O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 49 de 65

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O Assalto

47. Linz, Áustria

47

LINZ, ÁUSTRIA

 

A mensagem de texto apareceu no telemóvel de Jihan às dez e meia, hora austríaca: POSSO ALMOÇAR . APETECE-TE O FRANZESCO? O assunto era inócuo. No entanto, a escolha de restaurantes não. Era um sinal pré-combinado. Durante uns segundos, Jihan sentiu-se incapaz de respirar; ao que parecia, Hama tinha-se apoderado do seu coração. Foram precisas várias tentativas até conseguir escrever uma resposta com três palavras: TENS A CERTEZA ? A resposta chegou com a rapidez do tiro de uma espingarda: CLARO QUE SIM! MAL POSSO ESPERAR .

Com a mão a tremer, Jihan pousou o telemóvel em cima da secretária e depois levantou o auscultador do telefone com multilinhas do escritório. Havia vários números programados nos botões de marcação rápida, incluindo um que estava identificado como TELEMÓVEL DO SR. AL-SIDDIQI . Ensaiou as deixas do guião uma última vez. A seguir, estendeu a mão e carregou no botão. Ninguém atendeu a chamada e, por causa disso, Jihan sentiu-se momentaneamente aliviada. Desligou sem deixar mensagem. Depois, voltou a inspirar fundo e tornou a marcar o número.

 

A primeira chamada de Jihan para Waleed al-Siddiqi não foi atendida porque nesse momento o telemóvel dele ainda estava na posse do segurança do Aeroporto de Heathrow chamado Charles Davies, também conhecido como Nigel Whitcombe. Quando a segunda chamada chegou, já tinha outra vez o telemóvel em seu poder, mas estava demasiado absorto para responder; estava a verificar se o caderno de notas em pele ainda se encontrava no bolso esquerdo do casaco do fato, e estava. A terceira chamada apanhou-o na área do duty-free do terminal e muito maldisposto. Respondeu com pouco mais do que um grunhido.

— Senhor Al-Siddiqi! — exclamou Jihan, como se estivesse satisfeita por lhe ouvir a voz. — Ainda bem que o consigo apanhar antes de entrar para o avião. Lamento, mas temos um pequeno problema nas Ilhas Caimão. Pode dar-me uns momentos de atenção?

 

O problema, explicou, eram as cartas de constituição em sociedade comercial autenticadas por um notário de uma empresa chamada LXR Investments of Luxembourg.

— O que se passa com elas?

— Desapareceram.

— O que está para aí a dizer?

— Acabei de receber um telefonema do Dennis Cahill, do Trade Winds Bank de Georgetown.

— Conheço o nome.

— O senhor Cahill diz que não consegue encontrar os documentos do registo da empresa.

— Por acaso, sei que o meu representante até lhe entregou essas cartas pessoalmente.

— O senhor Cahill não põe isso em causa.

— Então qual é o problema?

— Fiquei com a impressão de que foram trituradas por engano — disse Jihan. — Ele gostava que lhe mandássemos um conjunto novo.

— Quando?

— Imediatamente.

— E qual é a pressa?

— Segundo parece, tem qualquer coisa que ver com os americanos. Ele não entrou em pormenores.

Entredentes, Al-Siddiqi murmurou uma antiga praga síria relacionada com burros e parentes afastados. Jihan sorriu. A mãe tinha usado a mesma expressão nas raras ocasiões em que perdera as estribeiras.

— Acho que tenho cópias desses documentos no computador do meu gabinete — disse ele, passados uns momentos. — Aliás, tenho a certeza.

— E o que quer que eu faça, senhor Al-Siddiqi?

— Que os mande a esse idiota do Trade Winds Bank, claro.

— E não se importa que lhe ligue do meu telemóvel? É capaz de ser mais fácil assim.

— Depressa, Jihan. Estão a chamar para o meu voo.

Sim, pensou ela enquanto desligava o telefone. Vamos lá fazer isso depressa.

Abriu a gaveta de cima da secretária e tirou dois objetos: uma pasta de couro preta e um disco rígido externo, também preto, com cerca de sete centímetros e meio por doze e meio. O disco rígido estava por baixo da pasta, para que as câmaras de segurança no teto não o pudessem captar. Apertou os dois objetos com força contra a parte da frente da blusa, levantou-se e começou a descer o corredor para a porta do gabinete do senhor Al-Siddiqi. Marcou o número dele enquanto andava. Ele respondeu exatamente quando ela lá chegou.

— Estou pronta — disse.

— O código é oito, sete, nove, quatro, um, dois. Apanhou tudo?

— Sim, senhor Al-Siddiqi. Um momento, por favor.

Usando a mão com que segurava o telefone, marcou rapidamente os seis dígitos corretos e carregou no ENTER. Os fechos de segurança abriram com um estalido que foi audível do outro lado da linha.

— Entre — disse-lhe Al-Siddiqi.

Jihan empurrou a porta. Deparou com uma escuridão profunda. Não fez nada para a extinguir.

— Já cá estou — disse.

— Ligue o computador.

Jihan sentou-se na cadeira de executivo em pele. Estava quente, como se ele tivesse acabado de se levantar de lá. O monitor do computador, apagado, estava à esquerda, o teclado, uns centímetros à frente dele, e a UCP, no chão, ao lado da secretária. Debruçou-se e executou sem falhas a mesma manobra que tinha treinado tantas vezes na casa do Attersee — a manobra que treinara às escuras, com o alemão sem nome a gritar-lhe que o senhor Al-Siddiqi estava a chegar para a matar. Mas ele não estava a chegar para a matar; estava do outro lado da linha, a dizer-lhe calmamente o que tinha de fazer.

— Preparada? — perguntou.

— Ainda não, senhor Al-Siddiqi.

Seguiram-se uns instantes de silêncio.

— E agora, Jihan?

— Sim, senhor Al-Siddiqi.

— Está a ver a caixa de entrada?

Respondeu-lhe que sim.

— Vou dar-lhe outro número de seis dígitos. Está preparada?

— Sim — repetiu ela.

Recitou-lhe os seis números. E estes levaram Jihan ao menu principal do mundo secreto do senhor Al-Siddiqi. Quando voltou a falar, conseguiu parecer calma, quase aborrecida.

— Funcionou — informou.

— E está a ver a pasta principal com os meus documentos?

— Sim, acho que sim.

— Carregue nela, se faz favor.

Ela assim fez. O computador pediu outra palavra-passe.

— É igual à última.

— Desculpe, mas já me esqueci, senhor Al-Siddiqi.

Repetiu-lhe o número. Quando foi introduzido na caixa de entrada, a pasta abriu-se. Jihan viu nomes de dezenas de empresas: empresas de investimento, holdings, empresas do mercado imobiliário, firmas de importação e exportação. Reconheceu alguns dos nomes pois tinha tratado de transações relacionadas com eles. Todavia, a maioria era-lhe desconhecida.

— Escreva LXR Investments na caixa de pesquisa, se faz favor.

Ela obedeceu. Apareceram dez pastas.

— Abra a que diz Registo.

Tentou.

— Está a pedir outra palavra-passe.

— Experimente a mesma.

— Importa-se de a repetir, se fizer o favor?

Repetiu-lha. Mas quando Jihan a introduziu, a pasta continuou fechada e apareceu uma mensagem a desaconselhar entradas não autorizadas.

— Espere um minuto, Jihan.

Jihan apertou o telemóvel com força contra o ouvido. Conseguiu ouvir a chamada final para um voo para Viena e o frufru de páginas a serem passadas.

— Deixe-me dar-lhe outro número — disse Al-Siddiqi por fim.

— Estou pronta — respondeu ela.

Recitou-lhe seis números novos. Jihan introduziu-os na caixa e disse:

— Já entrei.

— Está a ver o ficheiro PDF para as cartas de constituição em sociedade?

— Sim.

— Anexe-as a um e-mail e mande-as a esse idiota do Trade Winds. Mas faça-me um favor — acrescentou rapidamente.

— Claro, senhor Al-Siddiqi.

— Mande-as do seu endereço.

— Com certeza.

Anexou os documentos a um e-mail em branco, introduziu o endereço dela e carregou no ENVIAR.

— Feito — disse.

— Agora tenho de desligar.

— Faça boa viagem.

A ligação foi interrompida. Jihan pousou o telemóvel na secretária de Al-Siddiqi, ao lado do teclado, e saiu do gabinete. A porta, quando fechada, trancou automaticamente depois de ela sair. Jihan voltou calmamente para a secretária, com seis números a passarem-lhe pela cabeça: oito, sete, nove, quatro, um, dois…

 

Por trás de uma porta não identificada, bem no interior do Terminal 3 do Aeroporto de Heathrow, Gabriel estava sentado a olhar para um computador portátil aberto, com Graham Seymour ao lado. Na mão tinha uma pen drive com o que se encontrava no caderno de notas do senhor Al-Siddiqi; e, no ecrã do computador, estava uma imagem vídeo em tempo real do banco privado do senhor Al-Siddiqi em Linz, cortesia de Yossi Gavish, que estava sentado num Opel estacionado à porta. O relatório de vigilância não indicava qualquer sinal do inimigo, qualquer sinal de problemas. Ao lado, estava um relógio de contagem decrescente: 8m27s, 8m26s, 8m25s, 8m24s… Era o tempo que faltava para o download do material do computador do senhor Al-Siddiqi.

— Então e o que acontece a seguir? — perguntou Seymour.

— Esperamos até os números todos passarem a zero.

— E depois?

— A Jihan vai lembrar-se que deixou o telemóvel na secretária do senhor Al-Siddiqi.

— Esperemos que o Al-Siddiqi não tenha maneira de alterar à distância o código da porta do gabinete.

Gabriel olhou para o relógio: 8m06s, 8m05s, 8m04s…

 

Sete minutos depois, Jihan Nawaz começou a procurar o telemóvel. Era uma simulação, uma mentira, representada para as câmaras de vigilância do senhor Al-Siddiqi e, talvez, para os próprios nervos dela. Procurou no tampo da secretária, nas gavetas, no chão à volta, no cesto dos papéis. Até procurou na casa de banho e na sala de descanso, embora tivesse a certeza de que não tinha estado em nenhum desses sítios desde que utilizara o telemóvel pela última vez. Por fim, marcou o número ligando do telefone fixo em cima da secretária e ouviu-o tocar baixinho do outro lado da porta do senhor Al-Siddiqi. Praguejou baixinho, mais uma vez para as câmaras do senhor Al-Siddiqi, e ligou para o telemóvel dele para pedir licença para entrar no gabinete. Ninguém atendeu. Voltou a ligar, com o mesmo resultado.

Tornou a pousar o auscultador no descanso. De certeza, pensou, mais uma vez em proveito próprio, que o senhor Al-Siddiqi não se importaria se ela entrasse no gabinete para ir buscar o telemóvel. Afinal, tinha acabado de lhe conceder acesso aos seus ficheiros mais pessoais. Olhou para o relógio e viu que tinham passado dez minutos. Depois, agarrou numa pasta de couro preta e levantou-se. Forçou-se a andar sem pressas até à porta dele; sentiu a mão dormente enquanto marcava os seis números no teclado com código secreto: oito, sete, nove, quatro, um, dois… O ferrolho abriu-se instantaneamente com um estalido forte. Imaginou que era o percussor da pistola que lhe iria disparar a bala fatal na cabeça. Empurrou a porta e entrou, cantarolando baixinho para esconder o medo.

 

A escuridão era impenetrável, absoluta. Dirigiu-se para a secretária e pousou a mão direita no telemóvel. Depois, com a esquerda, pousou a pasta em cima da outra igual que tinha lá deixado dez minutos atrás — a pasta que estava esconder o disco duro externo da vista das câmaras do senhor Al-Siddiqi. Num movimento rápido e treinado, tirou a pen da porta USB e levantou os três objetos — o disco rígido e as duas pastas iguais —, apertando-os contra a parte da frente da blusa. A seguir, saiu e fechou a porta. Os ferrolhos fecharam-se com outro tiro de pistola. Enquanto voltava para a secretária, os números encheram-lhe novamente os pensamentos. Eram o número de dias, o número de horas, que ainda tinha de vida.

 

À uma hora da tarde, Jihan informou Herr Weber de que ia almoçar. Agarrou na carteira e pôs os óculos de sol à estrela de cinema. Depois, com um baixar de cabeça seco a Sabrina, a rececionista, saiu para a rua. Na rotunda, estava um elétrico parado à espera; subiu a bordo rapidamente, seguida poucos segundos depois pelo sujeito alto com pele exangue e olhos cinzentos. Sentou-se mais perto de Jihan do que o habitual, como se estivesse a tentar dar-lhe segurança; e quando ela desceu na Mozartstrasse, o da cara marcada pelas bexigas estava à espera para a acompanhar até ao Franzesco. A mulher que conhecia como Ingrid Roth estava a ler D. H. Lawrence numa mesa ao sol. Quando Jihan se sentou à frente dela, baixou o livro e sorriu.

— Como foi a tua manhã? — perguntou.

— Produtiva.

— Está na tua carteira?

Jihan assentiu com a cabeça.

— Vamos pedir?

— Não consigo comer.

— Come qualquer coisa, Jihan. E sorri — acrescentou ela. — É importante que sorrias.

 

O voo 316 da El Al parte diariamente do Terminal 1 de Heathrow, às 14h20. Gabriel entrou no avião com alguns minutos de folga, enfiou a bagagem no compartimento por cima da cabeça e sentou-se no lugar que lhe cabia, na primeira classe. O lugar ao lado não estava ocupado. Passados uns instantes, Chiara instalou-se nele.

— Olá, desconhecido — disse ela.

— Como conseguiste isto?

— Amigos em lugares importantes.

Sorriu.

— Como correram as coisas lá?

Sem falar, Gabriel ergueu a pen.

— E a Jihan?

Assentiu com a cabeça.

— Quanto tempo temos para descobrir o dinheiro?

— Pouco — respondeu ele.