O Assalto
61. Lago Como, Itália
61
LAGO COMO, ITÁLIA
Gabriel e Chiara passaram as duas noites seguintes numa pequena estância junto aos lagos de Interlaken e depois saíram da Suíça pelo mesmo percurso que tinham feito antes. Nas gargantas das montanhas, Gabriel recebeu uma mensagem segura da Avenida Rei Saul a mandá-lo ligar o rádio; e, enquanto atravessavam a fronteira italiana em Lugano, ficou a saber que Kemel al-Farouk, vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, antigo agente da Mukhabarat, amigo e conselheiro de confiança do presidente sírio, fora morto numa explosão misteriosa em Damasco. Tinha sido uma operação de Uzi Navot, mas em muitos aspetos era o primeiro assassínio da era Allon. Não sabia bem porquê, mas desconfiava que não seria o último.
Estava a chover quando chegaram a Como. Gabriel devia ter seguido pela autostrada até Milão, mas, em vez disso, tinha seguido pela estrada serpenteante por cima do lago até chegar mais uma vez ao portão pesado da villa de Jack Bradshaw. O portão estava muito bem fechado; ao lado, havia uma tabuleta que dizia que a propriedade estava à venda. Gabriel ficou ali parado durante uns momentos, com as mãos no volante, a pensar no que devia fazer. Ligou para Roma para falar com o general Ferrari, pediu-lhe o código de segurança e introduziu-o no teclado. Passados uns segundos, o portão abriu-se. Gabriel meteu a primeira e o carro avançou pelo caminho de entrada.
A porta também estava fechada à chave. Gabriel abriu-a com uma fina haste de metal que trazia habitualmente na carteira e levou Chiara para o átrio de entrada. Pairava no ar um cheiro pesado a falta de uso, mas o sangue tinha sido esfregado do chão de mármore. Chiara experimentou o interruptor; o candelabro onde Jack Bradshaw estivera pendurado iluminou-se. Gabriel fechou a porta e dirigiu-se para o salão.
As paredes tinham sido despojadas de todas as obras de arte e acabadas de pintar; parte da mobília fora tirada para criar a ilusão de um espaço maior. Mas não a linda escrivaninha antiga de Bradshaw. Estava no mesmo sítio onde estivera antes, embora as duas fotografias de Bradshaw antes da queda em desgraça tivessem sido removidas. O telefone multilinhas continuava lá, coberto por uma fina camada de pó. Gabriel levou o auscultador ao ouvido. Não ouviu nenhum som de marcação. Voltou a pousá-lo no descanso e olhou para Chiara.
— Porque estamos aqui? — perguntou ela.
— Porque aquilo esteve aqui.
— Talvez — disse ela.
— Talvez — concedeu ele.
Nos dias que se seguiram à descoberta inicial de Gabriel, a Brigada de Arte do general Ferrari tinha desfeito a villa de Jack Bradshaw à procura de mais quadros roubados. Era improvável que uma tela com dois metros e treze centímetros por dois metros e quarenta e três centímetros lhes tivesse escapado por alguma razão. Mesmo assim, Gabriel queria dar uma última vista de olhos, quando mais não fosse por descargo de consciência. Passara os últimos e vários meses da vida à procura da mais famosa obra-prima mundial perdida. E até à altura tudo o que tinha conseguido eram uns quantos quadros roubados e um assassino sírio morto.
E assim, enquanto a luz do dia se desvanecia naquela tarde de outono, revistou a casa de um homem que nunca tinha visto, com a mulher grávida ao lado — divisão a divisão, armário a armário, aparador a aparador, gaveta a gaveta, espaços onde só se podia rastejar, condutas de ar, o sótão, a cave. Examinou cuidadosamente as paredes à procura de argamassa aplicada recentemente. Examinou as tábuas do soalho à procura de cabeças de pregos limpas. Examinou o jardim à procura de terra revolvida não há muito tempo. Até que, por fim, cansado, frustrado e sujo de terra, deu por si parado de novo à frente da escrivaninha de Bradshaw. Levou o telefone ao ouvido, mas, sem surpresa, continuava a não haver sinal. Tirou o BlackBerry da algibeira do casaco e marcou um número de memória. Segundos depois, uma voz masculina respondeu em italiano.
— Está a falar com o padre Marco — disse ele. — Em que o posso ajudar?