O Assalto
34. Avenida Rei Saul, Telavive
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AVENIDA REI SAUL, TELAVIVE
Parece difícil de imaginar, mas houve tempos em que os seres humanos não sentiam necessidade de partilhar cada momento que passavam acordados com milhões, senão mesmo milhares de milhões, de completos e perfeitos desconhecidos. Se uma pessoa ia a um centro comercial comprar uma peça de roupa, não fazia publicações com atualizações a cada minuto numa rede social; e se fazia figuras tristes numa festa, não deixava um registo fotográfico desse episódio lamentável num álbum digital que sobreviveria para toda a eternidade. Mas atualmente, na era das inibições perdidas, parecia que nenhum pormenor da vida era demasiado trivial ou humilhante para ser partilhado. Nos tempos em linha, era mais importante viver sonoramente do que viver com dignidade. Os seguidores que se tinha na Internet eram mais prezados do que os amigos de carne e osso, já que traziam a promessa ilusória da celebridade, senão mesmo da imortalidade. Se Descartes fosse vivo, poderia ter escrito: Twitto, logo existo.
Há muito que os empregadores já tinham percebido que a presença em linha de um indivíduo dizia imenso sobre a sua personalidade. Sem surpresa, os vários serviços secretos do mundo também tinham descoberto a mesma coisa. No passado, os espiões tinham de abrir a correspondência alheia e vasculhar as gavetas de outra pessoa para ficar a saber os segredos mais íntimos de um potencial alvo ou recruta. Agora, bastava-lhes carregar numas teclas que os segredos lhes iam parar direitinhos ao colo: nomes de amigos e inimigos, amores perdidos e velhas feridas, paixões e desejos secretos. Nas mãos de um agente capaz, esses pormenores serviam de autêntico mapa das estradas para o coração humano. Permitiam-lhe premir qualquer botão, fazer uso de qualquer emoção, praticamente a bel-prazer. Por exemplo, era fácil amedrontar um alvo se esse alvo já tivesse entregado de livre vontade as chaves dos seus centros de medo. E o mesmo se aplicava se o agente quisesse alegrar o alvo.
Jihan Nawaz, gestora de conta no Bank Weber AG, nascida na Síria e naturalizada alemã, não era exceção. Com conhecimentos tecnológicos, era pioneira do Facebook, utilizadora inveterada do Twitter e tinha descoberto recentemente os prazeres do Instagram. Quando lhe rebuscou essas contas, a equipa descobriu que vivia num pequeno apartamento logo a seguir à Innere Stadt de Linz, tinha uma gata problemática chamada Cleópatra e que o carro, um velho Volvo, só lhe trazia chatices. Ficou a saber o nome dos bares e das discotecas que preferia, dos restaurantes que preferia e do café onde ia todas as manhãs, para beber o café e comer o pão da praxe, a caminho do emprego. E também ficou a saber que nunca tinha sido casada e que o último namorado sério a tratara de maneira deplorável. Acima de tudo, a equipa ficou a saber que nunca tinha conseguido penetrar na xenofobia natural dos austríacos e que se sentia sozinha. Era uma história que eles compreendiam bem. Jihan Nawaz, como os judeus antes dela, era a forasteira.
Curiosamente, Jihan Nawaz nunca falava em linha de dois elementos dessa vida: do sítio onde trabalhava nem do país onde tinha nascido. Tal como não havia referências ao banco nem à Síria nas montanhas de e-mails pessoais que os piratas informáticos da Unidade 8200, a agência de vigilância eletrónica israelita, desenterraram das variadíssimas contas dela. Eli Lavon, que tinha sentido o ambiente tenso dentro do banco, interrogou-se se Jihan estaria tão-só a seguir ordens impostas por Waleed al-Siddiqi, o homem que trabalhava atrás de uma porta fechada à chave, guardado por dois alauitas armados. Mas Bella Navot desconfiava que a origem do silêncio de Jihan tinha outra explicação. Por isso, enquanto o resto da equipa analisava minuciosamente os despojos digitais, Bella foi para as salas de arquivo da Investigação e começou a escavar.
As primeiras vinte e quatro horas de pesquisa não trouxeram nada de valor. A seguir, teve um pressentimento e foi buscar os dossiês antigos que tinha sobre um incidente que ocorrera na Síria, em fevereiro de 1982. Sob a orientação de Bella, o Departamento tinha produzido dois relatos finais do incidente — um documento altamente secreto, para uso interno da comunidade dos serviços secretos israelitas, e um livro branco não confidencial que foi divulgado publicamente por intermédio do Ministério dos Negócios Estrangeiros. As duas versões do relatório incluíam o testemunho ocular de uma rapariga, mas Bella não revelara o nome dela em nenhum dos documentos para lhe proteger a identidade. No entanto, nas profundezas dos dossiês pessoais de investigação, encontrava-se uma transcrição da declaração original da rapariga e, no final dessa transcrição, aparecia o seu nome. Passados dois minutos, quase sem respirar depois de uma corrida da Investigação até à Sala 456C, pousou o documento à frente de Gabriel com ar triunfante.
— É por causa de Hama. A coitadinha estava em Hama.
— E o que sabemos realmente do Waleed al-Siddiqi?
— O suficiente para termos a certeza de que é dele que andamos à procura, Uzi.
— Faz-me a vontade, Gabriel.
Navot tirou os óculos e massajou a cana do nariz, coisa que fazia sempre que não sabia bem como agir. Estava sentado à secretária, grande e de vidro, com um pé em cima do papel mata-borrão. Atrás dele, um Sol cor de laranja ia-se afundando lentamente na direção da superfície do Mediterrâneo. Gabriel ficou a observá-lo durante um momento. Há já muito tempo que não via o sol.
— É alauita — disse por fim — e vem de Alepo. Quando estava a trabalhar em Damasco, dizia fazer parte da família do presidente. Conforme poderás calcular, nenhuma das brochuras do Bank Weber faz referência a essas ligações de sangue.
— E qual é ao certo a ligação dele?
— Pelos vistos, é primo afastado da mãe, o que quer dizer bastante. Foi a mãe quem disse ao filho para cair com tudo em cima dos manifestantes.
— Até parece que tens andado a passar tempo com a minha mulher.
— E tenho.
Navot sorriu.
— Então o Waleed al-Siddiqi é um dos membros fundadores da Evil Incorporated?
— É o que estou a dizer, Uzi.
— E como enriqueceu?
— Começou a carreira na indústria farmacêutica estatal da Síria, o que também quer dizer bastante.
— Porque a indústria farmacêutica da Síria é uma extensão do programa de armas químicas e biológicas do país.
Gabriel assentiu com a cabeça lentamente.
— O Al-Siddiqi garantiu que boa parte dos lucros dessa indústria entrasse diretamente nos cofres da família. E também garantiu que as empresas ocidentais que quisessem fazer negócios na Síria pagassem por esse privilégio por via de subornos e comissões. E, algures pelo caminho, Al-Siddiqi tornou-se muito rico. — Fez uma pausa e depois acrescentou: — Suficientemente rico para comprar um banco.
Navot franziu o sobrolho.
— E quando saiu o Al-Siddiqi da Síria?
— Há quatro anos.
— Precisamente quando a Primavera Árabe estava no auge — realçou Navot.
— Não foi coincidência. O Al-Siddiqi andava à procura de um sítio seguro para gerir a fortuna da família. E descobriu um quando um pequeno banco de Linz entrou em dificuldades durante a Grande Recessão.
— Achas que o dinheiro está depositado em contas no Bank Weber?
— Uma parte — respondeu Gabriel. — E ele está a vigiar o resto servindo-se do Bank Weber como cartão de visita.
— E Herr Weber sabe?
— Não tenho a certeza.
— E a rapariga?
— Não — respondeu Gabriel. — Não sabe.
— Como podes ter a certeza?
— Porque um primo afastado do presidente sírio nunca ia confiar a uma rapariga de Hama o cargo de seu gestor de conta.
Navot pôs o pé no chão e pousou os fortes antebraços em cima da secretária. O vidro parecia estar em perigo de se partir sob o peso do seu poderoso corpo.
— Então qual é a tua ideia? — perguntou.
— Ela anda à procura de um amigo — respondeu Gabriel. — E eu vou dar-lhe um.
— Rapaz ou rapariga?
— Rapariga — respondeu Gabriel. — Sem dúvida, uma rapariga.
— E quem estás a pensar usar?
Gabriel respondeu-lhe.
— Ela é analista.
— E fala alemão e árabe fluentemente.
— E de que tipo de abordagem estamos a falar?
— Dura, lamento dizê-lo.
— E a bandeira?
— Posso assegurar-te que não vai ser azul e branca.
Navot sorriu. Quando trabalhava no terreno como katsa, as operações de falsa bandeira eram a sua especialidade. Fazia passar-se frequentemente por agente dos serviços secretos alemães quando recrutava espiões de países árabes ou dentro das fileiras de organizações terroristas. Era mais fácil convencer um árabe a trair o país, ou a causa em que acreditava, se esse árabe não soubesse que estava a trabalhar para o Estado de Israel.
— E o que estás a pensar fazer em relação à Bella? — perguntou.
— Ela quer ir para o terreno. Disse-lhe que a decisão era tua.
— A mulher do chefe não vai para o terreno.
— Ela vai ficar desapontada.
— Já estou habituado.
— E tu, Uzi?
— E eu o quê?
— Dava-me jeito que ajudasses no recrutamento.
— Porquê?
— Porque os teus avós viveram em Viena antes da guerra e tu falas alemão como um pastor de cabras austríaco.
— É melhor do que esse teu horroroso sotaque de Berlim.
Navot olhou para os monitores de vídeo na parede, que mostravam uma família na cidade sitiada de Homs a preparar uma refeição de ervas daninhas cozidas. Era a única coisa que ainda havia na cidade para comer.
— Só precisas de pensar em mais uma coisa — disse. — Se cometeres o mais pequeno erro que seja, o Waleed al-Siddiqi vai cortar essa rapariga aos bocadinhos e atirá-la para o Danúbio.
— Por acaso — retorquiu Gabriel —, primeiro até vai deixar que os rapazes se divirtam um bocadinho com ela. E só depois a vai matar.
Navot desviou os olhos dos monitores e fitou Gabriel com um ar sério.
— Tens a certeza de que queres ir para a frente com isto?
— Absoluta.
— Estava com esperanças que fosses dizer isso.
— E o que vamos fazer em relação à Bella?
— Leva-a. Ou, melhor ainda, envia-a logo para Damasco.
Navot olhou outra vez para os monitores de vídeo e abanou a cabeça lentamente.
— O raio desta guerra acabava numa semana.
Mais tarde, nessa mesma noite, o Guardian de Londres publicou uma notícia que acusava o regime sírio de recorrer à tortura e ao assassínio em escala industrial. A notícia baseava-se num conjunto de fotografias que o homem que as tinha tirado fizera sair clandestinamente da Síria. Mostravam os corpos de milhares de pessoas, maioritariamente rapazes, que tinham morrido enquanto estavam detidos pelo governo. Alguns tinham sido mortos a tiro. Outros apresentavam marcas de enforcamento ou eletrocussão. E outros ainda já não tinham olhos. Pareciam quase todos esqueletos humanos.
Foi com esse pano de fundo que a equipa levou a cabo os preparativos finais. Adquiriram à Divisão de Logística duas propriedades seguras — um pequeno apartamento no centro de Linz e uma grande villa amarelo-acastanhada, nas margens do Attersee, quarenta quilómetros para sul. A Divisão de Transportes tratou dos carros e das motas; a Divisão de Identidade, dos passaportes. Gabriel tinha vários por onde escolher, mas acabou por se decidir por Jonathan Albright, um americano que trabalhava para uma coisa chamada Markham Capital Advisers, de Greenwich, no Connecticut. Albright não era um consultor financeiro vulgar. Recentemente, tinha conseguido tirar um espião russo de São Petersburgo e infiltrá-lo clandestinamente no Ocidente. E, antes disso, introduzira um carregamento de centrifugadoras sabotadas na cadeia de fornecimento nuclear do Irão.
Quando terminaram os preparativos, os membros da equipa saíram da Avenida Rei Saul e dirigiram-se para os respetivos «pontos de transição rápida», uma constelação de apartamentos seguros na zona de Telavive onde os agentes de campo do Departamento assumiam as novas identidades antes de partirem de Israel para as missões. Como de costume, viajaram para o destino final a horas diferentes e por percursos diferentes, para não levantar suspeitas junto das autoridades de imigração locais. Mordecai e Oded foram os primeiros a chegar à Áustria; Dina Sarid, a última. O passaporte identificava-a como Ingrid Roth, natural de Munique. Passou uma única noite na villa junto ao Attersee. Depois, às doze horas do dia seguinte, ocupou o apartamento de Linz. Nessa noite, quando estava à janela da exígua sala de estar, viu um velho Volvo a chocalhar até parar à entrada do prédio, do outro lado da rua. A mulher que saiu do lugar do condutor era Jihan Nawaz.
Dina tirou uma fotografia a Jihan e enviou-a por via segura para a Sala 456C, onde Gabriel se encontrava a trabalhar até tarde, tendo como única companhia os dossiês de Bella sobre o massacre de Hama. Saiu da Avenida Rei Saul quando passavam poucos minutos das dez e, ignorando os procedimentos normais do Departamento, voltou para o apartamento da Rua Narkiss para passar a última noite em Israel com a mulher. Ela estava a dormir quando ele chegou; enfiou-se na cama sem fazer barulho e pôs-lhe a mão em cima do abdómen. Ela mexeu-se, deu-lhe um beijo ensonado e depois adormeceu novamente. E de manhã, quando acordou, ele já lá não estava.