O Assalto
Segunda Parte: Girassóis
SEGUNDA PARTE
GIRASSÓIS
13
SAN REMO, ITÁLIA
O general Ferrari estava à espera junto à muralha da fortaleza antiga de San Remo, às duas da tarde do dia seguinte. Usava um fato de executivo, um sobretudo de lã e óculos escuros que lhe escondiam o olho prostético que tudo via. Com roupa de ganga e cabedal, Gabriel parecia o irmão mais novo e atormentado, aquele que tinha tomado todas as decisões erradas na vida e precisava uma vez mais de dinheiro. Enquanto iam caminhando pelo cais sujo, informou o general do que descobrira, embora tivesse tido o cuidado de não divulgar as fontes. O general não pareceu surpreendido com nada do que estava a ouvir.
— Só se esqueceu de referir uma coisa — disse.
— E qual foi?
— Que o Jack Bradshaw não era diplomata. Era espião.
— E como é que o senhor sabia?
— Toda a gente no ramo sabia do passado do Bradshaw. Era uma das razões para ele ser tão bom no que fazia. Mas não se preocupe — acrescentou o general —, não lhe vou dificultar as coisas com os seus amigos de Londres. Só quero o meu Caravaggio.
Saíram do cais e subiram a encosta da colina em direção ao centro da cidade. Gabriel interrogou-se por que razão alguém havia de querer passar férias ali. A cidade lembrava-lhe uma mulher que já tinha sido bonita a preparar-se para que lhe pintassem o retrato.
— O senhor enganou-me — disse ele.
— Nada disso — respondeu o general.
— Então como descreveria o que se passou?
— Omiti-lhe determinados factos para não influenciar a sua investigação.
— E sabia que o Caravaggio estava prestes a ser adquirido quando me pediu para investigar a morte do Bradshaw?
— Já tinha ouvido rumores nesse sentido.
— E também já tinha ouvido rumores sobre um colecionador que anda a comprar arte roubada a torto e a direito?
O general assentiu com a cabeça.
— E quem é ele?
— Não faço a mínima ideia.
— E desta vez está a dizer-me a verdade?
O general pôs a mão boa em cima do coração.
— Não sei a identidade da pessoa que anda a comprar todas as peças de arte a que consegue deitar a mão. E também não sei quem está por trás do assassínio do Jack Bradshaw. — Fez uma pausa e depois acrescentou: — Mas suspeito que se trate da mesmíssima pessoa.
— E porque mataram o Bradshaw?
— Imagino que tivesse deixado de ser útil.
— Por já ter entregado o Caravaggio?
O general assentiu com a cabeça de forma evasiva.
— Então porque o torturaram primeiro?
— Se calhar, quem o matou queria saber um nome.
— Yves Morel?
— O Bradshaw deve ter recorrido ao Morel para pôr o quadro em condições antes de poder ser vendido.
Olhou para Gabriel com um ar sério e perguntou:
— Como o mataram?
— Partiram-lhe o pescoço. Deu ideia de ter sido um corte transversal completo da medula.
O general fez uma cara feia.
— Silencioso e sem derramar sangue.
— E muito profissional.
— E o que fez você ao pobre diabo?
— Vão tratar dele — respondeu Gabriel em voz baixa.
— Quem?
— É melhor o senhor não saber os pormenores.
O general abanou a cabeça lentamente. Tinha acabado de se tornar cúmplice de um crime grave. Não era a primeira vez.
— Esperemos — disse, passado um momento — que a polícia francesa nunca descubra que você esteve no apartamento do Morel. Tendo em conta o seu historial, são capazes de ficar com a ideia errada.
— Pois — respondeu Gabriel sorumbaticamente —, esperemos que não.
Viraram para a Via Roma. Reverberava com o zunido de uma centena de motorizadas. Quando voltou a falar, Gabriel teve de levantar a voz para que o general o ouvisse.
— Quem foi a última pessoa a tê-lo? — perguntou.
— O Caravaggio? — Gabriel assentiu com a cabeça. — Nem eu tenho a certeza — admitiu o general. — Sempre que prendemos um mafioso, por mais insignificante que seja, ele oferece-se para nos dar informações sobre o paradeiro da Natividade a troco de uma pena de prisão reduzida. Escusado será dizer que já desperdiçámos inúmeras horas de trabalho a perseguir pistas falsas.
— Pensava que o senhor tinha estado quase a encontrá-lo há uns anos.
— Também eu, mas escapou-se-me por entre os dedos. Já estava a começar a pensar que nunca mais ia ter outra oportunidade para o recuperar. — Sorriu contra vontade. — E agora isto.
— Se o quadro tiver sido vendido, o mais provável é já não estar em Itália.
— Concordo. Mas, segundo a minha experiência — acrescentou o general — a melhor altura para encontrar um quadro roubado é logo a seguir a ter mudado de mãos. Só que temos de ser rápidos. Caso contrário, somos capazes de ter de esperar mais quarenta e cinco anos.
— Temos? — O general parou, mas não disse nada. — O meu envolvimento neste caso — afirmou Gabriel por cima do zumbido do trânsito — terminou oficialmente.
— Comprometeu-se a descobrir quem matou o Jack Bradshaw para que o nome do seu amigo não saísse nos jornais. Na minha opinião, ainda não completou a sua tarefa.
— Já lhe dei uma pista importante, para não falar em três quadros roubados.
— Mas não o quadro que eu quero. — Tirou os óculos e fitou Gabriel com a sua mirada monocular. — O seu envolvimento neste caso não terminou, Allon. Aliás, ainda agora começou.
Foram para um pequeno bar com vista para a marina. Estava vazio, com exceção de dois rapazes que se iam queixando do triste estado da economia. Nos tempos que corriam, era um cenário comum em Itália. Não havia empregos, não havia perspetivas, não havia futuro — apenas as lindas recordações do passado que o general e a equipa da Brigada de Arte tinham jurado proteger. Pediu um café e uma sanduíche e depois levou Gabriel para uma mesa lá fora, sob o sol frio.
— Sinceramente — disse quando ficaram outra vez a sós —, nem sei como consegue pensar sequer em abandonar o caso nesta altura. Era a mesma coisa que deixar um quadro por acabar.
— O meu quadro por acabar está em Veneza — respondeu Gabriel — e a minha mulher grávida também.
— O seu Veronese não corre perigo. E a sua mulher também não.
Gabriel olhou para um caixote do lixo a transbordar na borda da marina e abanou a cabeça. Os antigos romanos tinham inventado o aquecimento central, mas, algures pelo caminho, os descendentes deles tinham-se esquecido de como se deitava fora o lixo.
— Encontrar esse quadro pode demorar meses — disse.
— Não temos meses. Diria que temos, no máximo, umas semanas.
— Então suponho que era melhor o senhor general e os seus homens começarem a mexer-se.
O general abanou a cabeça lentamente.
— Nós somos bons a pôr telefones sob escuta e a fazer acordos com escumalha mafiosa. Mas não fazemos bem operações clandestinas, sobretudo fora de Itália. Preciso de quem atire um isco para dentro das águas do mercado da arte roubada e veja se conseguimos tentar o Senhor Peixe Graúdo a fazer outra aquisição. Ele anda por aí algures. Só precisamos de descobrir qualquer coisa que lhe interesse.
— Não se descobrem obras-primas que custem uma série de milhões de dólares. Roubam-se.
— Em grande estilo — acrescentou o general. — O que quer dizer que não devia ser qualquer coisa saída de uma casa ou de uma galeria privada.
— Tem noção do que está a dizer?
— Por acaso, até tenho.
O general fez um sorriso conspiratório.
— A maior parte das operações clandestinas implica enviar um falso comprador para o terreno. Mas a sua vai ser diferente. Você vai fazer passar-se por um ladrão que tem uma tela roubada para vender. E o quadro tem de ser verdadeiro.
— Então porque não me deixa pedir à Galeria Borghese que me empreste qualquer coisa bonita?
— O museu nunca iria na conversa. Além disso — acrescentou o general —, o quadro não pode vir de Itália. Caso contrário, quem tiver o Caravaggio pode desconfiar que eu estou envolvido.
— Nunca vai poder acusar ninguém depois de uma coisa destas.
— Acusar está em segundo lugar na minha lista de prioridades. Quero é recuperar esse Caravaggio.
O general calou-se de repente. Gabriel teve de reconhecer que estava intrigado com a ideia.
— Não posso de maneira nenhuma ser eu o protagonista da operação — disse passado um momento. — A minha cara é demasiado conhecida.
— Então suponho que vá ter de arranjar um bom ator para interpretar esse papel. E se fosse a si, também contratava uns capangas. O submundo pode ser um lugar perigoso.
— Não me diga. — O general ficou calado. — Os capangas não saem baratos — disse Gabriel. Nem os ladrões competentes.
— E não pode pedir ao seu serviço que lhe empreste uns quantos?
— Capangas ou ladrões?
— As duas coisas.
— Impossível.
— E de quanto dinheiro precisa?
Gabriel fez questão de mostrar que estava a ponderar bem a resposta.
— Dois milhões, no mínimo dos mínimos.
— Sou capaz de ter um milhão na lata de café debaixo da secretária.
— Aceito.
— Por acaso — retorquiu o general, sorrindo —, o dinheiro até está numa pasta dentro da bagageira do meu carro. E também tenho uma cópia do dossiê do caso Caravaggio. Assim já fica com alguma coisa para ler enquanto espera que o Senhor Peixe Graúdo venha à superfície.
— E se ele não morder o isco?
— Suponho que você terá de roubar outra coisa qualquer — respondeu o general, encolhendo os ombros. — É o que é maravilhoso quando se roubam obras-primas. Na verdade, não é mesmo nada difícil.
Conforme prometido, o dinheiro estava dentro da bagageira do carro oficial do general — um milhão de euros em notas já muito usadas, cuja origem o general não quis especificar. Gabriel pôs a pasta em cima do banco do passageiro do seu carro e arrancou sem dizer mais uma palavra. À saída de San Remo, já finalizara o esboço preparatório da operação para recuperar o Caravaggio perdido. Tinha financiamento e acesso ao ladrão de arte mais bem-sucedido do mundo. Agora, só precisava de uma pessoa para lhe introduzir um quadro roubado no mercado. Não podia ser um amador. Precisava de um agente experiente que tivesse sido treinado nas artes negras do logro. Uma pessoa que se sentisse à vontade ao pé de criminosos. Uma pessoa que soubesse cuidar de si própria se as coisas se tornassem violentas. Gabriel conhecia precisamente um homem assim, do outro lado do mar, na ilha da Córsega. Era um bocadinho como Maurice Durand, um antigo adversário que agora era um cúmplice, mas as semelhanças terminavam aí.