O Assalto
46. Aeroporto de Heathrow, Londres
46
AEROPORTO DE HEATHROW, LONDRES
A delegação do ministro alemão foi a primeira a chegar. Viktor Orlov achou apropriado, pois sempre considerara os alemães uns expansionistas natos. A passagem pela fiscalização de passaportes foi-lhes facilitada pela ajuda de um assistente oficial britânico e foram acompanhados até ao átrio das chegadas, onde uma mulher bonita — russa, mas não ostensivamente — estava num quiosque improvisado que dizia A INICIATIVA EMPRESARIAL EUROPEIA. A rapariga confirmou os nomes e encaminhou-os para um autocarro luxuoso que estava à espera e os levou para o Dorchester Hotel, o hotel oficial da conferência. Só um dos membros da delegação, um delegado que fazia uma coisa qualquer que tinha que ver com comércio, se queixou do alojamento. Fora isso, foi um excelente início.
Os holandeses chegaram depois, seguidos pelos franceses e os italianos e os espanhóis e um grupo de noruegueses que parecia ter vindo a Londres para um funeral. Depois, foi o aço alemão, seguido pelos automóveis alemães e pelos eletrodomésticos também alemães. A delegação da indústria da moda italiana fez a chegada mais espalhafatosa e a mais discreta foi a dos banqueiros suíços, que conseguiram entrar na cidade sem serem notados. Os gregos mandaram um único ministro-adjunto, cuja função era pedir dinheiro. Orlov referia-se a este como o ministro de Boné na Mão.
A seguir, chegou a delegação da Maersk, o consórcio dinamarquês de energia e transportes marítimos. Depois, a meio da tarde, num voo da British Airways vindo de Viena, chegou um homem chamado Waleed al-Siddiqi, primeiramente de Damasco e ultimamente de Linz, onde tinha uma participação num pequeno banco privado. Curiosamente, foi o único convidado que chegou com guarda-costas, além do primeiro-ministro italiano, que ninguém queria ver morto. A rapariga do quiosque teve de se esforçar durante uns curtos momentos para o encontrar na lista, pois faltava o artigo definido al no nome. Era um pequeno erro, completamente não intencional, que o Departamento considerava ser o traço distintivo de qualquer operação bem planeada.
Parecendo um pouco aborrecidos, Al-Siddiqi e os guarda-costas encaminharam-se para o exterior, onde uma limusina Mercedes de cortesia esperava junto ao passeio. O carro pertencia ao MI6, tal como o motorista. Uns cinquenta metros atrás da limusina, estava um Opel Astra vermelho. Nigel Whitcombe estava sentado ao volante; Gabriel estava sentado no lugar do passageiro, com um auricular minúsculo. O auricular, assim como o transmissor escondido a que estava ligado, mostraram ser desnecessários pois Waleed al-Siddiqi passou toda a viagem até Londres no mais completo e profundo silêncio. Fora isso, foi, pensou Gabriel, um excelente início.
Seguiram-no até Dorchester; depois Whitcombe deixou Gabriel num apartamento seguro do Departamento, que não era assim tão seguro, na Bayswater Road. A sala de estar dava para Lancaster Gate e o Hyde Park e foi aí que Gabriel montou o modesto posto de comando. Tinha um telefone seguro e dois computadores portáteis, um ligado à rede do MI6 e o outro ligado à equipa em Linz. O computador do MI6 permitia-lhe monitorizar o sinal do transmissor que tinha sido instalado no quarto de hotel de Al-Siddiqi; o sinal do telemóvel desprotegido de Jihan passava no outro. Naquele momento, ela estava a andar pela Mozartstrasse, cantarolando baixinho. Segundo o relatório que acompanhava a vigilância, Mikhail Abramov seguia atrás dela e Yaakov Rossman percorria o passeio do lado oposto. Não havia sinal do inimigo. Não havia sinal de problemas.
E foi assim que Gabriel passou aquela longa noite a escutar outras vidas, a ler a torrente sóbria de relatórios de vigilância, a deambular por operações passadas. Percorreu o chão da sala de um lado para o outro, atormentou-se com uma centena de pormenores, pensou na mulher e nos filhos ainda por nascer. E, às duas da manhã, quando Jihan se acordou a ela mesma com um grito de terror, Gabriel considerou, por breves instantes, a hipótese de a fazer desaparecer. Mas não era possível, para já, ainda não. Não precisava apenas do caderno de notas de Waleed al-Siddiqi; também precisava do que estava no computador pessoal dele. E, para isso, precisava da filha de Hama.
Por fim, quando o céu estava a começar a iluminar-se a leste, deitou-se no sofá e dormiu. Acordou três horas depois, com um relato da Al Jazeera sobre a última atrocidade na Síria, seguido pelo chapinhar de água na luxuosa banheira com jacúzi de Waleed al-Siddiqi. O banqueiro privado saiu do quarto às oito e meia e, acompanhado pelos guarda-costas, participou do abundante pequeno-almoço do Dorchester. Enquanto lia o jornal, uma equipa do MI6 revistou-lhe o quarto para ver se, por um acaso qualquer, se teria esquecido do caderno. Não tinha.
Saiu do átrio do hotel sem os guarda-costas, às nove e vinte, com um conjunto de credenciais penduradas ao pescoço por uma fita azul e dourada. Gabriel soube disso porque uma fotografia de vigilância do MI6 apareceu no ecrã do computador dois minutos depois. A fotografia seguinte mostrava Al-Siddiqi a dar o nome à mesma rapariga russa que o tinha recebido no aeroporto. E, na seguinte, estava a entrar num autocarro luxuoso que o levou para leste, por Londres, até à entrada da Somerset House. Outro agente do MI6 tirou-lhe uma fotografia quando desceu do autocarro e passou, sem dizer uma palavra, por um pequeno grupo de repórteres. Os olhos chispavam-lhe de arrogância — e, talvez, pensou Gabriel, com um traço de orgulho deslocado. Parecia que Waleed al-Siddiqi tinha chegado ao ponto mais alto do mundo empresarial europeu. A sua estada ali não iria ser longa, pensou Gabriel. E a queda iria ser mais violenta do que a maior parte das outras.
Quando Gabriel o voltou a ver, o banqueiro privado estava a atravessar a área calcetada do Fountain Courtyard. A seguir, passados dois minutos, estava instalado no lugar que lhe cabia, numa magnífica sala de reuniões com o teto alto e com vista para o Tamisa. À esquerda, vestido em várias tonalidades de cinzento, estava Martin Landesmann, o bilionário suíço dos fundos de investimento. O cumprimento entre ambos — que Gabriel conseguiu ouvir graças a um transmissor escondido do MI6 — foi comedido, mas cordial. Landesmann depressa se embrenhou numa conversa com um dos executivos da Maersk, dando a Al-Siddiqi uns momentos para rever o monte de material impresso que tinha sido deixado no seu lugar. Aborrecido, fez um telefonema rápido, mas Gabriel não percebeu para quem. Depois ouviram-se umas batidas agudas que pareciam pregos a serem martelados num caixão. Mas não era um caixão; era apenas Viktor Orlov, a usar o martelo para iniciar a Iniciativa Empresarial Europeia.
Era em alturas como aquela que Gabriel se sentia satisfeito por ter nascido numa família de artistas e não numa família de gente de negócios. Porque, nas quatro horas seguintes, foi obrigado a suportar uma discussão estupidificante sobre a confiança do consumidor europeu, as margens de lucro antes dos impostos, o valor estandardizado, a proporção da dívida para o rendimento, os eurobonds, as obrigações em eurodólares e as euroemissões. Sentiu-se grato pelo intervalo do meio-dia; passou-o a ouvir Jihan e Dina, que almoçaram na Hauptplatz sob os olhares atentos de Oded e Eli Lavon.
A sessão da tarde da conferência começou às duas e foi imediatamente tomada de assalto por Martin Landesmann, que fez um discurso apaixonado sobre o aquecimento global e os combustíveis fósseis que deu origem a muito rolar de olhos e abanar de cabeças por parte dos homens da Maersk. Às quatro, uma moção apressadamente redigida sobre recomendações para políticas foi aprovada por unanimidade, tal como uma segunda moção que pedia outra reunião em Londres no ano seguinte. Depois, Viktor Orlov dirigiu-se à imprensa no Fountain Courtyard, declarando que a conferência tinha sido um êxito esmagador. Sozinho no apartamento seguro, Gabriel preferiu reservar a sua opinião.
A seguir, os delegados regressaram ao Dorchester para um curto descanso. Al-Siddiqi fez dois telefonemas do quarto, um para a mulher e outro para Jihan. Depois enfiou-se num autocarro da organização para o jantar no Turbine Hall da Tate Modern. Ficou sentado entre dois banqueiros suíços que passaram a maior parte da noite a queixar-se dos regulamentos bancários europeus que estavam a ameaçar o modelo de negócios deles. Al-Siddiqi culpou os americanos. Depois, por entre dentes, disse qualquer coisa sobre os judeus que fez os banqueiros suíços rirem-se à gargalhada.
— Ouça, Waleed — disse um dos gnomos —, devia mesmo fazer-nos uma visita da próxima vez que for a Zurique. Tenho a certeza de que lhe poderemos ser úteis, a si e aos seus clientes.
Os banqueiros suíços disseram que tinham de se levantar cedo e foram-se embora antes da sobremesa. Al-Siddiqi passou uns minutos a conversar com um homem do Lloyds sobre o risco de fazer negócios com os russos e depois deu a noite por terminada. Dormiu bem nessa noite, tal como Gabriel, e acordaram ao mesmo tempo, na manhã seguinte, com a notícia de que as forças governamentais sírias tinham registado uma vitória importante sobre os rebeldes na cidade de Homs. Al-Siddiqi tomou banho e comeu um pequeno-almoço luxuoso; Gabriel tomou um duche rápido e engoliu uma chávena de Nescafé duplamente forte. A seguir, dirigiu-se para a Bayswater Road e entrou para o lugar do passageiro de um Opel Astra que o esperava. Ao volante, com o uniforme azul de segurança do aeroporto, estava Nigel Whitcombe. Enfiou-se cuidadosamente no meio do trânsito matinal e seguiram para Heathrow.
Às 8h32, caía uma chuva suave quando Waleed al-Siddiqi saiu pela grande porta de entrada do Hotel Dorchester, com um guarda-costas de cada lado. A limusina de luxo do MI6 estava à espera na entrada, juntamente com o motorista do MI6, que estava de pé ao lado da porta aberta, com as mãos entrelaçadas atrás das costas, balançando-se ao de leve nas pontas dos pés.
— Senhor Siddiqi — chamou, tirando conscientemente o artigo definido do nome do cliente. — Permitam-me que os ajude, cavalheiros.
E foi precisamente o que fez, pondo as malas na bagageira e os donos delas dentro do carro: um guarda-costas no lugar do passageiro da frente, o outro atrás do lugar do motorista e o «senhor Siddiqi» no lugar do passageiro no banco de trás. Às 8h34, o carro virou para Park Lane. ALVO A CAMINHO, dizia a mensagem que apareceu na rede de comunicações do MI6. FOTOS QUANDO PEDIDAS.
A viagem até ao Aeroporto de Heathrow levou quarenta e cinco minutos e foi facilitada por o carro de Al-Siddiqi fazer parte de um cortejo clandestino do MI6, constituído por seis veículos. O voo, o 700 da British Airways, com destino a Viena, partia do Terminal 3. O motorista tirou as malas do porta-bagagens, desejou aos clientes uma boa viagem e, em troca, recebeu um olhar inexpressivo. Como o banqueiro sírio estava a viajar em primeira classe, o processo do check-in levou apenas dez minutos. A rapariga do balcão fez um círculo à volta do número no cartão de embarque e apontou para a área de segurança apropriada.
— Mesmo ali — disse. — Está com sorte, senhor Al-Siddiqi. As filas não estão demasiado assustadoras hoje de manhã.
Era impossível dizer se Waleed al-Siddiqi se considerava com sorte porque a expressão que ostentava enquanto atravessava o átrio cintilante de luzes e quadros com informações sobre os voos era a expressão de um homem a debater-se com assuntos mais sérios. Com os guarda-costas a seguirem-no, apresentou o passaporte e o cartão de embarque ao guarda da segurança para uma última inspeção e foi juntar-se à mais pequena das três filas. Viajante experimentado, despiu o casaco sem pressas e tirou os aparelhos eletrónicos e os líquidos que eram exigidos da pasta e do saco. Sem sapatos e em mangas de camisa, ficou a ver a correia transportadora sugar os pertences para dentro da barriga da máquina de raios X. Depois, quando lhe disseram, entrou no scanner de ondas milimétricas e levantou os braços com lassidão como se se estivesse a render depois de um longo cerco.
Tendo-se verificado que não tinha na sua posse nada proibido ou remotamente perigoso, foi convidado a ocupar o lugar que lhe cabia no final da correia transportadora. Um casal americano, de ar jovem e próspero, estava à espera à frente dele. Quando os cestos deles apareceram a rolar na correia, agarraram rapidamente nos pertences e apressaram-se para a zona comercial. Waleed al-Siddiqi franziu o sobrolho com uma expressão de superioridade e avançou. Distraidamente, apalpou a frente da camisa. Depois olhou para a correia transportadora imóvel e ficou à espera.
Durante trinta longos segundos, três seguranças franziram o sobrolho enquanto olhavam para o ecrã da máquina de raios X como se receassem que o doente já não tivesse muito tempo de vida. Por fim, um dos agentes afastou-se dos outros e, com o cesto de plástico na mão, dirigiu-se para o sítio onde Al-Siddiqi estava parado. O nome na placa no bolso do peito dizia CHARLES DAVIES. O seu nome verdadeiro era Nigel Whitcombe.
— Estas coisas são suas? — perguntou Whitcombe.
— Sim, são — respondeu Al-Siddiqi secamente.
— Precisamos de fazer uma fiscalização adicional. Não vai demorar nada — acrescentou Whitcombe jovialmente — e depois deixamo-lo ir à vontade.
— Seria possível dar-me o casaco do fato?
— Lamento — replicou Whitcombe, abanando a cabeça. — Há algum problema?
— Não — disse Al-Siddiqi, sorrindo contra vontade. — Não há problema nenhum.
Whitcombe convidou o banqueiro e os guarda-costas a sentarem-se na zona de espera. Depois levou o cesto de plástico para trás de uma barreira e depositou-o na mesa de inspeção, ao lado da pasta e do saco com o fato de Al-Siddiqi. O caderninho de notas encadernado em pele estava exatamente onde Jihan Nawaz tinha dito que estaria, no bolso esquerdo do peito do casaco. Whitcombe entregou-o rapidamente a uma jovem agente do MI6 chamada Clarissa, que o levou, numa distância curta, até uma porta que se abriu quando ela se aproximou. Do outro lado da porta, ficava uma sala pequena com paredes brancas e vazias ocupada por dois homens. Um dos homens era o seu diretor-geral. O outro era um homem com brilhantes olhos verdes e têmporas grisalhas, cujas façanhas ela tinha lido nos jornais. Houve qualquer coisa que a fez entregar o caderno de notas ao homem com os olhos verdes e não ao diretor-geral. Aceitando-o sem dizer uma palavra, abriu-o na primeira página e pô-lo debaixo da lente da máquina fotográfica de alta resolução para leitura de documentos. A seguir, encostou o olho ao visor e tirou a primeira fotografia.
— Vira a página — disse baixinho e, quando o diretor-geral do MI6 virou a página, tirou outra fotografia.
— Outra vez, Graham.
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— A próxima.
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— Mais depressa, Graham.
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— Outra vez.
Clique…