O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 56 de 65

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O Assalto

54. Telavive — Alta Saboia, França

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TELAVIVE — ALTA SABOIA, FRANÇA

 

Como se veio a verificar, os dez génios dos computadores, conhecidos coletivamente como os minian, tinham-se enganado sobre o tempo que aquilo iria levar. O processo não levou cinco minutos mas pouco mais do que três. Por isso, às 16h25, hora de Telavive, 8,2 mil milhões de dólares dos ativos do presidente sírio estavam nas mãos do Departamento. Um minuto depois, Uzi Navot enviou uma mensagem flash a Gabriel, para o apartamento seguro de Genebra, confirmando que a transferência estava feita. Nesse momento, Gabriel ordenou uma segunda transferência: a transferência de 500 milhões de dólares para uma conta no TransArabian Bank, em Zurique. O dinheiro chegou às 15h29, hora local, quando o dono dessa conta, Waleed al-Siddiqi, se encontrava entalado na hora de ponta parisiense. Gabriel marcou o número do telemóvel do banqueiro, mas ninguém atendeu. Desligou, esperou outro minuto e voltou a marcá-lo.

 

Não a fizeram esperar muito, cinco minutos, não mais do que isso. Depois Jihan ouviu um punho a bater na porta e uma voz masculina mandou-a enfiar o capuz. Era o que estivera à espera dela no Aeroporto de Genebra; reconheceu-lhe a voz e o cheiro da maldita água-de-colónia passado um momento, quando ele a puxou com força para a pôr em pé. Guiou-a pelas escadas acima e depois por um chão de mármore. Jihan calculou que estava num grande espaço institucional qualquer porque os ecos dos seus próprios passos lhe chegavam de uma grande distância. Finalmente, o homem fê-la parar com um puxão e obrigou-a a sentar-se numa cadeira de madeira dura. E foi forçada a ficar ali sentada durante vários momentos, cega pelo capuz e por um medo avassalador do que estaria para vir. Perguntou para consigo quanto tempo teria de vida. Ou, se calhar, pensou, já estava morta.

Passou-se mais um minuto extremamente lento. Depois uma mão tirou-lhe o capuz, arrancando-lhe um caracol de cabelo ao mesmo tempo. À frente dela, estava o senhor Omari em mangas de camisa e com uma moca de borracha na mão. Jihan desviou os olhos e analisou o que a rodeava. Estavam no salão ostentoso de um grande château. Não um château, pensou de repente, mas um palácio. Parecia que tinha acabado de ser decorado, que ainda estava por habitar.

— Onde estou? — perguntou.

— Que importância é que isso tem?

Jihan olhou mais uma vez em redor da sala e perguntou:

— A quem pertence isto?

— Ao presidente da Síria — respondeu ele.

Fez uma pausa e acrescentou:

— O teu presidente, Jihan.

— Sou cidadã alemã. Não tem qualquer direito de me prender.

Os dois homens sorriram um para o outro. Depois, o senhor Omari pousou o telemóvel na mesinha decorativa ao lado da cadeira de Jihan.

— Liga para o teu embaixador, Jihan. Ou, melhor ainda — acrescentou —, porque não chamas a polícia francesa? Tenho a certeza de que aparecem dentro de um momento ou dois.

Jihan não se mexeu.

— Liga — exigiu ele. — O número de emergência em França é um, um, dois. Depois marca o dezassete para a polícia.

Ela esticou-se para o telefone, mas antes de o conseguir agarrar, a moca desceu com violência sobre as costas da mão como um martelo de forja. Dobrou-se ao meio instantaneamente e apertou a mão esmigalhada como se fosse um pássaro com uma asa partida. A seguir, a moca caiu-lhe em cima da nuca e ela estatelou-se, desamparada, no chão. Ficou deitada, enrolada defensivamente como uma bola, incapaz de se mexer, incapaz de emitir um único som além de um longo soluço de agonia. Então, é aqui que vou morrer, pensou. No palácio do presidente, numa terra que não é a minha. Ficou à espera da pancada seguinte, mas esta não veio. Em vez disso, o senhor Omari agarrou-lhe numa mão-cheia de cabelo e torceu-lhe a cara para a virar para ele.

— Se estivéssemos na Síria — disse —, teríamos muitos instrumentos à nossa disposição para te obrigar a falar. Mas aqui só temos isto — acrescentou, brandindo a moca de borracha. — Pode levar um bocado e de certeza que não terás um grande aspeto quando eu tiver acabado, mas vais falar, Jihan. Toda a gente fala.

Durante uns curtos instantes, não conseguiu dar-lhe uma resposta. Finalmente, conseguiu fazer uso da capacidade de falar.

— O que quer saber?

— Quero saber para quem trabalhas.

— Trabalho para Waleed al-Siddiqi, no Banco Weber AG, em Linz, na Áustria.

A moca atingiu-a de lado na cara. Pareceu cegá-la.

— Quem te seguiu até ao hotel em Genebra hoje de manhã?

— Não sabia que estava a ser seguida.

Desta vez, a moca acertou-lhe de lado no pescoço. Não teria ficado nada surpreendida se visse a própria cabeça rolar pelo chão de mármore do presidente.

— Estás a mentir, Jihan.

— Não estou a mentir! Por favor — suplicou —, não me volte a bater!

— Vou fazer-te uma pergunta simples, Jihan. Acredita em mim quando te digo que sei a resposta a esta pergunta. Se me disseres a verdade, não te acontece nada. Mas se mentires, não vai restar muito de ti quando eu tiver acabado.

Deu um abanão violento à cabeça dela.

— Estás a compreender-me, Jihan?

— Sim.

— Diz-me onde nasceste.

— Na Síria.

— Na Síria, onde?

— Hama — respondeu ela. — Nasci em Hama.

— E como se chamava o teu pai?

— Ibrahim Nawaz.

— Pertencia à Irmandade Muçulmana?

— Sim.

— E foi morto durante a revolta em Hama, em fevereiro de 1982?

— Não — respondeu Jihan. — Foi assassinado pelo regime em 1982, com os meus irmãos e a minha mãe.

Era evidente que o senhor Omari não estava interessado em ser picuinhas em relação ao passado.

— Mas tu, não — lembrou.

— Não — retorquiu ela. — Eu sobrevivi.

— E porque não contaste nada disso ao senhor Al-Siddiqi quando ele te contratou para trabalhares no Weber Bank?

— O que quer dizer?

— Não brinques comigo, Jihan.

— Não estou a brincar.

— Disseste ao senhor Al-Siddiqi que nasceste em Hama?

— Disse.

— Contaste ao senhor Al-Siddiqi que a tua família foi morta durante a revolta?

— Sim.

— E contaste-lhe que o teu pai era um Irmão Muçulmano?

— Claro — respondeu ela. — Contei tudo ao senhor Al-Siddiqi.

 

Foram precisas quatro tentativas antes de Waleed al-Siddiqi atender finalmente o telefone. Durante vários segundos, não disse nada, com a luz vermelha a bater como um coração nervoso no ecrã do computador de Gabriel. Depois, em árabe, perguntou:

— Quem é?

— Estou a ligar por causa de um problema com uma das tuas contas — disse Gabriel calmamente. — Na realidade, com várias das tuas contas.

— De que está a falar?

— Se eu fosse a ti, Waleed, ligava para o Dennis Cahill, do Trade Winds Bank, nas Ilhas Caimão, e perguntava-lhe se houve alguma atividade recente relacionada com as contas da LXR Investments. E, já agora, aproveitava também para ligar ao Gérad Beringer, o homem com quem acabaste de te encontrar na Société Générale. E depois, gostava que me ligasses. Tens cinco minutos. Despacha-te, Waleed. Não me faças esperar.

Gabriel desligou e pousou o telefone.

— Isso deve despertar-lhe a atenção — disse Lavon.

Gabriel olhou para o ecrã do computador e sorriu.

 

Waleed ligou para o Trade Winds e para a Société Générale. Depois ligou para o UBS, para o Credit Suisse, para o Centrum Bank do Lichenstein e para o First Gulf Bank do Dubai. Em cada instituição, ouviu a mesma história. Por fim, com dez minutos de atraso, ligou a Gabriel.

— Não vai conseguir safar-se com isto — disse.

— Já consegui.

— O que fez?

— Não fiz nada, Waleed. Foste tu quem roubou o dinheiro do presidente.

— De que está a falar?

— Acho que devias fazer mais um telefonema, Waleed.

— Para onde?

Gabriel disse-lhe. Depois interrompeu a ligação e aumentou o som do computador. Passados dez segundos, um telefone tocava no TransArabian Bank, em Zurique.