O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 45 de 65

Páginas do PDF

O Assalto

43. Chelsea, Londres

43

CHELSEA, LONDRES

 

Um espião britânico caído em desgraça, um polícia italiano só com um olho, um mestre ladrão de arte, um assassino profissional da ilha da Córsega: era esse o invulgar grupo de personagens por quem o caso tinha passado até agora. E, por isso, era perfeitamente apropriado que a paragem seguinte na jornada improvável de Gabriel fosse o número 43 de Cheyne Walk, a casa londrina de Viktor Orlov. Orlov era um pouco como Julian Isherwood; tornava a vida mais interessante e, por causa disso, Gabriel adorava-o. Mas o afeto pelo russo estava enraizado em algo muito mais prático. Não fosse Orlov, Gabriel jazeria num campo de morte da época de Estaline, a leste de Moscovo. E Chiara jazeria ao lado dele.

Dizia-se que Viktor Orlov dividia as pessoas em duas categorias: as que estavam dispostas a serem usadas e as que eram demasiado estúpidas para perceberem que estavam a ser usadas. Alguns teriam acrescentado uma terceira: as que estavam dispostas a deixar que Viktor lhes roubasse o dinheiro. Não fazia segredo quanto a ser um predador e um magnata ladrão. Aliás, usava esses rótulos com orgulho, tal como os fatos italianos de dez mil dólares e as camisas às riscas, a sua imagem de marca, que eram feitas de propósito para ele por um homem em Hong Kong. A queda impressionante do comunismo soviético presenteara Orlov com a oportunidade de ganhar muito dinheiro num período de tempo muito curto e ele tinha-a agarrado. Orlov raramente pedia desculpa por qualquer coisa, e muito menos pela forma como se tornara rico. «Se tivesse nascido inglês, o dinheiro podia ter chegado à minha posse de forma limpa», disse uma vez a um entrevistador britânico, pouco depois de se ter instalado em Londres. «Mas nasci russo e ganhei uma fortuna russa.»

Criado em Moscovo durante os dias mais negros da Guerra Fria, Orlov tinha sido abençoado com uma facilidade natural para os números. Depois de ter completado os estudos secundários, estudou física no Instituto de Ótica e Mecânica de Precisão e depois desapareceu no programa de armas nucleares russo, onde trabalhou até ao dia em que a União Soviética soltou o último suspiro. Enquanto muitos dos colegas continuaram a trabalhar sem receber, Orlov renunciou rapidamente ao estatuto de membro do Partido Comunista e jurou que iria ser rico. Passados poucos anos, tinha conseguido uma fortuna considerável importando computadores, eletrodomésticos e outros produtos do Ocidente para o nascente mercado russo. Mais tarde, utilizou a fortuna para adquirir a maior empresa estatal russa de aço juntamente com a Ruzoil, o gigante petrolífero da Sibéria, a preços de saldo. Não tardou muito para que Viktor Orlov, um antigo físico ao serviço do governo, que outrora tivera de partilhar um apartamento com outras duas famílias soviéticas, fosse multibilionário e o homem mais rico da Rússia.

Mas na Rússia pós-soviética, uma terra sem lei e a transbordar de crime e corrupção, a fortuna de Orlov fez dele um homem com a cabeça a prémio. Sobreviveu a pelo menos três tentativas de assassínio e constava que tinha mandado matar vários homens em retaliação. Mas a maior ameaça para Orlov viria do homem que sucedeu a Boris Ieltsin como presidente da Rússia. Acreditava que Orlov e os outros oligarcas tinham roubado as maiores riquezas do país e tencionava voltar a roubá-las. Depois de se instalar no Kremlin, o novo presidente mandou chamar Orlov e exigiu-lhe duas coisas: a empresa de aço e a Ruzoil. «E não meta o nariz na política», acrescentara ameaçadoramente. «Caso contrário, arranco-lho.»

Orlov aceitou abrir mão dos interesses no setor do aço, mas não da Ruzoil. O presidente não achou graça. Ordenou imediatamente ao Ministério Público que iniciasse uma investigação de fraude e suborno e, passada uma semana, os delegados já tinham emitido um mandado de captura para Orlov. Confrontado com a perspetiva de uma longa e fria estada nos novos gulags, fugiu sensatamente para Londres, onde se tornou um dos maiores críticos do presidente russo. Durante vários anos, a Ruzoil permaneceu juridicamente congelada, fora do alcance tanto de Orlov como dos novos senhores do Kremlin. Finalmente, Orlov concordou em entregar a empresa, no que foi efetivamente o maior pagamento da História pelo resgate de um refém — 12 mil milhões de dólares em troca da libertação de três agentes do Departamento que tinham sido raptados. Por essa generosidade, Orlov recebeu um passaporte britânico e uma reunião muito privada com a rainha. Mais tarde, declarou que tinha sido o dia de que sentira mais orgulho em toda a vida.

Já tinham passado mais de cinco anos desde que Orlov fizera o acordo financeiro com o Kremlin e, no entanto, continuava no topo da lista de gente a abater dos russos. Por causa disso, deslocava-se por Londres numa limusina blindada e a casa em Cheyne Walk parecia-se um bocadinho com a embaixada de um país preparado para a guerra. As janelas eram à prova de bala e estacionado junto ao passeio estava um Range Rover preto cheio de guarda-costas, todos ex-membros do antigo regimento de Christopher Keller, os Serviço Aéreos Especiais. Prestaram pouca atenção a Gabriel quando ele chegou à hora marcada, quatro e meia, e, depois de passar pelo portão de ferro forjado, se postou à imponente porta da frente de Orlov. A campainha, quando premida, fez aparecer uma empregada de farda preta e branca muito engomada, que subiu com Gabriel um lance de escadas largas e elegantes até ao escritório de Orlov. Era uma réplica exata do gabinete privado da rainha no Palácio de Buckingham, excetuando a gigantesca parede de ecrãs de plasma atrás da secretária de Orlov. Normalmente, tremeluzia com dados financeiros de todos os cantos do mundo, mas naquela tarde era a crise na Ucrânia que prendia a atenção de Orlov. O exército russo tinha invadido a península da Crimeia e estava agora a ameaçar avançar sobre outras regiões da Ucrânia oriental. A Guerra Fria estava outra vez oficialmente em vigor, ou assim o decretavam os comentadores políticos. A lógica deles tinha apenas uma falha gritante. Para começar, na mente do presidente russo, a Guerra Fria nem sequer tinha acabado.

— Eu avisei que isto ia acontecer — disse Orlov passados uns instantes. — Avisei que o czar queria recuperar o seu império. Tornei muito claro que a Geórgia era apenas um aperitivo e que a Ucrânia, o cesto do pão da velha união, ia ser o prato principal. E agora está a desenrolar-se em direto na televisão. E o que fazem os europeus em relação a isso?

— Nada — respondeu Gabriel.

Orlov assentiu vagarosamente com a cabeça, os olhos presos no ecrã.

— E sabe por que razão os europeus não fazem nada enquanto o Exército Vermelho esmaga brutalmente mais outra nação independente?

— Dinheiro — respondeu Gabriel.

Orlov voltou a assentir com a cabeça.

— Também os avisei disso. Disse-lhes para não ficarem dependentes do comércio com a Rússia. Supliquei-lhes que não ficassem viciados no gás natural russo. Ninguém me ouviu, claro. E agora os europeus não conseguem arranjar coragem para impor sanções sérias ao czar porque iriam prejudicar demasiado as suas economias.

Abanou a cabeça lentamente.

— Isto tudo agonia-me.

Nesse preciso momento, o presidente russo avançou com determinação pelo ecrã, com uma mão rigidamente pendurada e a outra a oscilar como uma gadanha. A cara tinha ido mais uma vez à faca; os olhos estavam tão esticados que parecia um homem das repúblicas da Ásia Central. Poderia ter parecido uma figura cómica não fosse o sangue que tinha nas mãos, algum do qual pertencia a Gabriel.

— Segundo a última estimativa — estava a dizer Orlov, com os olhos cravados no velho inimigo —, ele valia cerca de cento e trinta mil milhões de dólares, o que o tornava o homem mais rico do mundo. Como acha que ele arranjou esse dinheiro todo? Afinal, passou a vida inteira na folha de pagamentos do Estado.

— Acho que o roubou.

— Acha mesmo?

Orlov virou as costas aos monitores de vídeo na parede e ficou de frente para Gabriel pela primeira vez. Era um homem de sessenta anos, pequeno e ágil, com uma cabeleira grisalha que tinha sido levada com muito jeito e gel a formar um penteado juvenil todo espetado. Por trás dos óculos sem aros, o olho esquerdo piscava nervosamente. Acontecia-lhe habitualmente quando Orlov falava do presidente russo.

— Sei, sem margem para dúvidas, que ele embolsou uma grande parte da Ruzoil depois de eu a ter entregado ao Kremlin para o tirar a si da Rússia. Valia cerca de doze mil milhões de dólares na altura. Uma gotinha de água no grande esquema das coisas — acrescentou Orlov. — O czar e o círculo mais chegado a ele estão a enriquecer imensamente à custa do povo russo. E é por isso que vai fazer tudo o que for preciso para se manter no poder. — Orlov fez uma pausa e depois acrescentou: — Tal como o amigo dele da Síria.

— Então porque não me ajuda a fazer qualquer coisa a esse respeito?

— Roubar o dinheiro do czar? Não há nada de que mais gostasse. Afinal — acrescentou Orlov —, uma parte até é minha. Mas não é possível.

— Concordo.

— Então o que está a sugerir?

— Que, em vez disso, roubemos o dinheiro do amigo sírio.

— Já o descobriu?

— Não — respondeu Gabriel —, mas sei quem o superintende.

— Que é o Kemel al-Farouk — retorquiu Orlov. — Mas o homem que está de facto a gerir a carteira de investimentos é o Waleed al-Siddiqi. — Gabriel ficou demasiado estupefacto para fazer qualquer comentário. Orlov sorriu. — Já devia ter vindo ter comigo há muito tempo. Podia ter-lhe poupado uma série de problemas.

— E como sabe do Al-Siddiqi?

— Porque o Gabriel não é a única pessoa à procura do dinheiro.

Orlov olhou por cima do ombro, para os monitores de vídeo, onde o presidente russo se encontrava agora a receber informações dos generais.

— O czar também o quer. Mas isso não tem nada de surpreendente — acrescentou. — O czar quer tudo.

Ao bater das cinco, a empregada apareceu com uma garrafa de Château Pétrus, o lendário Pomerol que Orlov bebia como se fosse Evian.

— Quer um copo, Gabriel?

— Não, obrigado, Viktor. Tenho de conduzir.

Orlov fez um gesto desdenhoso com a mão e verteu vários centímetros do vinho vermelho-escuro num grande copo de pé.

— Onde é que íamos? — perguntou.

— Ia contar-me como soube do Waleed al-Siddiqi.

— Tenho fontes em Moscovo. Fontes muito boas — acrescentou com um sorriso. — Julgava que nesta altura já soubesse isso.

— As suas fontes são as melhores, Viktor.

— Melhores do que as do MI6 — retorquiu Orlov. — Devia dizer ao seu amigo Graham Seymour para atender, de vez em quando, os meus telefonemas. Posso ser-lhe muito útil.

— Eu digo-lhe isso da próxima vez que o vir.

Orlov sentou-se na ponta de um comprido sofá de brocado e convidou Gabriel a sentar-se na outra. Do outro lado das janelas à prova de bala, o trânsito do início da noite fluía ao longo do Chelsea Embankment e pela Albert Bridge, até Battersea. No entanto, no mundo de Viktor Orlov existia apenas a figura levemente cómica a avançar com passadas largas pelos ecrãs da parede de monitores.

— Porque julga que ele se ergueu em defesa do presidente sírio quando o resto do mundo civilizado estava pronto a usar a força militar contra o tipo? Foi porque quis proteger o único amigo da Rússia no mundo árabe? Queria conservar a base naval em Tartus? A resposta às duas perguntas é: sim. Mas há outra razão. — Olhou para Gabriel e disse: — Dinheiro.

— Quanto?

— Quinhentos milhões de dólares, a pagar diretamente numa conta nas mãos do czar.

— Diz quem?

— Diz o prefiro não dizer.

— E de onde vieram os quinhentos milhões de dólares?

— De onde acha?

— Como já não havia nada no tesouro público sírio, diria que veio diretamente da algibeira do presidente.

Orlov assentiu com a cabeça e voltou a olhar para o ecrã.

— E o que pensa que o czar fez depois de ter recebido a confirmação de que o dinheiro tinha sido depositado na conta dele?

— Como o czar é um filho da mãe ganancioso, imagino que tenha mandado os antigos colegas do SVR, os serviços secretos no exterior, descobrir o resto.

— Conhece bem o czar.

— E tenho as cicatrizes para o provar.

Orlov sorriu e bebeu um pouco do vinho.

— As minhas fontes dizem que a busca foi comandada pelo rezident do SVR em Damasco. Ele já sabia do Kemel al-Farouk. Bastaram-lhe cinco minutos para descobrir o nome do Al-Siddiqi.

— E é o Al-Siddiqi quem supervisiona a fortuna toda?

— Nada que se pareça — respondeu Orlov. — Se tivesse de arriscar um palpite, diria que cerca de metade do dinheiro do presidente está sob a própria administração dele.

— Então do que está o czar à espera?

— Está à espera para ver se o presidente sobrevive ou se acaba como o Khadafi. Se sobreviver, fica com o dinheiro. Mas se acabar como o Khadafi, o SVR vai deitar a mão a essa lista de contas que o Al-Siddiqi traz no bolso.

— Vou chegar-lhe primeiro do que eles — disse Gabriel. — E o Viktor vai ajudar-me.

— O que precisa que eu faça ao certo? — Gabriel disse-lhe. Orlov girou os óculos pela haste, coisa que fazia sempre que estava a pensar em dinheiro. — Não vai ser barato — disse passados uns momentos.

— Quanto, Viktor?

— Trinta milhões, no mínimo dos mínimos. Talvez uns quarenta quando estiver tudo resolvido.

— E o que me diz se desta vez cada um pagar a sua parte?

— Quanto pode gastar?

— Sou capaz de ter uns dez milhões à mão — respondeu Gabriel. — Mas teria de lhos dar em dinheiro vivo.

— É verdadeiro?

— Evidentemente.

Orlov sorriu.

— Então em dinheiro vivo está muito bem.