso e bolor velho: havia qualquer coisa no cheiro que lhe recordava a morte. Fechou a porta depois de entrar, esquivou-se de uma pia batismal cheia de água benta e avançou.

 

A nave estava às escuras e não havia bancos. O restaurador caminhou em silêncio pelas pedras lisas e gastas pelo tempo, atravessando discretamente o portão aberto do gradeamento do altar. Tinham tirado a mesa eucarística ornamentada para a limpar; no lugar desta, erguia-se um andaime de alumínio de nove metros. O restaurador trepou-o com a agilidade de um gato doméstico e passou para o outro lado de uma capa de lona, mais uma vez discretamente, entrando na plataforma onde estava a trabalhar. O material encontrava-se precisamente como o tinha deixado na noite anterior: frascos com produtos químicos, algodão hidrófilo, umas quantas cavilhas de madeira, uma lupa, dois candeeiros com potentes lâmpadas de halogéneo e uma aparelhagem portátil manchada de tinta. O retábulo — Virgem e o Menino em Glória com Santos, de Paolo Veronese — também se encontrava como o tinha deixado. Era apenas um de vários quadros notáveis que Veronese produzira para a igreja entre 1556 e 1565. A tumba dele, com um busto de mármore sombrio, ficava do lado esquerdo do presbitério. Naqueles momentos, quando a igreja estava vazia e às escuras, o restaurador quase conseguia sentir o fantasma de Veronese a observá-lo a trabalhar.

O restaurador acendeu os candeeiros e deixou-se ficar parado diante do retábulo durante um longo momento. No cimo, estavam Maria e o Menino Jesus, sentados em cima de nuvens de glória e rodeados por anjos músicos. Por baixo, olhando para cima em êxtase, encontrava-se um grupo de santos, incluindo o santo padroeiro da igreja, Sebastião, que Veronese representou em martírio. Ao longo das três semanas anteriores, o restaurador tinha estado a retirar meticulosamente o verniz rachado e amarelecido com uma mistura cuidadosamente calibrada de acetona, acetato metílico e essências minerais. Conforme gostava de explicar, retirar o verniz de um quadro barroco não era a mesma coisa que desmontar uma mobília; era mais parecido com esfregar o convés de um porta-aviões com uma escova de dentes. Primeiro tinha de preparar uma mecha com o algodão hidrófilo e uma cavilha de madeira. Depois de humedecer a mecha com o solvente, aplicava-a na superfície da tela e girava-a com delicadeza para que a tinta não lascasse ainda mais. Cada mecha era capaz de limpar cerca de seis centímetros quadrados do quadro até ficar demasiado suja para se poder continuar a utilizar. À noite, quando não estava a sonhar com sangue e fogo, o restaurador estava a retirar verniz amarelecido de uma tela do tamanho da Piazza San Marco.

Mais uma semana, pensou, e a seguir estaria pronto para passar à segunda fase do restauro, retocando as partes da tela em que a tinta original de Veronese tinha lascado. As figuras de Maria e do Menino Jesus não tinham sofrido praticamente danos, mas o restaurador descobrira grande deterioração no topo e na parte de baixo da tela. Se tudo corresse conforme planeado, terminaria o restauro quando a mulher estivesse a entrar nas últimas semanas da gravidez. Se tudo corresse conforme planeado, pensou outra vez.

Introduziu um CD da ópera La Bohème na aparelhagem e, passado um momento, o santuário encheu-se das notas iniciais de Non sono in vena. Ao mesmo tempo que Rodolfo e Mimi se estavam a apaixonar num estúdio minúsculo numas águas-furtadas parisienses, o restaurador encontrava-se sozinho diante do Veronese, a retirar meticulosamente a sujidade da superfície e o verniz amarelecido. Foi trabalhando sem parar e a um ritmo tranquilo — molhar, girar, deitar fora… molhar, girar, deitar fora — até a plataforma ficar cheia de bolas acres de algodão sujo. Veronese tinha aperfeiçoado fórmulas para tintas que não esmoreciam com os anos; e à medida que o restaurador ia retirando cada porção diminuta de verniz castanho cor de tabaco, as cores por baixo brilhavam intensamente. Quase parecia que o mestre tinha aplicado a tinta na tela apenas na véspera e não há quatro séculos e meio.

O restaurador teve a igreja por conta dele mais duas horas. Às dez, ouviu o barulho de botas a atravessar o chão de pedra da nave. As botas pertenciam a Adrianna Zinetti, limpadora de altares e sedutora de homens. Depois veio Lorenzo Vasari, um talentoso restaurador de frescos que ressuscitara quase sozinho a Última Ceia de Leonardo. A seguir, foi a vez do arrastar de pés conspiratório de Antonio Politi, que, para grande irritação do próprio, tinha ficado incumbido dos painéis do teto e não do retábulo principal. Consequentemente, passava os dias deitado de costas como um Miguel Ângelo dos tempos modernos, lançando olhares ferozes e rancorosos à plataforma tapada do restaurador, bem lá no alto, por cima do coro.

Não era a primeira vez que o restaurador e os outros membros da equipa trabalhavam juntos. Vários anos antes, tinham realizado restauros importantes na Igreja de San Giovanni Crisostomo, em Cannaregio, e, primeiro, na Igreja de San Zaccaria, em Castello. Na altura, pensavam que o restaurador era o brilhante mas ciosamente reservado Mario Delvecchio. Viriam a descobrir mais tarde, juntamente com o resto do mundo, que se tratava do lendário agente dos serviços secretos e assassino israelita chamado Gabriel Allon. Adrianna Zinetti e Lorenzo Vasari tinham sido capazes de perdoar Gabriel pelo logro, mas Antonio Politi, não. Quando era jovem, acusara uma vez Mario Delvecchio de ser um terrorista e achava que Gabriel Allon também o era. Em segredo, desconfiava que era por causa de Gabriel que passava os dias nos confins superiores da nave, deitado de costas e completamente torto, isolado de qualquer contacto humano, com solvente e tinta a pingarem-lhe na cara. Os painéis ilustravam a história da rainha Ester. Com certeza que, dizia Politi a quem quer que o quisesse ouvir, não era coincidência.

Na verdade, Gabriel não tivera nada que ver com essa decisão; tinha sido tomada por Francesco Tiepolo, proprietário da empresa de restauro mais destacada do Veneto e diretor do projeto de San Sebastiano. Uma figura que lembrava um urso, com uma intricada barba grisalha e preta, Tiepolo era um homem de paixões e apetites gigantescos, capaz de grande raiva e de ainda maior amor. Quando avançou até ao centro da nave, vinha vestido, como de costume, com uma camisa larga parecida com uma túnica e trazia um lenço de seda atado ao pescoço. Pela roupa, mais parecia estar a dirigir a construção da igreja e não a sua renovação.

Tiepolo parou por uns instantes para admirar Adrianna Zinetti, com quem tinha tido em tempos um caso que era um dos segredos mais mal guardados de Veneza. A seguir, trepou o andaime de Gabriel e avançou pela abertura na capa de lona. A plataforma de madeira pareceu ceder com o seu enorme peso.

— Cuidado, Francesco — avisou Gabriel, franzindo o sobrolho. — O chão do altar é de mármore e ainda é uma queda grande.

— Que queres dizer com isso?

— Quero dizer que talvez valesse a pena emagreceres alguns quilos. Estás a começar a desenvolver a tua própria força gravitacional.

— E de que me servia perder peso? Podia emagrecer vinte quilos que continuava a ser gordo.

O italiano avançou um passo e examinou o retábulo espreitando por cima do ombro de Gabriel.

— Muito bem — disse, fingindo admiração. — Se continuares a este ritmo, acabas a tempo do primeiro aniversário dos teus filhos.

— Posso fazê-lo rapidamente — respondeu Gabriel — ou posso fazê-lo bem.

— As duas coisas não se excluem mutuamente, sabes? Aqui em Itália, os nossos restauradores trabalham rapidamente. Mas tu, não — acrescentou Tiepolo. — Mesmo quando andavas a fingir que eras um de nós, sempre foste muito lento.

Gabriel preparou uma mecha nova, humedeceu-a com o solvente e girou-a sobre o tronco de São Sebastião, trespassado por flechas. Tiepolo observou-o com atenção durante um momento; a seguir, preparou ele próprio uma mecha e começou a passá-la pelo ombro do santo. O verniz amarelecido dissolveu-se de imediato, deixando ver a tinta imaculada de Veronese.

— A mistura do teu solvente é perfeita — disse Tiepolo.

— É sempre — respondeu Gabriel.

— O que usas?

— É segredo.

— Contigo tem de ser sempre tudo um segredo?

Ao ver que Gabriel não iria responder, Tiepolo olhou para os frascos com os produtos químicos.

— Quanto acetato metílico usaste?

— Precisamente a quantidade certa.

Tiepolo fez uma careta.

— Não te arranjei trabalho quando a tua mulher resolveu que queria passar a gravidez em Veneza?

— Arranjaste, Francesco.

— E não te pago muito mais do que pago aos outros — sussurrou —, apesar de andares sempre a desaparecer de cada vez que os teus amos precisam dos teus serviços?

— Sempre foste muito generoso.

— Então porque não me queres dizer qual é a fórmula do teu solvente?

— Porque o Veronese tinha a fórmula secreta dele e eu tenho a minha.

Tiepolo agitou a mão gigantesca, num gesto de desprezo. Depois deitou fora a mecha suja e preparou uma nova.

— A chefe de redação do New York Times em Roma ligou-me ontem à noite — disse, como quem não queria a coisa. — Está interessada em escrever um artigo sobre o restauro para a secção de arte de domingo. Quer vir cá sexta para dar uma vista de olhos.

— Se não te importares, Francesco, acho que vou tirar o dia na sexta.

— Logo vi que ias dizer isso — respondeu Tiepolo, olhando de soslaio para Gabriel. — Nem sequer te sentes tentado?

— A quê?

— A mostrar ao mundo o verdadeiro Gabriel Allon. O Gabriel Allon que cuida das obras dos grandes mestres. O Gabriel Allon que é capaz de pintar como um anjo.

— Só falo com jornalistas em último recurso. E nunca me ia passar pela cabeça falar com um sobre mim.

— Tens tido uma vida interessante.

— Isso é dizer pouco.

— Se calhar, está na altura de saíres de trás desse véu.

— E a seguir?

— Podes passar o resto dos teus dias aqui em Veneza connosco. No fundo, sempre foste veneziano, Gabriel.

— É tentador.

— Mas…?

Pela expressão que fez, Gabriel deixou bem claro que não pretendia falar mais do assunto. E depois, voltando-se para a tela, perguntou:

— Recebeste mais algum telefonema de que eu deva ter conhecimento?

— Só um — respondeu Tiepolo. — O general Ferrari dos Carabinieri vem cá à cidade mais ao fim da manhã. E queria dar-te uma palavrinha em privado.

Gabriel virou-se bruscamente e olhou para Tiepolo.

— Para falar de quê?

— Não disse. O general é bem melhor a fazer perguntas do que a responder a elas.

Tiepolo escrutinou Gabriel durante um momento.

— Não fazia ideia de que tu e o general eram amigos.

— E não somos.

— Então como o conheces?

— Pediu-me um favor uma vez e a minha única opção foi aceitar.

Tiepolo fez questão de mostrar que estava a ponderar o que tinha ouvido.

— Deve ter sido aquela questão há uns anos no Vaticano, aquela rapariga que caiu da cúpula da Basílica. Se bem me lembro, estavas a restaurar-lhes o Caravaggio na altura em que isso aconteceu.

— Ai estava?

— O rumor era esse.

— Não devias prestar atenção aos rumores, Francesco. Estão quase sempre errados.

— A não ser que tenham que ver contigo — respondeu Tiepolo, com um sorriso.

Gabriel deixou que o comentário ecoasse até ao coro sem resposta. A seguir, retomou o trabalho. Uns instantes antes, estava a servir-se da mão direita. Agora estava a servir-se da esquerda, com a mesma destreza.

— És como o Ticiano — disse Tiepolo, observando-o. — És um sol entre estrelas pequenas.

— Se não me deixares em paz, o sol nunca mais vai acabar este quadro.

Tiepolo não se mexeu.

— Tens a certeza de que não és ele? — perguntou passado um momento.

— Quem?

— O Mario Delvecchio.

— O Mario morreu, Francesco. O Mario nunca existiu.