O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 52 de 65

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O Assalto

50. Attersee, Áustria

50

ATTERSEE, ÁUSTRIA

 

Foram para o terraço e sentaram-se à sombra de um guarda-sol. Um barco a motor que passava abriu uma ferida no lago; depois o barco desapareceu e ficaram sozinhos outra vez. Até poderia ter parecido que eram as duas últimas pessoas no mundo não fosse o som da voz de Waleed al-Siddiqi a sair do computador portátil na sala de estar.

— Estou a ver que adquiriu outro barco — disse Jihan, apontando com a cabeça para o veleiro.

— Bem, na verdade os meus colegas é que o adquiriram por minha causa.

— Porquê?

— Estava a dar com eles em doidos.

— Por causa de quê?

— Da Jihan. Queria ter a certeza de que estávamos a fazer tudo o que era possível para a manter em segurança.

Ela ficou calada por uns instantes.

— Velejar aqui deve ser muito diferente de fazer isso no Báltico. — Olhou para ele e sorriu. — É lá que o senhor velejava, não é? No Báltico? — Ele assentiu com a cabeça lentamente. — Nunca gostei disso — disse ela.

— Do Báltico?

— De velejar. Não gosto da sensação de não estar a dominar as coisas.

— Posso ir a todo o lado naquele barquinho à vela.

— Então deve ser muito bom a dominar.

Gabriel não respondeu.

— Porquê? — perguntou Jihan passados uns instantes. — Porque é assim tão importante conseguirmos esses documentos do Kemel al-Farouk?

— Por causa da relação dele com a família do presidente — respondeu Gabriel. — O Kemel al-Farouk é o ministro adjunto dos Negócios Estrangeiros da Síria. Aliás, vai estar sentado à mesa das negociações quando as conversações começarem segunda-feira à tarde. Mas esse título não corresponde ao alcance da influência que ele tem. O presidente nunca toma uma decisão, política ou financeira, sem falar primeiro com o Kemel. Achamos que há mais dinheiro por aí — acrescentou Gabriel. — Muito mais. E achamos que os documentos do Kemel nos podem indicar o caminho.

— Acham?

— Não há garantias neste ramo, Jihan.

— E que ramo é esse? — Gabriel voltou a ficar calado. — Mas por que razão o senhor Al-Siddiqi quer que eu vá buscar os documentos? — perguntou Jihan. — Porque não vai ele?

— Porque mal a delegação síria chegue a Genebra, vai estar sob vigilância constante dos serviços secretos suíços, já para não falar dos americanos e dos aliados europeus deles. É completamente impossível que o Al-Siddiqi se consiga aproximar da delegação.

— Eu também não me quero aproximar deles. São as mesmas pessoas que destruíram a minha cidade, as mesmas pessoas que assassinaram a minha família. Estou a falar consigo em alemão por causa de homens como eles.

— Então porque não se junta à revolta síria, Jihan? Porque não vinga o assassínio da sua família trazendo-nos esses documentos?

Da sala de estar, chegou o som de Waleed al-Siddiqi a rir.

— Oito mil milhões de dólares não chegam? — perguntou ela passados uns instantes.

— É uma grande soma de dinheiro, Jihan, mas eu quero mais.

— Porquê?

— Porque nos permitirá ter mais influência nas ações dele.

— Do presidente? — Ele assentiu com a cabeça. — Desculpe — disse ela, sorrindo —, mas isso não parece coisa que um cobrador de impostos alemão diga. — Ele esboçou um sorriso evasivo, mas não disse nada. — E como iria a coisa funcionar? — perguntou ela.

— A Jihan vai fazer tudo o que o senhor Al-Siddiqi pedir — respondeu Gabriel. — Vai de avião para Genebra segunda-feira de manhã, muito cedo. No aeroporto, apanha um carro com motorista para o Hotel Métropole e vai buscar os documentos. A seguir, volta para o aeroporto e regressa a Linz.

Fez uma pausa e depois acrescentou:

— A determinada altura, durante a viagem, vai fotografar os documentos com o telemóvel e enviar-mos.

— E depois?

— Se, como suspeitamos, esses documentos forem uma lista de contas adicionais, vamos atacá-las enquanto a Jihan ainda estiver no ar. Quando o avião aterrar em Viena, estará tudo terminado. E depois, fazemo-la desaparecer.

— Para onde? — perguntou ela. — Para onde me vão levar?

— Para um sítio seguro. Um sítio onde ninguém lhe poderá fazer mal.

— Desculpe, mas isso não chega — retorquiu. — Quero saber para onde me tenciona levar quando isto acabar. E, já agora, quando o estiver a fazer, pode dizer-me quem é realmente. E, desta vez, quero a verdade. Sou uma filha de Hama. Não gosto que as pessoas me mintam.

 

Entraram para o barco a motor com a civilidade forçada de um casal desavindo e desceram o lago para sul. Jihan estava sentada rigidamente na ré, com as pernas e os braços cruzados e os olhos a abrirem dois buracos na nuca de Gabriel. Tinha absorvido a confissão dele num silêncio irado, uma mulher a ouvir o marido confessar a sua infidelidade. Por agora, ele não tinha mais nada a dizer. Era a vez de ela falar.

— Seu filho da mãe! — disse por fim.

— Já se sente melhor agora? — Gabriel disse essas palavras sem se virar para ela. Pelos vistos, Jihan não as achou dignas de resposta. — E se eu lhe tivesse contado a verdade no início? — perguntou ele. — O que tinha feito?

— Tinha-lhe dito para ir para o inferno.

— Porquê?

— Porque é igualzinho a eles.

Gabriel deixou passar uns instantes antes de responder.

— Tem todo o direito de estar zangada, Jihan. Mas não se atreva a comparar-me com o carniceirozinho de Damasco.

— Você é pior!

— Poupe-me às palavras de ordem. Porque se o conflito na Síria provou alguma coisa, foi que somos verdadeiramente diferentes dos nossos adversários. Cento e cinquenta mil mortos, milhões transformados em refugiados, tudo isto às mãos de irmãos árabes.

— Vocês fizeram a mesma coisa! — disparou ela imediatamente.

— Tretas! — Ainda não se tinha voltado para ela. — Pode ter dificuldade em acreditar — disse —, mas eu quero que os Palestinianos tenham um Estado deles. De facto, tenciono fazer tudo ao meu alcance para tornar isso realidade. Mas, por agora, não é possível. São precisos dois lados para se construir a paz.

— Vocês é que estão a ocupar a terra deles! — Gabriel não se deu ao trabalho de lhe dar resposta porque já tinha aprendido há muito tempo que aquelas discussões acabavam quase sempre por parecer um gato a perseguir a própria cauda. Preferiu desligar o motor e girar a cadeira para ficar de frente para ela. — Tire esse disfarce — disse ela. — Deixe-me ver-lhe a cara. — Ele tirou os óculos falsos. — E agora a peruca. — Fez o que lhe era pedido. Ela inclinou-se para a frente e olhou fixamente para a cara dele. — Tire as lentes de contacto. Quero ver-lhe os olhos.

Tirou as lentes, uma de cada vez, e atirou-as para o lago.

— Já está satisfeita, Jihan?

— Porque fala alemão tão bem?

— Os meus antepassados eram de Berlim. A minha mãe foi a única que sobreviveu ao Holocausto. Quando chegou a Israel, não sabia falar hebraico. O alemão foi a primeira língua que ouvi na vida.

— E a Ingrid?

— Os pais dela tiveram seis filhos, um por cada milhão assassinado no Holocausto. A mãe e duas irmãs foram mortas por um bombista suicida do Hamas. A Ingrid ficou gravemente ferida. É por isso que coxeia. É por isso que nunca usa calções ou vestidos.

— E qual é o nome verdadeiro dela?

— Não é importante.

— E qual é o seu?

— Que diferença faz isso? Você odeia-me por causa de quem sou. Odeia-me por causa daquilo que sou.

— Odeio-o porque me mentiu.

— Não podia fazer outra coisa. — O vento agitou-se e trouxe com ele o cheiro a rosas. — Nunca desconfiou mesmo que fôssemos de Israel?

— Desconfiei, sim — confessou.

— E porque não perguntou nada?

Ela não respondeu.

— Se calhar, não perguntou nada porque não queria saber a resposta. E, se calhar, agora que teve oportunidade para gritar comigo e chamar-me nomes, talvez possamos voltar ao trabalho. Vou transformar o carniceiro de Damasco num pobre. Vou fazer com que nunca mais volte a usar gás tóxico contra o próprio povo, que nunca mais transforme outra cidade num monte de ruínas. Mas não o posso fazer sozinho. Preciso da sua ajuda.

Fez uma pausa e depois perguntou:

— Vai ajudar-me, Jihan?

Ela estava a arrastar a mão pela água, como uma criança.

— Para onde vou quando isto acabar?

— Para onde acha?

— Nunca poderia viver aí.

— Não é tão mau como a levaram a acreditar. De facto, até é bastante bonito. Mas não se preocupe — acrescentou —, não terá de ficar muito tempo. Mal seja seguro ir-se embora, poderá viver onde bem quiser.

— E desta vez está a dizer-me a verdade ou isto é mais uma das suas mentiras? — Gabriel não disse nada. Jihan apanhou uma mão-cheia da água do lago e deixou-a escorrer por entre os dedos. — Vou fazê-lo — disse por fim. — Mas preciso que me faça uma coisa em troca.

— O que quiser, Jihan.

Olhou para ele em silêncio durante uns instantes. E depois disse:

— Preciso de saber como se chama.

— Não é importante.

— Para mim, é — respondeu ela. — Diga-me o seu nome ou pode arranjar outra pessoa para ir buscar esses documentos a Genebra.

— Não é assim que se fazem as coisas no nosso ramo.

— Diga-me o seu nome — repetiu ela. — Vou escrevê-lo na água e depois esquecê-lo.

Ele sorriu-lhe e disse-lhe o nome.

— Como o arcanjo? — perguntou ela.

— Sim — respondeu ele. — Como o arcanjo.

— E o apelido?

Disse-lho também.

— É-me familiar.

— E devia ser.

Jihan inclinou-se por cima da borda do barco e gravou o nome dele na superfície negra do lago. Uma rajada de vento soprou das montanhas do Inferno e apagou-o.