O Assalto
12. Montmartre, Paris
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MONTMARTRE, PARIS
Yves Morel vivia num prédio de apartamentos na Rue Ravignon. Quando Durand carregou no botão do intercomunicador, ninguém atendeu.
— Deve andar pela Place du Tertre.
— A fazer o quê?
— A vender cópias de quadros impressionistas famosos aos turistas, para as autoridades fiscais francesas julgarem que ele ganha a vida de forma legal.
Foram até à praça, uma confusão de cafés com esplanada e artistas de rua junto da basílica, mas Morel não se encontrava no sítio habitual. A seguir, experimentaram o bar preferido dele, na Rue de Norvins, mas também não havia sinal de Morel por lá. Ligaram-lhe para o telemóvel, mas a chamada não foi atendida.
— Merde — soltou Durand baixinho, voltando a enfiar o telemóvel no bolso do sobretudo.
— E agora?
— Tenho a chave do apartamento dele.
— Porquê?
— De vez em quando, deixa umas coisas no estúdio para eu as ir lá buscar.
— Parece ser um tipo que confia nos outros.
— Ao contrário do que se costuma pensar — respondeu Durand —, há mesmo honra entre os ladrões.
Voltaram para o prédio de apartamentos e tentaram o intercomunicador uma segunda vez. Como ninguém atendeu, Durand sacou um molho de chaves do bolso e serviu-se de uma para abrir a porta. Utilizou a mesma chave para abrir a porta do apartamento de Morel. Foram recebidos pela escuridão. Durand carregou num interruptor na parede e acendeu a luz, iluminando um grande espaço aberto que funcionava em simultâneo como estúdio e espaço de habitação. Gabriel aproximou-se de um cavalete, que tinha em cima uma cópia inacabada de uma paisagem da autoria de Pierre Bonnard.
— E isto também é para vender aos turistas na Place du Tertre?
— Isso é para mim.
— E é para quê?
— Use a imaginação.
Gabriel examinou o quadro com mais atenção.
— Se tivesse de dar um palpite — atirou —, diria que pretende pendurá-lo no Musée des Beaux-Arts de Nice.
— Tem bom olho.
Gabriel virou costas ao cavalete e foi até à grande mesa de trabalho retangular que se encontrava no meio do estúdio. Tinha uma lona com manchas de tinta a tapá-la. Por baixo, estava um objeto com cerca de dois metros de comprimento e sessenta centímetros de largura.
— O Morel é escultor?
— Não.
— Então o que está debaixo da lona?
— Não sei, mas é melhor ver.
Gabriel levantou a ponta da lona e espreitou lá para dentro.
— E então? — perguntou Durand.
— Lamento dizê-lo, mas vai ter de arranjar outra pessoa para acabar o Bonnard, Maurice.
— Deixe-me vê-lo.
Gabriel puxou a lona para trás.
— Merde — soltou Durand baixinho.