O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 6 de 65

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O Assalto

4. Veneza

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VENEZA

 

Gabriel conhecia um bom restaurante não muito longe da igreja, numa esquina sossegada de Castello onde os turistas raramente se aventuravam. O general Ferrari pediu grandes quantidades de comida; Gabriel passou o tempo a remexer no que tinha no prato e a bebericar um copo de água mineral com limão.

— Não tem fome? — perguntou o general.

— Estava com esperanças de passar mais umas horas com o meu Veronese hoje à tarde.

— Então é melhor comer qualquer coisa. Vai precisar de força.

— Não é assim que funciona.

— Não come quando está a fazer um restauro?

— Café e um bocado de pão.

— Que tipo de dieta é essa?

— Das que me deixam concentrar.

— Não admira que seja tão magro.

O general Ferrari dirigiu-se para o carrinho das entradas e voltou a encher o prato. Não havia mais ninguém no restaurante, só lá estavam o dono e a filha, uma morena bonita com doze ou treze anos. A criança era espantosamente parecida com a filha de Abu Jihad, o número dois da OLP, que Gabriel, num fim de tarde quente de primavera, em 1988, assassinara na villa deste em Tunes. O assassínio tinha sido levado a cabo no escritório de Abu Jihad, no primeiro andar, onde este estava a ver vídeos da intifada palestiniana. A rapariga assistira a tudo: dois tiros no peito que o imobilizaram, dois tiros fatais na cabeça, tudo ao som da música da revolta árabe. Gabriel já não se conseguia lembrar da máscara de morte de Abu Jihad, mas o retrato da rapariga, serena mas a fervilhar de raiva, ocupava um lugar de destaque nas salas de exposição da sua memória. Quando o general se sentou novamente, Gabriel tapou o rosto dela com uma camada de tinta obliterante. Inclinou-se sobre a mesa e perguntou:

— Porquê eu?

— E porque não?

— Quer que eu comece pelas razões óbvias?

— Se isso o fizer sentir melhor.

— Não sou da polícia italiana. Aliás, sou uma coisa bem diferente.

— Mas já tem um longo passado aqui em Itália.

— E nem todo é agradável.

— É verdade — concordou o general. — Mas, pelo caminho, foi fazendo contactos importantes. Tem amigos em lugares de destaque, como o Vaticano. E, talvez mais importante ainda, também tem amigos em lugares clandestinos. Conhece o país de uma ponta a outra e está casado com uma italiana. É praticamente um de nós.

— A minha mulher já não é italiana.

— E que língua falam em casa?

— Italiano — admitiu Gabriel.

— Mesmo quando estão em Israel?

Gabriel assentiu com a cabeça.

— Não é preciso dizer mais nada.

O general calou-se, com um ar pensativo.

— Isto é capaz de o surpreender — disse por fim —, mas quando um quadro desaparece ou fazem mal a alguém, costumo saber bastante bem quem é o responsável. Temos mais de cem informadores ao nosso serviço e já vigiámos mais telefones e endereços de e-mail do que a NSA. Quando acontece alguma coisa na parte criminosa do mundo da arte, há sempre conversa. Como vocês costumam dizer no ramo do contraterrorismo, os nós começam a piscar.

— E desta vez?

— O silêncio é ensurdecedor.

— E o que acha que isso quer dizer?

— Quer dizer que, com toda a probabilidade, os homens que mataram o Jack Bradshaw não são italianos.

— E tem alguma ideia de onde possam ser?

— Não — respondeu o general, abanando a cabeça lentamente —, mas o nível da violência preocupa-me. Já vi muitos cadáveres na minha carreira, mas este era diferente. As coisas que fizeram ao Jack Bradshaw foram… — A voz sumiu-se. Depois, lá concluiu: — Medievais.

— E agora quer que eu me meta com eles.

— Parece-me ser um homem que sabe cuidar de si.

Gabriel ignorou o comentário.

— A minha mulher está grávida. Não posso de maneira nenhuma deixá-la sozinha.

— Nós tomamos bem conta dela. — Baixou a voz e acrescentou: — Já estamos a fazê-lo.

— É bom saber que o governo italiano nos anda a espiar.

— Não estava à espera de outra coisa, pois não?

— Claro que não.

— Também me pareceu que não. Além disso, Allon, é para o seu bem. Tem imensos inimigos.

— E agora o senhor quer que eu faça mais um.

O general pousou o garfo e olhou pela janela contemplativamente, à maneira do doge Leonardo Loredan.

— É meio irónico — soltou passado um momento.

— O quê?

— Que um homem como você tenha decidido ir viver num gueto.

— Não vivo mesmo no gueto.

— É quase a mesma coisa — respondeu o general.

— É um bairro simpático, o mais simpático de Veneza, se quer saber a minha opinião.

— Está cheio de fantasmas.

Gabriel olhou de relance para a rapariga.

— Não acredito em fantasmas.

O general passou ao de leve com o guardanapo pelo canto da boca, com uma expressão de ceticismo.

— E como iria isto funcionar? — perguntou Gabriel.

— Considere-se um dos meus informadores.

— Ou seja?

— Penetre nas profundezas do mundo da arte e descubra quem matou o Jack Bradshaw. Eu trato do resto.

— E se eu não descobrir nada?

— Estou convicto de que vai descobrir.

— Isso soa-me a uma ameaça.

— Ai sim?

O general não disse mais nada. Gabriel soltou um suspiro profundo.

— Vou precisar de umas coisas.

— Como por exemplo?

— O habitual — respondeu Gabriel. — Registos telefónicos, cartões de crédito, e-mails, históricos de navegação na Internet e uma cópia do disco rígido dele.

O general indicou a pasta com a cabeça.

— Está ali tudo — disse —, mais todos os rumores desagradáveis que fomos ouvindo acerca dele.

— E também vou precisar de dar uma vista de olhos à villa e à coleção dele.

— Dou-lhe uma cópia do inventário quando o tivermos terminado.

— Não quero nenhum inventário. Quero ver os quadros.

— Feito — respondeu o general. — Mais alguma coisa?

— Suponho que alguém devia avisar o Francesco Tiepolo de que vou estar uns dias fora de Veneza.

— E avisar a sua mulher também.

— Sim — disse Gabriel, num tom distante.

— Talvez seja melhor dividirmos o mal pelas aldeias. Eu aviso o Francesco e você avisa a sua mulher.

— E não há por acaso nenhuma hipótese de podermos fazer isso ao contrário?

— Receio bem que não.

O general levantou a mão direita, aquela a que faltavam os dois dedos.

— Já sofri que chegue.

 

E só restava tratar de Julian Isherwood. Afinal, tinha sido detido no quartel regional dos Carabinieri, num espaço sem janelas que não era bem uma cela mas também não era uma sala de espera. A entrega aconteceu na Ponte della Paglia, a pouca distância da Ponte dos Suspiros. O general não parecia nada descontente por se ver livre do prisioneiro. Deixou-se ficar na ponte, com a mão estropiada enfiada no bolso do casaco e o olho prostético a observar sem pestanejar, enquanto Gabriel e Isherwood percorriam o Molo San Marco até entrarem no Harry’s Bar. Isherwood bebeu dois Bellinis de rajada, ao passo que Gabriel tratou discretamente dos preparativos para a viagem de Julian. Havia um voo da British Airways que saía de Veneza às seis da tarde e chegava a Heathrow pouco depois das sete.

— O que me dá tempo mais do que suficiente — disse Isherwood num tom sorumbático — para assassinar o Oliver Dimbleby e me enfiar na cama antes do News at Ten.

— Como teu representante informal neste assunto — respondeu Gabriel —, recomendo-te que não o faças.

— Achas que devia esperar até de manhã para matar o Oliver?

Gabriel sorriu contra vontade.

— O general aceitou generosamente manter o teu nome fora disto — disse. — Se fosse a ti, não dizia nada em Londres sobre o teu pequeno atrito com as autoridades italianas.

— Não foi suficientemente pequeno — respondeu Isherwood. — Não sou como tu, querido. Não estou habituado a passar as noites na cadeia. E podes crer que não estou habituado a dar com cadáveres. Meu Deus, devias tê-lo visto. Fizeram-no num autêntico filete.

— Mais uma razão para não dizeres nada quando chegares a casa — retorquiu Gabriel. — A última coisa que vais querer é que os assassinos do Jack Bradshaw leiam o teu nome nos jornais.

Isherwood mordeu o lábio e assentiu com a cabeça lentamente, em sinal de concordância.

— Pelos vistos, o general achava que o Bradshaw andava a traficar quadros roubados — disse passado um momento. — E, pelos vistos, também achava que eu andava a fazer negócios com ele. Apertou bem comigo.

— E andavas, Julian?

— A fazer negócios com o Jack Bradshaw?

Gabriel assentiu com a cabeça.

— Isso nem merece resposta.

— Tinha de perguntar.

— Já fiz muitas coisas impróprias na minha carreira, normalmente a teu mando. Mas nunca, e é mesmo nunca, vendi um quadro que soubesse que tinha sido roubado.

— Então e um quadro contrabandeado?

— Define contrabandeado — respondeu Isherwood, com um sorriso travesso.

— E o Oliver?

— Estás a perguntar se o Oliver Dimbleby anda a vender quadros roubados?

— Parece que sim.

Isherwood teve de pensar um pouco antes de responder.

— Para mim, não há muita coisa que eu ache que o Oliver Dimbleby não seja capaz de fazer — disse por fim. — Mas não, não acredito que ande metido com quadros roubados. Aquilo não passou de azar e de mau sentido de oportunidade.

Isherwood fez sinal ao empregado e pediu outro Bellini. Estava finalmente a começar a descontrair.

— Tenho de admitir — disse — que eras de longe a última pessoa do mundo que eu estava à espera de ver hoje.

— O sentimento é mútuo, Julian.

— Presumo que tu e o general se conheçam.

— Já trocámos cartões de visita.

— É uma das criaturas mais desagradáveis que já conheci.

— Não é assim tão mau quando o conhecemos melhor.

— E o que sabe ele da nossa relação?

— Sabe que somos amigos e que já restaurei vários quadros para ti. E se tivesse de dar um palpite — acrescentou Gabriel —, o mais provável é que saiba das tuas ligações à Avenida Rei Saul.

A Avenida Rei Saul era a morada dos serviços secretos de Israel. A agência tinha um nome comprido e deliberadamente enganador que tinha muito pouco que ver com a verdadeira natureza do seu trabalho. Quem lá trabalhava referia-se a ela simplesmente como o Departamento e nada mais. E Julian Isherwood também. Fazia parte dos sayanim, uma rede global de ajudantes voluntários. Eram os banqueiros quem fornecia dinheiro aos agentes do Departamento em casos de emergência; os médicos que tratavam deles em segredo quando estavam feridos; os hoteleiros que os hospedavam sob nomes falsos e os funcionários das agências de aluguer de automóveis que lhes providenciavam veículos impossíveis de localizar. Isherwood fora recrutado em meados da década de setenta, durante uma vaga de atentados terroristas palestinianos a alvos israelitas na Europa. Tinha apenas uma missão — ajudar na construção e manutenção do disfarce operacional de um jovem restaurador de arte e assassino chamado Gabriel Allon.

— Calculo que a minha libertação não tenha sido de borla — disse Isherwood.

— Pois não — respondeu Gabriel. — Aliás, até custou bastante.

— E quanto custou?

Gabriel contou-lhe.

— Lá se vai o teu período sabático em Veneza — disse Isherwood. — Parece que estraguei tudo.

— É o mínimo que posso fazer por ti, Julian. Devo-te imensa coisa.

Isherwood sorriu saudosamente.

— Há quanto tempo já nos conhecemos? — perguntou.

— Há uma centena de anos.

— E agora vais ser pai outra vez, e logo a dobrar. Nunca pensei estar cá para ver esse dia.

— Nem eu.

Isherwood olhou para Gabriel.

— Não pareces muito entusiasmado com a perspetiva de ir ter filhos.

— Não sejas ridículo.

— Mas…?

— Estou velho, Julian. — Gabriel parou por uns instantes e, a seguir, acrescentou: — Se calhar, demasiado velho para estar a começar outra família.

— A vida tratou-te bastante mal, meu rapaz. Tens direito a um bocadinho de felicidade na tua senilidade. Mas tenho de reconhecer que te invejo. Estás casado com uma rapariga linda que te vai dar dois filhos lindos. Quem me dera estar no teu lugar.

— Tem cuidado com o que desejas.

Isherwood bebeu o Bellini devagar, mas não disse nada.

— Ainda não é tarde demais, sabes?

— Para ter filhos? — perguntou, incrédulo.

— Para encontrares uma pessoa com quem passar o resto da vida.

— Lamento dizê-lo, mas acho que já passei o meu prazo de validade — respondeu Isherwood. — Neste momento, já me casei com a galeria.

— Vende a galeria — disse Gabriel. — Reforma-te e vai viver para uma villa no sul de França.

— Dava em maluco numa semana.

Saíram do bar e andaram uns passos até ao Grande Canal. Um vistoso táxi aquático de madeira reluzia encostado à doca apinhada. Isherwood parecia relutante em entrar nele.

— Se fosse a ti — disse-lhe Gabriel —, ia-me embora da cidade antes que o general mude de ideias.

— Um conselho sensato — respondeu Isherwood. — Posso dar-te um? — Gabriel ficou calado. — Diz ao general para arranjar outra pessoa.

— Lamento muito, mas já é demasiado tarde para isso.

— Então tem cuidado contigo. E não te armes em herói outra vez. Tens muito por que viver.

— Vais perder o avião, Julian.

Isherwood entrou a cambalear no táxi. Quando este se começou a afastar lentamente da doca, virou-se para Gabriel e gritou:

— O que digo ao Oliver?

— De alguma coisa te vais lembrar.

— Sim — retorquiu Isherwood. — Lembro-me sempre.

Enfiou-se na cabina e desapareceu.